Ecos de Eros - capítulo 15

 





*CAPÍTULO 15*


*1. Ext. Quilombo - Tarde*

*SFX: Instrumental Quilombola* 


A Sacerdotisa está em cima de uma espécie de púlpito, e seu semblante é furioso! Samuel está de mãos atadas, e Kawame está ao seu lado, e abaixo deles, os quilombolas.


SACERDOTISA - O inimigo tentou acabar com nosso povo para roubar nossa terra! Envenenou nossas águas com a ajuda de um dos nossos. Traíra é Samuel! [ela aponta violentamente]


Os quilombolas vaiam e algumas crianças jogam pedrinhas.


SACERDOTISA [falando alto] - É triste para a nossa comunidade, e mais triste ainda para o nosso povo, que um dos nossos tenha sido persuadido pela língua da serpente branca que ronda nossos campos e semeia ódio em tantos corações! Os corrompidos, os de fora, os mortais em espírito!


Umina caminha entre os seus.


SACERDOTISA - Não podemos permitir que eles, mais uma vez, tentem roubar o que não os pertence. Tornar seus os espaços e a paz que é nossa, só porque eles têm mais papel!


Os quilombolas gritam em fúria.


SACERDOTISA - Este papel queima com o fogo, desmancha com a água, é engolido pela terra e levado pelo vento. ELE NÃO PODE CONTRA A NOSSA FORÇA, O NOSSO SER, NOSSA ANCESTRALIDADE!


Eles gritam com mais fervor!


SACERDOTISA [bradando] - VAMOS MOSTRAR A ELES QUE NÓS TEMOS O PODER QUE ELES NÃO PODEM COMPRAR!


GRITOS


*SFX: Instrumental se intensifica*


Close em Samuel, que respira ofegante, e depois na sacerdotisa, que guarda o fogo em seus olhos.


*2. Ext. Herdade de Eros/Jardins - Tarde*


Denis caminha ao lado de Helena que coleta flores.


Denis passa chutando pedras com as mãos nos bolsos, entediado.


DENIS - Que lugar insuportável.

HELENA - Ora, pare de dizer bobagens. Veja quanta beleza!

DENIS - Isto não me energiza. Quero bares, moças e velocidade! Quero emoção!

HELENA - Que besteira.

DENIS - Vai saber quando estiver maior.

HELENA - Deus queira que não.


Eles caminham mais um pouco, e no portão, conseguem avistar um carro velho se aproximando. Ele estaciona, e de dentro surge o Monsenhor Leoncio.


DENIS [surpreso] - O que o Monsenhor faz aqui?

HELENA [feliz] - Monsenhor! [ela larga as flores e sai correndo]

DENIS - Helena, sua maluca!


Ele vai atrás.


CORTA PARA:


Eles chegam no portão. O Monsenhor exibe um largo sorriso.


MONSENHOR – Olá, meus queridos! Como estão?

HELENA [elétrica] - Estamos contentes de vê-lo aqui, Monsenhor! 

DENIS - Veio visitar minha mãe, Monsenhor?


Ele levanta as sobrancelhas amigavelmente.


MONSENHOR - Sim, e acredito que ela já sabe [ele aponta, e vemos Sônia vindo de longe, sorrindo]


CORTA PARA:


*3. Int. Casarão Sénéchal/Gazebo - Fim de Tarde*


Sônia e Leôncio estão sentados. O Sol se prepara para finalizar o dia, e as luzes são acesas pelos funcionários.


MONSENHOR - E então, Sônia, como tem passado?


SÔNIA - Imagine, Monsenhor… um período de adaptações. Eu estou sendo bem acolhida, mas ainda assim me sinto uma intrusa.


MONSENHOR - Mas isto é seu também.


SÔNIA - Dos meus filhos. Ou melhor, de César e Ariel.


MONSENHOR - Bom, no papel as coisas podem ser assim, mas você sempre será mãe de César. Portanto, ele sempre a terá por perto.


SÔNIA - Não sei, Monsenhor.


MONSENHOR - Não sabe?


SONIA - Não. Não confio em César.


MONSENHOR - Mas ele é seu filho!


SÔNIA - Isso não o torna menos propenso a cometer pecados.


O monsenhor franze o cenho.


MONSENHOR - O que lhe preocupa tanto em César?


Pausa.


*SFX: Instrumental Suspense*


SÔNIA - César é esperto, Monsenhor. E é muito ambicioso.


MONSENHOR - Ora, mas ambição não é algo ruim.


[ela balança a cabeça e sorri]


SÔNIA - Tem razão. Ambicioso, não; César é ganancioso! E isso me preocupa. Ele é obcecado por poder, e não importa em quem tem que pisar para obtê-lo, ele o fará. Nem que para isso tenha que dizimar um povo!


MONSENHOR - De que fala, Sônia? Há algo mais específico a assustando? O que César fez para pensar assim dele?


Sônia o encara.


SÔNIA - Deve saber que há uma comunidade quilombola vivendo em um belo lugar próximo daqui, não é, Monsenhor?


MONSENHOR - Sim, conheço. É o Quilombo de Ginen. Eles vieram de muito longe para cá. Aquela região é… sagrada para eles.


SONIA [curiosa] - Vieram?


MONSENHOR - Sim, sim. De uma terra chamada Ouidah, na África!


SÔNIA - Por qual razão imigraram? 


O monsenhor sorri levemente.


MONSENHOR - Minha filha, não foi imigração; são um povo escravizado. Foram forçados a vir.


