Quem Foi? | Edição Especial - Capítulo 03

 


*Quem Foi? - edição especial: cap. 3*

*CENA 01: Casa de Samuel Patrício e Ítalo | Quarto de Ítalo | Tarde*

[Samuel distribui todos os maços em cima da cama de Ítalo e calcula o valor, falando sozinho].

Samuel: Trezentos mil reais. Ítalo, Ítalo, espero que você não esteja seguindo o caminho errado...

*CENA 02: Jardim | Mansão Ortego | Tarde*

[Marcel está caminhando pelo jardim de casa, enquanto lembra de alguns momentos com Leandra].

*FLASHBACK | 2018 | Quarto de Marcel | Mansão Ortego | Tarde*

[Leandra e Marcel se beijam, até que Leandra para].

Leandra: Marcel, eu preciso te dar uma notícia muito importante.

Marcel: Depois você conta, agora eu quero ficar agarradinho com você. 

[Quando Leandra está prestes a falar, Marcel beija o pescoço dela, mas ela recua].

Leandra: Para, Marcel, estou enjoada. E se seus pais nos veem eu serei demitida. 

Marcel: Desculpa, mas é que eu não quero mais ficar com você às escondidas, quero assumir logo que estamos juntos. 

Leandra: Como se o seu Jenno e a dona Thina fossem concordar com esse relacionamento... Além de tudo, eu sou cinco anos mais velha que você.

Marcel: Eles não têm que concordar ou não, a vida é minha. 

Leandra: Você tem apenas 15 anos, ainda não tem autonomia de nada na vida. E você não vai escapar daquele assunto, outra hora nós resolvemos.

[Leandra sai do quarto].

*FLASHBACK | 2018 | Quarto de Marcel | Mansão Ortego | Manhã* 

[Leandra e Marcel discutem. O assunto é sério].

Marcel: Isso não podia ter acontecido, Leandra. Eu sou muito jovem para ser pai. Tenho muitos planos pra minha vida e não vai ser uma criança que vai estragar tudo. 

Leandra (chocada): Você é um egoísta, Marcel! Não sei como pude me deixar envolver por um pirralho imaturo como você. Mas não precisa se preocupar, eu vou cuidar dessa criança sozinha!

Marcel (frio): Não, porque essa criança não vai nascer. Devem existir ótimas clínicas clandestinas de aborto aqui em São Paulo, irei procurar uma e te levo lá.

Leandra (segurando o choro): Eu só vou perder essa criança se eu sofrer um aborto espontâneo ou se você me matar, e eu duvido que tenha essa coragem.

Marcel: Se for preciso, mato. Só sairei prejudicado com essa criança.

Leandra (magoada): Prejudicado como se não irá assumir?! Eu não preciso de você, não quero que cumpra com as suas obrigações. Eu e meu filho iremos sofrer inicialmente, mas eu vou saber dar a volta por cima! Esqueça que algum dia nos envolvemos, porque nesse instante deixo de trabalhar aqui. Vou guardar minhas coisas.

[Um instrumental de tensão começa a tocar. Leandra dá as costas para Marcel e bate a porta fortemente, deixando-o sozinho]. 

*Fim dos flashbacks*.

[Marcel limpa uma lágrima que insiste em cair e segue pensativo].

*CENA 03: Presídio | Sala de Visita | Tarde*

[Ítalo, sentado, aguarda um preso. O detido é conduzido e solto das algemas pelo agente penitenciário. Ítalo e ele se encaram e o agente se distancia].

Ítalo: Por que você me chamou, Natã? Eu não posso me arriscar vindo aqui, você sabe.

Natã: Relaxa, seu irmão não vai ser informado... Se você cumprir o nosso acordo. Ou você me paga o dinheiro que me prometeu há anos e viabiliza a minha fuga, ou o grande Samuel Patrício vai descobrir que o maninho é um bandido que me contratou de laranja para comprar uma certa substância ilícita... 

Ítalo: No momento crítico em que você se encontra, vai realmente me chantagear? Ok, conta tudo pro Samuel. Ele não vai acreditar. EU SOU IRMÃO DELE, minha palavra sempre será a mais prezada.

Natã: Não cante vitória antes do tempo, sua máscara cairá um dia. O que você fez com aquele dinheiro?

Ítalo: Está bem guardado. Eu até poderia usá-lo para te tirar daqui, mas você não é mais réu-primário. O que lhe resta é aceitar a sua pena.

