Ecos de Eros - Capítulo 01 (estreia)



*Capítulo 1*

*SONOPLASTIA: Instrumental singelo toca*

*1. Ext. Ruas de Bairro - Dia*


*[Fade-in]*


Por entre ruas amplas, arborizadas e tomadas por casarões imponentes, seguimos um garotinho que pedala languidamente enquanto arremessa pesados rolos de jornal nas portas das casas. 


Ele continua, até que chega num casarão banhado pelo sol, e é aí que ficamos. Ele atira o último rolo na pesada porta de entrada, emitindo um baque seco que…


*2. Int. Casarão/Quarto de Sônia - Dia*


… leva dois olhos castanhos a se abrirem diante da câmera. A lente suavemente desce dos olhos ao nariz, depois à boca, que deixa escapar, entre os lábios entreabertos, um sopro de ar quente.


CORTA


O quarto inteiro é mostrado, e na cama, uma mulher sozinha. O vento sopra, abrindo as cortinas, e fazendo o sol iluminar o lado vazio da cama. Percebendo isso, ela se levanta num sobressalto. É SÔNIA. 


*SONOPLASTIA: September in the Rain - Dinah Washington*


SÔNIA - Céus!


Ela chuta os lençois e sai apressada; semblante afetado pela culpa. Takes dela no banho, penteando os cabelos, vestindo-se delicadamente e colocando sua maquiagem. 


*3. Int. Casarão - Dia*

*Sonoplastia: música apenas instrumental*


Sônia desce as escadas apressada e preocupada. A casa está escura, e ela franze o cenho.


SÔNIA - Ah, mas não é possível! Será que até para abrir as janelas desta casa terei de ser eu?


Ela se adianta para abrir as janelas, mas é surpreendida quando as cortinas são puxadas, iluminando todo o entorno!


TODOS [em coro] — Surpresa!


A mulher leva as mãos ao peito. Seus filhos, nora e marido estão à sua frente: AFONSO, CÉSAR, ALEXANDRE e ELEANOR.


SÔNIA [com leve espanto] — Mas que delírio é este?


CÉSAR — Não lembra mais do próprio aniversário? Já sabemos o que isso significa.


Afonso funga em reprovação.


SÔNIA — Oh… Oh, meu Deus! Que vergonha! Este banquete é para mim?


ELEANOR [com ternura] — Preparamos com todo carinho.


ALEXANDRE [se aproximando discreto] — Feliz aniversário, minha mãe. Espero que seja de seu agrado.


O rapaz estende a mão, exibindo uma caixinha aberta com um par de brincos.


SÔNIA [contente] — Meu amor, obrigada!


Ela abraça o filho.

Afonso caminha pesadamente em sua direção, e a segura pela cintura. 


AFONSO — Estou feliz de estar comemorando mais uma data como esta com você.


Sônia sorri e o acaricia com a cabeça.


SÔNIA — Você me assustou. Quando acordei e não vi você na cama, senti como se mil tratores houvessem passado por cima de meu corpo!


CÉSAR [rindo] — Ora, mas que exagero, mamãe! Vamos todos nos sentar, pois temos compromissos a cumprir, não é mesmo, papai?


AFONSO — Está muito apressado. Vamos aproveitar este momento com sua mãe, por favor!


SÔNIA — Onde estão Denis e Helena?


ELEANOR — Dormindo.


*Sonoplastia: batidas à porta*

*4. Int. Casarão/Sala - Dia*


Um funcionário atende, e uma mulher gorda e seu marido entram pela porta da frente. São ADELAIDE e CLARÊNCIO. 


ADELAIDE [exagerada] — Olá, olá! Há alguém aqui que não sejam os funcionários? [ri desmedidamente]


Todos seguem para a sala.


ADELAIDE — Ah, minha querida! [ela corre para abraçar Sônia] Feliz aniversário! 


Clarêncio acena com a cabeça, silencioso, depois aperta a mão dos homens.


ADELAIDE — Não trouxe presente, sinto muito. Estou até constrangida, acredita? 


SÔNIA — Ora, não se incomode com isso.


ADELAIDE — Como está se sentindo?


SÔNIA — Desnuda.


Afonso arregala os olhos para ela, e Adelaide olha com desgosto para Clarêncio.


SÔNIA [corrigindo-se com um sorriso falso] — Estou me sentindo bem, Adelaide, obrigado. 


