🌵 | Flor de Formosura | Capítulo 02/20 | 🌺
CENA 01 [CASA DE PAFÚNCIO • NOITE]
[Após a afirmação de Cesária, o clima permanece tenso. Furioso, Pafúncio levanta-se rapidamente e encara a filha. Helena continua incrédula.]
Pafúncio (com fúria estampada no olhar): Que história é essa Cesária? VOCÊ TÁ FICANDO DOIDHA?
Cesária (afrontosa): Doidha eu estaria se aceitasse casar com um homi que faz mais de vinte ano que num vejo, só por causa de um compromisso abestado feito entre o sinhô e dona Lorena.
Pafúncio: Num é pussive, meu Deus... NUM É PUSSIVE QUE ESSA MENINA VAI ME FAZÊ PASSAR POR MAIS UM DESGOSTO!
[Neste momento, Helena se levanta e vai até Cesária.]
Helena (sussurrando): Cesária, minha fia... Você num tem que querer nada.
Cesária (desacreditada): Comé que é? A SINHORA TÁ QUERENDO DIZER QUE EU VOU ME CASAR CONTRA A MINHA PRÓPRIA VONTADE?
Helena (direta): Se num casar por bem, vai casar por mal!
Cesária (com a voz embargada): Eu num acredito...
Pafúncio (se aproximando): Num importa se tem amô ou não, Cesária. Isso num enche e nunca vai encher barriga. O importante é que o compromisso finalmente irá se firmar, e Carlos Silveira é o homi que há de butar juízo nessa sua cachola de vento.
Cesária (com raiva): VOCÊS VÃO VER! EU FUJO DESSA CIDADE PRA SEMPRE, MAS NUM ME CASO COM NINGUÉM!
[Chorando, Cesária corre para o quarto, deixando Pafúncio e Helena preocupados com a rebeldia da filha. Neste instante, Esperança, que a tudo observava, entra em cena para retirar a mesa do jantar. ]
Helena (se dirigindo à serviçal): Esperança, vá falar com Cesária. Você é a única que se entende com ela.
Esperança (obedecendo): Sim, sinhora!
[Esperança começa a se locomover até o quarto, quando Helena lhe interrompe.]
Helena (ameaçando): Mas nem ouse ficar do lado daquela desvairada!
[Esperança consente com a cabeça e se retira.]
CENA 02 [VENDA • MANHÃ]
[A noite passa rapidamente e logo é dia.]
[No centro da cidade, em um pequeno estabelecimento comercial, é possível ver Marcelina comprando alguns mantimentos. Minutos depois, a moça já está voltando para casa, carregando suas compras, enquanto um instrumental cômico tem início.]
Marcelina (reclamando): Ô sol da gota serena... Crendiospai!
[À sua frente, a irmã de Isaque não percebe um homem que se aproxima e acaba esbarrando fortemente nele, fazendo seus sacos de compra caírem.]
Marcelina (aflita): Você é cego, seu fi de uma... |Neste momento, olha nos olhos do homem e se encanta automaticamente por ele.| Virge Maria Santíssima... É uma miragem, é?
[O homem, sem entender nada, tenta lhe ajudar a recolher os alimentos.]
Homem: Mil desculpas, moça. Deixe que eu lhe ajudo.
Marcelina (sem desviar o olhar dos olhos do homem): Pricisa não, Antôin... Mas se você quiser, pode me acompanhá até em casa e pedir minha mão pra meu irmão... Ele é brabo, mas num morde não... Há de aceitar com todo gosto.
Homem (confuso): Do que você tá falando, sua maluca? Eu sou casado!
[O homem para o que estava fazendo e volta a caminhar, deixando Marcelina suspirando.]
Marcelina (sussurrando): Maluca... Maluquinha por você!
[A câmera foca na expressão apaixonada de Marcelina.]
CENA 03 [CASA DE PAFÚNCIO • MANHÃ]
[No quarto de Cesária, a moça está deitada, com uma expressão de profunda tristeza, olhando para o nada. De repente, a porta se abre e entra Helena, segurando uma bandeja com café da manhã para sua filha.]
Helena (sorrindo): Bom dia, minha cabritinha... Tá mais calma?
Cesária (seca): O que a sinhora quer, mamãe? Dizer que vai me levar amarrada pro altar?
