Quem Foi? | Edição Especial - Capítulo 09
*Quem Foi? - edição especial: penúltimo cap.*
*CENA 01: Delegacia | Sala do Delegado | Noite*
Delegado: Eu diria que a sua prisão e as investigações sobre os crimes é um dos casos mais fáceis e rápidos que eu já lidei, seu Israel. O senhor assinou o seu atestado de culpa ao tentar fugir do país. Felizmente não deu tempo. Finalmente o senhor irá responder pelas mortes de Leandra Ferreira e Marcel Ortego...
Israel (mentindo): Doutor, eu não estava tentando fugir, eu iria fazer compras na fronteira e voltar daqui uns dias.
Delegado: Eu já ouvi desculpas melhores, seu Israel. O senhor está sendo acusado e investigado por esses dois crimes, e o último mencionado teve o inquérito reaberto há poucos dias, com o surgimento do novo laudo pericial de Leandra que comprovou a morte dela por envenenamento. O senhor sabia que não podia sair do Brasil e de repente lhe desponta um desejo de comprar no exterior?
Israel: Delegado, eu já depus sobre a morte do meu sobrinho, o que mais vocês desejam? E eu não tenho nada a ver com a morte da Leandra, não entendo porque sou o principal suspeito. Fora que a minha prisão é totalmente injustificável, aqueles policiais me seguiram e só anunciaram a minha prisão, nem o mandado vocês têm.
Delegado: Como pode ter essa certeza? Nós conseguimos o seu mandado de prisão preventiva, ele foi decretado pelo juiz e iniciamos as buscas pela capital. Sua prisão está dentro da legalidade. É por isso que te trouxeram de volta para São Paulo, e para essa delegacia.
Israel: O senhor não pode ouvir o meu testemunho em um outro momento? Estou cansado.
Delegado: Imagino, o senhor viajou o dia todo de Foz do Iguaçu até aqui. Mas eu não tenho todo o tempo do mundo disponível e prefiro que você dê o seu segundo depoimento agora mesmo.
[Israel suspira e inicia].
Israel: Ok... Eu conheci a mãe do meu filho em um show, há quase duas décadas. Nos apaixonamos e fomos morar juntos, mas depois do nascimento do nosso filho, ela nos abandonou. Sabendo disso, meu irmão nos convidou para morar na mansão dele. Um tempo depois, conheci o Pedro, me casei com ele e criamos o Gabriel. Ficamos doze anos naquela casa, até eu ser expulso, apontado injustamente como o assassino da Leandra. Eu não matei ela e nem o Marcel, mesmo tendo vontade. Ficou sabendo que é o Marcel? Ele roubou a identidade do irmão, e foi para se vingar de mim, para me despistar e tentar arranjar alguma prova que me incriminasse nesses homicídios.
Delegado: Eu já sei. Em breve ele também quitará essa dívida com a justiça. Mas me conte, seu Israel, como você conheceu a Leandra e o porquê desse ódio que você nutria por ela.
Israel: Eu conheci a Leandra em um bar e me atrai por ela na mesma hora. Ficamos no primeiro encontro e nos encontramos outras vezes, mas depois nunca mais soube do paradeiro dela. Pouco tempo depois, ela começou a trabalhar na mansão como empregada. Eu fiquei feliz e tentei reconquistá-la, mas ela me humilhou e disse que não me queria mais. Alguns meses mais tarde qual não foi a minha surpresa ao flagrá-la aos beijos com o Marcel... E esse relacionamento deles era tão explícito que eu duvido que todos naquela casa não sabiam, talvez só o Gabriel e o paspalho do Pedro que não. Eu fiquei com ódio dos dois, sou um homem muito impulsivo, eu não disfarçava a raiva que tinha e o Marcel se aproveitou disso para supor que eu matei a namoradinha dele. E o Marcelo era uma mosca morta, mas eu não tinha nada contra ele, era um rapaz fechado. Vocês têm alguma prova de que eu o matei?
Delegado: Temos o exame de balística da sua arma, o laudo constatou que a bala que matou o Marcelo saiu dela. O seu ex-marido, após você tê-lo sequestrado, me entregou o revólver.