ELEANOR — É melhor irmos para a mesa, não acham?


CLARÊNCIO — Onde está a pequena Helena, Sônia?


Helena desce as escadas totalmente desengonçada e de pijama.


SÔNIA — Ah, mas… Helena! Por favor, suba e vista-se adequadamente!


ADELAIDE [se metendo na frente] — Olha só como está grande esta garota! 


HELENA [desinteressada] — Ah, olá, Adelaide. 


SÔNIA [em tom de reprovação] — Helena…


Adelaide se afasta discretamente.


AFONSO [afável] — Helena, venha cá.


Helena desce e vai até o pai, que arruma seus cabelos e amacia sua roupa. 


AFONSO — Prontinho. Até parece que Sônia e Adelaide nunca tiveram um dia bagunçado, não é mesmo?


A menina sorri, boba, e Sônia sorri, constrangida.


ADELAIDE [nariz em pé] — Eu sempre fui uma jovem muito vaidosa. Nunca deixei de pentear meus cabelos e colocar as melhores roupas para as visitas.


DENIS [em off, espirituoso] — Ainda bem que Helena não se veste para as visitas, não é mesmo?


*Sonoplastia: September in the Rain - Dinah Washington*


Joaquim revira os olhos. A câmera corta para Denis, que está elegantemente bem vestido, e a câmera o segue dos pés ao rosto.


ADELAIDE [crítica] — Ah, olá, Denis. Como sempre, bem educado.


Denis exibe um leve sorriso sarcástico.


ALEXANDRE [ansioso] — Eu acho melhor irmos para a mesa.


AFONSO — Vamos sim! E, Helena, o que acha de colocar um de seus mais belos vestidos para hoje?


Helena concorda, e Sônia expressa frustração. Todos caminham conversando para a mesa.


CORTA PARA:

*5. Ext. Herdade de Eros/Jardins - Dia*


Belas imagens de campos esverdeados, sebes grandiosas e funcionários podando as árvores. De longe, observando cada detalhe, está DOLORES, uma mulher velha, com seus olhos rígidos e cabelos bem presos. Atrás dela, um jovem rapaz corre de seu amigo, gargalhando. É ARIEL. 


DOLORES [ríspida] — Comportem-se, ou serão responsáveis por um grande acidente hoje!


Ariel para, contempla o rosto sério dela por um segundo, emite um sorriso sagaz e depois volta a correr!


DOLORES — Ah, garoto…


*Sonoplastia: September in the Rain em fade-out*


A câmera mostra, então, FERNANDO e CATARINA na varanda, observando-os abraçados. 


CATARINA [analítica] - Me dói dizer isto, mas a mamãe é tão amargurada. Como pode uma pessoa sentir-se incomodada com a felicidade alheia? Quer dizer, é estranho. Eu não consigo ser assim. E o mais engraçado é que ninguém escapa, nem mesmo o Ariel. [ela ri]


FERNANDO [sério] — Está sendo injusta. Na verdade, eu acho sim que sua mãe é um pouco dura demais para uma mulher, uma senhora. [Catarina se vira para ele] Mas acredito que tenha sido a falta de figuras masculinas presentes para que ela pudesse pender tempo para a feminilidade. 


Catarina desvia o olhar, envergonhada.


CATARINA [refletindo] — Tem razão. Meu Deus, me senti uma tola agora.


Fernando a segura pelo braço gentilmente.


FERNANDO — Não quis que se sentisse assim. 


CATARINA — Tudo bem, meu amor.


FERNANDO [se virando para frente] — É até bom que tenha observado isso. 


Ele encara Ariel.


CATARINA — Não entendi.


FERNANDO — Note que nem sua mãe, sendo dura como é, quase um general, conseguiu dar um jeito em nosso filho.


Catarina desvencilha-se das mãos do marido, e o encara.


FERNANDO [desgostoso] — Veja como ele é bobo.


Corta para Ariel brincando com o amigo, bem mais novo que ele.


CATARINA — Como pode ser bobo? Ele é apenas uma criança.


FERNANDO [virando-se rapidamente] — Criança? Ele irá alistar-se em breve e tem coragem de chamá-lo de criança?


CATARINA — Meu amor…


FERNANDO — Vejo que erramos muito, Catarina. Eu falhei como pai. Perdi tempo demais, e agora meu filho parece estar preso ao corpo de um menino, sem perspectiva! Sem noção de responsabilidade! Como ele poderá comandar, quando eu não estiver, sendo uma criança?