Natã: Isso não vai ficar assim. Mais cedo do que você imagina eu sairei desse inferno e vou me esconder fora do país. Só que antes eu te mato e recupero o meu dinheiro!

Ítalo: Experimenta. Depois do que eu falei, quero ver você tentar. 

[Ítalo chama o carcereiro e sai. Em outro take, ele está fora do presídio e entra no carro, falando ao telefone]. 

Ítalo: Eu não quero saber, é uma ordem! E para amanhã. Vou te passar os contatos... É séria essa pergunta? Você é burro, hein. No país em que vivemos você consegue tranquilamente um celular e conquista mais regalias na prisão do que estando em liberdade... Vou voltar para São Paulo agora... Ok, tchau.

*CENA 04: Casa de Natuza | Tarde*

[A câmera cerca uma residência comum e florida e mostra, através de uma janela, uma senhora e uma criança brincando, até a campainha tocar].

[Eles pausam a brincadeira e Natuza atende a porta, dando de cara com Marcel].

Marcel: Como vai, Natuza?

[A câmera alterna entre o choque de Natuza e Marcel a encarando].

*CENA 05: Casa | Tarde*

[Pedro espera impacientemente encostado na parede, atrás da porta, por Israel].

[A porta se abre e ilumina um pouco o ambiente. No calor do momento, Pedro sobe por cima de Israel e lhe dá um mata-leão, o impossibilitando de se defender. Israel, no susto, tenta atirar nele, mas erra. Pedro consegue desarmá-lo e dá uma coronhada no marido, fazendo-o desmaiar na hora].

[Pedro observa Israel].

Pedro (frio): Eu poderia te matar agora, já que você está desmaiado. Mas eu não sou um assassino feito você. Vou deixar os tribunais determinarem o seu destino... Até nunca mais.

[Um instrumental de suspense toca, enquanto Pedro foge, levando a arma consigo].

*CENA 06: Casa de Natuza | Sala | Tarde*

Marcel: Não vai me convidar para entrar?

Natuza (nervosa): Leônidas, vá para o seu quarto e tranca a porta, por favor. A vovó não vai demorar.

[Leônidas obedece e vai para o quarto. Natuza acena com a mão para Marcel entrar].

Natuza (irônica): Quem diria... Acho que estou vendo o seu fantasma, vi nos jornais que você "morreu". Muito irregular a sua armação e daquela família alienada, só quem não os conhece bem pra acreditar. Aposto que um de vocês matou o Marcelo. 

Marcel: Corta essa. Eu vim aqui para buscar o MEU FILHO! Eu sei que sou o pai daquele garoto.

Natuza: Você é muito abusado, moleque! Dentro da minha casa você não é ninguém. O Leônidas sabe que não foi desejado e escolheu não querer conhecer o pai biológico. Você perdeu, Marcel. Ah, como eu queria que o meu ex-enteado prendesse você e o seu tio pelo assassinato da minha filha... Mas não posso provar e ele não os conhece, errei por não ter falado a verdade! A Leandra só contava a vida dela para mim.

Marcel: Quantas lamúrias, eu que deveria me lamentar, eu amava a Leandra. Quem matou ela foi o Israel. Não sei qual o motivo, mas eu vou descobrir. Só que isso não vai me fazer renunciar dos meus direitos de pai, e eu vou abrir um processo de guarda. 

Natuza: Legalmente eu sou a tutora do Leônidas. Se você abrir um processo contra mim, eu te denuncio por abandono afetivo, esse crime eu consigo comprovar. Olha, vá embora, por favor, seus argumentos acabaram e não me convenceram nem um pouco.

Marcel: Tudo bem. Depois não reclame na hora que perder a batalha judicial. Eu tentei pegar o meu filho pacificamente e você não quis. NÃO QUIS!

[Marcel abre a porta e sai da casa. Leônidas, ao perceber que Marcel foi embora, sai correndo do quarto e abraça Natuza].

Natuza: Isso, só me abrace.

[Natuza solta o neto. Ela pega o celular sobre a mesa e liga para Samuel. A ligação não é atendida].

*CENA 07: Casa | Tarde*

[Israel lentamente desperta, confuso, com uma mão na cabeça e reclamando de dor. Ele estranha a porta estar aberta e levanta se apoiando em um móvel].

Israel: Cadê minha arma?... AH, PEDRO SEU DESGRAÇADO! Você me paga!

[Israel sai da casa]. 

[O dia anoitece]. 

