Ecos de Eros - capítulo 12
*CAPÍTULO 12*
*1. Int. Casarão Sénéchal/Escritório – Tarde*
CÉSAR – Criem um problema. Isolem o fornecimento de água, contaminem o local, desestruturem a pouca estrutura que há naquele lixeiro. Quero pressão na comunidade, motivos para tomar a terra.
Ele anda até o outro lado da sala e se olha no espelho.
CÉSAR - Vamos ver quem vence: a estratégia ou a “magia”. Aquele lugar será meu, nem que eu tenha que enterrar aquela gente.
ENGRAVATADO 2 – Não iremos conseguir sem a ajuda de alguém de lá.
CÉSAR – Então encontrem alguém naquele fim de mundo que tenha o mínimo de ambição.
*2. Ext. Casarão Colonial/Entorno – Tarde*
Denis está novamente andando ao redor do casarão colonial, e percebe Dahlía brincando num balanço. Ele se aproxima.
DENIS – Parece divertido aí.
DAHLÍA – Quem é você?
DENIS – Apenas estou perdido. Pode me ajudar a encontrar a saída?
Ela aponta para uma porteira.
DENIS – Ah, sim. Olhar muito tempo para você acabou me cegando.
DAHLÍA [ri] – Você é bobo.
DENIS – Bobo? Acho que não. Acho que sou maravilhoso.
DAHLÍA – Não para encantar uma moça.
DENIS – Está falando com o maior encantador de moças da região.
DAHLÍA – Acho que seu encanto não falou desta vez.
DENIS - O seu é mais forte.
*SFX: Algum instrumental que remeta à paixão*
DAHLÍA – Não deveria estar aqui.
DENIS – Sinto que exatamente onde eu deveria estar.
Ao longe, ouve-se uma voz feminina violentamente chamando.
VOZ [em off] – DAHLÍA!
DAHLÍA [levanta-se prontamente] – Até logo, garoto.
Ela corre.
DENIS – Espere...
Dahlía não olha para trás, apenas segue.
Denis sai silenciosamente.
*3. Int. Galpão – Tarde*
César está aguardando num galpão, em silêncio. Ele olha o relógio e entorta a boca.
Alguém bate à porta. César sorri maliciosamente, vai até a porta e abre-a. Em sua frente está Samuel, que encara seu brilhante Jaguar vermelho.
CÉSAR – Vejam só, que maravilha. Decidiu se juntar a mim.
SAMUEL [entrando] – Não estou confirmando nada.
CÉSAR – Mas está aqui na minha frente, o que já é bastante coisa.
SAMUEL – Diga logo o que precisa.
CÉSAR – Preciso da sua ajuda para construir algo grande.
César cerca Samuel como um leão rondando sua presa.
CÉSAR – Você me chamou atenção assim que o vi, Samuel. Me julgou com o olhar, mas sabe que é igual a mim.
SAMUEL – Jamais!
CÉSAR – Não seja tolo. Parecer comigo é uma dádiva, e poucos teriam este reconhecimento.
[Pausa]
SAMUEL – Você é inimigo da ancestralidade.
CÉSAR [funga] – Deixe de fora esta conversa de ancestralidade, garoto! A ancestralidade não te trará prosperidade.
Ele continua rondando o rapaz.
CÉSAR – Quer viver no meio do mato para sempre, César? Limitado às mesmas pessoas, à mesma paisagem todo dia?
Samuel encara o vazio.
CÉSAR - Lá fora há um mundo que você somente sonha em explorar. Se continuar preso às tradições, nem ao menos conseguirá sentir o vislumbre sensorial disto.
César põe as mãos nos ombros de Samuel.
CÉSAR – Comigo você pode ter tudo isto, Samuel. Não só papel, como chamam, mas tudo o que ele pode te oferecer. Quer ter um Jaguar como o meu, Samuel?
Samuel fica tímido.
CÉSAR – Venha, venha tocá-lo.
O homem puxa o jovem para fora.
_Continuação..._
*4. Ext. Galpão – Tarde*
César guia Samuel até o esportivo e o menino se encontra encantado, mas tenta esconder.
CÉSAR – Belíssimo, não concorda? [Samuel não responde] Fale, garoto! Não seja tímido!
SAMUEL – Sim, ele é.
CÉSAR [com desprezo] – Acha mesmo que conseguirá um assim morando em um quilombo?
Samuel se vira para César.
CÉSAR [sorrindo] – Quer pilotar?
SAMUEL – O quê?
CÉSAR – Pilote. Sinta a brisa em seu rosto enquanto o sol se põe no horizonte.
