Yemanjá - Segundo capítulo

 



*YEMANJÁ - Capítulo 2*


*_(Cena 01/Casa de Raíssa/Quarto/Interior/Noite)_*


Raíssa se encontra assustada, ao pé da cama. Vitória se espanta com o rosto apavorado de sua filha. 


VITÓRIA (APREENSIVA): Raíssa?! O que houve?! O que aconteceu?!


Raíssa começa a chorar. 


RAÍSSA (CHORANDO): Eu não sei, mãe… Eu senti um enjoo muito forte e de repente… Que sensação horrível!


VITÓRIA (NERVOSA): Mas olha só pra isso… Você botou água pra fora e muito! 


Vitória se aproxima de Raíssa e verifica sua temperatura.


VITÓRIA (PREOCUPADA): Com febre você não tá…


RAÍSSA (CHORANDO): Eu tava muito bem durante o dia todo… Não faço ideia de onde esses sintomas vieram…


VITÓRIA (APREENSIVA): Calma, filha! Muita calma nessa hora! Pare de choro! Tudo isso deve ser por causa do dia agitado que você teve. Foi muita emoção. Peraí que eu vou ali buscar um chazinho que faz bem pra barriga. Aguenta aí que eu volto já!


Vitória vai rápido para a cozinha. Raíssa continua abalada com o mal estar. 


*_(Cena 02/Praia/Exterior/Dia)_*


A câmera mostra a virada da noite pro dia ao som de um instrumental da música “Caminhos do Mar (Gal Costa)”. Um canto suave feminino vibra aos quatro cantos. Logo depois um pequeno barco usado para se fazer oferendas é jogado pelas ondas na areia. Dentro dele há uma flor branca tão vívida que passa a impressão de que fora colhida há pouco tempo. Em seguida o vento se encarrega de levá-la. As suas pétalas voam longe em direção aos prédios da cidade. 


*_(Cena 03/Casa de Raíssa/Cozinha/Interior/Dia)_*


Raíssa se senta na mesa.


RAÍSSA: Bom dia, mainha!


VITÓRIA: Bom dia, minha flor! Tá melhor?


RAÍSSA: Estou sim. Acho que passei mal por ter comido pouco ontem.


VITÓRIA: Pois então tome café, viu? Não quero filha minha fraca pelos cantos aí não!


RAÍSSA (RINDO): Eu vou sim.


VITÓRIA: Você sabe que quando a gente tem, a nossa família não nega comida pra ninguém…


RAÍSSA: E se depender de mim, essa fartura vai continuar sempre, mãe. 


VITÓRIA: Ai, que o orixá te ouça, filha!


Vitória vai até o quarto de Henrique. 


VITÓRIA (GRITANDO): Henrique! Henrique! Acorda, menino! Abre essa porta!


RAÍSSA: A que horas ele chegou?


VITÓRIA: Mas é isso mesmo que eu quero saber! Eu não vi ele chegar.


*_(Cena 04/Cemitério/Exterior/Dia)_*


Henrique abre os olhos e se depara com um pombo pousado em cima dele.


HENRIQUE (GRITANDO): Ah, mas que desgraça é essa, maluco?! 


Ele se levanta rápido. O pombo bate as asas. 


HENRIQUE (GRITANDO): Ah não, mano… Que mancada! Eu tô todo sujo com merda de pombo! Ó paí! Num diga isso a ninguém não!


Henrique olha pros lados.


HENRIQUE: Cadê todo mundo? Me abandonaram aqui de novo?! Belos parças esses que eu tenho, viu? Vou te contar…


O sujeito sai correndo do local. Um funcionário dali nota a ação mas permanece isento. Na sequência ele se aproxima do túmulo próximo de onde Henrique estava deitado e percebe algo esquisito jogado no chão.


COVEIRO (PENSAMENTO/CHOCADO): Não pode ser… Eu não acredito no que eu tô vendo. 


O trabalhador toma coragem e agarra o objeto que se assemelha a uma carcaça de ossos de um ser humano. 


COVEIRO (COM MEDO): Meu Deus do céu…


O coveiro joga a ossada de volta no chão. Rapidamente ele corre até uma das covas e nota que há marcas de escavamento na mesma.


COVEIRO (CHOCADO/SÉRIO): Minha Nossa Senhora! Que pecado…


A câmera foca na reação estática do homem. Um instrumental de suspense compõe a cena.






*_(Cena 05/Colégio Expoente/Diretoria/Interior/Dia)_*

Rosalba bate na porta e entra.

ROSALBA: Posso entrar, diretor?

CORNÉLIOS: Já entrou…

Rosalba se irrita. 

ROSALBA (SÉRIA): Eu estou aqui pra pedir minha demissão.

CORNÉLIOS: Ela já está pronta.

Cornélios abre uma gaveta da mesa e retira uma pasta. Rosalba se choca. Ela recebe o documento.

ROSALBA (INTRIGADA): Mas… Mas… Mas como você fez tem a coragem de me despedir sem o meu consentimento?!

