Ecos de Eros - capítulo 03

 





*CAPÍTULO 3*

*1. Int. Delegacia - Tarde*


Na delegacia, Denis está sendo interrogado.


POLICIAL — E achou de bom tom abrir uma fenda na testa dele?


DENIS — Não irei pedir desculpas.


POLICIAL — Você nunca pede, não é, Denis? [se levanta e até a cafeteira] Se o meu salário fosse o valor das fianças que seu pai paga toda vez que você se mete em confusão, eu era um homem feito.


Denis abaixa a cabeça, frustrado.


De longe, Sônia vem acompanhada de César. Os dois furiosos.


POLICIAL — Sabe, Denis? Nunca peguei tão pesado com você quanto acho que sua mãe e seu irmão pegarão.


Denis se levanta num sobressalto.


POLICIAL — Seeente-se!


Sônia abre a porta, indignada.


DENIS — Onde está o papai? Vocês nunca vêm.


CÉSAR — O papai está resolvendo os próprios problemas, e então surge mais um: Denis, o descontrolado! Como acha que ele está se sentindo? 


SÔNIA — O que estava pensando? Queria matar uma pessoa?


DENIS — Ele me provocou.


SÔNIA — Quantos anos você tem, Denis? Oito? Levante-se e vá para o carro agora!


Denis se levanta e caminha com os olhos cansados e olhando para o chão. César fecha os punhos.


POLICIAL — Quanto de atenção vocês dão a ele?


SÔNIA [pegando um cheque] — Denis não é mais um bebê! 


POLICIAL — Entendi. Bom, obrigado senhora Sénéchal. 


A mulher se vira para sair.


POLICIAL — Ah, senhora Sénéchal [ela se vira, ríspida], o Denis é um bom garoto. Não permita que ele se vá porque não foi compreendido.


Ela o olha de cima para baixo.


SÔNIA — Dispenso seus conselhos… policial.


Então sai.


*2. Int. Casarão/Sala de Estar - Tarde*


Sônia entra ao lado de César e Denis.


SÔNIA [séria] — O seu pai está lhe esperando no escritório. 


O garoto segue sem olhar para trás.


*3. Int. Casarão/Escritório de Afonso - Tarde*


*Sonoplastia: GB. 4 WD. 13: Je crois entendre encore toca ao fundo*


Denis anda devagar e cabisbaixo, chegando na porta do escritório do pai. Hesita. Bate à porta.


AFONSO — Entre.


O garoto entra. Afonso está de costas em sua poltrona. A luz alaranjada do pôr-do-sol entra sutilmente pelo vidro da janela.


DENIS — Deseja falar comigo, meu pai?


Afonso se vira para ele e aponta para a cadeira. Denis senta.

Há uma longa pausa, e os dois apenas se encaram.


AFONSO — Não estou aqui para lhe repreender, Denis. [Denis o encara surpreso] Já apanhou o suficiente por hoje, de fato. [aponta para os machucados] Eu só queria que soubesse que… [interrompido]


DENIS — Meu pai…


AFONSO — Não fale nada. [Denis se ajeita na poltrona] Eu… eu já fui jovem, Denis. Já cometi muitos erros, muitos pecados. Certamente mais condenáveis que os seus, de fato. O mundo nos testa, meu filho; e achamos que cada provocação é uma afronta direta e uma guerra a ser vencida a todo custo. Mas a verdade é que quando nos sujeitamos à batalha, corremos o risco interdimensional de perder tempo lutando por algo que nem mesmo vale a pena. 


DENIS — Eu não queria envergonhar o senhor.


AFONSO — Você não me envergonha, só me preocupa.


Do lado de fora, Sônia discretamente se aproxima para ouvir a conversa atrás da porta. Ela nota o tom de voz de Afonso: acolhedor, sereno, tranquilo. 


AFONSO — Há fogo demais no peito, Denis. Só que precisa aprender a direcionar esse fogo para o lugar certo, ou corre o risco de queimar-se, e pior ainda, queimar aqueles que o rondam. 


Denis encara o pai, curioso. O silêncio paira no ar, tornando o ambiente um antro de contemplação.


DENIS — Meu pai, não quero parecer desrespeitoso ou ingrato diante de suas palavras, mas porque está sendo tão gentil comigo?