Sônia vira o rosto, envergonhada.


MONSENHOR - Eles aprenderam a se virar e se defender. Mesmo que não sejam reconhecidos, ainda assim são uma comunidade forte, e pode ter certeza que não cederão. 


SÔNIA - Essa é minha preocupação, Monsenhor. César não vai descansar enquanto não obtiver o que deseja. E eu não faço ideia do que ele é capaz…


TENSÃO.


CORTA PARA:


*4. Ext. Estradas - Início da Noite*

*SFX: Instrumental Tenso*


Marchando quase silenciosamente, alguns quilombolas carregam tochas que iluminam a estrada levemente escura. Liderando, a sacerdotisa com seu olhar voraz. Ao seu lado, Kawame, e atrás deles, amarrado e humilhado, Samuel. 


O garoto treme e chora.


SAMUEL - Por favor, Sacerdotisa! Me perdoe!


Ela nem vira. Está focada.


Samuel leva uma coronhada e cai. Kawame se vira.


KAWAME - Levante-se, imundo!


SAMUEL [babando-se de chorar] - Kawame, por favor… você me conhece desde que sou pequeno.


KAWAME - E é triste ver o rumo que tomou.


Alguém bate em Samuel com uma vara. Ele se levanta e eles continuam.

…


*5. Int. Casarão Sénéchal/Copa - Noite*


Os funcionários estão pondo a mesa do jantar, e Dolores está supervisionando. É então que Helena e Denis entram. Helena está bem feliz.


DOLORES - Ora, olhem só que menina feliz. Ganhou um pirulito, por acaso?


DENIS - Ela viu o maior ídolo dela lá fora. 


DOLORES - Mas quem?


HELENA - O monsenhor! O monsenhor veio jantar conosco hoje.


DOLORES - Que honra, então! [ela se vira para uma funcionária] Ponha mais um prato.


Foco em Denis, que se distrai levemente com algo vindo de fora. Ele olha pela janela, arqueando a sobrancelha.


A câmera mostra através da janela, ao longe, algumas luzes.


Zoom lento em Denis, que estranha cada vez mais.


DOLORES [estalando os dedos] - O que perdeu do lado de fora?


DENIS [saindo do transe] - Perdão, minha avó. Só notei algo estranho. Deve ser coisa da minha cabeça.


DOLORES - Vá banhar-se. Logo o jantar será servido e quero todos à mesa. Onde está sua mãe.


HELENA - Está com o monsenhor lá fora. Logo eles vêm.


DOLORES - Tudo bem. Vão.


Os dois saem. Pausa. Dolores vê pela janela, mas não nota nada. Ela dá de ombros e sai.


*6. Ext. Casarão Sénéchal/Gazebo - Noite*


Sônia se levanta.


SÔNIA - Acho melhor entrarmos, senhor. O jantar já deve estar sendo servido.


MONSENHOR - Ah, não quero incomodar.


SÔNIA - De modo algum. Por favor, eu insisto.


MONSENHOR - Bem, um bom prato de comida não se recusa.


Eles sorriem e saem.


*7. Int. Casarão Sénéchal/Copa - Noite*


Todos estão reunidos ao redor da mesa de jantar, e Sônia chega com o monsenhor.


DOLORES [contente] - Oh, Monsenhor! Sente-se, sente-se.


CATARINA - Helena nos contou, com muito entusiasmo, que havia chegado. 


MONSENHOR - Ah, fico feliz [ele se junta à mesa]


CÉSAR - Olá, Monsenhor. Veio nos dar a bênção?


MONSENHOR [olha para Sônia, depois para César] - Darei a bênção à este jantar. 


Sônia se senta e todos dão as mãos.


MONSENHOR - Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita Vossa vontade, assim na Terra como no céu. O alimento nosso de cada dia nos traz hoje. Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal. Amém!


*SFX: Um grande estrondo é ouvido do lado de fora.*


Todos se assustam e levantam-se.


ALEXANDRE [com medo] - O que foi isto?


Helena corre para abraçar a mãe.


*SFX: Mais um estrondo muito forte!*


DOLORES - Vem do portão principal! 


CÉSAR - Onde está o porteiro?


Ele corre para ver pela janela, mas não enxerga nada.


CÉSAR [nervoso] - Minha nossa, porque estas lamparinas são tão fracas?


*SFX: O estrondo agora é de algo sendo derrubado e gritos estridentes*


Todos tapam os ouvidos.


O nervosismo começa a tomar conta.


*SFX: Instrumental Tenso*


César sai para ir ver


SÔNIA - César!


Ela corre atrás, e os outros correm também. Com exceção de Helena, Catarina e Alexandre.


*8. Ext. Casarão Sénéchal/Entrada Principal - Noite*


César, Sônia e os outros correm para ver. Alguns seguranças armados aparecem para protegê-los.


A ameaça é velada pelas sombras, mas é possível ouvir um chocalho como o de uma cascavel dançando no escuro. E aos poucos vai se revelando um rapaz, e em seu pescoço, uma faca. 


Close no rosto de cada um. Até que César reconhece o rapaz.


CÉSAR [sussurrando] - Samuel…


Samuel é jogado de joelhos, e Kawame aparece logo em seguida.


*SFX: Instrumental Quilombola Tenso*


A Sacerdotisa se mostra, e agora está frente a frente com os Sénéchal.


SACERDOTISA [séria] - Olá.


IMPACTO.