Ecos de Eros - capítulo 09




 *CAPÍTULO 9*


*1. Int. Casarão/Sala de Estar – Dia*


CÉSAR [jogando os papéis e se levantando] – Compreende agora o que quero dizer? Se vendermos o casarão, poderemos quitar as dívidas do meu pai e ainda ficar com algum prêmio de consolação.


SÔNIA – Porque ele não me contou?


CÉSAR – Se não fizermos nada, a situação vai piorar ainda mais. E mamãe, por favor, não queira que isto aconteça. Pense em Helena, Alexandre... os seus filhos ficarão na miséria porque você não aceitou que eu resolvesse este problema?


Ele se aproxima dela e segura em seus ombros.


CÉSAR – Deixe que eu cuide disto. Confie em mim. Me permita resolver, como eu sempre fiz.


*SFX: A TENSÃO AUMENTA, O RELÓGIO FAZ TIC TAC*


Sônia leva a mão à cabeça. Zoom em seu rosto aflito, seus cabelos esvoaçando, a respiração pesando, e sua têmpora latejando. Pressão.


*2. Int. Casarão/Sala de Estar – Tarde*


Transição do dia anterior para o dia seguinte.


Alexandre, Helena e Denis estão sentados no sofá diante de César.


CÉSAR – Bem, meus queridos, eu entendo que estão passando por uma situação terrível.


DENIS [interrompendo] – Você não está?


CÉSAR – Não me interrompa, por favor. E sim, também estou. Mas sou mais forte que vocês.


ALEXANDRE – Fale logo o que tem para falar, César.


CÉSAR [irritando-se] – Ótimo. Eu e mamãe tomamos algumas decisões importantes no dia de ontem, e... bem, nós iremos nos mudar.


HELENA – O quê? Não, não, não! Não quero sair daqui.


CÉSAR – Você não tem escolha. Nenhum de vocês. A não ser que queiram virar moradores de rua.


DENIS [colérico] – Porque vamos sair daqui? E para onde vamos?


CÉSAR – Iremos para a herdade de Eros. Dormiremos lá; comeremos lá; viveremos lá.


ALEXANDRE – Mas porquê?


SÔNIA – Há coisas que não precisam saber. Mas este lugar, de todo modo, não nos cabe mais. Viver aqui só trará mais melancolia.


DENIS [levantando-se] – O que não precisamos saber?


CÉSAR [debochado] – Vocês não precisam saber.


DENIS – Mas eu quero! Eu tenho o direito de saber.


CÉSAR – Denis, eu recomendo que mantenha sua compostura e respeito diante de mim. Eu não sou o papai e não passarei a mão na sua cabeça.


DENIS – Pensa que é o rei agora? Que ridículo!


Ele sai, furioso. 


SÔNIA – Denis!


CÉSAR – Ignore.


HELENA – Você nunca será como o meu pai!


A menina sai também, e Alexandre vai atrás.


CÉSAR [para si mesmo] - Bom, terei que os educar muito bem.


Ele sorri cruelmente. Sônia se assusta e sai.


CÉSAR – Todos eles.


*3. Int. Casarão/Sala de Estar – Tarde*

*SFX: Instrumental de Suspense*


César está na cadeira do pai enquanto sua mãe está ao lado, assinando documentos diante do advogado. César olha para o outro homem de canto de olho, que faz o mesmo.


SÔNIA [empurrando os papéis] – Assinados.


ADVOGADO – Perfeito! A partir de agora só terão que se preocupar em encontrar um comprador.


CÉSAR – Ah, não se preocupe. Já está tudo encaminhado.


SÔNIA [surpresa] – Mas já?


CÉSAR [recuando] – É um casarão importante, minha mãe. Não foi muito difícil.


Sônia olha para o lado devagar, como quem procura sentido.


ADVOGADO – Bem, eu já irei. Com licença.


CÉSAR – Eu o acompanho.


Os dois saem, e Sônia olha para a mesa do marido, observando.


*SFX: Tensão*


Ela anda discretamente até a gaveta, e quando vai abrir, César a chama. A mulher se assusta.


SÔNIA – Estou indo.


Ela sai.


*4. Int. Casarão/Sala de Estar – Tarde*


Os dois homens vão na frente. César acompanha o advogado até a porta, e quando a abre, Eleanor está na porta.


CÉSAR – Eleanor? O que está fazendo aqui? Não estava a esperando.


ELEANOR – Não está feliz em me ver, meu amor?


CÉSAR – Não gosto de surpresas, sabe disso. Entre.


A mulher abaixa a cabeça e entra.


CÉSAR [dirigindo-se ao advogado] – Vamos.


Eles saem.


Eleanor vai até Sônia.


ELEANOR – Olá [fala para Sônia], como está?


SÔNIA – Reflexiva.


Ela encara César através da janela. O zoom, como se fosse a visão dela, fecha no homem, que se vira, e olha diretamente nos olhos da mãe. Eles se encaram. Ele sorri, como um demônio, e depois retorna.


