Ecos de Eros - capítulo 07



 *CAPÍTULO 7*

*1. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


DENIS [desinteressado] – De todo modo, ele jamais perderia um evento que o vangloriasse nem mesmo se estivesse com uma bala alojada em seu crânio.


CATARINA – Denis!


SÔNIA – Denis, por favor.


DENIS – É verdade, não é? Queiram vocês ou não.


César levanta-se da mesa, devagar.


CÉSAR – Com licença.


Ele vai em direção à mesa do buffet, e fica parado diante dela, analítico.


FERNANDO [se aproximando] – Porque tão longe?


CÉSAR [virando-se] – Tio Fernando! Tudo bem?


FERNANDO – De certo modo, sim.


CÉSAR – Aconteceu alguma coisa?


FERNANDO – Um leve problema, mas há de ser resolvido logo.


CÉSAR – Pode compartilhar. Vai que encontramos a solução juntos, não?


FERNANDO – Bem, é que tenho uma determinada missão; é fora do país. Mas sabe que não posso deixar sua tia e avó sozinhas. Tentei pedir ajuda ao Ariel, mas ele não me parece pronto para administrar a herdade.


CÉSAR [atento] – Ora, mas que falta de visão de Ariel. Eu sinto muito, meu tio. Eu certamente não deixaria esta oportunidade passar se fosse ele. Imagina só a honra que seria guiar algo que é da família!


Fernando olha para ele como quem olha para um ponto de luz na escuridão.


CÉSAR – Se quiser, meu tio, posso encontrar alguém que o ajude a cuidar do local.


FERNANDO – Gostaria de alguém de confiança. Não qualquer sujeito. Talvez... talvez alguém como você.


*Sonoplastia: Armação*


CÉSAR – Eu adoraria, meu tio. Seria muito importante para mim e para a família, claro.


FERNANDO – Seria, sim. Sabe, César, sempre te vi como um filho. Com todo respeito ao seu pai.


CÉSAR [falso] – Igualmente. Para mim, você sempre foi como um pai. Veja que homem sortudo: tenho dois pais!


Eles riem. A câmera se afasta.


*2. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


Alexandre está caminhando pelos jardins, até que o monsenhor se aproxima dele com um toque amigável.


LEÔNCIO – Olá, jovem.


ALEXANDRE – Monsenhor! Olá [ele faz reverência e beija as mãos do homem]! O que faz por aqui?


LEÔNCIO – Fui convidado para dar a bênção.


ALEXANDRE – Que ótimo.


LEÔNCIO – Onde está seu pai, meu filho?


ALEXANDRE – Eu o vi saindo mais cedo. Imaginei que estaria aqui, mas não.


LEÔNCIO – Deve haver acontecido algum pequeno imprevisto.


ALEXANDRE – O papai tem nos preocupado muito. Desde que ele recebeu aquela carta...


LEONCIO – Carta?


ALEXANDRE – Bem [ele recua por um momento].... Olha, monsenhor, eu só irei lhe contar pois você é o monsenhor.


LEÔNCIO – Não precisa fazer isto, caso não queira.


ALEXANDRE – Eu queria contar a alguém, mas não tinha ninguém. Bem, há algum tempo atrás, enquanto meu pai informava que seria o anfitrião deste evento, chegou um carteiro e entregou-lhe uma correspondência. Ele a leu e ficou muito estranho. Foi até grosso!


Eles continuam caminhando pelo jardim florido.


ALEXANDRE – Nos dias seguintes chamou pessoas estranhas para casa, isolou-se e ficou muito melancólico. Teve então o dia em que recebemos uma caixa com uma correspondência horrenda: um dedo e terra tão preta quanto carvão. Ele entrou em desespero enquanto clamava por Helena.


Eles param. A câmera foca no rosto desolado de Alexandre e depois no preocupado de Leôncio.


ALEXANDRE – E então houve o assalto.


LEÔNCIO – Assalto?


ALEXANDRE – Ele alega que foi um assalto, mas Helena disse que as balas só foram na direção deles, e que o atirador olhou diretamente para ela.


LEÔNCIO – E por qual razão não foram à polícia?


ALEXANDRE – Ele julgou desnecessário.


LEÔNCIO – Ora, mas estes eventos, um atrás do outro, não podem mesmo ser um bom sinal. Se o seu pai precisa de ajuda, ele não deve ser deixado sozinho.


Alexandre olha para os lados, preocupado. Depois olha para as mãos, culpado.


*3. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


Sonia está sentada à mesa ao lado de Catarina. Elas conversam discretamente. É então que Adelaide chega junto à Clarêncio.


ADELAIDE [exagerada] – Oh, mas que alegria os ver aqui!


Onde está Afonso?


SÔNIA – Há de chegar em breve.


CLARÊNCIO [semblante calmo] – Ora, mas o evento já irá começar.


