Yemanjá - Capítulo 01 [ESTRÉIA]

 


_*(Cena 01/Praia/Exterior/Dia)*_


A câmera foca em diversas paisagens deslumbrantes do litoral de Salvador ao som da música “Swing da Cor (Daniela Mercury)”. É possível ver o cartão postal da Bahia: O Farol da Barra. Em seguida, a imagem dá um mergulho nas ferozes ondas das águas costeiras, prosseguindo com uma queda em direção ao fundo. A música cessa e dá lugar a um silêncio ensurdecedor do fundo do mar, com apenas alguns borbulhos presentes. Em seguida, é possível ouvir um canto suave e sereno que parece vir de uma mulher. Ele ecoa juntamente com um instrumental de batuque de tambor, que permanece na cena. A tela escurece.


_*(Cena 02/Rua/Exterior/Dia)*_


A imagem retorna com o foco em uma moça atravessando a faixa de pedestres, apressada.


RAÍSSA (PENSAMENTO/NERVOSA): Ai! Não posso me atrasar! Tem que dar certo. Vai dar certo… Ê! Ô! Motorista!


Ela corre e acena para o ônibus, que para. A jovem embarca no veículo, que logo parte.


_*(Cena 03/Auditório/Interior/Dia)*_


Há diversas pessoas sentadas em cadeiras direcionadas a um palanque. É possível ver que alguns estão trajando uma beca típica de formatura. A câmera se aproxima de Vitória, que também se encontra acompanhando o evento. De repente, um garoto se aproxima da mesma.


BENTO (GRITANDO): Mãe! Ô, mãe! Cadê a Raíssa, mainha? Ela ainda não apareceu!


VITÓRIA (APREENSIVA): Eu não sei, meu filho. Já, já ela aparece. Assim espero…


BENTO (GRITANDO/IMPACIENTE): Ah, que demora! Por que eles não entregam logo esses papel pra os alunos e vai todo mundo comer as comida?!


VITÓRIA (IMPACIENTE/COCHICHANDO): Ah, rapaz! Tu já quer ir embora, é? Fica quieto, visse?! Tu não me inventa de fazer showzinho nenhum não!


Ela coloca a mão dentro da bolsa e pega seu celular.


VITÓRIA (IMPACIENTE/COCHICHANDO): Vai, toma isso daqui! Vai jogar teu Frifrai e vê se aquieta esse teu facho. Oxe!


Bento resmunga um pouco, mas logo cede às tentações da tecnologia, deixando a sua mãe sossegada.


VITÓRIA (PENSAMENTO): Olha, eu não queria falar nada não, mas que demora da disgrama é essa pra Raíssa chegar logo?! Já veio todo mundo, mas nada da minha filha aparecê! 


Vitória respira fundo.


VITÓRIA (PENSAMENTO): Cala-te boca, Vitória! Cala-te boca! Você não vai querer causar um furdunço logo hoje, que é o dia mais importante da vida da sua filha, não é? O dia em que a primeira pessoa da nossa família irá finalmente receber um diploma. Epà Babá Oxalá, axé meu pai!


Vitória novamente se põe em uma postura agradável, resiliente.


_*(Cena 04/Colégio Expoente/Pátio/Exterior/Dia)*_


A câmera capta uma grande quantidade de estudantes trafegando pelo ambiente e entrando nas salas de aula. É possível ver alguns professores circulando. A professora Rosalba sai de uma classe e vai até a diretoria da escola.


_*(Cena 05/Colégio Expoente/Sala de Aula/Interior/Dia)*_


Na sala de aula, vários alunos fazem baderna: sobem em cima das carteiras, jogam aviãozinho de papel uns nos outros, ouvem música alta… Rato pinta a parede com corretivo.


MARCELINA: O que cê tá fazendo aí, hein, Rato?!


RATO: Noé.


MARCELINA (CONFUSA): O quê?! Como assim “noé”?!


RATO (GRITANDO): Noé da sua conta, mané!


Rato lambuza a cara de Marcelina com a tinta do corretivo. Todos zombam da menina.


