Ecos de Eros - capítulo 11

 





*CAPÍTULO 11*

*1. Ext. Herdade de Eros/Portões de Entrada – Tarde*


O sol da tarde ilumina as plantas e flores ao redor do jardim. Todos estão vendo Fernando partir.


FERNANDO – Veja só, todos reunidos. Isso é lindo, não acham?


CATARINA – É como sempre deveria ter sido.


CÉSAR – Meu tio, espero que faça uma boa viagem. Ficarei atento e lhe mandarei quantas cartas e telegramas forem necessários.


FERNANDO – Prefiro cartas detalhadas.


CÉSAR [sorrindo] – Quantas quiser.


SÔNIA – Até mais, Fernando. Faça uma viagem tranquila, e quando chegar mande um telegrama.


FERNANDO – Pode deixar [se vira para César]. Confio em você [se vira para Alexandre e Denis]. Em vocês também, ein? Protejam-nas.


HELENA – Acredite, podemos nos proteger sozinhas.


CÉSAR – Helena está sendo manipulada pelos programas da rádio com o tal feminismo. Pode deixar, tio. Irei cuidar de tudo e de todos.


FERNANDO – E você, Ariel. Espero cartas suas também.


ARIEL – Tudo bem, papai.


Denis sorri, zombando. Ariel o encara com censura.


ALEXANDRE [sussurrando] – Cale a boca, seu maluco.


DENIS – “Papai”.


ARIEL – Pelo menos eu tenho um.


Denis se cala.


ALEXANDRE – Não tem graça, garoto.


Ariel dá de ombros.


*SFX: Instrumental de Despedida*


FERNANDO – Até. Eu volto em um ano.


O motorista abre a porta, e o homem entra no carro. Todos dão tchau, e o carro vai embora...


CÉSAR – Bem, agora quem precisa ir sou eu.


SONIA – Para onde?


CÉSAR – Fazer negócios.


CATARINA – Negócios se fazem na capital, e você está bem longe dela.


CÉSAR – Quem disse? [ele sorri de canto de boca]


De longe, alguns homens aparecem com maletas e ternos.


CÉSAR – Senhoras, se nos dão licença, iremos ao escritório.


Eles ficam encarando enquanto César segue com os homens para dentro.

Dolores olha para Catarina e Sônia.


DOLORES – Eu não disse?


*2. Int. Casarão Sénéchal/Escritório – Dia*


César caminha de um lado para o outro, e os engravatados não tiram os olhos dele.


CÉSAR – A região proposta por mim é valiosíssima. E não só isso; é estratégica! Uma área com um lago natural, exuberância, tranquilidade absoluta... [pausa] e petróleo!


Os homens se entreolham, animados.


ENGRAVATADO 1 – Petróleo?


ENGRAVATADO 2 – De onde tirou esta informação?


CÉSAR [sorrindo, contido] - De quem sabe onde procurar.


*3. Ext. Herdade de Eros/Jardins – Dia*


Alexandre está analisando flores debaixo de uma árvore.


*SFX: os passarinhos cantam docemente, o vento assovia discretamente e as folhas caem*


Ariel vem de longe, como um felino entediado. As mãos no bolso.


ARIEL [chegando perto] – Você gosta de se esconder, não é?


ALEXANDRE – Não estou me escondendo.


ARIEL – É o que parece.


ALEXANDRE – Mas não é o que é. [pausa] O que você quer? Eu estava em paz aqui.


ARIEL – Sua paz não durará muito. Nem da sua mãe ou dos seus irmãos.


ALEXANDRE [debochando] – E quem vai nos tirá-la? Você?


ARIEL – Eu não precisarei. Vocês são tão instáveis que se meterão nas próprias confusões.


ALEXANDRE [levantando-se] – Garoto, alguém já disse que você é muito irritante? Nós nunca fizemos nada para você. Nem mesmo trocamos palavras suficientes para você fazer qualquer juízo de valor.


Ariel caminha até o primo, decidido.


*SFX: Instrumental tenso*


ARIEL – Eu não preciso disto. Eu sinto o fedor de longe!


ALEXANDRE – Meus parabéns.


ARIEL – Você ainda não entendeu como as coisas funcionam por aqui, não é, garoto?


ALEXANDRE – E você ainda não entendeu que eu não tenho medo de você. Está se sentindo tão ameaçado assim?


Ariel desvia o olhar.


ALEXANDRE – Foi o que eu imaginei.


Alexandre sai, empurrando o primo.


*SFX: os ventos ficam mais fortes*


Ariel está parado, e seus cabelos voam com o forte vento.


