Tecido Escarlate - Capítulo 14

 


*TECIDO ESCARLATE*

*CAPÍTULO 14*


*1 - Int. Casa Cordeiro/Jardins - Dia*


A família está nos jardins. Isis brinca com Benício. Cecília está num canto, melancólica, e Emílio está do outro, olhando-a com pena. Logo ele se aproxima.


EMÍLIO - O que você tem?


CECÍLIA (olhando para ele) - Eu preciso de mais.


EMÍLIO (revira os olhos) - Sinto muito, mas meu estoque acabou.


CECÍLIA (sussurrando) - Para de mentir. Eu preciso tanto disso quanto você precisa estar aqui na minha casa.


Ele parece furioso. O rapaz se vira e vai em direção a porta. Isis o segue e Isis percebe o movimento e os segue com os olhos.


ISIS (com os olhos semicerrados) - Benício, meu amor, você pode ficar aqui por enquanto? Eu irei ao banheiro.


Ela se levanta e vai em direção a Ana, que toma Sol.


ISIS (amaciando a voz) - Ana Clara, eu vou deixar o Benício aqui rapidinho e vou ao banheiro. Posso?


ANA - Com certeza, Isis. Tá tudo bem. Pode até ir pra casa se quiser.


BENÍCIO - Não vai!


Elas riem.


ISIS - É, parece que o chefinho não me liberou. Eu já volto.


Ela sai dali.


*2 - Int. Casa Cordeiro/Corredores - Dia*


*Sonoplastia: Instrumental Tenso*


Isis está à espreita, em busca de Emílio e Cecília. Então ela ouve burburinhos atrás da porta da dispensa, e se aproxima para ouvir.


CECÍLIA (murmurando) - Por favor, Emílio. Eu estou à beira de um colapso.


EMÍLIO - Eu já disse que não tenho. Tenho que repor o estoque, e ainda por cima tô devendo. Sempre fui um bom pagador.


CECÍLIA (agoniada) - Então repõe logo, caramba!


EMÍLIO (cochichando irado) - Não é assim, garota! Eu tenho que pagar a remessa anterior. Ele tá me cobrando. Depois eu compro mais.


CECÍLIA - Você é um traficante de quinta, isso que você é!


EMÍLIO - Não sou traficante.


CECÍLIA (debochada) - Ah, não, não é, imagina.


EMÍLIO - Que inferno! Olha aqui, você vai ter que esperar. 


CECÍLIA - Quem não pode esperar é você! Sua mãe odiaria saber que o filho vende drogas, né?


Emílio a encara, ardendo de ansiedade, então sai dali. Isis se esquiva e se esconde. Cecília passa dali de volta ao jardim. Isis segue Emílio.


Ele está apressado, e sobe as escadas. Ela é sorrateira…


*3 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Emílio - Dia*


*Sonoplastia: Instrumental Tenso se intensifica*


O rapaz entra no quarto, e começa a vasculhar suas gavetas.


Isis olha através de uma brecha na porta. 


O garoto pega um pote, nele, notas cheias de real. Emílio confere os valores, depois o guarda novamente. Ele olha depressa para a porta, pra ver se alguém está vendo. Isis desvia.


Alguns segundos se passam; ele sai do quarto, fechando a porta e desce as escadas, veloz.


ISIS (sozinha) - Que vagabundinho safado.


Ela espera estar seguro e entra no quarto, remexendo as coisas dele. Cuecas, roupas e acessórios são jogados de um lado para o outro, até que ela chega no pote.


ISIS (com o pote em mãos, sorrindo) - Se era um bom pagador, vai deixar de ser.


Ela ri enquanto abre o pote e pega o dinheiro, depois sai dali rapidamente.






*Sonoplastia: A Estrada - Cidade Negra*

Takes da cidade de São Paulo são exibidos e o dia vai passando… Da manhã ensolarada à tarde alaranjada.

*4 - Ext. Casa Cordeiro/Quarto de Emílio - Tarde*

O rapaz entra no quarto e começa a procurar um contato no celular. Então encontra: Dante. Ele liga.

_DANTE (em off) - Qual foi?_

EMÍLIO - Preciso da boa.

_DANTE (ameaçador) - Tá me devendo._

EMÍLIO (tranquilo) - Vou pagar. Tô com o dinheiro aqui.

_DANTE - Ótimo! Aguardo._

Emílio desliga, e vai feliz até seu pote, mas… Nada de dinheiro.

*Sonoplastia: Instrumental Impacto*

EMÍLIO (nervoso) - Quê? Não, não, não, não, não! 

Ele coloca as mãos na cabeça, ansioso. Para e pensa.

EMÍLIO - Cecília!

Ele sai do quarto, furioso.

*5 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Cecília - Tarde*

Emílio entra no quarto da garota com sangue nos olhos.

CECÍLIA (se levantado da cama) - Que merda é essa?

EMÍLIO (bagunçando as coisas dela, buscando algo) - Cadê a droga?

Ele parte para cima dela.

EMÍLIO - Cadê a merda da droga?

CECÍLIA - Não sei do que você está falando?

EMÍLIO - Não aguentou esperar e roubou o dinheiro que eu guardava pra poder se drogar, né?

CECÍLIA - Eu lá sei do seu dinheiro, menino.

EMÍLIA - Para de se fazer de sonsa!

CECÍLIA (empurrando-o) - Não peguei seu dinheiro, caramba!

EMÍLIO - Então quem foi?

CECÍLIA - Sei lá.

EMÍLIO (pensativo) - Será que minha mãe descobriu?

CECÍLIA - Se tivesse sido ela, com certeza ela te perguntaria onde você achou esse dinheiro.

Emílio se senta na cama da menina, desesperado.

EMÍLIO - Ele vai me caçar.

CECÍLIA - Fala pra alguém.

EMÍLIO (aflito) - Pra quem, hein, Cecília? Se eu falo qualquer coisa, eu e você estamos ferrados! - ele olha para o chão, depois para ela - Dinheiro. Preciso de dinheiro.

*Sonoplastia: Telefone toca*

Ele atende.

_DANTE (em off) - Onde você me encontra?_

EMÍLIO (tremendo) - Eu preciso de um novo prazo.

_DANTE - Não fode, garoto. Eu quero hoje!_

EMÍLIO - Hoje não consigo. Amanhã, no máximo.

_DANTE - Ou você me dá esse dinheiro hoje, ou eu vou aí na tua casa cobrar._

Cecília está confusa, tentando entender. 

EMÍLIO (agitado) - Por favor, Dante. Eu nunca te faltei.

_DANTE (rindo cruelmente) - Tá faltando agora, bebê._

EMÍLIO - Dante, por favor…

_DANTE - Não se preocupe. Tô indo aí hoje._

EMÍLIO - Você não sabe nem onde eu moro.

_DANTE - Aí que você se engana. Acha que eu não sei que você mora na casa de uns bacanas? Eu te conheço, Emílio. Você tem até seis horas da tarde._

CECÍLIA - O que é?

EMÍLIO - Mas já são cinco horas.

_DANTE - Tchau, bebê._

EMÍLIO (gritando) - Não!

Dante desliga, e Emílio está ansioso, quase desmaiando. Cecília está o encarando, com medo.

CECÍLIA - O que houve?

Emílio olha no fundo dos olhos dela sem saber o que dizer… O caos está prestes a se instalar em total magnitude na casa Cordeiro…