MARCELINA (GRITANDO): Ah, eu não acredito que você fez isso, seu moleque! Vou contar tudo pra minha mãe!


RATO (GRITANDO): Ah, vai lá, ô, filhinha de professora! Tô me cagando de medo aqui, sua baranga!


Ele se junta aos outros meninos e começa a rir. Marcelina chora ao se retirar do local.


RATO: E aí? Ficou boa a minha obra de arte?


MAURO (RINDO): Hahahahaha! Ficou top, mano!


FELIPE: A Rosalba vai amar.


Rato fica satisfeito consigo mesmo.


_*(Cena 06/Colégio Expoente/Diretoria/Interior/Dia)*_


Rosalba conversa com Cornélios.


ROSALBA: Então, Cornélios, eu penso em outras coisas para mim, não quero passar o resto da minha vida fazendo o mesmo…


CORNÉLIOS (APREENSIVO): Olha o que está dizendo, Rosa! Você é uma professora tão querida, já está há tanto tempo conosco.


ROSALBA: Eu sei disso, mas acho que já atingi o meu limite. Não consigo mais lidar com adolescentes. Essa nova geração tá muito mais agitada do que qualquer outra que eu já lecionei.


CORNÉLIOS: E o que você pensa em fazer depois que sair daqui? Você bem sabe que o Colégio Expoente é a escola de melhor qualidade de Salvador.


ROSALBA: Eu não sei, vou tentar algo novo. Algum hobbie, talvez. Virar cantora… É uma boa?


Cornélios esboça uma reação agoniada. Marcelina adentra o local, aos berros.


MARCELINA (GRITANDO): Diretor Cornélios! Mamãe!


ROSALBA (SURPRESA): O que houve agora, Marcelina?! Que tinta é essa em seu rosto?!


CORNÉLIOS: Não, espera aí. Deixa eu adivinhar. Começa com “R”?


Rosalba encara Cornélios com uma aparência de desaprovação. 


_*(Cena 07/Auditório/Exterior/Dia)*_


O ônibus para em frente ao local. Raíssa desce dele e coloca sua roupa de formanda. 


RAÍSSA (NERVOSA): Tem que dar tempo! Eu não posso perder o meu diploma…


Ela põe os sapatos bem rápido e corre até o portão do edifício.


_*(Cena 08/Auditório/Interior/Dia)*_


Um homem anuncia os nomes dos concluintes do curso.


CERIMONIALISTA (MICROFONE): Com vocês, o agora Doutor, André Luiz Silva dos Anjos!


Todos aplaudem. Vitória reage com preocupação. 


VITÓRIA (PREOCUPADA): Cadê essa menina, minha mãe?! Quando ela chegar aqui já vai ter acabado é tudo!


Ela pega o celular da mão de Bento, que adormeceu com a cabeça escorada na mãe. 


VITÓRIA (GRAVANDO ÁUDIO): Raíssa, onde você tá, filha? Responde alguma mensagem! O que houve? Você vai perder a entrega do seu diploma! Pelo amor de Oxalá!


Ela guarda o celular e olha para todos os lados à procura de Raíssa. Ela segura na guia de Yemanjá em seu pescoço.


VITÓRIA (PENSAMENTO/AFLITA): Ôh, minha mãe, protege minha menina! Seja lá onde ela estiver. Faz com que ela chegue sã e salva para receber o bendito certificado e levar pra casa esse orgulho pra nossa família. Alodé Odo Fe Iaba, minha mãe d’água.


Vitória fecha os olhos e permanece em silêncio. 


CERIMONIALISTA (MICROFONE): E a nossa próxima contemplada é… Raíssa Batista dos Santos Silva!


Todos aplaudem. Vitória abre os olhos, ainda em aflição. 


CERIMONIALISTA (MICROFONE): Raíssa Batista dos Santos Silva, venha receber o seu diploma de graduação no curso de Filosofia, cursado na Universidade Federal de Salvador.


Vitória entra em desespero. Bento acorda com os movimentos inquietos da mulher.


BENTO: O que foi, mainha? Raíssa já ganhou o prêmio?


CERIMONIALISTA (MICROFONE): Raíssa Batista está presente?


