Ecos de Eros - capítulo 06

 





*CAPÍTULO 6*


*1. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*

*Sonoplastia: As Time Goes By – Frank Sinatra*


Takes da grama aparada, mesas com toalhas brancas e coquetéis em taças cintilando sob o sol.


Em uma mesa encontram-se Fernando, Dolores, Catarina e Ariel. Catarina segura firme a mão do filho.


CATARINA – Ele há de chegar logo. Não duvido da pontualidade de meu irmão.


FERNANDO – Certamente houve um imprevisto.


No imenso palco, alguns homens encontram-se sentados, e apenas uma cadeira está vazia.


DOLORES [chateada] – Eu não acredito que ele cometerá esta burrice!


CATARINA – Minha mãe, acalme-se. Ainda está longe de começar.


Ariel revira os olhos. De longe, um homem de batina se aproxima. É o monsenhor LEÔNCIO.


MONSENHOR – Olá.


CATARINA [levantando-se] – Monsenhor, que bom o ver.


Ela beija a mão do homem.


FERNANDO [levantando-se] – Fico feliz que compareceu para dar-nos sua bênção.


Ele beija a mão do homem.


MONSENHOR – É sempre um prazer fazer parte de eventos que contribuam para o bem da nossa sociedade. Onde estão os Sénéchal?


CATARINA – Chegarão em breve.


MONSENHOR [virando-se] – Dolores, que bom a ver.


Ariel aproveita a brecha para sair dali. Ele se esgueira pela cadeira enquanto os pais e a avó estão virados e sai andando.


*2. Int. Casarão/Quarto de Alexandre - Dia*

*Sonoplastia: Instrumental Tristeza*


Alexandre está parado diante do espelho, encarando o próprio reflexo. 


*3. Ext. Casarão/Jardins - Dia*


Ordenadamente, Sônia, sua nora e seus filhos saem em direção à dois carros.


DENIS – Onde está o papai?


SONIA – Saiu primeiro. Anfitrião [ela sorri com insegurança].


Alexandre olha para o chão, como se intuísse algo ruim.


ALEXANDRE – Nunca foi de costume do papai sair sem nós. Deve ser um evento como nenhum outro.


César olha para eles de canto de olho. Todos entram nos carros.


CÉSAR - Ora, por favor, o papai está bem. Deixem de demora.


ALEXANDRE - Acho que deveríamos confirmar antes. Não podemos chegar primeiro que ele. Seria desrespeitoso.


SONIA - Infelizmente não há tempo. Sendo assim, devemos confiar que ele já está lá. Se demorarmos mais, chegaremos atrasados, o que será pior.


DENIS - Mamãe tem razão, Alexandre. Eu tenho certeza de que ele está bem.


*SFX: O motorista buzina*


César vai até ele.


CÉSAR - O que está pensando? 


MOTORISTA - Perdão, siô César, mas “tamo” atrasado.


César se vira para os outros.


CÉSAR - Entrem logo no carro!


*SFX: Instrumental de Suspense*


*4. Int. Carro de Clarêncio - Dia*


Diálogo continuado…


ADELAIDE - São um bando de convencidos aquela família!


CLARÊNCIO - É a família do marido da nossa filha.


ADELAIDE - Pode ser de quem for! Isto não os torna menos arrogantes e presunçosos. Argh… ter que vê-los tão bem assim me irrita.


CLARÊNCIO - Não vejo razão para tanto.


ADELAIDE - Claro que não vê! É um bocó. Você quem deveria estar sendo premiado.


CLARÊNCIO - Esta premiação é para Afonso, pois ele merece e tem tudo a ver com seus empreendimentos. Eu já tenho os meus prêmios.


ADELAIDE - Nunca foi anfitrião!


CLARÊNCIO [entortando a boca] - Me erre, Adelaide, me erre.


ADELAIDE - Ora, me erre… 


Ela cruza os braços, chateada.


ADELAIDE - Não entendo, não entendo mesmo. A família deles é toda disfuncional, e parece que ninguém nota. Aquele Denis é um atrevido, Alexandre é um estranho, Helena é uma menina oblíqua e dissimulada e Sônia… meu Deus, é uma pateta!


Clarêncio desvia de um cachorro na rua e Adelaide grita.


ADELAIDE [batendo no marido] - Está tentando nos matar? Ou pior, está tentando me deixar feia para o evento?


Clarêncio revira os olhos.


Adelaide permanece reclamando em off.


*5. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


Ariel, num canto afastado, segura um cigarro na mão. Ao lado dele, Felipe e duas garotas. Eles estão sentados num muro baixo, e acima de suas cabeças, um salgueiro os esconde.


FELIPE – Me passe isto [aponta para o cigarro].


Ariel atende.


*Sonoplastia: ao fundo, a orquestra soa distante*


FELIPE – É incrivelmente estressante, não é mesmo? Quer dizer, de repente o mundo poderia silenciar por um minuto para podermos apreciar o barulho de nossa própria mente.


ARIEL [encarando os jardins] – Ouvir o barulho dos próprios pensamentos pode ser mais perigoso do que o que imergir no caos externo.


FELIPE – Ah, é mesmo? Então o que está fazendo aqui, apartado do caos?


ARIEL [virando-se para Felipe] – Quem disse que aqui há menos caos que lá?


UMA DAS GAROTAS – Está supondo que somos caóticos?


ARIEL – Quase uma afirmação.


*6. Ext. Jardins do Palácio Governamental – Dia*


A família Sénéchal chega. A música é animada. Sônia de braços dados à César de um lado e Eleanor mais atrás com os filhos da mulher.


RECEPCIONISTA – Família Sénéchal?


CÉSAR – Somos nós.


RECEPCIONISTA – Por aqui.


Ele os orienta por entre as mesas.


Sônia observa que o lugar de Afonso está vazio.


SONIA [franzindo a testa] – Afonso não está ali.


CÉSAR – Deve estar nos bastidores, minha mãe. Sabe como ele adora deixar tudo bem alinhado.


Sonia expressa temor. Eles sentam, e Catarina se aproxima com Dolores ao lado.


CATARINA – Olá!


Todos se cumprimentam cordialmente.


DOLORES [sobrancelha erguida] – Onde está Afonso?


ALEXANDRE – Eu notei que ele saiu antes. Imaginei que estaria aqui, mas como podem notar...


CATARINA – Certeza que está resolvendo algo de última hora.


CÉSAR – Deve ser exatamente isto.


ELEANOR – Acalmem-se. Afonso jamais cometeria o deslize de atrasar-se para um evento tão aguardado por ele próprio.


SÔNIA [arranhando a mesa, discreta] – Eu não sei. Ele andou tão estranho nos últimos dias.


DENIS [desinteressado] – De todo modo, ele jamais perderia um evento que o vangloriasse nem mesmo se estivesse com uma bala alojada em seu crânio.


CATARINA – Denis!


SÔNIA – Denis, por favor.


DENIS – É verdade, não é? Queiram vocês ou não.


*Sonoplastia: Instrumental tenso*


A câmera passeia pelo rosto de cada um, mostrando a preocupação esboçada em alguns rostos, como os de Catarina e Alexandre, o descontentamento no rosto de Dolores, a inércia no rosto de César e a ansiedade no rosto de Sônia. O medo é sentido, a intuição está apurada, e ela olha para a câmera. A tela escurece.