*CENA 08: Casa de Samuel Patrício e Ítalo | Sala | Noite*

[Samuel está assistindo televisão, com um olhar frio e um saco preto ao lado. Minutos depois, Ítalo abre a porta e sorri para Samuel].

Ítalo: Boa noite, irmão... Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?

Samuel: Não, mas vai acontecer. Me explica o que é isso aqui.

[Samuel joga o saco preto para Ítalo. Ele pega e se choca ao abri-lo e ver o dinheiro]. 

Ítalo: Você mexeu nas minhas coisas?

Samuel: Sim. E vejo que fiz o certo. Por que você guarda trezentos mil reais em espécie dentro de casa, Ítalo? 

[A câmera registra a reação de Ítalo, pressionado].

Samuel: Responda, Ítalo. Não faz sentido você guardar tanto dinheiro em casa se vivemos bem e temos uma conta no banco. Me diga que não é o que estou pensando.

Ítalo: Isso não lhe diz respeito, Samuel. Eu administro o meu dinheiro da forma que eu quiser. Você é investigador, mas não da minha vida.

Samuel: É por servir à polícia que eu me atento às coisas. Não esconda mais fatos desse porte de mim ou eu vou perder a confiança em você...

Ítalo: Não precisa disso. Esse dinheiro é uma reserva emergencial, nunca se sabe o dia de amanhã. E antes que faça essa pergunta, sim, está declarado pela Receita Federal. Agora vou guardar, com licença.

[Ítalo coloca os maços de volta no saco preto e vai para o seu quarto. Samuel o olha, desconfiado].

*CENA 09: Presídio masculino | Manhã*

[Um sinal toca. Os detentos saem de suas celas e caminham em filas para o pátio, incluindo Natã].

[De repente, os presos começam a brigar entre si e com os agentes, ocasionando um confronto generalizado com direito à tiros].

Natã: Meu Deus!

[Natã tenta fugir, mas as movimentações e o tiroteio o atrapalham].

[A câmera foca em um dedo sobre o gatilho de um rifle de caça, prestes a atirar. Após alguns segundos, o tiro é disparado]. 

[Ele alveja as costas de Natã. Todos param].

[Os homens cercam o corpo de Natã, que está no chão, sob uma poça de sangue. A câmera eleva a altitude e mostra os agentes abrindo espaço, constatando a morte do presidiário].

*CENA 10: Mansão Ortego | Sala | Manhã*

[Thina caminha pela sala, bebendo uísque, apreensiva. Ela recebe uma notificação de e-mail no celular]. 

Thina (estranhando): E-mail e destinatário desconhecido...

[A câmera exibe, próxima e oscilando, as fotos de Jenno e Ítalo aos beijos e a fúria de Thina, ao som de um instrumental de tensão].

Thina (aumentando a voz): Babaca... traíra... HIPÓCRITA!

[Thina atira o copo contra a parede e o faz quebrar em vários pedaços. O instrumental se abafa ao mostrar o seu olhar, tempestuoso].

[Thina quebra alguns objetos à sua vista, aos gritos].

[Ao mirar o olhar para um porta-retrato, com a foto do dia do seu casamento, ela joga os sapatos contra, derrubando tudo. Ela senta no sofá, chorando, para tentar se acalmar]. 

Thina (falando baixo/chorando): Miserável...

[Marcel entra em casa, e, ao enxergar a crise de Thina, abraça a mãe, tentando reconfortá-la]. 

Marcel: Mãe... mãe, por que você fez isso? O que aconteceu?

Thina (falando baixo/chorando): Seu pai me trai, meu filho... com o sócio dele. Esse homem esteve no velório do meu filho, me apoiou no meu momento mais vulnerável e agora descubro que os dois me apunhalaram pelas costas. 

[Marcel fica sem palavras].

Marcel: Eles foram cruéis com você. Marcelo e eu desconfiávamos que esse casamento tinha enfraquecido, mas não imaginávamos que meu pai faria isso.

Thina (se acalmando): Eu farei pior...


*CENA 11: Gravadora Áurea | Sala de Ítalo | Tarde*

[Ítalo está em sua cadeira, contente].

Ítalo: Que maravilha, um estorvo a menos. Passe na gravadora Áurea ao final do dia, será bem recompensado.

[Ítalo encerra a chamada. Ele ri e volta a trabalhar].

*CENA 12: Mansão Ortego | Sala | Noite*

[Thina aguarda a chegada de Jenno, com algumas malas no chão].

[Minutos depois, Jenno chega].

Jenno: Por que essas malas estão aqui? O Pedro e o Gabriel vão retornar para a Argentina? 