Vitória se levanta e caminha em direção ao palco, nervosa.






VITÓRIA (GRITANDO): Senhor… Ela não está não, senhor… É que minha filha teve que pegar um ônibus e… Eu sou a…

RAÍSSA (GRITANDO): Ela é minha mãe!

Vitória se assusta com a voz de sua filha e logo olha para trás, dando de cara com a mesma. 

VITÓRIA (CONTENTE): Filha! Minha filha!

Raíssa corre até a mãe e ambas se abraçam de forma cordial.

RAÍSSA (EM VOZ ALTA/ORGULHOSA): Essa mulher aqui que está aqui ao meu lado… É a maior merecedora deste título que recebo hoje.

Vitória não acredita no que ouve e enche seus olhos de lágrimas.

VITÓRIA (CHORANDO): Filha?! Não diz isso, filha. É você que tem que ser a homenageada.

Em seguida, as duas sobem ao palco e Raissa finalmente pega o seu diploma.

RAÍSSA (MICROFONE): Essa mulher, meu povo, é uma das responsáveis por eu ter chegado aqui. Sem ela, eu não seria nada do que eu sou, tampouco teria tudo o que eu conquistei… Foi ela que me ensinou que os caminhos da vida são como a corrente da água do mar. Se você não for rápido o bastante, a onda passa. Se você for ligeiro demais, a onda leva. Tudo acontece no tempo que o destino designa para todos nós. Por muito pouco, devido ao atraso de um ônibus, eu não estaria aqui para receber esse diploma que diz em letras garrafais, que essa menina que tá falando agora, que é tudo de mais atordoado pela sociedade: pobre, preta, periférica… É formada em Filosofia, esse curso que escolhi com tanta paixão e que me fez enxergar o mundo de uma maneira tão ampla. Eu só queria dizer que somos filhos da mesma terra. Somos gente suada. Nossos corpos se banham com a mesma água. Eu encerro esse declame com o desejo de que cada um de vocês, que tenham algum objetivo na vida, mesmo que seja algo ínfimo… Não desista. A minha mãe Orixá, a Rainha do Mar, Yemanjá, diz muito sobre isso. Ela é o símbolo de tudo o que a minha mãe carnal exala: proteção e incentivo para sucumbir aos desejos alheios. Muito obrigada e axé!

Raíssa se curva em agradecimento. Vitória fica maravilhada com a cena, emocionada. A multidão conclama a apresentação. Raíssa sorri e abraça a mãe e o irmão Bento, que agora estão juntos para uma foto.

_*(Cena 09/Colégio Expoente/Sala de Aula/Interior/Dia)*_

O diretor Cornélios, a professora Rosalba e Marcelina adentram o local.

CORNÉLIOS (GRITANDO): Eu posso saber o que está acontecendo aqui?!

Rato e os seus colegas se assustam, correndo para seus lugares.

CORNÉLIOS (GRITANDO): Rato, o que você fez com a menina Marcelina?!

RATO (GRITANDO): Eu sabia! Sabia que essa menina ia caguetar! É só o que ela faz! Correr pra barra da saia da mãe, essa menina mimada!

ROSALBA (GRITANDO): Mais respeito com a minha filha, seu mal educado! E antes de tudo eu sou sua professora!

MARCELINA (GRITANDO): Eles estavam pichando a parede da sala! Eu vi tudo!

RATO (GRITANDO): Não é pichando, sua maluca! Foi só uma pintura que a gente quis fazer pra agradar a nossa professorinha.

Cornélios se move para ver a arte feita por Rato.

CORNÉLIOS (CHOCADO): Eu não acredito no que estou vendo…

Rosalba se aproxima.

ROSALBA (GRITANDO): AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!

MARCELINA: Mamãe?!

Rato sorri descaradamente. É possível ver rabiscos desenhados numa parede com corretivo formando uma caricatura da professora Rosalba e do diretor Cornélios em posições sexuais. O diretor, porém, apresenta no desenho dois chifres acoplados na sua cabeça. Rosalba desmaia nos braços de Cornélios. A sala inteira entra em polvorosa, numa algazarra. Marcelina chora sem limites.