Israel: Doutor, eu nem encostei na minha arma no dia, alguém deve tê-la pegado e atirado no Marcelo. E o Pedro não ficou nem um dia inteiro na minha atual residência, como isso configura um sequestro?
Delegado: Com o senhor o levando à força, apontando a arma para ele e tendo o trancado sem nenhuma possibilidade de escapar, que nem nesse caso, configura sim. De qualquer forma, temos dois depoimentos do seu Pedro sobre esse crime, além de um dossiê, por enquanto incompleto, que está nas mãos de um dos investigadores do caso e outros depoimentos, como o de seu irmão, sua ex-cunhada, do Marcel Ortego e de Natuza Ferreira.
Israel: Natuza? Quem é essa velha? Por que ela iria depor contra mim?
Delegado: É a mãe da Leandra, ela explicou a história de vocês dois. A vítima não escondia nada da mãe.
Israel: Ah delegado, por favor, né? Validar o testemunho de uma fulana que nem me conhece é uma afronta a minha pessoa. Não será o depoimento dela ou dos meus familiares que me manterá preso ou me fará ser condenado, são provas fracas demais. O senhor como uma autoridade máxima deveria saber disso.
Delegado: Eu não preciso que me expliquem a minha função... O senhor tem mais algo a comentar, como por exemplo, sobre as cartas que Marcel e Marcelo receberam com ameaças de morte? Os lençóis de ambos sujos de sangue? Ou o ataque com arma branca ao Marcel ontem à noite no cemitério?
Israel: Eu não vou responder a mais nenhuma pergunta sem a presença de um advogado.
Delegado: O senhor quer que eu providencie um defensor público? Vai precisar.
Israel (desdenhando): Precisaria sim, mas de alguém bom, e esse não é o caso. Os defensores públicos desse país são extremamente incompetentes. É mais fácil eu permanecer calado durante todas as sessões as quais eu tiver de comparecer do que um ser qualquer tentar me defender.
Delegado: Além de todos os crimes que o senhor cometeu, eu poderia registrar mais um que acabara de infringir, o desacato. Relevarei hoje em respeito a sua situação crítica no momento, eu não queria estar na sua pele. O senhor será encaminhado agora para o presídio e aguardará o seu julgamento, que deve ser em breve. Com tamanhas acusações em suas costas, acredito que nenhum juiz pretenda te soltar... Podem levá-lo.
Israel (surtando): EU NÃO VOU! NÃO VOU!
[Israel se levanta, mesmo algemado e tenta correr, mas os policiais presentes ao fundo o seguram e o levam. Ele se debate, aos gritos e tentativas de chutes].
*CENA 02: Hospital | UTI | Noite*
[Ítalo está ao lado do leito de Jenno, que se encontra internado e enfaixado na cabeça, após a cirurgia. Thina os observa de longe].
Ítalo: Estou aqui, Jenno, você vai ficar bem. Eu virei aqui todos os dias e cuidarei de você, até o dia que seu corpo reagir.
[Thina recebe uma ligação do delegado].
Thina: Licença...
[Ítalo a olha friamente e Thina se retira do quarto. Fora, ela atende].
Thina: Boa noite, delegado. Acharam o Israel?
Delegado: Sim, ele foi preso e está sendo conduzido para a cadeia.
[Thina comemora].
Thina (feliz): Como eu ansiei por esse momento! Quando ele será julgado?
Delegado: Tenho dúvidas quanto a data, mas posso afirmar que não demorará.
Thina: Estarei esperando cada segundo, estou indo agora contar a novidade para o meu filho. Agradeço demais ao senhor, delegado. Boa noite!
Delegado: Boa noite, dona Thina.
[Thina desliga e vai embora do hospital].
*CENA 03: Presídio | Noite*
[Israel sai de dentro do camburão e é acompanhado até a parte interna do local].
[A câmera, desfocada, volta ao normal enquanto Israel se aproxima da recepção, onde suas algemas são soltas].
[Em takes, ele toma banho e se veste com a roupa de detento].
[No último take, ele é levado por um agente em câmera lenta até a sua cela. Ele é colocado dentro e as grades são fechadas, tendo o barulho ecoado, enquanto a tela escurece].
[A tela volta a clarear e mostra em time lapse os dias correndo, indicando que *duas semanas se passaram*].
