Tecido Escarlate | FINAL

 



*TECIDO ESCARLATE*

*ÚLTIMO CAPÍTULO*





*ATO I*


*1 - Int. Casa Cordeiro/Quarto - Noite*


Antônio chora que soluça em cima do corpo morno de Isis.


Todos ali o encaram em silêncio.


Ele a coloca delicadamente no chão, e olha para o alto, cara a cara com a Lua.


*Sonoplastia: Coral Obscuro*


ANTÔNIO (com o reflexo do astro em seus olhos) - Eu fui fraco. Eu fracassei, e nada valeu a pena de verdade.


Ele se vira para trás, vendo todos aqueles policiais o cercando.


ANTÔNIO (voltando-se para o alto) - Eu duvido muito que ela suba - diz rindo.


ZULMIRA - Por favor, rapaz, se entregue logo. Não há mais o que você possa fazer.


ANTÔNIO - Pouco me importa o que posso ou não fazer. Acabei com tudo!


POLICIAL - Venha conosco.


ANTÔNIO - O que irão fazer com ela?


POLICIAL - Procedimento padrão. Por favor, venha.


Ele se levanta devagar. O vento gelado soprando suas lágrimas.


Ele se vira, e o policial pega a algema. Antônio vem andando até ele. De repente, ele para.


Todos ali estranham... E rapidamente, ele se vira e corre até o balaústre, não deixando nem tempo para os agentes puxarem seus revólveres! 


Antônio pula da sacada!


Quando os tiros são disparados, ele já não está mais ali. Todos correm para ver como ele está.


POLICIAL (surpreso) - Onde ele está?


O coral fica ainda mais intenso. Antônio não está no chão, e nem em nenhum lugar onde se possa ver.


POLICIAL - Todos vocês, vão procurá-lo, agora!


A movimentação começa.


*2 - Int. Casa Cordeiro/Jardins - Noite*


Todos estão em busca de Antônio.


POLICIAL - Ele não pode ter ido muito longe. Procurem!


ANA (sentada num dos carros) - O que houve?


ZULMIRA (se aproximando) - O desgraçado fugiu! 


ROSANA - E a Isis?


ZULMIRA - Ele a matou.


Rosana leva as mãos a boca


ROSANA - Oh, meu Deus, ele é um assassino!


ZULMIRA - Ele é inconsequente e impulsivo, isso sim!


*3 - Int. Casa Cordeiro/Lago - Noite*


O fugitivo corre para o lago, entrando lá. 


Ele nada para o fundo em direção ao outro lado, cheio de árvores.


Chegando lá, ele adentra o breu que consome a flora.


*4 - Int. Área De Bosque - Noite*


Ele chega até o outro lado, onde há um muro, e sobe, escapando...


...


*5 - Int. Casa Cordeiro/ Jardins - Noite*


POLICIAL (se aproximando) - Ele sumiu.


ANA (desesperada) - Como assim, sumiu? 


ZULMIRA - Ele pulou do segundo andar e não se feriu?


POLICIAL - Ele caiu nos arbustos, dificilmente se feriu. 


ROSANA - E o que vocês estão fazendo aqui? Vão procurá-lo


POLICIAL - Não há razão pra desespero. Ele não vai muito longe. Deve estar na propriedade ainda; apesar disso, alguns parceiros já saíram pra procurar nas ruas.


*6 - Ext. Ruas - Noite*


Antônio anda mancando pelas ruas desertas e silenciosas.


Um carro de polícia o cerca, e ele tenta se esconder, mas é visto.


Os agentes saem do carro e apontam as armas.


POLICIAL 2 - Parado aí! 


ANTÔNIO - Eu posso pagar vocês. Me deixem vazar. 


POLICIAL 3 - Se entregue, será mais fácil. Você só está se complicando, senhor.


*Sonoplastia: Instrumental Armação*


ANTÔNIO (dando uma risadinha de canto) - Que tal um e meio pra cada?


Os dois se olham, nervosos.


POLICIAL 2 - Dois e meio?