*4. Ext. Herdade/Estrada – Dia*


Denis sorrateiramente caminha por entre as sebes buscando uma saída do terreno.

Ele vê um muro baixo, e caminha até lá, pulando por cima e saindo da herdade.


Denis anda por um tempo até conseguir vislumbrar, de longe, um casarão colonial a alguns metros de distância, acima de um baixo morro e guardado por uma longa cerca.


O rapaz se esconde atrás de um arbusto.


*SFX: Instrumental de Mistério*


Foco em seus olhos curiosos.


DENIS – Quem é você que se esconde aí?


Na janela aparece uma bela moça. Ela está de roupão, e penteia os cabelos com tranquilidade.

Foco nos olhos do rapaz, e no reflexo deles, Dahlía

Denis se ajeita para ver melhor, mas é surpreendido por alguém. É o motorista.


MOTORISTA – O que está fazendo aí, rapaz?


DENIS [levantando-se] – Apenas... bom, apenas explorando.


MOTORISTA – Não deveria estar aqui. Não é sua propriedade.


DENIS – Bom, mas é que...


Ele se vira, e a janela está fechada.


Denis fica incrédulo.


MOTORISTA – Vamos, me acompanhe.


DENIS [boquiaberto] – Certo, tudo bem. Certo.


A lente dá zoom no misterioso casarão. As cortinas balançam do lado de fora, presas entre as janelas fechadas.


*5. Int. Casarão Sénéchal/Escritório – Tarde*

César e os engravatados se levantam. O homem cumprimenta cada um.


CÉSAR – Obrigado por comparecerem, senhores. Será fabuloso, verão!


Eles vão saindo aos poucos.


ENGRAVATADO 1 – Nos vemos amanhã, então, certo?


CÉSAR – De certo que sim.


ENGRAVATADO 1 – César, meu filho, você tem visão, de fato. Mas não acha que é perigoso tentar qualquer acordo com selvagens? Quer dizer, eles são meio selvagens, este povo negro.


CÉSAR – Se o escambo não funcionar, usamos nosso batalhão.


Eles riem.


ENGRAVATADO 1 – Até logo.


[sai de cena]


CÉSAR – Até logo, até logo. [se dirige a um funcionário] Acompanhe-os até a saída.


César fecha a porta.


CÉSAR – Ah, finalmente o silêncio.


Ele vai até a poltrona atrás da grande mesa e senta-se.


*SFX: batidas à porta*


CÉSAR – Só pode ser brincadeira [pausa] Pode entrar!


Sônia entra pela porta.


CÉSAR – Ah, olá, minha mãe. Aconteceu algo importante?


SÔNIA – Nada demais. Queria conversar com você, apenas.


CÉSAR – Não temos muito o que conversar, mãe.


SÔNIA – Nós temos muito o que conversar!


Ela vai até ele e para com as mãos na mesa. César olha para ela de baixo para cima.


SONIA – O que você está pensando? Que pode agir como dono do lugar?


CÉSAR – Bom, isto aqui também é meu. Eu sou filho de Afonso Sénéchal, que Deus o tenha.


SONIA [estreita os olhos] – Mas não morava aqui. Chegou como convidado, portanto não se comporte deste modo. Você mal esperou seu tio sair e já transformou o lugar em ponto de encontro para negócios esquivos!


CÉSAR – Como é?


SONIA – Eu ouvi a conversa. Desabitar uma terra, mandar embora um povo só para se aproveitar? Acha mesmo que seu pai agiria desta forma?


CÉSAR – Não seja ingênua. Meu pai agiria muito pior, e você foi cúmplice de algumas dessas ações.


SONIA – Do que está falando?


CÉSAR – Nada em específico.


SONIA – Respeite-me, César. Ainda sou sua mãe.


CÉSAR – Claro. Apenas me deixe trabalhar.


Sônia encara César por um segundo e vai até a porta, para e se vira.


SONIA – Pense bem nas suas ações, César.


Ela sai, batendo a porta. O homem revira os olhos.


*6. Ext. Estrada de Terra/Entrada do Quilombo – Dia*


Um carro avança lentamente pela trilha de barro.


_Continuação da cena..._


Eles chegam na entrada, param e descem do carro. César e mais quatro homens se organizam lado a lado. Em sua frente, um homem jovem, porém consumido por rugas os aguarda, silencioso. É Kawame


CÉSAR – Bem... Olá.


Ele estende a mão, mas Kawame ignora e se vira.


KAWAME – Sigam-me.


Kawame começa a andar, e César, ao lado dos outros, o seguem, desconfiados.


Escondidos no canto, Umina e Samuel observam o movimento.


UMINA – Chegaram.


SAMUEL – Os homens que acham que comprarão o mundo com papel.


