Ecos de Eros - capítulo 14
*CAPÍTULO 14*
*1. Int. Casarão Sénéchal/Sala de Estar - Dia*
Dolores está sentada numa poltrona lendo um livro ao lado de Catarina.
*SFX: Batidas à porta*
Uma funcionária vai até a porta e a abre. Alguns segundos depois, ela volta, indo direto para Dolores.
FUNCIONÁRIA - O porteiro informou que há alguém no portão leste, senhora. É um homem de cor, e ele perguntava por César.
Catarina olha para a mãe, apreensiva. Dolores estreita os olhos e se levanta.
DOLORES - Eu mesma irei.
CATARINA [igualmente levantando-se] - Minha mãe, por favor!
DOLORES - Cale a boca, Catarina.
A mais velha sai.
CORTA PARA:
*2. Ext. Herdade de Eros/Portão Leste - Dia*
Dolores vem ao longe com dois seguranças e Catarina atrás.
No portão, Samuel.
DOLORES - Quem é você, e o que deseja?
SAMUEL [nervoso] - Precisa falar com César Sénéchal, senhora.
DOLORES - Qual seria o assunto?
SAMUEL - É profissional, senhora.
CATARINA - Qual o seu nome, meu rapaz?
SAMUEL - Me chamo Samuel, senhora.
CATARINA - Parece ansioso. O que houve?
SAMUEL - Apenas alguns probleminhas.
DOLORES - “Probleminhas” você mesmo resolve. Agora dê meia volta e saia daqui.
CATARINA - Você é quilombola, jovem?
SAMUEL - Sou sim, senhora.
CATARINA [sussurrando para a mãe] - Deixe ele entrar.
DOLORES - Enlouqueceu? Olhe para o garoto: parece até que bateu a cabeça contra a parede e veio aqui pedir esmolas.
CATARINA - Ele fala muito bem. Acredito que diz a verdade.
DOLORES - Catarina… achar não é ter certeza! Achar é perigoso. E este seu critério é um tanto vago, não acha?
CATARINA - Então chame o próprio César para vê-lo.
DOLORES - Isto está estranho.
CATARINA - Por favor, mamãe. Olhe para o pobre rapaz.
Close no menino.
CATARINA - Eu sei que ele diz a verdade.
Dolores reflete por uns segundos…
DOLORES - Chamem César.
CORTA PARA:
*Continuação…*
*3. Ext. Herdade de Eros/Portão Leste - Dia*
César vem acompanhado de mais dois homens.
CÉSAR - Ah, sim… Olá, rapaz! Queria falar comigo? [se vira para a tia e avó] Está tudo bem.
César vai até o portão, que é aberto. Ele puxa Samuel para um canto.
CÉSAR [disfarçando] - Está maluco? Como me descobriu, e o que pensa que está fazendo aqui?
SAMUEL - Eu… eu… eu derramei todo o conteúdo no poço.
César não esboça reação.
CÉSAR - Você é um idiota, sabia?
SAMUEL - As pessoas estão morrendo.
CÉSAR - São as consequências de sua incompetência.
César sorri para tentar disfarçar. Dolores e Catarina o analisam.
CÉSAR - Sinto muito pelas pequenas perdas, mas tudo tem um preço.
SAMUEL [ficando furioso] - Eu não irei mais participar desta doença.
CÉSAR - Não há nada de doença, apenas necessidade.
SAMUEL - Uma necessidade obscura.
Samuel se afasta de César.
CÉSAR - Tolo.
SAMUEL - Você é uma pessoa horrível.
CÉSAR - Eu sou uma pessoa incrível. E você é uma pessoa triste, que não tem nada e nem ninguém. Acha mesmo que irão perdoar você?
SAMUEL - Eu não me importo com as consequências da verdade.
CÉSAR - Diz isso agora, Samuel, mas sabe que não é verdade [debocha].
Samuel o olha com raiva e depois dá meia volta, indo em direção à estrada.
CÉSAR - Idiota.
O homem retorna para dentro.
DOLORES - O que ele queria?
CÉSAR - Encher a minha paciência, vovó.
CATARINA - Eu fiquei preocupada com o estado dele.
CÉSAR - Nem vou lhe dizer porque ele está naquele estado.