_*(Cena 10/Casa de Raíssa/Interior/Noite)*_

Anoitece na cidade ao som da música “Señorita (Camila Cabello & Shawn Mendes)”.

Raíssa, Vitória e Bento chegam em casa.

BENTO (GRITANDO): Ah, finalmente. Não aguentava mais aquele lugar chato. Pelo menos a comida estava boa!

RAÍSSA: Ah, é, né, espertinho?! Comer é contigo mesmo, né?

Raíssa começa a fazer cócegas no irmão. Vitória senta no sofá.

VITÓRIA (GRITANDO): Henrique?! Henrique?! Cadê esse moleque?!

RAÍSSA: Ele deve ter saído, mãe. 

VITÓRIA (COM RAIVA): Esse inconsequente não para em casa, viu?! Eu não aguento mais isso! Seu irmão é mais velho que você, mas se comporta como um adolescente…

Raíssa demonstra desânimo.

VITÓRIA (SENTIDA): Mas deixa, deixa que eu não quero estragar esse dia que foi tão maravilhoso como hoje, não é não, minha filha?!

Raíssa abraça sua mãe.

RAÍSSA: Ah, eu te amo, mainha! Agradeço muito por vocês terem feito parte desse momento tão especial para mim.

VITÓRIA (RINDO): Eu fiquei foi nervosa! Achei que tu só ia chegar quando já tivesse acabado! Hahaha!

RAÍSSA: Bem, no final de contas, deu tudo certo, graças a Ela.

Raíssa toca na guia em seu pescoço. 

VITÓRIA: Sim, é verdade. Eu pedi muito pra que nossa Mãe te guiasse. 

RAÍSSA: Não sei o que seria de mim sem vocês duas… Bem, agora começa uma nova fase.

VITÓRIA: É sobre isso que eu queria conversar…

Raíssa fica séria.

VITÓRIA: Filha, você sabe que esse tempo todo que você estudou eu nunca fiz questão que você trabalhasse, pra que você focasse sempre nos seus estudos, que era o mais importante. 

RAÍSSA: Sim, você sempre dizia que era uma prioridade maior. Os estudos nos dão um futuro melhor…

VITÓRIA: Eu sei, filha, mas agora o momento é outro. Eu não sei se aguento por muito mais tempo dar conta da família sozinha. E seu irmão Henrique você sabe como é, né? Se não passa o dia trancado no quarto, fica vagabundeando pela rua direto…

RAÍSSA: Mãe, eu já sei o que a senhora tá querendo dizer e não se preocupe. Amanhã mesmo eu irei procurar um emprego. Agora eu tenho uma área e posso seguir carreira por ela, mas independente disso, eu vou ajudar nas contas de casa. Eu prometo!

VITÓRIA: Ôh, minha filha! Você não sabe o quanto me deixa feliz em ouvir isso! E me desculpa se eu já vim falar logo disso ainda hoje, mas é que é um assunto de extrema urgência… Tenho até medo da gente vir a passar f…

RAÍSSA (EM VOZ ALTA): Vira essa boca pra lá, Dona Vitória! Nada disso vai acontecer! Eu vou conseguir um trabalho e vou ajudar nas contas de casa. Você vai ver!

Vitória olha para a sua filha, meio envergonhada. Raíssa a beija na testa e se retira para o seu quarto.

_*(Cena 11/Casa de Raíssa/Quarto/Interior/Noite)*_

Raíssa deita em sua cama e começa a olhar fixamente para o teto.

RAÍSSA (PENSAMENTO): Ai, minha mãe… Que a senhora me dê forças! Não vai ser uma tarefa fácil, mas eu tenho que dar conta. Eu tenho que lutar pela minha família… Odò Ìya Yemanjá, axé!

Raíssa encosta sua cabeça no travesseiro para dormir. Em seguida, ela se levanta agitada, vomita muita água e grita de dor. Vitória abre a porta para socorrê-la.

VITÓRIA (GRITANDO): Raíssa?! O que aconteceu?!

Raíssa olha para a mãe, assustada.