Ecos de Eros - capítulo 04

 





*CAPÍTULO 4*

*1. Ext. Rua - Manhã*


Uma gralha preta grasna incessantemente sob a luz opaca da manhã.

O céu está nublado. O silêncio, estranho.

Mau agouro.


*2. Int. Casarão/Copa - Dia*


A mesa está posta. Café, sucos, geleias e pães. Uma manhã tranquila, mas o silêncio é tenso.

Afonso leva o pão à boca e sorri sem jeito para Alexandre e César.

Sônia encara o vazio, arranhando a xícara diante de si.


AFONSO [tentando quebrar o clima] — E Eleanor, Helena? Onde estão?


ALEXANDRE — Já saíram; foram à casa de Adelaide. Denis deve estar dormindo.


Afonso balança a cabeça em conformidade. 

De repente, TOC, TOC!


AFONSO [levantando-se rapidamente] — Deve ser o carteiro apenas.


SÔNIA [suspeita] — Deixe que Maria atenda, então.


AFONSO — Não. [ele sai, e Sônia se levanta para segui-lo, mas César segura seu braço]


CÉSAR — Deixe que ele vá.


SÔNIA [puxando o braço] — Não. [ela sai]


*3. Int. Casarão/Salão Principal - Dia*


Afonso recebe um estranho dentro de casa. Ele é mal encarado e usa vestes agressivas.


SÔNIA [se aproximando] — Quem é este homem, Afonso?


HOMEM [frio] — É assim que sua mulher o trata na frente das visitas?


AFONSO [calmo] — O que está pensando, Sônia? Desde quando se intromete em meus negócios?


SÔNIA — Que tipo de negócios esquivos são estes? [aponta para as vestes do homem]


César chega e tenta puxar Sônia, que está se alterando, e olha fundo nos olhos do estranho homem.

Afonso direciona o homem pelo corredor.


SÔNIA [contida, mas falando mais alto que o normal] — Porque está nos escondendo algo, Afonso? Porque está me escondendo algo?


Afonso ignora e entra no escritório com o convidado.

Sônia funga profundamente e sai. Alexandre aparece.


ALEXANDRE — Que está acontecendo?


CÉSAR — Nada do seu interesse, seu pateta! [ele sai]


Alexandre franze o cenho, confuso.


*4. Int. Herdade de Eros/Jardins - Dia*


Ariel está sentado em um muro ao lado de seu amigo, Théo, bem mais novo que ele.


THÉO — Não sei por qual razão está reclamando. Literalmente terá estes campos para si.


ARIEL — Você é mesmo um pateta, não é? Não sabe o que a palavra responsabilidade representa.


THÉO — E o que ela representa seu sabe-tudo?


ARIEL — Prisão. E eu não nasci para ser aprisionado em obrigações.


THÉO — Minha mãe diz que temos direitos e… [interrompido]


ARIEL — Quantos anos você tem, oito?


THÉO — Dez.


Ariel revira os olhos e vira-se de costas para o garoto.


ARIEL — Você não sabe de nada mesmo.


*5. Int. Casarão/Cozinha - Dia*


Alexandre está apoiado na ilha encarando o vazio. Denis chega de pijama em direção à geladeira, abrindo-a e buscando vorazmente por comida.


DENIS — Porque tiraram a mesa, eu ainda não me alimentei!


ALEXANDRE — Talvez fosse melhor não acordar 10 minutos antes do almoço.


*Sonoplastia: sons de porta se abrindo*


Murmúrios são ouvidos de longe. Afonso e o estranho homem cochicham. Silêncio. Alguns segundos depois, Afonso aparece na cozinha.


AFONSO — Ah! Vocês aqui? 


DENIS — Estou em busca de alimento.


AFONSO — O almoço está posto, acredito.


DENIS [analisando o ambiente] — Onde estão todos?


ALEXANDRE — Dispersos. Talvez foram embora devido a presença negativa convidada amigavelmente pelo nosso pai hoje. Ele e a mamãe até discutiram.


DENIS — Você e a mamãe brigaram? [pausa] Quem era este homem?


AFONSO — Isto não é do interesse de vocês!


DENIS [alterando-se] — E toda aquela conversinha no dia de ontem? 


AFONSO — Você fale direito comigo, seu garoto insolente!


DENIS — Se estou sendo insolente, você está sendo um mentiroso, o que é pior!


AFONSO [quase gritando] — Já chega! Não irei tolerar que se refira a mim desta forma. Você já me chateou o suficiente por muito tempo, Denis. Eu aguentei as suas peripécias e tolices por 22 anos, e se eu não der um basta nisto, continuarei a ser inundado de reclamações por conta de seu comportamento imbecil! A próxima burrice que você cometer não terá perdão: será mandado embora desta casa!


O homem funga e sai.


ALEXANDRE — Você também não ajuda.


DENIS [chateado] — Você que começou.


ALEXANDRE — Mas precisava falar igual um idiota?


DENIS [se aproximando do irmão] — Sabe quem é o maior idiota aqui? [pausa] Você! O papai e o César estavam conversando outro dia sobre como você é um inútil, um incompetente!