*CENA 04: Hotel | Manhã*
[Ítalo está escovando os dentes, quando batem à porta. Ele finaliza a limpeza e atende, encontrando um policial].
Ítalo: Bom dia, policial. Do que precisa?
Policial (sério): Bom dia. Me acompanhe até a delegacia, tenho um mandado de prisão. O senhor está detido preventivamente sob acusação de ser o mandante do assassinato de Natã Fonseca, ocorrido em um presídio na Grande São Paulo.
[O instrumental de tensão toca].
Ítalo: Me mostre o mandado, eu não saio do meu conforto enquanto não vê-lo.
[O policial entrega o documento para Ítalo. O homem olha e uma lágrima escorre de seu rosto].
Policial: Vamos?
[O pico do instrumental toca, exibindo Ítalo se sentindo derrotado].
*CENA 05: Mansão Ortego | Sala | Manhã*
[Thina e Marcel descem as escadas e ficam no centro da sala].
Marcel: Estou bonito, mãe?
Thina: Está lindo, como sempre. Eu e os meninos estaremos torcendo por você.
Marcel: Obrigado. Tomara que eu ganhe, vocês irão amar o Leônidas. Vou tentar ser um pai de verdade.
Thina: Você tinha que ter me contado tudo isso bem antes, eu teria te ajudado. Estou feliz, mas decepcionada também.
Marcel: Me desculpe, mãe. Eu não contei por medo, prometi que falaria depois de receber alta. A senhora ficará possessa comigo com tudo o que revelarei...
[Thina se mantém calada, esperando].
Marcel: A mãe do meu filho é... a Leandra. Tivemos um relacionamento secreto enquanto ela trabalhava aqui.
Thina (direta): Eu sabia, Marcel.
[Marcel fica confuso].
Marcel: Como você sabia, mãe? Eu e a Leandra não contamos para ninguém...
Thina: Era nítido que vocês estavam apaixonados. Eu flagrei vocês dois se beijando no dia que ela se demitiu. Eu escutei ela revelando que estava grávida, eu sabia que era avó.
Marcel (direto): Você mentiu para mim, mãe? Você comemorou como se não soubesse. Por que?
Thina: Omiti a verdade que nem você, porque eu não queria que entrássemos em conflito enquanto eu estava presa. Vocês dois foram irresponsáveis. Eu fico feliz por ter um neto, eu já o amo, mas olhe a sua idade, você tem VINTE ANOS, e foi pai AOS QUINZE. Você era e é um menino, não teria capacidade de amadurecer tão rápido para auxiliar no crescimento do seu filho. Eu desconfio que a Leandra tenha mentido, ela nunca tinha comentado que a mãe estava doente, porque iria se exonerar repentinamente? Você falou alguma coisa para ela?
Marcel: Eu... rejeitei o Leônidas. Foi por isso que ela se demitiu. Eu fiquei com medo pela minha idade, tinha e tenho muita coisa para viver ainda. E fixei na minha cabeça que uma criança estragaria tudo. Além disso, eu... tentei coagir a Leandra a abortar e a ameacei de morte por não me obedecer.
[Thina, chocada com a revelação, desfere um tapa no rosto do filho, deixando-o vermelho].
[Marcel se irrita e levanta a mão para Thina, que lhe aponta o dedo].
Thina (possessa): VAMOS LÁ, MARCEL. LEVANTE ESSA MÃO NOVAMENTE. EU TE EXPULSO DESSA CASA E TE DENUNCIO DE UMA VEZ POR AGRESSÃO, FALSIDADE IDEOLÓGICA E COAÇÃO. VOCÊ TAMBÉM COMETEU CRIMES, FEITO O ISRAEL! Eu espero que você tenha se arrependido do que fez, porque disso eu não sabia. Estou com raiva de você, não conseguirei te perdoar tão rápido. Não se faz com NINGUÉM o que você fez com a Leandra. Agora vá para a audiência, pense nos seus atos e tente ganhar a guarda do Leônidas para ter ao menos a chance de se redimir com o seu filho!
Marcel: Eu também não te perdoarei tão fácil, mãe. Você também errou, me enganando e me agredindo. Você não tem esse direito, por mais que tenha me colocado no mundo. Não vou voltar tão cedo, depois eu irei ver o meu pai no hospital.
