Ecos de Eros - capítulo 02




 *CAPÍTULO 2*


*1. Int. Casarão/Sala de Estar - Dia*

*Sonoplastia: Instrumental de suspense*


A câmera se aproxima com um zoom em Afonso, que começa a suar.


CÉSAR — Está… tudo bem?


A tensão cresce no rosto do homem, completamente nervoso. Suspense latente, e close em Afonso…


SÔNIA [curiosa] — Afonso…


AFONSO — Ah, eu preciso ir resolver algumas coisas.


ALEXANDRE — O que aconteceu, meu pai? Não vamos mais? Fomos desconvidados?


Afonso se vira para todos.


AFONSO — Na verdade… É que houve alguns problemas em um dos hotéis. 


CÉSAR — Deixe que eu ajude-o a resolver.


AFONSO [quase grita] — Não! Eu… eu vou… [ri nervoso] É algo bobo.


CÉSAR — Então deixe-me dar um jeito, se é bobo.


AFONSO [severo] — Deixe-me, César! Isto não é nada para vocês se preocuparem.


Ele permanece olhando para todos quase com violência, depois se vira e sai.


*2. Ext. Beco - Dia*


Denis caminha discreto por entre homens de mais idade que se dirigem à uma porta entre duas paredes de um apertado beco. O rapaz ajeita seu paletó e entra.


*3. Int. Bar - Dia*


Lá dentro, o suave som do piano vai de encontro ao saxofone.


*Sonoplastia: jazz ao fundo*


Denis olha ao redor, e de longe, vê uma mulher sozinha. Seus olhares se encontram, e o jovem exibe um sorriso de canto de boca. Ele se vira para o garçom ao lado:


DENIS — Ajuste a temperatura, pois há grandes chances disso aqui pegar fogo hoje. 


O garçom, confuso, ergue a sobrancelha. Denis, segue até a mulher.


DENIS — No meio de tantos predadores, conseguir vislumbrar tal encanto é uma dádiva.


Ela ri, mas este logo se apaga. Atrás de Denis, uma voz. É FELIPE.


FELIPE — Ainda incapaz de reconhecer propriedades alheias?


DENIS [virando-se friamente] — Ah… eu não acredito que o único lugar em que a paz habitava meu ser agora é lar de pragas inconvenientes.


FELIPE — Ainda se comporta como se fosse o dono do mundo.


DENIS — E você como dono das mulheres. [se vira para a moça] Como deixa este brutamontes lhe tratar por “propriedade”? 


Ela dá de ombros. Felipe peita Denis e todos do bar notam o clima tenso.


DENIS — Vai me bater porque tenho mais charme que você? Que besteira. 


Denis se desvencilha e sai.


FELIPE [com desprezo] — Vai fugir? Além de tudo ainda continua covarde.


Denis para e se vira.


DENIS — Covarde, certo? Covarde [andando devagar em direção a Felipe] Entendi.


Denis desfere um soco contra o rosto de Felipe. Os dois se atracam.


CORTA PARA:

*4. Ext. Bar - Dia*


Denis e Felipe são empurrados para fora do estabelecimento, e agora estão se esmurrando na rua. Seus rostos estão marcados e lábios cortados.


Denis se afasta e gira para o lado, escapando das mãos de Felipe. 


FELIPE - Seu babaca! Foge de novo, vai lá!


DENIS [gritando] - Não perderei meu tempo dando atenção à cães como você. Já teve seu show, agora some da minha frente!


FELIPE - Covarde.


Denis se vira, furioso, e corre novamente em direção à Felipe, como um míssil, derrubando-o no chão com um abraço violento. Eles rolam por mais um tempo, até que, desta vez, Felipe é quem se desvencilha dos socos e se levanta.


FELIPE - Você é um tonto, Denis. 


DENIS [apontando] - Nunca mais me chame de covarde!


FELIPE - Será que não é mesmo? Me bater não prova nada.


Denis se vira e se prepara para sair.


FELIPE - Ei, para onde vai?


DENIS - Não me encha a paciência.


FELIPE - Vamos resolver isso como homens.


Denis para, desconfiado, e se vira levemente.


DENIS - Quer apanhar mais?


FELIPE [ameaçador] - Venha correr comigo hoje na pedreira.


DENIS - Que bobagem.


FELIPE – Se você ganhar te concedo meu respeito.


DENIS - Você é muito narcisista mesmo. Eu não preciso do seu respeito.


FELIPE - Isso significa que é mesmo covarde.


DENIS - Covarde não. Eu me preservo, e não preciso da sua aprovação.


FELIPE - Meu carro, então. Eu te entrego as chaves do meu carro. Se perder, me entrega as do seu.


DENIS - Não tenho carro.


FELIPE - Então me entregue a do seu pai.


Felipe sorri maliciosamente.


DENIS - Está delirando?


FELIPE [virando-se] - É, eu tentei, mas você não demonstra força de vontade alguma, e ainda por cima não tem autoconfiança. Se tivesse mesmo, nem hesitaria.


Felipe sai caminhando, e Denis permanece olhando para o chão, refletindo. 


DENIS - Espera! [Felipe para e lentamente se vira] Que horas eu te encontro?