Catarina franze o cenho.
CÉSAR - Vamos?
Eles saem.
*4. Int. Quilombo/Assembléia - Dia*
Samuel entra na tenda tremendo e olhando para os lados, onde alguns “guardas” seguram lanças. A Sacerdotisa está em sua frente, séria.
SACERDOTISA - Olá, Samuel. Deseja algo?
Samuel levanta a cabeça e olha diretamente para a mambo, que ergue uma das sobrancelhas.
SAMUEL - Estou preocupado, Sacerdotisa. Todos estão ficando desidratados e famintos, pois não têm mais água para cozinhar.
SACERDOTISA - É bom que esteja se sentindo preocupado. Seria melhor ainda se estivesse se sentindo culpado.
Samuel recua e engole em seco.
SAMUEL - Do que está falando?
SACERDOTISA - Ah, não sou eu quem está falando.
Samuel morde os lábios, ansioso [sem exagero].
SACERDOTISA [chamando] - Umina!
SAMUEL - Sacerdotisa, por favor…
SACERDOTISA - Cale-se.
Umina surge das sombras com um olhar culpado, mãos cruzadas sobre o peito.
UMINA - “Tô” aqui.
SACERDOTISA - Nos conte o que viu, Umina.
UMINA - Eu vi… vi o Samuel no poço. Ele foi a última pessoa que visitou o poço antes do dia em que todo mundo ficou doente.
SACERDOTISA - Você está envolvido no envenenamento de nossa terra, de nossas águas?
Ela o encara profundamente.
SAMUEL [levemente alterado e tentando manter a postura] - Não, não! Umina, por favor, você se confundiu. Estava apenas buscando água para minhas jarras.
UMINA - “Descupa”, Samuel, mas “cê” ficou até nervoso quando me viu.
SAMUEL [andando até ela] - Não, Umina, não! [os homens baixam lanças para que ele não prossiga] Tem que acreditar em mim. Vocês têm que acreditar em mim.
SACERDOTISA - Mas ninguém está duvidando ou acusando-o de nada. Umina viu você diante do poço, achou suspeito e nos informou. Agora queremos saber se você teve ou não algum envolvimento com o envenenamento de nossa terra.
SAMUEL - Não tive, Sacerdotisa, não tive.
SACERDOTISA - Então não terá problema algum em se pôr diante do Bicho Falador, estou certa, Samuel?
*SFX: Instrumental Quilombola Tenso*
Samuel treme.
SAMUEL - Não há razão para isso, Sacerdotisa.
SACERDOTISA - Porque diz isso?
SAMUEL - Precisa acreditar em minha palavra, senhora.
SACERDOTISA - Eu acredito na voz do mestre, Samuel. Ele quem nos guiou até aqui com sua divina sabedoria.
SAMUEL [ajoelhando-se] - Por favor, minha senhora, por favor! Tudo, menos isto.
SACERDOTISA [objetiva] - Confesse, então.
SAMUEL - Mas senhora, não há nada para confessar.
Umina faz cara de choro.
SACERDOTISA - Levem-no.
SAMUEL [gritando] - Não, não! Por favor, minha senhora. Eu conto, eu conto!
SACERDOTISA - Sabe o peso da verdade, Samuel.
SAMUEL – Eu prefiro o peso da verdade ao Bicho Falador.
UMINA - Samuel…
SAMUEL [virando-se, irritado] - Calada! Eu falo agora.
A Sacerdotisa ergue as sobrancelhas e o encara nos olhos.
Close em Samuel.
*5. Int. Casarão Sénéchal/Pátio - Tarde*
Catarina está bebericando um chá enquanto admira a luz que se derrama sobre as pálidas camélias. É então que Ariel se aproxima por trás.
ARIEL - Chegou um telegrama. O papai já está em Berlim.
CATARINA [virando-se depressa] - Porque abriu o telegrama? Deveria tê-lo dado à César, Ariel!
ARIEL [desdenhando] - Ora, mamãe, não seja tão certinha. César não está nem aí para o papai, e ele é meu pai e seu marido; quem deve receber as suas correspondências somos nós.
CATARINA - Ariel, era para você estar recebendo estas correspondências, mas não quis. Agora dê isto a César!