FADE-IN, TIME-LAPSE


_Uma semana depois…_


*5. Int. Herdade de Eros/Jardins - Tarde*


Ariel está acompanhando a mãe enquanto ela colhe algumas maçãs. O dia está claro e fresco, evidenciado pelo balançar das folhas e dos cabelos de Ariel.


CATARINA - Segure a cesta para mim, por favor, filho.


Ele levanta e vai.


ARIEL - Há um tempo que não como suas tortas. O que está aprontando? É aniversário de alguém?


CATARINA - Não, meu bem. Seus primos e sua tia virão morar conosco.


Ariel derruba a cesta.


CATARINA - Ariel! As maçãs!


ARIEL - Do que você está falando, mamãe? Eu ouvi mesmo a palavra morar?


CATARINA [se abaixando para juntar as maçãs] - Sim, eu disse isso mesmo.


ARIEL - Você está brincando?


CATARINA - Por qual razão eu faria uma brincadeira assim? Isto nem mesmo é para ser engraçado.


ARIEL - Vovó e o papai estão sabendo?


CATARINA - Mas é claro! 


ARIEL - E porque não me contaram antes? Vocês têm algum problema comigo?


CATARINA [se levantando] - Não é nada disso, meu bem. É só que… bem, iríamos contar.


ARIEL – Quando? Na hora em que eles aparecessem bem na porta? Como vai ser agora? Tudo o que era meu será dividido?


CATARINA - Nada disto é apenas seu. É nosso! Somos família, e devemos nos unir.


ARIEL - Bobice! Na primeira oportunidade, nos matam e ficam com tudo.


CATARINA - Não falem assim novamente!


ARIEL - Eu nunca irei aceitar isto.


CATARINA - Você não tem que aceitar nada. 


Ariel balança a cabeça, irritado.


ARIEL - Vai trazer a tragédia para dentro de nossa casa.


CATARINA - Chega, Ariel.


ARIEL - Com certeza, chega.


Ele sai andando.


*6. Int. Casarão de Adelaide/Sala - Tarde*


Clarêncio e Adelaide estão sentados no sofá. Ela ouve rádio e ele lê um jornal.


CLARÊNCIO - Ora, abaixe isto!


ADELAIDE - Vá ler em outro lugar!


CLARÊNCIO - Aqui é onde eu leio.


ADELAIDE - E aqui é onde eu ouço o rádio.


O homem abaixa o jornal e vai até o rádio, desligando-o.


CLARÊNCIO - Então se eu não leio, você não ouve.


ADELAIDE - Deixe de ser abusado.


Eleanor chega no cômodo.


ELEANOR - O que está havendo?


ADELAIDE - O seu pai está me agredindo.


Ele ergue uma sobrancelha. 


ELEANOR - Parem de bobagem e ouçam atentamente o que tenho a dizer: César e os outros estão vindo morar na herdade! [ela dá pulinhos e sorri] Não é ótimo?


ADELAIDE [incrédula] - Aqui? Aqui perto? O que houve?


CLARÊNCIO - Como eu não soube antes?


ELEANOR - César não quis contar até ter certeza, mas Fernando viajará e precisará de um homem para administrar a herdade. Ele foi escolhido, afinal é da família.


ADELAIDE - Deus… 


ELEANOR - O que houve, mamãe? Não está contente?


ADELAIDE - Claro que estou [sorri forçadamente] Não transpareço?


ELEANOR - É… bom, só queria contar-lhes. Podem voltar às suas questões.


Eleanor sai, e Adelaide faz uma cara feia.


ADELAIDE - Credo, Sônia ficará perto de nós.


CLARÊNCIO - Qual seu problema com Sônia?


ADELAIDE - Ela é sonsa, Clarêncio. 


CLARÊNCIO - Só você acha isto.


ADELAIDE - Não tenho culpa de possuir sensatez. Agora deixe-me ouvir minha novela!


Eles permanecem discutindo.


*7. Ext. Casarão/Entrada – Fim de Tarde*

*SFX: Os pássaros gorjeiam incessantemente, as folhas caem e estalam no chão*


O motorista termina de pôr as malas no carro. Helena entra ao lado de Denis. César se junta a eles.

Formando uma sombra imponente, o casarão. Sônia para diante dele. Alexandre a acompanha.


ALEXANDRE – Sempre achei que este casarão viveria mais que nós.


SÔNIA – E irá. Só não será mais nosso.


ALEXANDRE – Foi tanto tempo aqui, e de repente tudo muda.


SÔNIA – Eu não me agrado da ideia de mudar, mas se for necessário, não irei hesitar. Infelizmente estou tendo que fazer isto agora.


ALEXANDRE – Mãe.


SÔNIA – Diga.


ALEXANDRE – Sonhei com o papai. Ele parecia... desapontado.


SÔNIA – Talvez porque sabia que tudo iria acabar. E veja só, está acabado.


ALEXANDRE – Não acho que está tudo acabado. O que acabou foi uma fase, e agora será outra fase.


*SFX: o motor do carro liga*


ALEXANDRE – Está pronta?


Sônia, séria, acena positivamente com a cabeça, e os dois se viram e seguem em direção ao carro.

A câmera se afasta aos poucos. Os dois entram e o menino bate a porta. Eles partem, e a tela escurece.