*CAPÍTULO 17*
*TECIDO ESCARLATE*
*1 - Int. Casa Cordeiro/Sala - Noite*
Zulmira, hiper-irritada, é desamarrada pelos policiais e vai até Cecília, dando-lhe um tapa.
ZULMIRA - Você e esse sujeitinho estão metidos com esta porcaria, não é? Drogas! - Se vira para Emílio - Você é um desgraçado também, menino. Nunca gostei de você. Agora nossa família está fadada ao constrangimento.
MARTA (correndo até o filho) - Não ouse falar com meu filho assim.
ZULMIRA (gélida) - Quero que pegue suas coisas e esse seu filho imundo e saiam desta casa agora!
Foco em Marta e Emílio.
TATIANA - Não!
ZULMIRA - Você não tem mais voz aqui. Trouxe essa mulher que defende o filho traficante para dentro de casa.
MARTA (calma) - Não se preocupe, Tati. Irei embora.
TATIANA - Ela não manda aqui. São a Ana e o Ben.
ANA - Depois disso tudo, o melhor é eles se afastarem.
Benjamin nem consegue falar. Sua boca sangra e ele está sendo levado por policiais para fora dali.
*Sonoplastia: Instrumental Triste*
EMÍLIO (se virando para Cecília) - Eu nunca quis te envolver nisso - depois para Ana e Heitor - Me perdoem. Ou não.
Depois disso ele e a mãe saem.
Isis sorri discreta. Ela passa a mão em seu bolso, onde está o dinheiro de Emílio.
*2 - Int. Hospital - Dia*
Isis está indo visitar Benjamin no hospital. Ela entra na sala.
BENJAMIN (surpreso) - O que está fazendo aqui, Isis?
ISIS - Fiquei preocupada.
BENJAMIN - Estou péssimo.
ISIS - Todos estão sentindo sua falta. Já fazem 3 dias afinal.
BENJAMIN (se sentando) - É, mas já estou quase me recuperando… Você sentiu minha falta?
ISIS (mordendo o lábio) - Mas claro.
BENJAMIN (saindo da cama e indo até ela) - Mesmo?
ISIS - Benjamin, você não pode…
BENJAMIN - Eu só levei uns chutes. Nada demais.
Ele coloca ela contra a parede, e ela finge nervosismo.
ISIS - O que você pretende.
BENJAMIN - Só farei se você permitir.
ISIS (sedutora) - Eu não queria, mas você…
Ele a segura forte, e a vira de costas, beijando seu pescoço. A tela escurece.
O TEMPO PASSA… NO LETREIRO _*“POUCAS SEMANAS DEPOIS”*_
Takes aleatórios de Isis e Benjamin ficando, a família se distanciando, Tatiana conversando com Alan, Heitor está sozinho e Cecília ainda mais deprimida.
*3 - Int. Casa Cordeiro/Sala - Dia*
Zulmira está chateada, e decide telefonar para alguém… É uma de suas amigas.
ZULMIRA (simpática) - Olá, Renée, quanto tempo!
_"AMIGA" - Zulmira?_
ZULMIRA - Sou eu, meu amor. O que acha de sairmos hoje? Ando tão presa, que você nem imagina.
_"AMIGA" - Ah, sabe o que é? É que já marquei com nosso grupo de sairmos hoje._
ZULMIRA (feliz) - Ótimo, então vou com vocês.
_"AMIGA" - Bem, sabe como é… eu te considero muito, mas elas não ficariam felizes de andar com você por conta… do que aconteceu._
ZULMIRA (ficando séria) - Não está me dispensando, está?
_"AMIGA" - Sinto muito, querida._
E desliga. Ela encara o nada, abismada. Zulmira checa páginas de notícias…
_“Uma das famílias mais prestigiadas de São Paulo é vítima de invasão em residência por dívidas com traficantes”_
A mulher joga o celular longe.
*4 - Ext. Parque - Dia*
Alan e Tatiana caminham tranquilos.
TATIANA - Eu chamei você aqui porque queria pedir perdão pelo que aconteceu.
ALAN - Eu que tenho que pedir perdão. O Emílio nos decepcionou muito.