Thina: Não, você quem vai retornar, mas para a sarjeta. Não está reconhecendo? São suas malas, fiz questão de prepará-las, pensando em você e no Ítalo Ferreira. Desapareça, Jenno. SUMA dessa casa e da minha vida, nosso relacionamento chegou ao fim. VAI!

[Thina mantém uma postura firme, para espanto de Jenno].

Jenno (tentando mentir): O que deu em você, Thina? Eu não tenho um caso com o Ítalo, nunca teria, ele é apenas meu sócio!

Thina: Eu recebi fotos de vocês se beijando, claramente vindas do Israel. Já entreguei todas ao nosso advogado, ele vai abrir o processo de divórcio por traição! Você nunca soube disfarçar, faltava só eu descobrir o nome do indivíduo e ter uma evidência concreta. O que mais me dói é saber que você teve a ousadia de levar o seu amante para eu conhecer no enterro do nosso filho. Ele me consolou, Jenno... Há quanto tempo vocês estão juntos? Desde a fundação da Áurea? 

[Jenno fica calado]. 

Thina: Perdeu a voz, Jenno? CONFESSA!

Jenno (firme): Confesso. Quer mesmo saber a verdade? Você é BURRA, Thina, é cega, uma acomodada, nasceu para ser uma dona de casa sustentada por mim, pelo próprio pai e a herança dele. Essa casa nem era sua. Eu consegui esconder o Ítalo de você todo esse tempo, mesmo ele sendo praticamente dono da minha empresa. Eu conheci o Ítalo no karaokê de um bar, anos atrás.

FLASHBACK | 2008 | Vila Madalena | Bar

[Jenno e Ítalo, mais jovens, estão sentados no balcão do bar].

Jenno: Parceiro, me veja uma lagoa azul, por favor.

Ítalo: Vou acompanhá-lo, me dê uma também, por favor.

Jenno: Perdão, mas eu te conheço?

Ítalo (avançando): Não, mas se quiser conhecer melhor, estou à disposição. Sou Ítalo Ferreira, prazer.

Jenno: Prazer. Sou Jenno Ortego.

Ítalo: Jenno Ortego? Que nome e sobrenome exóticos!

Jenno (rindo): Coisa dos meus pais, foi uma homenagem póstuma para o meu avô paterno, que se chamava Jean. E para evitar repetição, trocaram as duas últimas letras. O nome do meu irmão mais velho é Israel, brinco com ele às vezes por ser nome de um país asiático.

Ítalo (rindo): Gostei da criatividade.

[Jenno (narrando): Depois eu o convidei para cantar karaokê comigo. Já não estávamos mais totalmente sóbrios.]

[Jenno e Ítalo terminam de cantar, bêbados e saem do bar].

[Jenno (narrando): E mais tarde ofereci uma carona. Ainda estava mais lúcido que o Ítalo.]

[Jenno para o carro em frente ao prédio de Ítalo].

Jenno: Chegamos. Você mora sozinho?

Ítalo: Não, moro com o meu irmão. Uma pena ele estar em casa, poderíamos curtir muito essa noite...

[Ítalo acaricia o rosto de Jenno].

Ítalo: Você gosta de homem, Jenno?

Jenno: Sim, sou bissexual. Mas sou casado, pai de família...

Ítalo: Sabe, eu podia te fazer feliz...

Jenno (confuso): Eu...

Ítalo: A sua mulher não precisa saber...

[Ítalo beija Jenno, que pensa em relutar, mas logo corresponde].

*Fim do flashback.*

Jenno: No começo eu me arrependi de ter te traído, mas o tempo foi passando, continuamos a nos encontrar e nos aliamos para criar a Áurea dois anos depois. O Ítalo é um homem lindo, inteligente e fascinante, ao contrário de você, que é tão fácil a ponto de ser sem graça.

[Thina, irada, dá um tapa na cara de Jenno. Ela tenta agredi-lo novamente, mas tem o braço segurado pelo marido, que a empurra no sofá]. 

Jenno: Nunca mais encoste em mim, essa foi a primeira e última vez! Finalmente o pesadelo que é estar com você acabou, posso assumir o meu amor pelo Ítalo, sem covardia. Nos vemos no tribunal, amor.

[Jenno ri. Ele apanha as suas coisas e se retira de casa]. 

[Após Jenno fechar a porta, Thina a tranca e senta no chão, encostada na porta, controlando-se para não ter outro surto].