CORNÉLIOS (SÉRIO): E precisava? Depois do ocorrido de ontem eu achei que não havia mais o que fazer sobre sua permanência na escola.

ROSALBA (SURPRESA): O quê?! Mas como?! Você não poderia ter agido dessa maneira!

CORNÉLIOS (SÉRIO): Como assim, Rosalba? Não era você quem estava querendo ir embora daqui?!

ROSALBA (GRITANDO): Sim, Cornélios! Eu realmente estou pensando em deixar minha profissão, mas achei que você fosse ter mais compreensão, fizesse um esforço pela minha pessoa… Vai me botar na rua assim sem mais nem menos?!

CORNÉLIOS (SÉRIO): Acontece que eu já estou farto de dar bronca, puxar a orelha, aplicar castigo em cima desses pivetes, sabe? Chega! A partir de agora eu vou agir totalmente diferente. Só se consegue outros resultados se tentarmos coisas novas…

ROSALBA (GRITANDO): Eu não tô acreditando que eu tô ouvindo isso, Cornélios! Então você acha que a culpa da fanfarra daqueles moleques é porque eu não estabeleço uma moral em cima deles, é isso?!

CORNÉLIOS (SÉRIO): Olha… Se formos analisar bem, a maioria das infrações ocorre durante suas aulas…

Rosalba fica vermelha de raiva. Ela se levanta e se aproxima da saída. 

ROSALBA (SÉRIA/GRITANDO): Sabe de uma coisa, Cornélios? No final de contas, o Rato nunca mentiu quando disse que você é um tremendo de um corno!

Rosalba pinota ao sair. Cornélios fica roxo de vergonha e olha para ver se ninguém havia ouvido aquilo. Após isso, retorna à sala e passa as mãos em sua cabeça, ressentido.

_*(Cena 06/Colégio Expoente/Pátio/Exterior/Dia)*_

Rosalba corre pelos corredores, devastada. Ela enxuga as lágrimas escorridas pelo rosto. Ela passa pelo portão, vai em direção ao seu carro e se escora no mesmo.

ROSALBA (PENSAMENTO/CHORANDO): O que será de mim agora? Eu nunca mais vou ser contratada por nenhuma escola! O Cornélios vai manchar a minha imagem para todos os conselhos escolares do Brasil…

Rosalba levanta a cabeça e se depara com Raíssa se aproximando da mesma.

RAÍSSA: Oi! Bom dia! Tudo bem? A senhora poderia me passar uma informação?

Rosalba fixa o olhar em Raíssa sem nada dizer, como quem está sem entender.

*_(Cena 07/Casa de Raíssa/Sala/Interior/Dia)_*

Henrique passa em alvoroço pela porta. Vitória se espanta com o barulho. O jovem tenta correr até o quarto, para não ser visto.

VITÓRIA (GRITANDO): Ei, moço! Volte aqui! Venha cá! 

A matriarca o puxa pela gola da camisa. 

HENRIQUE (GRITANDO): Ai, mainha! O que que foi?!

VITÓRIA (GRITANDO): Você vai me dizer e é agora onde foi que você tava que me desapareceu ontem de manhã e só voltou agora! 

Henrique fica ainda mais desconfortável.

VITÓRIA (NERVOSA): Eu queria dizer outra coisa, mas com essa tua atitude não tem como não pensar… José Henrique, tu tá metido com droga?

O rapaz treme ao ouvir aquilo.

*_(Cena 08/Colégio Expoente/Pátio/Exterior/Dia)_*

Raíssa se sente incomodada com o olhar de Rosalba.

ROSALBA (INTRIGADA): Mas quem você tá pensando que é, hein, garota, pra me tratar assim?!

RAÍSSA (CONFUSA): Desculpa! Eu fiz algo de errado?!

ROSALBA (GRITANDO): Fez, fez sim! Me chamar de senhora… Vê se pode! E eu sou lá uma idosa pra você se referir a minha pessoa dessa forma?!

RAÍSSA (ENVERGONHADA): Desculpe, eu não tive a intenção de falar em tom de etarismo. 

ROSALBA (INTRIGADA): Todos dizem isso, mas no fundo desdenham só porque tenho umas ruguinhas a mais no rosto. 

RAÍSSA (ENVERGONHADA): Olha, desculpa, por favor, senh… Senhorita.

ROSALBA (GRITANDO): Está vendo só! Tá vendo só!

RAÍSSA: Desculpa mesmo! É que pra mim falar senhor ou senhora é uma forma educada pra se referir às pessoas mais…

ROSALBA: Pessoas mais velhas, né?

RAÍSSA: Sim, mas não é querendo te diminuir. Eu apenas vi você aqui em frente a esta escola e pensei que pudesse me dizer se estão contratando professores novatos, somente isso.

Rosalba entra no carro e fecha os olhos.

ROSALBA (PENSAMENTO): Meu Deus! Isso só pode ser carma daquele chifre que eu dei…

ROSALBA (FALANDO ALTO): Tem, tem sim! Tem uma professora que acabou de ser demitida... 