[Eles se olham e Marcel se retira. Thina se senta no sofá e chora desesperadamente, de raiva e tristeza].
[A câmera exibe outras imagens de São Paulo, e, minutos depois, mostra o Tribunal].
*CENA 06: Tribunal | Manhã*
[Marcel e o seu advogado chegam ao local e encontram Natuza, que desfaz o sorriso que continha. Eles se olham com ódio e são convocados pelo promotor a entrarem].
[Em outro take, eles entram e aguardam a chegada do juiz].
Promotora: Seu excelentíssimo, doutor Marco Vilela.
[O juiz entra].
Marco: Bom dia!
Todos: Bom dia!
[Marco se senta em sua cadeira e começa a audiência].
Marco: Estamos aqui para o processo do julgamento de guarda unilateral do menor Leônidas Ferreira, solicitado pelo pai, o senhor Marcel Ortego. Atualmente a criança está sob a tutela da avó materna, Natuza Ferreira. Eu tenho comigo os relatórios da assistente social, tanto sobre a forma como o menor é tratado no lar onde vive quanto da residência do pai biológico. Gostaria de começar com a senhora, dona Natuza... poderia afirmar com suas próprias palavras como é a sua relação com o seu neto?
Natuza: Maravilhosa, excelência. Eu criei o meu neto sozinha com muito esforço e dedicação após o falecimento da minha filha e o abandono por parte do pai. Nós não somos ricos, a assistente constatou isso ao entrar em minha casa, mas o principal elemento que sustenta uma boa convivência entre dois seres humanos Leônidas e eu temos: o amor recíproco. Por isso eu peço ao senhor que mantenha a guarda dele comigo, apesar de nossa baixa classe média, ele nunca esteve desamparado, sempre tomou remédios quando estava doente, estuda em uma boa escola, onde ele está neste exato momento, alimenta-se diariamente em todos os períodos do dia e não tem nenhuma reclamação ao meu respeito. O pai dele, o seu Marcel, recusou a paternidade do próprio filho e tentou obrigar a minha filha a abortar quando ela revelou a gravidez. O Leônidas sabe do acontecido.
[Marcel encara Natuza com ódio e o seu advogado contraria a mulher].
Advogado de Marcel: Excelência, a dona Natuza está ofendendo o meu cliente. Ele realmente rejeitou o menino, mas ele era um adolescente, tinha meros quinze anos, não conhecia nada da vida. E agora ele está aqui, assumindo o erro e quendo consertá-lo, tentando estabelecer uma ponte com o menor para que possa ser construído um laço de amor entre pai e filho.
Marco: Seu Marcel, gostaria de ouvi-lo também. Conte toda a sua história de forma clara e justifique sobre o seu pedido de guarda do menor.
Marcel: Excelência, eu amo o meu filho. E tenho todo o direito de querer efetivar uma relação com ele. Admito meu erro, algo comum em todas as pessoas, eu fugi dos meus deveres. Eu e a Leandra nos amávamos, era uma relação às escondidas, mas havia, como a própria Natuza alegou, o elemento primordial de uma relação: o amor. Fui imprudente ao ter um filho com tão pouca idade e em um surto pedir para que a mulher da minha vida retirasse o nosso fruto. Eu me condeno interinamente por isso, o Leônidas ficou órfão de mãe e foi desprezado pelo próprio pai. E eu requisitei a guarda dele com o intuito de corrigir minhas falhas e tentar voltar a ser feliz, após uma sucessão de tragédias que tem abatido a minha família. Eu lhe suplico, ilustríssimo, por favor, me dê essa oportunidade. É a última que eu tenho, e saberei desfrutar dela...
Marco: Belas palavras, seu Marcel. Tanto as suas quanto as da dona Natuza. Eu já tenho a minha decisão... Judicialmente o direito de guarda seria transferido para a pessoa de laços sanguíneos mais fortes, no caso o pai. Pude constatar que mediante um erro do passado dele, a vida de todos os envolvidos mudaram, ambos foram vítimas. Mas a guarda tem de ser unilateralmente apenas da única pessoa que socorreu um bebê, atualmente com cinco anos, e lhe proporcionou os direitos básicos de qualquer cidadão brasileiro, e principalmente, como o senhor Marcel e a dona Natuza ressaltaram, o amor. A guarda de Leônidas Ferreira será somente de Natuza Ferreira.