ANTÔNIO - Pago em milhões. É só me ajudarem a escapar.


Os dois se olham mais uma vez...


*7 - Int. Casa Cordeiro - Noite*


O policial recebe um chamado no walkie-talkie. 


POLICIAL - Descobriram algo? Câmbio!


_POLICIAL 2 - ELE TENTOU ATRAVESSAR O LAGO E MORREU AFOGADO. ESTAMOS AQUI ATRÁS._


POLICIAL (desligando) - Ótimo! Ele está aqui! Tentou fugir pelo lago. 


*8 - Int. Casa Cordeiro/Lago - Noite*


Todos correm até o lago. Os policiais 2 e 3 estão lá fingindo tentar reanimar Antônio.


ZULMIRA - Está morto?


POLICIAL 2 - Sim. 


POLICIAL - Liguem para o IML agora mesmo. Faremos todos os procedimentos necessários.


POLICIAL 3 (prontamente se levanta) - Deixe que eu chamo, por favor.


POLICIAL - Tudo bem. Tragam algo para cobrí-lo.


ANA (com olhar de raiva) - Engraçado que desejaram tanto isso, e no final das contas só acabaram com a própria vida...


ROSANA - Isso que vou falar pode ser horrível, mas é melhor assim.


A câmera mostra Antônio, que ri suavemente, quase imperceptível, então ela se afasta dele. São mostrados todos ali na beira do lago...


*ATO II*


*9 - Ext. Casa Cordeiro/Entrada - Noite*


Um dos funcionários do IML carrega o corpo de Antônio na maca. Quando passa ao lado do policial 2, ele lhe dá uma considerável quantia de dinheiro. O rapaz põe Antônio dentro do automóvel, entra e fecha as portas.


ZULMIRA - Onde será que puseram o corpo do Benjamin?


Alguém sai gritando algo. Todos olham para trás.


POLICIAL 4 - Ei, ei! Eu achei mais um corpo! É de um homem, na beira do lago.


ANA (emocionada) - Oh meu, é o Benjamin!


Eles correm para ver.


*10 - Int. Rabecão - Noite*

*Sonoplastia: Instrumental Perversidade*


O funcionário abre o saco, e Antônio se levanta sorrindo.


ANTÔNIO - Obrigado, amigo. Você vai se dar muito bem por isso. Agora vai lá pra frente e me leva pra longe daqui agora!


FUNCIONÁRIO - Falou.


*Do lado de fora:*


POLICIAL 2 - Iremos acompanhá-lo. 


POLICIAL - Tudo bem.


Os policiais 2 e 3 entram no carro; o rabecão é ligado e vai embora...


A câmera se afasta enquanto os veículos saem.


*11 - Ext. Casa Cordeiro/Lago - Noite*


*Sonoplastia: Instrumental Tristeza*


Ana Clara corre até Benjamin, morto, e se agarra louca a ele. Os policiais tentam a afastar, mas ela chora e grita com o homem ali no chão enquanto é puxada...


ZULMIRA - Ana, isso não fará bem a você.


ANA (chorando) - Eu tenho o direito de me despedir - se dirige aos policiais - Eu posso pelo menos me ajoelhar ao lado dele?


Os homens confirmam com a cabeça. Ela se ajoelha.


ANA (soluçando) - Meu amor, eu... eu sinto muito, muito mesmos. Um não imaginei que isso aconteceria. Me perdoa! Eu vou cuidar dos nossos filhos, tá bom? Vou cuidar do que era importante pra você também, tá?


ROSANA (suave) - Vamos, Ana?


Ana reflete um minuto.


ANA - É realmente triste que essa seja uma das últimas vezes que a gente vai se ver... - ela estica a mão até ele e o toca - Adeus...


A câmera foca nela, e a tela escurece gradativamente.


*Sonoplastia: Meu Mundo e Nada Mais - Alaíde Costa, Guilherme Arantes*


A tela volta, e já é dia. Takes de São Paulo onde o movimento frenético das pessoas atravessando a Avenida Paulista contrasta com a tranquilidade dos jardins do Parque Ibirapuera, onde crianças correm entre as árvores enquanto os pássaros cantam ao fundo.