CATARINA [confusa] — Quando não estiver? O que quer dizer com isso, Fernando?


Ele se vira para a esposa, encarando-a.


FERNANDO [tenso] — Um dia eu partirei, Catarina. E alguém tem que tomar conta disso tudo. 


*Sonoplastia: Instrumental de despedida*


CATARINA — Por favor, Fernando, me diga logo o que está acontecendo.


FERNANDO — Eu ganhei uma oportunidade, Catarina. Irei para fora e ficarei um ano. Talvez mais.


CATARINA — E não falou nada comigo? Por qual razão?


FERNANDO — Eu sabia que tentaria me convencer do contrário. E agora é tarde.


O homem segura as mãos da esposa, e olha para o filho mais uma vez.


FERNANDO — Ele precisa crescer. Precisa assumir o papel.


Foco no rosto de Catarina, depois em Fernando.


*6. Int. Herdade de Eros/Salão de Estar - Dia*

*Sonoplastia: Instrumental tenso*


A câmera lentamente se move pelo amplo salão. Ariel está sentado no sofá, brincando com os dedos e revirando os olhos. Catarina está ao seu lado, com as mãos sobre as pernas, delicadamente. Dolores está reclinada em sua poltrona, olhando com reprovação para o neto. Em pé, diante dos três, andando de um lado para o outro, Fernando.


FERNANDO [sério] — Um homem não escolhe o momento de crescer, Ariel. A vida impõe. [ele caminha languidamente] Esse é o nosso papel: prover, guardar! E agora é sua hora.


ARIEL [erguendo os olhos, confuso] — Não estou entendendo.


FERNANDO — Eu estou partindo para longe, Ariel, e a casa não pode ficar à mercê apenas de quem empregamos. É preciso de alguém para organizá-los.


ARIEL — Minha avó já faz isso muito bem. 


DOLORES — Sabemos que faço, mas a intenção é que você passe a fazer, para ver se amadurece.

Ariel estreita os olhos.


FERNANDO — Na minha ausência, você cuidará de tudo, incluindo sua mãe e sua avó.


ARIEL [debochando] — Só pode ser mesmo uma grande piada. 


CATARINA [baixo] — Ariel…


ARIEL — Com todo respeito, mas elas podem cuidar de si mesmas sozinhas. Não são inválidas. Eu posso ajudar, mas não preciso ficar com tudo isso apenas para mim. Porque eu tenho que fazer tudo sozinho?


FERNANDO [impaciente] — Porque é meu filho! E isto não é uma escolha.


ARIEL [levantando-se] — Sou, sim, mas não sou você! E nem mesmo quero ser.


Fernando se aproxima, estressado, e Catarina se levanta a fim de separá-los. Dolores balança a cabeça em negação.


FERNANDO [suspira] — Você ainda tem muito o que aprender.


O homem se vira e sai a passos largos. Catarina o segue sem olhar para trás.


DOLORES — Que vergonha.


ARIEL — Deve sentir mesmo. De você.


DOLORES [se levantando] — Eu tentei moldar você, mas seus pais nunca foram firmes o suficiente. Claro que não seriam… O Fernando até tentou, mas afrouxou demais a coleira. E eu passei anos tentando transformar você num homem de verdade, mas tudo o que se tornou foi este menino mimado! 


ARIEL — Passou anos tentando moldar-me à sua maneira, mas esse não é quem eu sou. Talvez seu erro tenha sido acreditar que eu era de barro.


DOLORES — Insolente!


Ariel sai dali estressado.


DOLORES — Ariel! Volte aqui!


CORTA PARA:

*7. Int. Herdade de Eros/Quarto - Dia*


Fernando entra no quarto afetado, e logo atrás, Catarina, que tenta acalmar o marido. 


CATARINA — Fernando! Por favor, Fernando.


FERNANDO [levemente alterado] — Viu só como está? Ele nem ao menos consegue compreender.


Ele se senta na cama e olha pela janela.


FERNANDO — Fomos fracos, Catarina. Fomos fracos com a orientação que demos à ele. 

Catarina se aproxima devagar. Seu vestido acima dos joelhos balança com a brisa suave. Ela ergue a mão até a cabeça do homem e acaricia seus cabelos, tentando acalmá-lo. Sua expressão demonstra preocupação. 


