Ecos de Eros - capítulo 05




 *CAPÍTULO 5*

*1. Int. Casarão/Escritório de Afonso - Noite*


CÉSAR – Apesar disso, sempre há uma saída. Às vezes, meu pai [sorri], tudo o que se espera de um homem é que ele saiba quando deve sacrificar-se.


Alguém bate à porta, e sem esperar permissão, entra. É Helena.


HELENA – Olá, papai.


Afonso sorri, bobo, e estende os braços para receber um abraço da filha.


AFONSO – Meu bem, meu bem mais precioso.


César revira os olhos.


CÉSAR – Helena, você interrompeu uma conversa.


AFONSO [lento] – Não há nada para falarmos, César.


César semicerra os olhos e sai, indignado, topando com Sônia do lado de fora, que sorri frouxamente.


CÉSAR – Foi você, não foi [Sônia expressa confusão]? Ótimo.


Sônia se aproxima, e vê Afonso acariciando a cabeça da filha, sorrindo, aparentemente feliz.


HELENA – Meu pai, quer ir comigo à praça amanhã para darmos um passeio? Nunca mais fizemos isto.


O sorriso desmancha aos poucos.


AFONSO – Lá fora? [O sorriso tremula] – Claro, claro. Eu irei adorar.


HELENA – Eba!


Afonso vê Sônia apoiada no batente. Em seu rosto, um misto de tranquilidade e preocupação.


[Fade-out]


*2. Ext. Parque – Dia*


[Fade-in]


Afonso e Helena estão lado a lado. Ela saboreia um sorvete, e ele, com os olhos atentos, procura perigo ao redor de si.


HELENA – Papai, posso subir naquela árvore?


AFONSO – Agora não, minha flor. Fique perto de mim.


Como na visão do homem, a câmera captura os detalhes ao redor dos dois: um velho lendo jornal, um cachorro correndo atrás de um galho, crianças brincando de pega-pega.


*Sonoplastia: Clima tenso*


HELENA [notando o nervosismo] – Está tudo bem, papai?


AFONSO – Está tudo ótimo, meu bem.


A lente está trêmula. Afonso vira o rosto e leva um susto ao notar, no alto de um prédio, um homem de preto com vestes agressivas. O mercenário! Em uma de suas mãos falta um dedo, mas ele ainda é capaz de manejar seu rifle.


AFONSO – Abaixe!


BANG! Gritos e desespero entre os passantes.


HELENA – PAI!


Eles escondem-se atrás de uma árvore. Mais tiros!

Uma mulher é atingida.

Afonso está desesperado. Mais um tiro! Helena tampa os ouvidos e grita.


AFONSO – Calma, meu bem, calma! [Ele a abraça muito forte, e os tiros cessam]


*3. Int. Casarão/Sala de Estar – Dia*


Os funcionários tentam acalmar Helena. Sônia está assustadíssima, Denis e Alexandre tentam entender o acontecido, e Eleanor está ao lado de César, segurando seu braço.


SÔNIA [levando um copo à filha] – Meu bem, meu benzinho. Ah, glórias sejam dadas à Deus por nada ter lhes acontecido.


Afonso senta no sofá, desabotoando o colarinho. Ele sua.


SÔNIA – Me sinto completamente culpada.


AFONSO – Não foi culpa sua, meu amor, foi apenas um assalto.


CÉSAR – Ora, mas a ideia foi dela, não?


Todos o encaram. Ele dá de ombros.


DENIS – Cale a boca!


AFONSO [deprimido] – Por favor, não precisamos de mais confusão [ele se levanta]. Irei para o meu escritório.


Ele sai. César o segue até certo ponto.


CÉSAR [sussurrando] – Você defendeu a mamãe porque sabe que a culpa é sua. No fundo sabe que está colocado sua família em perigo. Você está acabando não apenas com sua vida, mas com a vida das pessoas que diz amar. Parabéns, Afonso.


César sai. Afonso fica parado.


*Sonoplastia: Instrumental de tristeza profunda*

Ele reflete, derrama lágrimas, tenta esconder com as mãos e segue para o escritório.


*4. Int. Casarão/Escritório de Afonso – Dia*


O homem entra em seu escritório totalmente abatido. Ele olha ao redor, como se estivesse perdido, em seguida vai até a janela e fecha as cortinas. O escritório entra numa imensa escuridão.


Afonso liga a lareira, e para diante dela. O fogo reflete em seus olhos, e as palavras de César ecoam em off:


_CÉSAR: (...) no fundo sabe que está colocado sua família em perigo. (...) tudo o que se espera de um homem é que ele saiba quando deve sacrificar-se._


Zoom lento do rosto de Afonso, enquanto o instrumental ascende, tornando a tristeza a única presença aterradora no cenário.


Passagem de tempo...


O céu muda, os ventos se tornam mais fortes, a chuva agride as janelas com força. Takes de Sônia observando o isolamento de Afonso, a família almoçando e jantando com a ausência do patriarca... César arquitetando ideias, Denis jogando sinuca...


Chega, então, o dia do evento.


*5. Int. Casarão/Quarto do Casal – Manhã*


Afonso está sentado em sua cama, inerte. Ele encara um ponto fixo. Ouve-se passos e ruídos no andar de baixo.


O homem está tonto, sua visão enerva. Ele tenta levantar-se, mas cambaleia, apoiando-se no criado-mudo.

Afonso ignora seu estado e sai do quarto.


*6. Int. Casarão/Sala de Estar – Manhã*


A sala está cheia. Funcionários correndo para colocar o vestido de Eleanor. Helena tentando encaixar sua tiara. Roupas e mais roupas pelo sofá e poltronas.


Sônia está no canto, as mãos no peito e encarando o relógio.


SONIA – Será que o Afonso demorará muito?


O homem aparece no canto da escada. Seu olhar é penetrante, e ele tenta sorrir.


SONIA – Meu amor! Está tudo bem?


AFONSO – Maravilhosamente bem. Inclusive, preciso partir, pois sou o anfitrião.


Ele sorri. Sonia o segura pelo braço.


SONIA – Tem certeza?


AFONSO – Absoluta, meu bem [ele a beija]. Até.


Afonso sai. Eleanor se aproxima.


ELEANOR – Ele pode estar nervoso, apenas isso. Não há razão para nos preocuparmos.


SONIA – Há 2 semanas atrás ele e minha filha quase foram baleados. E se quer saber de mim, não acredito que tenha sido coincidência.


Sônia olha no fundo dos olhos de Eleanor, que pisca e olha para a porta, refletindo.


*EXT. CASARÃO/JARDINS – DIA*


Afonso entra no carro, respira fundo e ajeita o espelho. Seus olhos marejam, e ele liga o veículo.


*INT. CASARÃO/QUARTO DE ALEXANDRE – DIA*


Alexandre está diante do espelho, penteando seu cabelo, até que ouve o carro engatar marcha, e corre para ver.


ALEXANDRE – Vão me deixar?


A lente, numa visão em primeira pessoa filma Afonso saindo sozinho.


ALEXANDRE [confuso e sussurrando] – Ué?


Close no rosto de Alexandre. FADE-OUT