TATIANA - Porque ele fez isso? Vocês sempre tiveram boas condições. Não é como se ele fizesse por necessidade.
ALAN - Sempre tivemos condições de viver confortavelmente, mas não de bancar luxos para impressionar os amigos da escola.
TATIANA - O que houve com o traficante?
ALAN - A polícia anda o caçando. Em breve, se Deus permitir, ele será pego.
TATIANA - Alan…
ALAN - Pode falar.
TATIANA (ela para) - Eu não te chamei aqui só por isso.
ALAN (franzindo a sobrancelha) - E por qual razão a mais?
TATIANA - Eu… eu sinto algo por você que eu não sei explicar.
ALAN - Como é?
TATIANA - Alan, eu sempre fui sozinha, e meu sonho sempre foi ter uma família só pra mim e deixar o Benjamin no canto dele. Mas eu nunca consegui me sentir realizada, pois nunca encontrei um homem tão bom.
Ele começa a estranhar.
TATIANA - Por favor, não me julgue, mas… Eu sinto que estou apaixonada por você, Alan. Você é o homem perfeito para ser pai dos meus filhos, homem da minha casa.
ALAN (se afastando) - Do que você está falando, Tatiana? Eu tenho uma família!
TATIANA (ficando mais estranha) - Eu sei, eu sei, mas você não precisa continuar nessa farsa. A Marta claramente não te ama. Ela já me contou que vocês não são mais os mesmos.
ALAN - Eu amo minha esposa, e ela só estava passando por um extremo estresse. Já estamos melhor. Agora quem eu acho que não está é você.
TATIANA (agarrando o braço dele) - Fique comigo uma vez. Não precisa ser sério. Eu só quero alguém que fique comigo.
ALAN (afastando-a) - É, mas esse alguém não será eu.
Ele sai, frustrado, e Tatiana fica ali, largada.
*5 - Int. Casa Cordeiro/Sala - Dia*
Ana e Benjamin estão juntos no sofá, Zulmira está no canto, de pé. Enquanto isso, Isis brinca com Benício do lado de fora.
Cecília chega, com cara de sono.
CECÍLIA (cansada) - O que vocês querem?
ANA (séria) - Se sente. Queremos conversar com você.
A menina se senta. Heitor ouve a conversa escondido e Isis para de brincar para prestar atenção.
BENJAMIN - Cecília, você andou causando terríveis estragos ultimamente. Estamos absurdamente decepcionados e abismados com tudo isso que você nos fez passar.
A jovem já fica na defensiva.
CECÍLIA - Ah, fala sério.
ZULMIRA - Escute!
ANA - Bem, continuando, percebemos que você se tornou um risco não só a si mesma, como também a todos nós aqui. Então decidimos que… que…
ZULMIRA (direta) - A mandaremos a um internato!
CECÍLIA (se levantando) - Como é?
Benjamin e Ana se levantam juntos, Isis fica boquiaberta, mas feliz.
Foco na face de cada um presente na cena… suspense.
*6 - Ext. Casa Cordeiro/Saída - Tarde*
*Sonoplastia: Um Ponto Oito - Pato Fu*
Em câmera lenta, Cecília é levada até um carro, todos a acompanhando com os olhos enquanto ela é carregada dali. Isis sorrindo com os olhos, voraz, satisfeita e realizada.
…
*7 - Int. Loja De Armas - Tarde*
*Sonoplastia: Instrumental Armação*
Tatiana está analisando alguns revólveres, interessada.
VENDEDOR (se aproximando com uma cara confusa) - Deseja alguma coisa?
TATIANA (fixa) - Só estou vendo.
O homem dá de ombros e sai.
Foco em Tatiana.
*8 - Int. Casa De Alan/Sala - Noite*
Todos estão na mesa de jantar: Emílio, Marta e Alan.
MARTA (cabisbaixa) - Agora nossas contas vão ficar um pouco mais difíceis.
ALAN (segurando sua mão com carinho) - Vamos conseguir superar isso.
MARTA (erguendo a cabeça) - Não vai demorar muito até sermos despejados daqui.