*12 - Int. Apartamento - Dia*


Ana Clara e Zulmira chegam em casa acompanhadas de um policial. Quando os dois filhos da mulher a veem, ela começa a chorar, e eles vem abraçá-la.


HEITOR (preocupado) - O que aconteceu? Porque você está toda bagunçada?


ANA - Tenho que conversar com vocês dois, tá?


Ela olha para a mãe, que está com um olhar de ternura e faz que assente com a cabeça.


ANA - E depois iremos visitar a Cecília...


Eles seguem para o quarto.


*13 - Ext. Necrotério/Fundos - Dia*


O rabecão para, junto com o outro carro. 


Antônio abre as portas e sai.


POLICIAL 2 (saindo do carro) - Muito bem, qual o próximo passo?


FUNCIONÁRIO IML (se dirigindo a Antônio) - Vamos trocar seu corpo. Não se preocupe, eu cuido de tudo.


ANTÔNIO - Quero ver a Isis. 


FUNCIONÁRIO IML - Ela... você...


ANTÔNIO - Por favor.


*Corta para:*


O funcionário abre o saco onde está Isis, e o jovem range os dentes.


ANTÔNIO - Me deixe com ela.


O garoto o olha por um segundo e sai. Antônio se ajoelha ao lado de Isis e segura sua mão.


ANTÔNIO (cara de choro) - Me perdoe. Eu perdi a cabeça. Você era meu desafio, minha adversária, mas também minha cúmplice. Eu te amava de um jeito estranho, um jeito que só nós entendíamos. Agora, aqui diante de você, eu só consigo lamentar o que perdemos. Eu nunca te esquecerei. Descanse em paz.


Ele beija sua mão gélida e sai.


ANTÔNIO - Preciso de um carro...

...


*ATO III*


*13 - Int. Apartamento - Dia*


Heitor está chorando.


HEITOR - Meu pai... morreu?


ANA - Eu sinto muito, meu amor.


HEITOR (gemendo) - Não sei como vou lidar com isso.


ANA - Compreendo, Heitor. A morte nos confronta com nossas próprias emoções e limitações.


HEITOR - Parece que um pedaço de mim se foi.


ANA - Eu sei que pode ser avassalador, mas precisamos nos agarrar às lembranças que temos dele, por mais distantes que possam parecer.


HEITOR - A morte é tão injusta... Ela nos tira aqueles que mais amamos, sem aviso.


ANA - Ela não escolhe quem levará, mas nos cabe honrar a memória de quem partiu, vivendo nossas vidas da melhor maneira possível.


HEITOR - Eu gostaria de poder voltar atrás no tempo, de dizer a ele o quanto o amava, o quanto significava para mim.


ANA - Meu bem, o amor muitas vezes se manifesta de maneiras sutis, mas igualmente poderosas. Nem sempre verbalmente.


HEITOR - Como você vai contar isso ao Benicio?


ANA - Estou criando coragem. Talvez deixe isso pra sua avó. Eu só quer que saiba que estarei aqui para você, meu filho, hoje e sempre.


Ele chora olhando através da janela, depois a abraça.


*Sonoplastia: The Glass - Foo Fighters*


Um metrô chega à estação Sé, enquanto luzes da cidade piscam ao fundo. 


No letreiro: _TRÊS SEMANAS DEPOIS_


*14 - Int. Apartamento - Tarde*


Cecília é recebida em casa com algumas malas. Ela as solta no chão, Ana se levanta do sofá e corre para abraçá-la.


CECÍLIA - É verdade tudo aquilo que estão noticiando?


ANA - Não conseguimos esconder.


CECÍLIA - Tudo isso é tão bizarro.


ANA - Eu entendo, mas olha só, estamos todos aqui.


CECÍLIA - Vocês estão aqui. Eu logo vou voltar pra aquele lugar. 


ANA - Não precisa voltar se não quiser.


Cecília olha de relance para Zulmira.