CATARINA — Não se martirize, Fernando. Somos bons pais.


FERNANDO — Não, não somos. Acomodamos demais o menino. Talvez por medo, talvez por culpa ou medo de perder mais uma vez…


CATARINA [tirando a mão abruptamente] — Por favor, Fernando, não.


Fernando a olha com tristeza. 


FERNANDO — Não há como apagar.


CATARINA — Mas não é necessário relembrar!


Fernando olha para as próprias mãos procurando algo que não pode ser encontrado, e ri amargurado.


FERNANDO — Ele teria, hoje, a idade do Ariel. Talvez mais. 


Catarina pressiona as mãos contra a barriga.


FERNANDO — Se não fosse por isso, talvez teríamos sido menos superprotetores, e não estaríamos lidando com tal situação. 


O vento assobia e o silêncio surge por um momento.


FERNANDO — A verdade é que eu só queria mais uma chance, Catarina.


CATARINA — Mas Deus nos deu uma, e devemos ser gratos por ela.


FERNANDO — Deus nos tirou uma. E eu jamais vou perdoá-lo por isso.


Mais silêncio. Os dois se encaram por um momento, e é quando Catarina decide sair.


A lente foca no rosto do homem por um momento, que mira um ponto fixo, perdido, e depois passeia pelo quarto até escapar pela janela…


CORTA PARA:

*8. Int. Casarão/Sala de Estar - Dia*


Adelaide, Eleanor, Helena, Sônia e Denis estão sentados nos sofás, conversando agradavelmente.


ADELAIDE — E então, Helena, como está a escola? 


HELENA — Agradável. Tenho tirado boas notas e sido bastante elogiada.


ADELAIDE [baixinho] — Pelo menos isso.


Sônia estreita os olhos, e Eleanor cutuca Adelaide.


ADELAIDE — O que acha de ir passar o final de semana lá em casa, meu bem? Seria super divertido. Chegaram novos moradores na casa ao lado, e eles têm filhos lindos! 


HELENA [pensativa] — Não sei, não.


ADELAIDE — A Eleanor estará lá, não é mesmo?


Adelaide se vira para Eleanor com um olhar intimidante.


ELEANOR — Estarei, sim. 


HELENA [se virando para Sônia] — Eu posso ir, minha mãe?


SÔNIA — Sim, você pode, desde que Eleanor esteja sempre de olho e você a obedeça. 


Denis pressiona as têmporas, entediado, e depois se levanta.


DENIS — Irei buscar um copo de água para ver se consigo digerir suas conversas estimulantes, garotas. Aceitam?


Elas acenam com a cabeça negativamente, e Denis se vira, seguindo para o corredor.


*9. Int. Casarão/Corredores - Dia*


Denis caminha devagar, e é quando ouve murmúrios vindos do escritório do pai. O rapaz ouve seu nome, e anda na ponta dos pés até o canto da porta.


CÉSAR [em off] — Eu sei, meu pai, mas você está sendo parcial demais. Os dois são decepcionantes.


DENTRO DA SALA:


AFONSO — De fato, mas consigo enxergar no Alexandre um grande potencial. Ele é meio sensível, de fato, mas mesmo os sensíveis ainda são capazes de deixar um legado relevante. Veja só Oscar Wilde: um bom rapaz; sensível, mas notável. De fato!


César funga, debochando.


CÉSAR — Ora, meu pai, mas que bobeira. Literatura? Veja só isso, Clarêncio; não acha que é uma bobeira o que meu pai diz?


Clarêncio está em frente à estante de livros de Afonso, e se vira para César, ajeitando seu grande bigode.


CLARÊNCIO — Não deveria desprezar as letras, César. Como seu pai disse, graças a elas, grandes ideias foram eternizadas e ensinamentos foram compartilhados.


CÉSAR — Letras que formam palavras relevantes, como dinheiro. Romances são bobagem. 


AFONSO — O que quero dizer é que ainda consigo enxergar um futuro para Alexandre. Diferente de Denis, que é um grande fanfarrão. Ah, como queria que ele fosse um garoto melhor.


Corta para Denis, que treme os lábios, como quem está prestes a chorar.


CÉSAR [irônico] — Não perca as esperanças.


AFONSO — De fato.


Denis olha para os lados, desnorteado, faz uma careta de desgosto e sai a passos pesados.