EMÍLIO (assustado) - Como é?
ALAN - Ora, não exagere, Marta.
MARTA - Não é exagero. Nós só conseguíamos pagar as contas porque juntávamos o dinheiro do seu trabalho e do meu…
*Sonoplastia: A campainha toca*
ALAN (franzindo a testa) - Estão esperando alguém?
Os dois negam.
MARTA (se levantando) - Que estranho.
*Sonoplastia: Instrumental Suspense*
Marta caminha curiosa. Quando chega à porta, olha pelo olho mágico, e ali, estranha, é mostrada Tatiana.
MARTA (fazendo uma careta confusa) - Ué?
Ela abre a porta devagar…
TATIANA (sorridente) - Oi, Marta! Como estão?
MARTA - O que está fazendo aqui, Tati?
Tatiana esconde as mãos. Alan se levanta e vai até a porta, já Emílio fica sentado.
ALAN (em tom sério, com cara de chateado) - O que está fazendo aqui?
A mulher à porta mostra uma arma para o casal, e os dois se assustam. Quando Marta vai fechar a porta, a outra bate com a arma em sua mão e chuta a porta, depois entra apontando a arma. Emílio corre para o quarto, Alan com a mão na cabeça.
TATINGA (alucinada) - Eu só queria alguém para me amar, mas você escolheu estar com alguém que nem te valoriza.
MARTA - Do que você está falando?
TATIANA (se aproximando com a arma dos dois) - Eu comecei a enxergar o Alan naquele dia, na igreja, e também a forma como você o tratava! Um homem que melhorou tanto com o tempo.
ALAN (enojado) - Ora, deixe de ser aluada e abaixe essa arma, Tatiana.
TATIANA (gritando) Não! Não! Não! Eu sempre fui desprezada por todos! Nunca encontrei alguém que me tratasse como eu mereço. - ela começa a chorar - E não falo só de homens. Meu irmão, meus pais… todos! E quando eu revi você naquela noite, você foi tão gentil do começo ao fim. No dia do incêndio você me elogiou e…
ALAN (interrompendo) - Eu só estava sendo educado!
Emílio aparece com um taco.
EMÍLIO (corajoso) - Solta a arma!
Tatiana o olha, melancólica.
MARTA (berrando) - Emílio, solta isso!
Tatiana encara Emílio de forma fixa. Não demora muito, até que ela desaba no chão, chorando absurdamente.
Alan aproveita seu momento de fraqueza para tomar a arma. A mulher continua chorando como uma criança.
TATIANA - Me perdoem, me perdoeeeem! Eu sou um lixo!
MARTA (querendo chorar também) - Minha amiga…
ALAN (furioso) - Suma daqui!
Marta levanta a mão, como quem pede um minuto.
TATIANA - Marta, me desculpe. Eu não consegui e nem vou conseguir… Eu falhei, falho e sempre falharei.
MARTA (se agachando) - Tati, você precisa de ajuda.
*Sonoplastia: Instrumental Triste*
Tatiana a olha, o rosto inchado. Seus olhos abrem e fecham lentamente. Ela se levanta devagar, e sai dali, indo em direção a porta. Logo ela para e olha para trás.
TATIANA - Você tem razão. Mas essa ajuda não pode estar na terra.
Ela sai. A família se abraça, Alan coloca a arma de lado. Eles estão ofegantes.
*9 - Int. Carro - Noite*
*Sonoplastia: Black Hole Sun*
Tatiana está no carro, dirigindo em alta velocidade, sem olhar o que vem à frente. As lágrimas caem incessantes e o som da música toma conta da cena. Ela pisa no acelerador ainda mais.
Take externo e aéreo dela dirigindo rápido em uma área sinuosa.
Dentro do carro, ela encara o horizonte, perdida. Ela grita, e grita muito! Grita na mesma força com que pisa no acelerador. O carro não pára, até que chega numa curva. E sem se importar, ela atravessa a mureta de proteção, e o veículo gira descontroladamente em torno de seu eixo, lançando destroços e poeira ao ar.
Alguns segundos do carro capotando violentamente, e então um take de seu rosto sangrando… Tatiana está morta.