SAMUEL – Não, não posso! Não sei fazer isto.
CÉSAR – Então eu dirijo. Venha.
César entra no veículo pulando por cima. Samuel se encontra paralisado.
CÉSAR – Vem logo, menino!
Samuel obedece, totalmente acanhado.
*SFX: Hey! Ba-Ba-Re-Bop – Lionel Hampton toca*
*SFX: bate a porta do carro*
César liga o motor, e sem aviso, acelera.
CORTA PARA:
*5. Ext. Estrada – Fim de tarde*
*SFX: Hey! Ba-Ba-Re-Bop – Lionel Hampton continua*
O Sol se prepara para iluminar por mais alguns momentos antes do crepúsculo. César pisa no acelerador, e o vento forte balança seus cabelos. Samuel sorri como uma criança.
CÉSAR – Está sentindo a liberdade, garoto?
Ele apenas balança a cabeça. César manobra o carro e dirige ainda mais rápido.
CÉSAR – Este trecho é ótimo. Segure-se.
Ele acelera mais. Samuel deixa de sorrir e começa a gargalhar, como quem sente o frio na barriga.
Cenas aéreas dos dois dentro do carro veloz. Samuel levanta as mãos, e o vento forte as carrega para trás.
O motor range.
CORTA PARA:
*SFX: Música em FADE-OUT*
Agora o carro está estacionado na beira da estrada, e César puxa um cigarro para fumar.
CÉSAR – O que achou?
SAMUEL – Eu gostei.
CÉSAR – Gostou? GOSTOU [ele ri]? Diga logo que adorou!
SAMUEL [sorrindo] – Eu adorei.
CÉSAR – Fale mais alto!
SAMUEL [quase gritando] – Eu adorei!
Eles riem.
CÉSAR [mudando o semblante] – Isto é apenas uma amostra, Samuel. Apenas uma amostra.
*SFX: Instrumental Armação*
CÉSAR – Não quer aproveitar esta vida? Sentir mais deste vento, ver mais belos carros como este?
Samuel vira a cara.
CÉSAR – Só depende de você, Samuel. Eu posso lhe ajudar. Basta me dizer sim.
Close no rosto afetado de Samuel.
SAMUEL [decidido] - O que eu tenho que fazer?
O sorriso de César aumenta de forma diabólica.
*6. Int. Casarão Sénéchal – Noite*
*SFX: Os grilos cricrilam inquietos*
Sonia, Catarina e Dolores estão sentadas tomando chá.
CATARINA – Como acha que os meninos estão se sentindo?
SONIA – Com a mudança ou com tudo?
CATARINA – Com tudo, mas ainda mais com a mudança. Quero que se sintam muito bem aqui, entende?
SONIA – Bem, está tudo ligado, de certo modo. Se eles se sentem bem aqui, será mais fácil atravessar o luto. E particularmente, pelo que estou vendo, eles estão explorando bastante. Só não tenho acompanhado muito a Helena.
DOLORES [em tom de repreensão] – Como não? Ela é a mais nova e deve receber mais atenção.
CATARINA – A atenção deve ser distribuída igualmente, minha mãe.
SONIA – Dolores tem razão. Deixá-la muito tempo de lado pode dar a impressão de que foi abandonada em um momento paralisante.
CATARINA – De fato, mas não significa que a atenção para ela deve ser especialmente especial em relação aos outros. Quero dizer, César eu acredito que está se afundando no trabalho para esquecer. Ele e o pai eram bem próximos, afinal. Mas Alexandre, que é mais introspectivo e Denis que é mais explosivo, também devem ter atenção especial.
DOLORES [interrompendo] – César está preparando algo novo, não?
SONIA – Sim, mas não quis me dizer.
DOLORES [achando engraçado] – Mas ele não tem que lhe dizer nada, Sônia. São negócios.
SONIA – Negócios que envolvem desapropriação de terras.
DOLORES – Nada fora do normal.
CATARINA – Que terras serão desapropriadas?
SONIA – Uma área quilombola a alguns quilômetros daqui. Ele pretende construir um novo hotel.
DOLORES – Perfeito! Assim ele poderá administrá-lo e cuidar dos negócios lá mesmo. Pode, ainda, desenvolver a região.
CATARINA – Bom, a mamãe tem razão.
DOLORES – Como sempre.
CATARINA – Maaas...
Dolores revira os olhos.
CATARINA – Expulsar um povo de sua própria terra? Não acha demais?
DOLORES – A terra não é deles.
SONIA – Eles vivem lá.