CATARINA – Não se preocupem. Meu irmão já deve estar chegando.


ADELAIDE [erguendo a sobrancelha] – Seria péssimo para vocês se Afonso não comparecesse. Eu teria tanta vergonha que nem mesmo poria os pés para fora de casa. Não abriria nem mesmo as janelas!


SÔNIA – Obrigado pela opinião, Adelaide. Agora, já que o evento irá começar, seria de bom tom se já estivesse em sua mesa, não acha?


Adelaide apenas se cala, ergue o queixo, sorri e sai, puxando o marido.


ADELAIDE [cochichando] – Que papelão! Se Afonso cometer esta tolice, nunca mais pisaremos na casa dos Sénéchal novamente!


CLARÊNCIO – Afonso é meu amigo, e o conheço bem. Ele jamais perderia um evento de tamanha importância como o que iremos vivenciar aqui [ele para e reflete]. A não ser que algo muito grave tenha acontecido.


*Sonoplastia: Suspense*


ADELAIDE [curiosa] – Grave quanto?


CLARÊNCIO [a encarando, taciturno] – Muito grave.


Eles dois se olham por um tempo. A tensão exala no ar.


*4. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


Denis caminha com as mãos nos bolsos, reflexivo. Ele nota que todos estão o encarando e sussurrando, fofocando. Ele ouve o nome do pai e se envergonha.


DENIS [se dirigindo a mulheres em uma mesa] – O que estão falando, hein [elas ficam acuadas]? Por qual razão sussurram o nome do meu pai?


MULHER – Meu bem, apenas estamos preocupadas. Seu pai é um anfitrião, e não compareceu até agora. Isso é estranho, não acha?


MULHER 2 – Não sabem onde o seu próprio pai está?


DENIS [irritado] – Ele chegará logo.


Elas se entreolham, com desprezo. Denis sai dali e vai em direção à Alexandre, que está próximo a um lago ao lado do monsenhor Leôncio.


DENIS – Alexandre!


ALEXANDRE [virando-se] – Está tudo bem?


DENIS – Você ainda pergunta [ele percebe a presença do monsenhor]? Monsenhor, perdão [o rapaz faz uma reverência]! Estou preocupado. O papai sumiu mesmo.


A câmera foca no rosto de cada um. Seus olhares variam entre ansiedade e preocupação.


*5. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


Sônia arranha uma xícara, nervosa.


CATARINA [percebendo] – Sônia, meu bem, por favor, acalme-se.


SÔNIA – Acalmar-me? Como me pede isto, Catarina? Onde estão Eleanor e César? Onde estão meus filhos? E o meu marido, onde está? Principalmente meu marido! [ela se levanta] Não irei esperar. Vou atrás!


CATARINA [tentando manter a calma] – Sônia, está causando um alvoroço.


Todos estão a olhando. A mulher está claramente com medo. O mestre de cerimônia se aproxima.


MC – Olá, senhora Sénéchal. Saberia me dizer onde está seu marido?


SÔNIA – Eu adoraria poder lhe dar essa informação.


O ambiente começa a ser tomado pelo caos. As pessoas nas mesas ao redor cochicham com força, os anfitriões começam a se levantar, a música toca mais alto.


César, de longe, nota que a mãe está angustiada.


CÉSAR – Mamãe, por favor, sente-se e aguarde.


SÔNIA – Aguardar? Aguardar pelo quê? Pela notícia de que seu pai foi raptado?


Catarina põe as mãos no peito, aflita.


CATARINA – Meu bem, vamos lá para dentro, por favor [se vira para o mestre de cerimônia]. Precisamos levá-la para dentro.


O homem assente, e eles seguem para uma tenda, mas são surpreendidos quando alguns policiais aparecem de surpresa diante deles.


MC – Com licença, mas não podem entrar assim aqui.


POLICIAL – Precisamos falar com César Sénéchal ou outro homem responsável pela família Sénéchal.


SÔNIA – Falem para mim!


CÉSAR [a afastando] – Eu sou César Sénéchal.


POLICIAL – Podemos conversar em outro local para evitar assustar as senhoras.


SÔNIA [estressada] – Ora, falem logo!


Todos estão tensos.


*Sonoplastia: Instrumental de suspense*


POLICIAL – Não é uma notícia fácil. Seu marido, seu pai [falando com César], Afonso Sénéchal, acaba de ser encontrado.


CATARINA – Encontrado onde?


Denis se aproxima ao lado de Alexandre.


POLICIAL – Ele estava na serra. Certamente dirigia em alta velocidade e... Dona Sônia, infelizmente seu marido sofreu um acidente.


Catarina geme.


POLICIAL – Um acidente fatal. Ele está morto.


Close no rosto de Sônia, completamente consumida pela ansiedade. Suas pupilas estão dilatadas, sua boca está entreaberta e é possível ouvir o som de seu coração acelerado. Sônia está colapsada.