AFONSO [respira profundamente] — Chega um momento em que os pais percebem que seus filhos nada mais são do que um reflexo do fracasso de si mesmos, Denis. [olha através da janela] E eu não quero nunca que você ou seus irmãos sejam um reflexo do meu passado, que persiste em perdurar em minhas entranhas.


Sônia leva as mãos ao peito e respira profundamente. 


*Sonoplastia: junto à música, um intenso instrumental corrói a cena*


Um forte vento inunda o corredor soturno, balançando seus cabelos e carregando poeira para o alto, fazendo a mulher cambalear e derrubar um porta-fotos, que se racha.


Afonso e Denis se viram num susto.


AFONSO [levantando-se] — Helena, é você?


A câmera foca no porta-joias caído no chão, e na fotografia, toda a família Sénéchal sorridente e contente, mas o vidro está rachado, e Sônia atordoada com o que vê: Afonso apartado do restante da família pela rachadura.


Afonso aparece de repente atrás da esposa.


AFONSO — Que está fazendo, Sônia?


Sônia vira-se e põe a mão na cabeça, surpreendida.


SÔNIA — Apenas vim chamá-los para jantar, mas acabei me atrapalhando no caminho [abaixa para pegar o objeto, olha para o marido, sorri discretamente e sai]


Close em Afonso.


*4. Int. Casarão/Copa - Noite*


Afonso está diante de todos apoiado sobre a mesa e encarando as próprias mãos. Ele ergue o rosto.


AFONSO — Eu… quero pedir perdão por minha atitude hoje pela manhã. O nervosismo tomou conta da minha alma e do meu corpo. Eu acreditei que meu Deus estava me provando, pois logo após uma excelente notícia, veio uma desastrosa novidade: simplesmente o evento seria cancelado. [ele se balança desconfortável] E por isso, eu, movido pelo sentimento, fui rude com todos.


Todos o encaram atentos.


AFONSO — Porém [pausa, e ele sorri], como um gavião, eu consegui resolver a situação! Ao lado de César, claro. [todos comemoram]


ELEANOR — Que maravilha! 


ALEXANDRE — Estou tão feliz por vocês.


HELENA — Por nós!


Todos riem. Alexandre chega atrasado, e todos o encaram. Afonso percebe a situação.


AFONSO — Meu filho! Ah, que maravilha. Vamos comemorar? Todos nós? 


Ele caminha em direção ao rádio e liga-o.


*Sonoplastia: September in the Rain - Dinah Washington*


Afonso sai puxando todos para o meio da copa, menos César, que permanece imóvel. Sônia recusa, mas depois cede. Todos dançam. Denis se solta aos poucos, e Sônia se afasta discretamente.


Num efeito em câmera lenta, todos dançam contentes, e Sônia apenas observa. A câmera se aproxima aos poucos de Afonso, como um prenúncio negativo. A música vai ficando cada vez mais lenta e… volta! Afonso puxa Sônia novamente e eles dançam e dançam.

CORTA PARA:


*5. Int. Casarão/Quarto do Casal - Noite*


O quarto é iluminado apenas pela luz da Lua. Sônia e Afonso, na cama, se movem intensamente, completamente nus. O homem acaricia os seios da esposa enquanto beija sua nuca, movendo-se para frente e para trás, tenso.


*Sonoplastia: Instrumental tenso*


Sônia, sem conseguir conter-se, faz ecoar seus gemidos através do ambiente, e a respiração de Afonso é pesada. Ele beija a boca dela com força, e quando a mulher começa a envolvê-lo com as pernas, ele começa a parar. Os movimentos amolecem e ele se deixa cair, saindo de dentro dela e virando-se para o lado.


SÔNIA [confusa] — Está tudo bem? [ela tenta tocá-lo, mas ele se afasta violentamente] Meu bem…


Afonso se levanta da cama e vai em direção ao banheiro devagar. Sônia está inerte.


CORTA PARA:

*6. Int. Casarão/Banheiro - Noite*


*Sonoplastia: A tensão cresce*


De frente para o espelho, Afonso se encara por um bom tempo, e depois começa a tremer, mexe nos cabelos, ofega, aperta as mãos... Uma lágrima cai, em seguida o choro vem com força, o inundando, mas ele faz isso em silêncio, colocando a mão na boca. Zoom no rosto de Afonso. FADE-OUT.