UMINA [sombria] – Logo sairão daqui com mais do que vieram buscar.


Os olhos de César e Samuel se encontram, e depois se desencontram.


*7. Int. Quilombo/Tendas – Dia*


Os homens são direcionados para uma tenda soturna. Kawame abre-a, e todos entram.


KAWAME – Aguardem.


Algumas velas são acesas, e os engravatados se assustam. Ao redor do lugar, vários homens e mulheres são revelados.


KAWAME – Não precisam ter medo.


CÉSAR – Estamos bem, obrigado.


Mais uma mulher aparece. Em sua cabeça, turbante, e em seu corpo, um longo vestido azul. Em suas mãos, acessórios artesanais. É a Sacerdotisa.


Kawame e os outros fazem uma reverência.


SACERDOTISA – Sejam bem-vindos. Sentem-se.


CÉSAR – No chão?


SACERDOTISA – Sim. Ou fiquem de pé, como preferirem.


CÉSAR – Bom, vamos direto ao assunto: nós...


SACERDOTISA – Eu sei o que querem, e já disse não! Não costumo ceder, e não cederia nem por todo o papel que pudessem me dar.


ENGRAVATADO – Senhora, por favor...


SACERDOTISA – Não me chame de senhora! Sou mais antiga que este título. E não importa o que digam, não irei dar a terra de meu povo nas mãos de homens que não fazem ideia do que significa a comunhão com o ancestral.


CÉSAR – A comunhão com o ancestral não lhe dará o que quer.


SACERDOTISA – Já tenho o que quero e tudo o que preciso.


CÉSAR – Tente entender que estas terras têm valor! Você tem o que precisa, mas pode ter muito mais.


A mulher olha no fundo dos olhos dele e começa a andar lentamente em sua direção. Chega perto, mais perto e mais perto, até que seus rostos se aproximem o suficiente.


SACERDOTISA – Estas terras têm valor, sim. Valor ancestral! Sangue, ossos e espíritos. Seu papel não pode contra isso.


Ela cospe ao lado do pé de César, e os outros recuam.


CÉSAR – Você está sendo insensata.


SACERDOTISA – E você não está percebendo que sua falta de medo está lhe colocando contra forças que não pode entender.


CÉSAR – Isto tudo é bobagem.


SACERDOTISA – Bobagem? [ela abaixa a cabeça e começa a rir, gargalhar] Bobagem!


Os outros começam a rir juntos. Os engravatados começam a temer, e o fogo cresce. César franze o cenho.


CÉSAR – Estamos aqui para um acordo, não para deboches.


SACERDOTISA [para de rir] – Serão inúteis os seus esforços, homem branco.


CÉSAR – Saiba que o homem branco sempre acaba vencendo.


SACERDOTISA – Eu tenho pena de você, César.


*SFX: O nome de César ecoa pelo ambiente assustadoramente*


As narinas de César dilatam. Um vento leve sopra.


ENGRAVATADO – Vamos embora, César.


Os homens puxam-no.


CÉSAR – Não irei desistir. Se não aceitou meu acordo, teremos que partir para a força.


SACERDOTISA [grita] – Suas ameaças não têm força neste lugar!


CÉSAR – Veremos.


ENGRAVATADO – Vamos, César!


César a encara e vai saindo.


CÉSAR – Veremos, Sacerdotisa!


Eles saem, e os quilombolas permanecem em silêncio.


KAWAME – O diabo está nos olhos daquele homem.


SACERDOTISA – O diabo não me assusta, Kawame.


Close no rosto dela.


*8. Int. Palacete/Escritório – Tarde*

*SFX: Instrumental de Suspense*


César esmurra a mesa! A luz do sol atravessa a janela e exibe o rosto furioso do homem


CÉSAR – Que ousadia daquela mulher! Terra sagrada [ele ri alto]? Onde já se viu, acreditar que o vento fala, que o barro sente... O barro irá os afundar, isso sim!


Os engravatados se entreolham.


ENGRAVATADO 1 – Acha que devemos acionar a prefeitura?


CÉSAR – Não, ainda não. Primeiro iremos mostrar que há motivos para uma intervenção. Desestabilizamos.


ENGRAVATADO 2 – Como assim?


CÉSAR – Criem um problema. Isolem o fornecimento de água, contaminem o local, desestruturem a pouca estrutura que há naquele lixeiro. Quero pressão na comunidade, motivos para tomar a terra.


Ele anda até o outro lado da sala e se olha no espelho.


CÉSAR - Vamos ver quem vence: a estratégia ou a “magia”. Aquele lugar será meu, nem que eu tenha que enterrar aquela gente.