[Alexandre desvia o olhar] 


DENIS — Pois é. Comentaram sobre como você vive como um artista sem rumo, largado às traças, quase mofando de tanto que vive enclausurado naquele seu quarto imundo coberto por teias. Ele sente vergonha de você, trata a mamãe mal e você ainda quer que ele seja bem tratado? [ele ri, cruel] Pois é, o maior idiota aqui é você.


Denis sai irritado, e os olhos de Alexandre inundam de lágrimas.


PASSAGEM DE TEMPO… 2 DIAS DEPOIS


*6. Int. Casarão/Escritório de Afonso - Dia*


Afonso está diante da janela, apreensivo. Seus olhos movem de um lado ao outro, capturando cada movimento. 


César entra de supetão no escritório, e o homem vira-se sobressaltado.


AFONSO — Meu Deus, bata antes de entrar!


CÉSAR — Meu pai, por favor, me conte o que está acontecendo. 


AFONSO — Porque todos estão desconfiando de mim? Não conseguem perceber que está tudo bem?


CÉSAR [avançando e cochichando] — Se estivesse tudo bem mesmo, você não haveria de ter contratado um mercenário!


*Sonoplastia: Impacto! Instrumental tenso* 


Afonso se mostra perdido, vira-se de costas e começa a andar devagar.


CÉSAR [em tom venenoso] — Se não me contar o que está havendo, não terei como ajudá-lo.

Afonso vira-se novamente para o filho, e faz menção de falar, mas captura um movimento vindo de fora: uma mulher estranha coloca algo na caixa de cartas!


IMPACTO


Afonso esbuga os olhos e sai correndo, atropelando tudo em seu caminho!


*7. Int. Casarão/Sala de Estar - Dia*


Afonso passa correndo pela sala esbarrando nos móveis. Sônia e Denis o veem. O instrumental se intensifica. 


SÔNIA [assustada] - Mas o que é isto? AFONSO!


DENIS — Pai!


Alexandre vê a situação da escada e corre para ver. César corre atrás do pai. Denis e Sônia também se adiantam.


Todos nervosos.


CÉSAR — Meu pai!


*8. Ext. Casarão/Terraço - Dia*


Afonso corre até a caixa de cartas. César, Sônia e Alexandre vão atrás. Denis olha da porta.

Afonso remexe as cartas, seu olhar é de um louco!


AFONSO — Maldita, maldita! 


SÔNIA, ALEXANDRE, CÉSAR [todos tentando entender] — Meu pai… Afonso, o que está havendo… que atitude é esta?


Os vizinhos assistem assustados. Denis com as mãos na cabeça. É quando o homem pega uma caixinha vermelha… todos silenciam.


SÔNIA — O que é isto, Afonso?


Afonso, tremendo, começa a abrir a caixa. A abertura é lenta, mas é possível enxergar um dedo mutilado ainda pulsando ao lado de terra preta.


Sônia leva as mãos à boca, horrorizada, Alexandre arregala os olhos e César nega com a cabeça. Afonso começa a chorar.


AFONSO [tremendo] — Cadê a minha filha? Onde está Helena? Helena!


O céu escurece, e uma pesada chuva começa a cair, assustando a todos. Os meninos levam o pai para dentro de casa, completamente assustados.


*9. Int. Casarão/Sala de Estar - Noite*


Eleanor e Helena chegam no casarão. Sônia recebe Eleanor com um abraço apreensivo, e Helena é levada para o quarto por uma funcionária.


SÔNIA – Obrigado por não contar nada.


ELEANOR – Achei mesmo melhor não falar. Ele não estava chamando por ela?


SÔNIA – Já o acalmamos dizendo que vocês estão aqui.


ELEANOR – Mas o que houve exatamente, Sônia?


SONIA – Enviaram uma horrorosa caixa vermelha com uma surpresa desagradável.


ELEANOR – Perdão, mas que surpresa?


SÔNIA [cochichando] – Um dedo decepado!


Eleanor leva as mãos à boca.


*10. Int. Casarão/Escritório de Afonso – Noite*


Afonso está entorpecido em sua poltrona. César entra discreto.


CÉSAR [impessoal] – Como está se sentindo?


Afonso não fala nada, apenas fita a lareira. César se aproxima sorrateiramente do pai, para atrás dele e segura seus ombros como um filho afetuoso.


*Sonoplastia: Instrumental suspense*


CÉSAR [bem baixo] – Sabe o que é curioso, meu pai? Há momentos em que o cerco não se fecha, ele só... caminha. Lento e sutil, como quem nada quer. Ele arma discreto o seu bote, e faz você acreditar que está seguro, até que se revela. E quando ele se revela, você percebe que já está completamente encurralado!


Afonso pisca devagar, mirando o fogo. César larga o pai de repente, como quem se livra de um fardo.


CÉSAR – Apesar disso, sempre há uma saída. Às vezes, meu pai [sorri], tudo o que se espera de um homem é que ele saiba quando deve sacrificar-se.


Afonso, pela primeira vez, vira os olhos para o filho como quem teve um insight. Agora ele vira para a janela, pensativo.


O instrumental se intensifica, e Afonso está diante da câmera, em primeiro plano. Os olhos encharcados, fixos no horizonte, e atrás dele, desfocado, está César. As chamas crepitam, hora revelando o sádico sorriso no rosto do filho, hora escondendo-o em sombras. Fogo, sombras, sorriso, olhos.