CECÍLIA - Eu acho melhor eu voltar, sabe? Fiz amigas mais legais.


HEITOR - Que bom, porque aquelas duas Helena e Alice só te usavam pra ficarem com o Emílio.


CECÍLIA - Por falar em Emílio, onde ele está, hein?


ZULMIRA - Já está querendo ter contato com aquele menino de novo?


ANA - Melhor mantermos distância.


CECÍLIA - Você vai mesmo fazer o Heitor e o Emílio se distanciarem? Eles se gostam. 


HEITOR - Meu Deus, cala a boca!


Ana Clara emite gemidinho tipo "hmmmmm" e sorri, indo fazer cócegas em Heitor.


ANA - Porque não me contou?


HEITOR - Ai, para com isso.


ANA - Meu amor, você sabe que não tenho problemas com isso, não é?


ZULMIRA - Eu também não. Goste de quem quiser, mas por favor, que não seja um traficante de quinta.


HEITOR - Viu aí? Por isso não falei.


ANA (legal) - Você pode entrar em contato com o Emílio pra saber como ele anda e se já se afastou disso. 


BENÍCIO - Aff, que bobagens. Vou pegar meu Nintendo.


Eles riem.


CECÍLIA (correndo) - Me espera, Benicio!


HEITOR - Quer saber? Não quero saber, de verdade.


ANA (se voltando para Heitor novamente) - Você que sabe. Bem, vamos ao parque daqui a pouco passear. Você vem?


Ela levanta e sai.


ZULMIRA (suave) - Vamos lá, querido. De nada adianta se afogar na melancolia. Precisamos estar unidos agora.


Ela também se levanta. Foco em Heitor que está sorrindo.


*15 - Ext. Parque - Dia*


*Sonoplastia: Pra Gente Acordar - Gilsons*


Ana Clara e as crianças correm pelo parque, rindo e brincando. Zulmira observa satisfeita, enquanto sorri, aproveitando o momento. O sol brilha no céu azul, e todos estavam felizes e contentes.


*ATO FINAL*


*16 - Ext. Terraço de Hotel - Manhã*


*Sonoplastia: Helen's Theme*


A câmera navega suavemente pelo Mar Mediterrâneo em direção à costa italiana. Um hotel luxuoso se destaca contra o céu azul. No terraço, uma pessoa contempla a vista deslumbrante. O sol brilha, a brisa acaricia, criando um cenário de pura serenidade.


Quem está ali é Antônio, sério. Uma mulher chega ao seu lado.


MULHER (em italiano) - Seu quarto está pronto, senhor.


ANTÔNIO - Obrigado. Ficarei admirando a vista.


Ela sai.


*Corta para:*


*17 - Int. Quarto de Hotel - Dia*


Antônio entra no quarto, deprimido e senta na cama. Ao lado, uma gaveta. Ele a abre, e lá, descansando, uma arma. Ele a pega e põe em seu colo.


ANTONIO (a encarando, e fala como se fosse a ela) - Eu acabei com toda minha vida, não é? Estou aqui agora, refletindo diante de uma arma sobre as escolhas que me trouxeram a este ponto. Cada decisão equivocada parece pesar mais agora. Sem ninguém para partilhar o fardo dos meus arrependimentos. O que me resta agora? Nem dignidade eu tenho mais.


Ele pega a arma de novo.


A música fica mais intensa. Antônio encara o revólver em silêncio. 


Ele parece perdido em seus pensamentos, absorvido por um turbilhão de emoções. Lentamente, a câmera começa a se afastar, revelando mais do quarto e do homem solitário.


A medida que nos distanciamos, a janela ao lado da cama entra em foco. A câmera se aproxima dela e, num movimento suave, passa atraves da janela, escapando para fora do quarto.


A câmera continua a se afastar do prédio do hotel, revelando a majestosa construção situada no topo de uma montanha à beira-mar.


A vista panorâmica revela o vasto oceano, estendendo-se até o horizonte. A solidão, apesar de toda beleza, é presente. 


A câmera para de se afastar, e de repente a tela escurece...


_FIM_