*5. Int. Casarão/Escritório de Afonso - Dia*


Afonso aperta a carta entre as mãos com violência e olha preocupado pela janela. César entra sem aviso.


AFONSO [irritado] — Como entra assim em meu escritório sem aviso?


CÉSAR — Nunca precisei. Será que agora tudo mudou? E tudo por conta de uma simples carta? [ele aponta para a carta]


AFONSO — Isto? Ah, é uma grande bobagem. Quer ver o que faço?


O homem rasga a carta em vários pedaços e a joga no lixo.


AFONSO [com um olhar de triunfo fingido] - Resolvido! Ah, César, sabe como sou um homem que não se deixa abalar por nada, nada mesmo.


CÉSAR [estressando-se] — Então havia realmente algo na carta? O que havia lá, meu pai? Me conte!

Sonoplastia: instrumental impacto


Foco no rosto afetado de Afonso. 


TIME-LAPSE do dia para fim de tarde.


*6. Ext. Casarão/Rua - Fim de Tarde*

*Sonoplastia: Instrumental Tenso*


Denis está diante do pai do carro, e suas mãos tremem. Ele segura a maçaneta e respira profundamente.


DENIS - Para de medo, seu idiota. Você já fez coisas piores.


O rapaz puxa a maçaneta e entra agitado. Ele põe as duas mãos no volante e aperta bem, depois as guia até a ignição e gira a chave. O carro liga. Denis sai.


*7. Ext. Pedreira - Fim de Tarde.*

*Sonoplastia: Rumble - Link Wray*


No ambiente, vários jovens cercam a pista com modelos de carros dos anos 50, e entre eles, a BMW 507 vermelha de Afonso pilotada por Denis. Em sua frente, Felipe com um voraz carro preto. 


Denis para ao lado do rival.


DENIS - Porque não entra logo neste seu carro e vamos correr?


FELIPE - Se quer tanto assim…


Os moços e moças aplaudem e berram loucamente.


GAROTO - Destruam essa pista!


CORTA PARA:


Os dois carros estão nivelados e prontos para correr. Os motores rangem e os espectadores gritam enlouquecidos. Denis encara Felipe, sério, e Felipe retribui com um sorriso sagaz.


Um jovem para entre os carros e ergue as mãos para o alto.


JOVEM - Se preparem! 3, 2… [sem aviso, ele abaixa as mãos]


Os carros pegam impulso e partem com violência pela pista. 


*Sonoplastia: A música se intensifica*


Eles queimam o asfalto e correm por um bom tempo, até que surgem os obstáculos. Buracos, grandes pedras e cavaletes. Os rapazes entram em área de obras, e começam a perder o controle.


DENIS - Que droga!


FELIPE [enlouquecido] - Uhrul!


Felipe vira o carro e bate em Denis, que começa a derrapar.


FELIPE [gritando, com deboche] - Qual o problema, meu amor?


Denis fica ansioso e começa a sair da estrada.


DENIS - Merda, merda, merda!


Ele retorna, e Felipe bate novamente.


DENIS - O que está fazendo, seu merda?


Denis revida, mas bate com mais violência. Os dois ficam se batendo. Felipe tenta bater em Denis mais uma vez, mas Denis, notando um poste à frente, empurra Felipe, que bate com força no poste, e sua cabeça acerta o volante. O sangue começa a derramar.


DENIS [se virando para olhar] - Droga!


Ele para o carro e sai para ir ver o rival. Os outros jovens vão em direção à eles.


JOVEM - O que é isso?


*Sonoplastia: Sons de sirenes ao fundo*


JOVEM – Vamos sair, vamos sair!


Eles correm para seus carros e fogem. 


DENIS - Esperem aí, seus idiotas! [ele tenta segurar a cabeça sangrando de Felipe] Imbecil!


As luzes dos giroflex refletem no rosto do rapaz. Suas pupilas dilatam, e seu nervosismo é evidente.


*8. Int. Casarão/Sala de Estar - Noite*


Sônia está sentada no sofá, e em seu colo, Helena.


HELENA — Estou preocupada, minha mãe. Meu pai agiu como um louco.

SÔNIA — Respeite seu pai, Helena!

HELENA — E eu estou mentindo?

SÔNIA — É apenas um problema de trabalho.

HELENA — Não me pareceu isso.

SÔNIA — Você é apenas uma criança…

HELENA — Uma criança, não um asno.


Sônia a encara com censura. Helena dá de ombros e se senta.


HELENA — Mamãe, por favor… se fosse mesmo só um simples problema de trabalho, porque estaria tão preocupada assim? [Helena aponta para as mãos de Sônia, que ansiosamente tira e coloca sua aliança do dedo]


*Sonoplastia: Instrumental triste*


Foco em Helena, depois em Sônia, que desvia o olhar. Close na aliança da mulher.

Sonoplastia: o telefone toca e o instrumental ascende


Helena se levanta para atender, feliz.


HELENA — Eu amo quando toca [e atende]. Olá? [Pausa] Sim, é aqui mesmo [A expressão da garota muda, agora assustada]. Como?


Sônia percebe, levanta e corre ao telefone, pegando-o da filha.


SÔNIA — Sônia Sénéchal aqui. Quem deseja? [Pausa] Polícia?


*IMPACTO.*