Raíssa fica levemente contente.

ROSALBA: Eu conheço o diretor. Se você for se candidatar ao cargo, diga por favor que foi uma recomendação da querida amiga dele, Rosalba.

A ex-professora dá partida no veículo. 

ROSALBA (GRITANDO): Um beijo, bonequinha!

O carro sai em alta velocidade. Raíssa o acompanha com olhar indiferente.

RAÍSSA (PENSAMENTO): Mulherzinha maluca…







*_(Cena 09/Casa de Raíssa/Sala/Interior/Dia)_*

VITÓRIA (GRITANDO): Vai, Henrique! Me responde, garoto! O que tu tá fazendo da tua vida?! Não machuca a tua mãe desse jeito!

HENRIQUE (GRITANDO): Não é nada, mãe! Eu já te disse várias vezes isso. Meu rolê é com os meus amigos, e a gente só consome no máximo álcool…

VITÓRIA (GRITANDO): Mas e onde foi que você tava, menino?! Não é normal alguém viver no meio do mundo igual tu vive…

HENRIQUE (GRITANDO): Ai, mãe, me erra! Tava só farrando com meus manos! Me deixa em paz!

Henrique entra e se tranca no quarto. Vitória enche o peito de preocupação. 

*_(Cena 10/Colégio Expoente/Sala de Aula/Interior/Dia)_*

Renê adentra no local.

RENÊ: Bom dia, turma!

MARCELINA: Bom dia, prof! Como o senhor está hoje?

MAURO (COCHICHANDO): Ih, alá! O cara é pai dela, mas ainda assim tem que babar o ovo...

FELIPE (COCHICHANDO): Pois é! Essa cagueta só pensa em aparecer…

RENÊ: Vou bem. E vocês?

MARCELINA: Ah, muitíssimo bem, prof! Principalmente agora que aquele sem noção do Rato foi suspenso da escola…

RENÊ: Ele foi suspenso?!

MARCELINA: Sim…

RENÊ (SÉRIO): Isso não me cheira bem…

*_(Cena 11/Colégio Expoente/Pátio/Exterior/Dia)_*

Rato empilha latas de lixo apoiadas no muro da escola.

RATO: Quem foi que disse que o pai aqui não vai pra aula hoje, hein?!

Ele veste um capuz sobre sua cabeça, põe óculos escuros e boné. Em seguida, vai escalando até chegar em cima da cerca. Após isso, ele faz uma varredura. É possível ver Raíssa ultrapassando o portão e andando pelos corredores. 

RATO: Mas quem que é essa doida aí?!

*_(Cena 12/Colégio Expoente/Diretoria/Interior/Dia)_*

Cornélios organiza uma papelada. A porta se abre.

RENÊ: Com licença, diretor…

CORNÉLIOS (ESTRESSADO): Eu não quero falar sobre esse assunto agora, estou muito ocupado. 

RENÊ: Mas que assunto?

CORNÉLIOS: Ora, que assunto?! Da Rosalba, sua esposa.

RENÊ: O que aconteceu com a Rosalba?!

CORNÉLIOS: Ai! Não se faça de sonso…

RENÊ: Olha, Cornélios, eu acho que às vezes você tem um tratamento muito peculiar aqui nesta escola…

CORNÉLIOS (COM RAIVA): Eu já disse que estou ocupado, não quero ouvir sermão de ninguém!

RENÊ: Não, porque pra chegar ao ponto do que chegou com o Rato, alguma coisa muito errada no corpo docente deve ter acontecido…

CORNÉLIOS (GRITANDO): Não me fala no nome desse ser! Acho que todo o azar que tem racaído sobre mim é por culpa desse marginal! Eu só o aturo porque os pais dele desembolsam uma boa grana pra manter ele estudando aqui, porque se não fosse por isso eu, eu não queria ver esse demônio nem se ele viesse pintado de ouro pra escola!

RENÊ: O senhor acha que o Rato tem algo tão diabólico assim possuindo o corpo dele?

CORNÉLIOS: Rato! Rato! Isso lá é nome de gente!

VOZ (GRITANDO): RATO!

Os dois se olham surpresos com o som. Ambos se retiram para ver de onde vem.

_*(Cena 13/Colégio Expoente/Pátio/Interior/Dia)*_

De repente, é possível ver uma correria no local. Os alunos começam a gritar. Renê e Cornélios tentam entender o que se passa. Marcelina se aproxima deles.

MARCELINA: Diretor Cornélios! Papai! Vocês não vão acreditar… O Rato tá botando fogo na escola.

Os dois se chocam com o que é dito. Renê corre para socorrer os alunos. Minutos depois o alarme de incêndio é disparado e chove água por todo o prédio. Um batuque de tambor toma conta da cena acompanhado de um instrumental de barulho do mar. Raíssa percebe a movimentação e se assusta com o desespero dos estudantes. Ela passa por uma das salas do corredor e nota que há uma pessoa lá dentro juntamente de um rastro de fumaça. A câmera foca no rosto atordoado de Raíssa molhado pela água.