*10. Int. Casarão/Sala de Estar - Dia*


Denis passa apressado enquanto Sônia se serve uma bebida e Adelaide e Eleanor conversam. Denis abre a porta furioso.


SÔNIA [franzindo o cenho] — Onde vai, Denis?


Denis para, a olha nos olhos e respira pesadamente. Sônia ergue uma sobrancelha, mas o rapaz continua calado. Adelaide, Eleanor e Helena se entreolham. Denis balança a cabeça e sai, batendo a porta com violência.


Sônia fica reflexiva.


*11. Int. Casarão/Sala de Estar - Dia*


Sônia está se despedindo de Adelaide e Clarêncio, enquanto Afonso está dentro de casa com os filhos e a nora.


ADELAIDE [com um sorriso tenebroso] — Espero que tenha um excelente dia, minha amiga.


CLARÊNCIO [discreto] — Foi um prazer, Sônia. Esperamos que vá nos visitar na fazenda. Até logo.


SÔNIA [segurando um sorriso] — Até logo. Iremos considerar o convite.


CLARÊNCIO — Podemos nos ver também no evento.


SÔNIA — Evento? Mas qual evento?


CLARÊNCIO — Ah, Afonso ainda não disse? Bom, então é bom que pergunte a ele. [ele sorri e põe o chapéu num gesto educado] Até.


Ele vai embora, segurando o braço da esposa, que se vira de repente.


ADELAIDE [alto] — Se virmos o Denis, avisamos para voltar!


Sônia balança as mãos como quem diz “não se preocupe”, e entra.


SÔNIA — Que evento seria este em que podemos nos encontrar com Adelaide e Clarêncio, Afonso?


Afonso, como quem tem uma epifania, dá uma risada engraçada.


AFONSO — De fato! Bem, quero que todos se aproximem. Onde estão Alexandre e Denis?


HELENA — Denis acabou de sair.


César revira os olhos.


SÔNIA [dirigindo-se para uma funcionária] — Vá chamar o Alexandre em seu quarto para nós.


A mulher faz menção de caminhar quando Alexandre aparece de repente.


Afonso e César se olham, e Afonso faz um gesto abrangente, como se estivesse feliz em ver o filho.


AFONSO — Ah, que bom! Só faltou mesmo o Denis, já que o que tenho que falar é de tremenda fascinação! [ele olha para todos] Queria informá-los que estaremos presentes no evento de arrecadação de recursos para a Fundação de Preservação da Família Tradicional dos Estados do Sudeste, e eu serei um dos anfitriões da noite ao lado de César!


Alexandre, Sônia e Eleanor se alegram. Helena permanece indiferente, e César exibe um sorrisinho arrogante.


SÔNIA [indo em direção ao marido] — Ah, meu Deus, que coisa maravilhosa!


ALEXANDRE — Adoro eventos de gala. Me sinto adorável.


CÉSAR [erguendo uma sobrancelha] — Adorável, é?


HELENA — Eu achei que era algo mais interessante.


ELEANOR — Você ainda é uma criança. É compreensível.


AFONSO — De fato! E será a mais linda da noite, aposto.


A garota ri, boba.


*Sonoplastia: batidas à porta*


A funcionária faz menção de atender, mas Sônia a interrompe.


SÔNIA — Devem ser Clarêncio e Adelaide. Ela deve ter esquecido algo.


A mulher abre a porta, e diante dela, apenas um carteiro.


CARTEIRO — Encomenda direta para Afonso Sénéchal. [ele entrega a carta, e Sônia, desconfiada, a segura] Obrigado.


Afonso caminha até a esposa.


AFONSO [rindo nervoso] — Não entendo, não estava esperando carta alguma.


SÔNIA — Não seria o convite?


AFONSO — Ora, Sônia, como poderia confirmar a vocês que serei anfitrião de uma festa se não houvesse recebido convite?


Ela dá de ombros, e o homem abre a carta agilmente. Ele puxa a carta, todos de olho, Sônia franzindo a testa, e o homem começa a ler. O sorriso habitual desvanece em seu rosto, e pisca os olhos.


*Sonoplastia: Instrumental de suspense*


A câmera se aproxima com um zoom em Afonso, que começa a suar.


CÉSAR — Está… tudo bem?


A tensão cresce no rosto do homem, completamente nervoso. Suspense latente, e close em Afonso…