*CENA 13: Quarto de Gabriel | Mansão Ortego | Noite*

[Gabriel está deitado, mexendo no celular. Alguém bate na porta].

Pedro: Gabriel?

Gabriel: Pedro!

[Pedro e Gabriel se abraçam].

Gabriel: Onde você estava? Com o Israel?

Pedro: Sim, ele me prendeu... Eu consegui fugir, mas foi uma luta pra conseguir voltar pra cá.

Gabriel (chateado): Pedro, eu sinto muito. Não reconheço mais o meu pai, começo a ter vergonha de ser filho dele...

Pedro: Não é culpa sua. Vou falar com a Thina e pedir para ela me acompanhar amanhã na polícia, vou denunciar o Israel pelo meu sequestro. Quer ir conosco?

Gabriel: Não, prefiro ficar aqui, não suporto mais essa teia de crimes, mentiras... Torço pra que meu pai seja preso o mais rápido possível.

Pedro: Ele precisa pagar pelos crimes que cometeu, por mais que nos doa. Não se preocupe, sempre estarei contigo.

[Eles sorriem].

[O dia amanhece].

*CENA 14: Delegacia | Manhã*

[Pedro, acompanhado de uma apática Thina, espera para falar com o delegado].

[Samuel, maquiado como se estivesse cortado e com um olho inchado, caminha mancando. Ele senta ao lado de Thina e Pedro].

Pedro (preocupado): Oi. Não é melhor o senhor ser encaminhado para o hospital? Você está quase desfigurado, o que aconteceu?

Samuel (atuando/chorando baixo): Já fui, estou tomando remédios desde ontem.... O meu namorado fez isso, por uma crise de ciúmes. Ele é um covarde, sempre me desvalorizou e eu o aguentei por meses, na esperança de que ele mudaria.

Pedro (chocado/emocionado): Que triste, eu entendo perfeitamente a sua situação... Espero que o senhor fique bem logo.

[O delegado chama Pedro].

Pedro: Licença, tenho que entrar. 

[Ele vai para a sala].

Samuel (pensando): Acertei em cheio o ponto fraco do Pedro, será mais fácil do que eu pensava.

*CENA 15: Sala do Delegado | Delegacia | Manhã*

Pedro: Doutor, eu quero denunciar o Israel Ortego por mais um crime, ele me raptou e me manteve em cárcere privado.

Delegado: Essa arma que o senhor trouxe é dele? Como conseguiu desarmar o Israel e escapar, seu Pedro?

Pedro: Eu o peguei de surpresa e dei uma coronhada nele. Ele desmaiou e peguei a arma, penso que possa ser a mesma que ele utilizou para matar o Marcel Ortego.

Delegado: Levaremos imediatamente para a perícia. Ela está descarregada?

Pedro: Provavelmente, não.

Delegado: Nos próximos dias receberemos o resultado. E registramos a sua denúncia, Pedro, qualquer coisa você será avisado. O seu esposo está se complicando cada vez mais com a justiça. 

Pedro: Obrigado.

[Pedro cumprimenta o delegado e sai da sala].

[Pedro estranha o fato de o homem com quem conversou não estar mais no local. Ele pergunta para Thina se ela viu o homem, mas a mulher parece não estar prestando muita atenção em nada. Eles saem da delegacia].

*CENA 16: Mansão Ortego | Manhã*

[Gabriel está do lado de fora, caminhando para o portão. Ele o abre e entra dentro de um táxi].

Gabriel (ao telefone): Já estou no táxi, em meia hora estou na rodoviária. Você já desembarcou?... Tudo bem, até daqui a pouco... Também te amo, mamãe.

[Gabriel sorri e encosta a cabeça no vidro, olhando as ruas].

_CORTA PARA_

[A câmera mostra um ônibus entrando dentro da rodoviária. Ele passa pelo guichê e desembarca na plataforma]. 

[Uma pessoa levanta, com suas poucas bagagens].

Alanis: Voltei, São Paulo! E para ficar.

[Alanis anda pela rodoviária e se aproxima do ponto de táxis, à espera de Gabriel].

[Em poucos minutos, ele chega. Gabriel e a mãe se abraçam fortemente].

Gabriel: Achei que nunca mais ia te ver pessoalmente. A senhora finalmente vai poder me explicar toda a sua história com o Israel?

Alanis: Em outro lugar. Eu conheço hotéis ótimos por aqui, vou me hospedar em um. Esse rapaz nos leva e mais tarde você retorna para a mansão.

[Eles seguem viagem].

