Ecos de Eros - capítulo 08




 *CAPÍTULO 8*

*1. Ext. Avenida – Dia*

*SFX: Gnossienne No 1 – Erik Satie*


Vários policiais cercam um carro completamente destruído. A defensa metálica se encontra em frangalhos, e um corpo está abatido no chão. É Afonso.


O sangue escorre escuro pela grama, e Afonso está de bruços com metade do corpo para dentro do carro e outra para fora.


A câmera caminha silenciosa entre os destroços, e as luzes dos giroflex e sirenes banham a cena de vermelho e azul.


O legista se aproxima do corpo e o examina.


LEGISTA [dirigindo-se a um policial] – Curioso.


POLICIAL – O que é curioso?


LEGISTA – O impacto foi frontal, e a morte instantânea. Mas veja [aponta para o rosto] nenhuma contração reflexa, não há, sequer, tensão dos músculos [se vira para o policial novamente]. Este homem não tentou se salvar.


Close nos olhos abertos de Afonso, que exalam tranquilidade enquanto são banhados pelo sangue fresco que desce de sua cabeça lentamente, como uma corrida de caracóis.

...


*2. Ext. Cemitério – Dia*

*SFX: Gnossienne No 1 – Erik Satie*


Todos da família estão reunidos diante do caixão fechado. Catarina, Fernando e Ariel logo atrás. Dolores passa a mão no caixão e expressa desânimo.


A cena corta, e todos estão partindo em silêncio.


*3. Ext. Casarão/Entrada – Dia*

*SFX: A música continua.*


Sônia, César, Denis, Alexandre e Helena chegam de carro na casa. Todos de preto, semblantes taciturnos, com exceção de César, que está apenas sério. Eles se dirigem até dentro da casa sem dizer uma palavra.


*4. Int. Casarão/Sala de Estar – Dia*


ALEXANDRE – Irei para o meu quarto. Se precisarem, me chamem.


HELENA [deprimida] – Irei com você.


Os dois seguem juntos para os quartos.


DENIS [olhando para a mãe e o irmão] – Devo imaginar que os dois têm muito para conversar. Irei sair.


SÔNIA – Fique em casa, por favor.


DENIS – Não estou pronto para absorver todo este clima fúnebre. Até logo.


O garoto sai. E o silêncio reina por um tempo.


CÉSAR – É bom que fiquemos à sós. Eu realmente preciso conversar com a senhora.


SÔNIA [andando devagar] – Não estou com energia para isto.


CÉSAR – Encontre, então. Minha mãe, me ouça: meu pai se foi, mas nós estamos aqui. Presentes. É importante darmos continuidade ao que ele nos deixou. Se nos afundarmos na melancolia, tudo o que colheremos serão dores de cabeça.


SÔNIA – Já estou com dor de cabeça, César.


CÉSAR – Então evite que piore. Vamos vender o casarão e nos mudaremos para a herdade com a titia e a vovó.


Sônia para.


SÔNIA [incrédula] – Como é? [ela inspira] Não podemos deixar nossa casa. Foi aqui que sempre moramos e será aqui que para sempre iremos ficar.


CÉSAR – Não seja teimosa.


SÔNIA – Por qual razão quer ir para a herdade?


CÉSAR – Tio Fernando viajará, e não quer deixar nada nas mãos de titia. Vovó está velha e Ariel é uma criança em mentalidade. Ele precisa de alguém de confiança por lá.


SÔNIA – E porque não vai você sozinho?


César faz uma pausa, anda pelo cômodo e para diante dela.


CÉSAR – Minha mãe, talvez você não saiba, mas pelos negócios, o meu pai gerou dívidas que ainda não terminou de pagar. Adivinha para quem elas ficarão?


Sônia empalidece.


CÉSAR – Exatamente. Para a senhora!


SÔNIA – Não, seu pai nunca teve dívidas.


CÉSAR – O papai não lhe contava tudo, minha mãe. Principalmente erros.


*SFX: Armação*


César, triunfante, vai em direção à uma gaveta. Ele procura por papéis. Sônia permanece imóvel.

Ele encontra, e com rapidez volta até ela com várias papeladas.


CÉSAR – Veja [ele a entrega os papéis]! O papai cometeu o erro de adquirir empréstimos com juros altíssimos no próprio nome para evitar problemas com as empresas. Quando eu fiquei sabendo disto, era tarde demais. Eu tentei negociar, tentei arranjar uma forma de contornar esse caos, mas é mais difícil do que parece, minha mãe.


Sônia olha confusa para os papéis.


SÔNIA – Impossível. Seu pai era um homem dos números, ele jamais faria algo assim.


CÉSAR – Quando se trata de negócios, Sônia, costumamos tomar decisões arriscadas, mas o problema do papai é que ele não sabia a hora de parar.


O homem pega os papéis e mostra a ela outros dados.


CÉSAR – Veja só, olhe que absurdo! Isto foi para a construção do hotel de Minas Gerais. A verba não foi liberada, e mais uma vez ele tentou contornar de forma tola. Não me pediu ajuda, não me comunicou... minha mãe, veja quantas dívidas!


Ele mostra, os papéis caem, Sônia fica cada vez mais branca com tantos números vermelhos.


CÉSAR – Olhe este outro: valor não declarado da obra de Blumenau, em Santa Catarina [ele quase chega a sorrir]! Olhe, está assinado por ele!


SÔNIA – Tire isto da minha frente.


Ela se levanta.


CÉSAR [jogando os papéis e se levantando] – Compreende agora o que quero dizer? Se vendermos o casarão, poderemos quitar as dívidas do meu pai e ainda ficar com algum prêmio de consolação.


SÔNIA – Porque ele não me contou?


CÉSAR – Se não fizermos nada, a situação vai piorar ainda mais. E mamãe, por favor, não queira que isto aconteça. Pense em Helena, Alexandre... os seus filhos ficarão na miséria porque você não aceitou que eu resolvesse este problema?


Ele se aproxima dela e segura em seus ombros.


CÉSAR – Deixe que eu cuide disto. Confie em mim. Me permita resolver, como eu sempre fiz.


*SFX: A TENSÃO AUMENTA, O RELÓGIO FAZ TIC TAC*


Sônia leva a mão à cabeça. Zoom em seu rosto aflito, seus cabelos esvoaçando, a respiração pesando, e sua têmpora latenjando. Pressão.