Natuza (aliviada): Graças a Deus!
[Natuza se emociona e abraça o seu advogado, chorando. Marcel encara o juiz e tenta contrariá-lo, mas o seu defensor lhe proíbe disso e ele se enfurece, quase chorando de raiva].
[Todos se retiram em ordem, enquanto Natuza e Marcel se encaram pela última vez. A dona de casa pisca para ele e sai do tribunal].
CENA 07: Delegacia | Sala do Delegado | Manhã
[O policial acompanha Ítalo até a sala do delegado, que estava lhe esperando].
Delegado: O senhor está sendo acusado de ser o mandante do homicídio de Natã Fonseca, seu Ítalo. O que tem a me dizer sobre?
Ítalo (cínico): Delegado, eu não mandei matá-lo. Eu também não sabia que ele havia sido assassinado, o policial me revelou. Por que chegaram a conclusão de que fui eu?
Delegado: Nós recebemos as filmagens do presídio no dia anterior da morte dele. O senhor esteve com ele e vocês trocaram ameaças, porque ele te chantageou. Não é muito curioso, porventura, o detento ter sido assassinado durante uma rebelião no dia seguinte?
Ítalo: Talvez. De fato o encontrei semanas atrás e ele me pediu dinheiro para fugir, mas isso não confirma que eu sou culpado. Eu não tenho coragem de tirar a vida de uma pessoa.
Delegado: E por que ele pediu esse dinheiro?
Ítalo (cínico): Porque ele comprou para mim uma substância ilícita. Me arrependo de ter pedido isso para ele, mas não era uso próprio, entreguei para uma pessoa.
Delegado: Qual era a substância e quem é esta pessoa?
Ítalo (mentindo): Não lembro mais os nomes, tanto da pessoa quanto da substância, já faz tantos anos...
Delegado: É bastante curioso que a sua irmã, Leandra Ferreira, foi assassinada por chumbinho e o Israel Ortego está preso e sendo processado por esse crime. Mas não se sabe ainda como e com quem ele conseguiu o chumbinho.
Ítalo: Delegado, o senhor está afirmando indiretamente que foi eu que mandei comprar o Natã comprar o chumbinho e entreguei ao Israel para ele matar a minha PRÓPRIA IRMÃ?
Delegado: Depende do seu ponto de vista, meu caro. Nunca tive informações suas de como o senhor reagiu a morte da Leandra, nem sequer veio prestar um novo depoimento após a reabertura do caso.
Ítalo: Porque eu já repeti centenas de vezes que acreditava que ela tinha infartado naturalmente. Nós nunca fomos próximos, eu a suportava quando porventura a encontrava. O Samuel sim gostava, ele a visitava quando podia na casa da dona Natuza e acompanhou a gravidez do meu sobrinho. Eu não o conheci por decisão própria. Se estiver vivo, ele tem cinco anos atualmente.
Delegado: Isso passará a contar nos autos desse inquérito, vou considerar como o seu primeiro depoimento do caso. O senhor tem mais alguma coisa a comentar?
Ítalo: Não que eu me lembre.
Delegado: Pois, retornando ao assunto principal, seu Ítalo, nós também temos um áudio em que um homem confessou que o senhor pediu para ele contratar o assassino do Natã e armar a rebelião dentro da cadeia. Tentamos localizá-lo e não encontramos nenhuma pista. Vou colocar o som para rodar.
[Eles escutam o áudio e, após dois minutos, Ítalo tenta se defender].
Ítalo: Doutor, esse homem está mentindo, é uma fraude! Foi o meu irmão que te entregou isso, né? Ele anda fazendo de tudo para me prejudicar desde que rompemos.
Delegado: Foi o investigador Samuel Patrício sim, mas são provas verbais concretas, seu Ítalo. Ouvimos você naquela filmagem ameaçando o Natã e encontramos o atirador, que é um dos guardas do presídio, ele também está preso e disse que o homem do áudio o mandou matar Natã a seu pedido. Surpresa! Você não escapará da justiça. O senhor será levado daqui a pouco para a prisão e dentro de algumas semanas será julgado.