Ariel se aproxima mais da mãe e senta-se na cadeira.
ARIEL - Sabe que uma coisa não se relaciona com a outra.
CATARINA - É o homem da casa quem recebe as correspondências aqui.
ARIEL [indignado] - Homem da casa? Homem da… Ah, está brincando comigo! Minha mãe, vocês deveriam parar de ser tão dependentes. Isso é deprimente! Não se sentem mal com isso?
CATARINA - Como assim?
ARIEL - São prisioneiras! Vivem à mercê de homens que nem sabem se as amam.
CATARINA [levantando-se] - Como diz isso? É um absurdo! Está insinuando que seu pai não me ama?
ARIEL [também levantando-se] - Não foi isso, mas entenda como quiser. Mesmo que seja uma interpretação equivocada.
CATARINA - Nós, sua avó, sua tia, sua prima Helena, Eleanor e eu, devemos respeito e dedicação aos nossos maridos e homens.
ARIEL - É um absurdo que eu esteja lhe dizendo isto, e não você que esteja pensando desta forma.
Ariel balança a cabeça em negação e sai.
Catarina fica parada diante da sua xícara, refletindo.
CORTA, e Sônia está escondida no canto ouvindo a conversa. Ariel passa por ela, mas não a nota
*6. Int. Casarão Sénéchal/Corredores - Tarde*
Ariel está caminhando em silêncio, até que topa com Alexandre.
ARIEL [revirando os olhos] - Era só o que me faltava. Devo haver cometido algum crime para merecer ter sua presença todos os dias.
ALEXANDRE - Crime maior cometi eu, não foi, Ariel? [ele se aproxima] Você nunca teve motivos para me odiar, e o faz sem razão alguma.
Ariel estreita os olhos.
ALEXANDRE - Você tem medo de mim?
ARIEL - Como é? [debochando] Eu? Ter medo de você? Você se acha demais, não é?
ALEXANDRE - Nunca estive perdido. Talvez você sim, esteja, pois nem ao menos sabe explicar os próprios sentimentos. Talvez não os conheça de verdade.
ARIEL [claramente afetado] - Sentimentos? Do que está falando?
Alexandre caminha para trás, impressionado com a reação.
ARIEL - Eu não tenho sentimentos nenhum! Por ninguém. Muito menos por você ou seja lá quem for.
ALEXANDRE - Eu sinto muito.
ARIEL - Sente até demais [Ariel sai, peitando Alexandre] Não fale comigo.
Alexandre fica confuso, olhando para os lados.
*7. Ext. Quilombo - Tarde*
*SFX: Instrumental Quilombola*
A Sacerdotisa está em cima de uma espécie de púlpito, e seu semblante é furioso! Samuel está de mãos atadas, e Kawame está ao seu lado, e abaixo deles, os quilombolas.
SACERDOTISA - O inimigo tentou acabar com nosso povo para roubar nossa terra! Envenenou nossas águas com a ajuda de um dos nossos. Traíra é Samuel! [ela aponta violentamente]
Os quilombolas vaiam e algumas crianças jogam pedrinhas.
SACERDOTISA [falando alto] - É triste para a nossa comunidade, e mais triste ainda para o nosso povo, que um dos nossos tenha sido persuadido pela língua da serpente branca que ronda nossos campos e semeia ódio em tantos corações! Os corrompidos, os de fora, os mortais em espírito!
Umina caminha entre os seus.
SACERDOTISA - Não podemos permitir que eles, mais uma vez, tentem roubar o que não os pertence. Tornar seus os espaços e a paz que é nossa, só porque eles têm mais papel!
Os quilombolas gritam em fúria.
SACERDOTISA - Este papel queima com o fogo, desmancha com a água, é engolido pela terra e levado pelo vento. ELE NÃO PODE CONTRA A NOSSA FORÇA, O NOSSO SER, NOSSA ANCESTRALIDADE!
Eles gritam com mais fervor!
SACERDOTISA [bradando] - VAMOS MOSTRAR A ELES QUE NÓS TEMOS O PODER QUE ELES NÃO PODEM COMPRAR!
GRITOS
*SFX: Instrumental se intensifica*
Close em Samuel, que respira ofegante, e depois na sacerdotisa, que guarda o fogo em seus olhos.