DOLORES – Apenas isto.
CATARINA – Garotas, eu acho que não cabe a nós decidir.
SONIA – E por qual razão? Se vemos um homem sofrer uma retaliação injusta não deveríamos ajudar?
CATARINA – Somos mulheres.
SONIA – Isso não é uma limitação.
DOLORES – Está falando bobagem.
SONIA – Você acha que é uma limitação? A senhora mesmo teve que assumir um papel de força para comandar uma situação fora de controle.
CATARINA [sorrindo, sem graça] – Vamos parar?
DOLORES – Sim, eu tive. Mas não vejo nada fora de controle no momento.
SONIA – Bem, eu vejo. Mas algumas pessoas só conseguem enxergar o presente mesmo, assim como a senhora está fazendo.
DOLORES – Eu vejo os fatos.
SONIA – E eu os sinto.
CATARINA – Bem, não significa que há uma ou outra errada. As duas tem bons pontos. Não precisam discutir.
DOLORES – Não estamos discutindo.
SONIA – Não mesmo. Bem, estou cansada. Preciso ir.
Ela se levanta educadamente.
DOLORES – Sônia...
Sônia para.
DOLORES – Se me fosse dado o poder de escolha, eu viveria como uma mulher tradicional.
Sônia balança a cabeça devagar e vai embora.
*7. Int. Casarão Sénéchal/Quarto de Denis – Noite*
Denis está deitado, lembrando-se de seu encontro com Dahlía.
Flashback:
_“DAHLÍA [ri] – Você é bobo._
_DENIS – Bobo? Acho que não. Acho que sou maravilhoso._
_DAHLÍA – Não para encantar uma moça._
_DENIS – Está falando com o maior encantador de moças da região._
_DAHLÍA – Acho que seu encanto não falou desta vez._
DENIS - O seu é mais forte.
*_SFX: Algum instrumental que remeta à paixão_*
_DAHLÍA – Não deveria estar aqui._
_DENIS – Sinto que exatamente onde eu deveria estar._
_Ao longe, ouve-se uma voz feminina violentamente chamando._
_VOZ [em off] – DAHLÍA!”_
Fim do Flashback
A câmera desce do alto e vem em direção a Denis, que exibe um bobo sorriso no rosto.
DENIS – Dahlía.
Ele fecha os olhos
CORTA:
Estamos em um pensamento de Denis, e nele, Dahlía dança por entre as árvores. Close em seus olhos claros. De repente, em primeira pessoa, a mão de Denis aparece e segura a mão dela. Eles dançam sem parar.
CORTA:
Denis abre os olhos.
*SFX: Batidas na Porta*
Denis se levanta, assustado.
DENIS – Quem é?
HELENA [voz abafada] – Eu, Helena.
DENIS – Ah, entra.
Ela entra de pijama e vai até a cama do irmão. Ela se senta.
DENIS – O que houve? Não consegue dormir?
HELENA – Ele fica aparecendo para mim assim que eu fecho os olhos.
DENIS – Helena, você tem que se distrair. Não pode ficar lembrando disto o tempo todo, ou ficará melancólica igual o Alexandre.
HELENA – Não, nunca!
DENIS – Então se não quiser passar por um tratamento de choque, é melhor distrair-se com boas coisas.
HELENA – Pare de me falar coisas que nem você acredita.
DENIS – O quê?
HELENA – Você está péssimo. Posso ver em seus olhos.
DENIS – Helena, por favor, não quero falar sobre isso.
HELENA – Viu? Você não está se distraindo, está escapando!
DENIS – Não fale o que não sabe.
HELENA – Eu sei o que eu falo.
Denis a encara por alguns segundos.
DENIS – Vá para o seu quarto, Helena.
HELENA – Estou com medo.
DENIS [cruel] – Então enfrente o medo!
Helena abaixa a cabeça e sai do quarto. Denis se joga na cama.
*8. Int. Casarão Sénéchal/Escritório – Noite*
*SFX: Instrumental Armação*
César está no telefone falando com alguém. O homem está sentado numa grande poltrona, e se encontra de costas para a câmera, que devagar se aproxima do mesmo.
CÉSAR – É, ele aceitou. O escambo pode não ter funcionado para a rainha, mas sempre funciona para o súdito sonhador [PAUSA] Ele agirá hoje mesmo.
Ele se debruça, rindo.
CÉSAR – Ah, Fátima, não irá se arrepender de ter me ajudado.
César vira a cadeira, e agora ele está de frente para a câmera. Seu olhar é sombrio, sua face está obscurecida, e sua risada é cruel.