[O delegado chama os policiais e eles seguram Ítalo, que se debate].
Ítalo: ME SOLTA! É TUDO MENTIRA, DELEGADO, EU NÃO VOU PARA AQUELE INFERNO, NÃO QUERO IR! ME SOLTA!
[Ítalo é levado à força].
*CENA 08: Hospital | Quarto de Jenno | Manhã*
[Alguém, disfarçado, abre lentamente a porta do quarto e vê Jenno, ainda internado e sem nenhuma reação, respirando por aparelhos].
[A câmera sobe aos poucos a partir das pernas da pessoa, revelando que se trata de Alanis, vestida de enfermeira e com uma pasta preta em suas mãos. Ela se aproxima da maca de Jenno e acaricia o seu rosto].
Alanis: Chegou o seu dia de conhecer o céu, Jenno. Sou grata a você por ter me dado o Gabriel, mas você não quis mais cooperar comigo... Sou obrigada a agir assim.
[A câmera exibe o largo e maligno sorriso de Alanis. Ela para de acariciar Jenno].
Alanis: Eu te pedi algo tão simples e você recusou. Era só ter assinado um papel e passado cinquenta por cento da sua herança para o Gabriel. Mas não se preocupe, eu mesma me encarrego de te ajudar.
[Ela abre a pasta e segura a mão de Jenno, imitando a assinatura dele. Alanis o faz assinar o papel e forja o testamento, ao som de um instrumental de tensão].
Alanis (debochando): Obrigada! Jenno, Jenno... você é um homem tão esperto e ainda é enganado, até em coma. Deveria entender que não se pode confiar em nenhuma pessoa nesse planeta. Até seu advogado e o Ítalo estão comigo nessa... Você não vai dizer nada?!
[O silêncio perdura e Alanis ri da situação].
Alanis (revelando): O seu advogado eu subornei e prometi cinco por cento do que eu ganhar, além de uma sessão a mais, diria de prazer, se me entende, em troca dele falsificar esse documento. Foi tão bom, ele é super dotado, fazia tempo que não tinha uma transa daquelas. Já o Ítalo... eu e ele somos velhos companheiros, que nem vocês dois. E convenhamos? que burrice de cair no papo dele. Reconheço que o Ítalo até gosta de você, mas o dinheiro sempre vem em primeiro lugar. Ele queria se apossar totalmente da sua fortuna e da gravadora, e nós arquitetamos um golpe juntos. Mas eu não sou idiota, óbvio que ele iria tentar me enganar e querer ficar com tudo, então planejei uma surpresinha para ele. Quero que os dois partam juntos, enquanto eu e meu filho sumimos mundo afora com essa bolada no bolso. Ano que vem ele completa 18 anos, a festa tá garantida! E a sua morte também.
[O instrumental de tensão ecoa pelo cenário. Alanis se aproxima do respirador vital e o desliga. Os batimentos cardíacos de Jenno caem rapidamente, até zerar].
[Contente com o resultado, Alanis religa a máquina e se retira, sorrindo].
[Momentos depois, uma enfermeira abre a porta do quarto e repara na máquina ligada, mas sem os sinais vitais de Jenno e o monitor cardíaco zerado. Ela grita desesperada pelos médicos].
[Um deles aparece e ao entender a situação, corre até o corpo de Jenno].
Médico: Iniciar a ressuscitação!
[Ele faz massagem cardíaca na vítima e em seguida tenta reanimá-lo com o desfibrilador que a enfermeira lhe entrega].
[O profissional realiza tentativas de forma simultânea, todas sem sucesso, confirmando a morte de Jenno].
_CORTA PARA_
*CENA 09: Hospital | Manhã*
[Marcel chega ao hospital, um pouco abatido, e conversa com a recepcionista].
Recepcionista: Bom dia.
Marcel: Bom dia. Eu vim visitar o meu pai, Jenno Ortego.
Recepcionista: Ok. Vou conferir o nome do paciente. Encontrei, o senhor já veio retirar a declaração de óbito?
Marcel: Declaração de óbito? Faz dias que eu não venho visitá-lo... O MEU PAI MORREU?
[A câmera foca em Marcel confuso, sem acreditar no que ouviu].
*[A tela escurece aos poucos, enquanto sangue escorre por ela].*