*CENA 17: Padaria | Manhã*

[Thina e Pedro estão numa padaria, conversando].

[Fora, está Samuel, em seu carro, vigiando os dois, ainda maquiado. Ele sai do carro, entra no estabelecimento e vê Pedro e Thina, fingindo surpresa. Pedro acena e Samuel vai ao encontro deles, encenando].

Pedro: Que coincidência te encontrar. Por que você saiu da delegacia sem fazer a denúncia?

Samuel: Não consegui. Eu terminei com meu namorado, mas tenho medo que ele me mate se eu o denunciar.

Pedro: Isso não vai acontecer! Se quiser, eu posso te acompanhar e apoiar...

Samuel: Eu ace-

Thina (ríspida): Pedro? Moço, perdão pela inconveniência, mas o que você quer? Conheceu o Pedro por acaso minutos atrás e já está forçando intimidade?!

Pedro: Thina...

Samuel: Desculpe, mas é que estou me sentindo só, mais do que já sou. O meu namorado era a minha única companhia na cidade, meus familiares moram longe, e o Pedro se preocupou comigo, fiquei tocado com a atitude dele.

Pedro: Você vai encontrar alguém melhor que ele. Não ligue para a Thina, ela é muito desconfiada. Me diga o seu número, faço questão de manter contato contigo e te ajudar!

[Eles continuam conversando, apesar do olhar julgador de Thina]. 

*CENA 18: Hotel | Manhã*

[Alanis e Gabriel se abraçam outra vez]. 

Gabriel: Mãe, eu queria que você explicasse o seu envolvimento com o Israel desde o começo, a senhora explicava superficialmente quando falávamos por telefone.

Alanis: Vejo que isso te inquieta mesmo. Bom, nos conhecemos em um show, dezenove anos atrás. Ele era mulherengo e debochado, mas muito charmoso e atraente. Ficamos no primeiro dia e fomos nos conhecendo melhor, até eu ser pedida em namoro e convidada para morarmos juntos, na casa que ele tem na zona Sul. Mas depois que isso aconteceu, ele ficou amargo, frio e começou a me violentar psicologicamente. Quando descobriu que eu estava grávida, ele continuou a me ameaçar e alegou que me mataria depois que você nascesse. E eu fui obrigada a te deixar por isso, logo após o seu nascimento.

[Gabriel se emociona].

Alanis: Eu me arrependo disso, mas se eu tivesse permanecido com vocês talvez eu nem estivesse viva agora para poder te ver. Eu não te abandonei completamente, sempre te observei de longe.

Gabriel: Mãe, não se explique tanto. O Israel é um monstro, a cada dia ele dá mais provas disso.

Alanis: Você sabe dele?

Gabriel: Ele está naquela casa que você comentou.

Alanis: Então está na hora de nos reencontrarmos. Mais tarde darei esse agradável presente a ele.

*CENA 19: Casa de Natuza | Sala | Manhã*

[Natuza está limpando a casa, quando a campainha toca. Ela se emociona ao abrir a porta e ver que é Samuel. O abraço entre eles é puro e recíproco].

Natuza (emocionada): Que bom te rever, meu amor, fiquei preocupada. E o Ítalo? Não quis vir com você? 

Samuel: Não falei para ele que ia vir aqui. Eu estava passando por perto e decidi matar as saudades, fazia três semanas que não nos víamos.

Natuza: Pois é, eu te liguei e você não me atendeu.

Samuel: Sério? com tanta coisa pra fazer acabei não vendo. Qual foi o motivo da ligação, você só costuma fazer isso em casos específicos. Aconteceu algo? 

Natuza: Sim... Samuel, eu peço que você tente entender o meu lado, por favor. Estou carregando essa história desde antes da morte da Leandra e não te falei ou denunciei para a polícia porque não tenho provas. Mas depois que ele veio me visitar fiquei aterrorizada, pelo Leônidas. 

Samuel: Quem veio aqui, Natuza?

Natuza: O... O Marcel Ortego!

[O pico do instrumental de tensão toca na hora, mostrando a surpresa de Samuel]. 

Samuel (chocado): O Marcel? MAS ELE NÃO ESTÁ MORTO?

Natuza: Não. Ele veio buscar o Leônidas... O Marcel é o pai dele. E eu suspeito que foi ele ou o tio dele que matou a minha filha.

[A câmera foca a perplexidade e a raiva de Samuel diante da notícia, enquanto o instrumental toca cada vez mais alto ao fundo].

*[A tela escurece aos poucos, enquanto o sangue escorre por ela].*