Helena (sentando-se na cama): Num fale isso, minha flô... É uma questão de tempo até você ficar doidhinha pelo Carlinhos... Olhe, dizem que ele é de uma família de homens super dotados, se é que você me entende... |Pisca para a filha.|
Cesária (levantando rapidamente): Pare imediatamente, mamãe! Eu já lhe falei que num me caso com esse homi nem à força.
[Helena balança a cabeça, lamentando.]
Cesária: Se era isso que a sinhora queria, pode sair. Deixe a comida aí que depois eu como.
[Helena, angustiada, se aproxima de Cesária e segura em suas mãos.]
Helena (olhando nos olhos da filha): Não, minha fia... Num era isso! Eu vim aqui para EXIGIR que você desça mais tarde para a inauguração do poço artesiano. Isso será muitho importante para a reeleição de seu pai, e é preciso que você esteja lá, ao nosso lado.
[Cesária nada diz, apenas encara Helena.]
Helena (se retirando): Esse outro assunto, a gente resolve depois.
[A mulher se retira e bate a porta. A câmera foca no rosto de Cesária, que parece ter uma ideia em mente.]
Cesária (sussurrando): É isso... Eu vou aproveitar essa movimentação pra fugir dessa masmorra.
[Após estas palavras, um leve instrumental de suspense tem início.]
CENA 04 [PRAÇA DE VILA FORMOSA • MANHÃ]
[Ao som de um vibrante instrumental, a rotina dos cidadãos de Vila Formosa é mostrada. Crianças brincam, idosos conversam em bancos da praça e trabalhadores caminham para seus serviços. Em meio à tudo isso, de repente, um carro de som começa a anunciar um evento organizado pelo prefeito Pafúncio.]
Caixas de som: Cidadãos e cidadãs de Vila Formosa, é com imenso prazer que o prefeito Pafúncio convida todos e todas para a inauguração do mais novo poço artesiano de nossa cidade. É hoje, às dez da manhã, na praça central. Não percam!
[Conforme o carro se afasta e o barulho se dissipa, murmúrios entre os moradores começam a soar.]
[Entre eles, é possível ver Mici, que observa a tudo com uma expressão antipática.]
Mici (murmurando): Misericórdia! Era só o que faltava... Mais água só pra aumentar a cobiça e o pecado desse povo.
[Enquanto a beata resmunga, a câmera se afasta dali. Algumas horas mais tarde, o grande evento finalmente tem início.]
CENA 05 [PRAÇA DE VILA FORMOSA • MANHÃ]
🎶 • Homem com H • Ney Matogrosso
[Chegou a hora da inauguração. Enquanto as máquinas cavam o solo, em busca da veia de água subterrânea, todos aguardam ansiosamente. Debaixo de uma tenda, Pafúncio, Helena, Jacob (o vice-prefeito) e os demais cidadãos, incluindo Mici, contam os segundos para que a água comece a jorrar.]
Jacob (ansioso): Mas que maravía, meu prefeitho... O sinhô é um pai pra população de Vila Formosa.
Pafúncio (ajeitando a gravata, encabulado com os elogios): Eu só faço o que qualquer prefeitho de bem faria, caro Jacob.
Helena (inquieta): Diacho... Cesária tá demorando muitho.
Pafúncio (interrompendo): Deixe de agonia, Helena. Se ela não vier, problema dela. Agora, pare de falação e prestigie o trabalho de vosso prefeito.
[Helena se cala. Pafúncio pega um microfone e começa a falar com as pessoas presentes.]
Pafúncio (se dirigindo à todos): Ansiosos pela mágica, formosurenses?
[Os cidadãos vibram.]
Pafúncio (continuando): Em troca, eu num vô pedir nada demais... Apenas que vocês votem em mim nas eleições que se aproximam.
Mici (se aproximando): Povo bajulador... Esqueceram que o único que merece enaltecimento é Jesus Cristo, nosso salvador.
[A mulher revira os olhos. O operador da máquina grita para Pafúncio.]
Operador: FAÇA A CONTAGEM REGRESSIVA, PREFEITO! A ÁGUA TÁ VINDO!
[Pafúncio se anima. Ele e os cidadãos começam a contar. Um grande clima de suspense se inicia.]
Todos: DEZ, NOVE, OITO, SETE, SEIS, CINCO, QUATRO, TRÊS, DOIS, UM...
[Eles param. A água não vem. Todos começam a murmurar.]
Pafúncio (desacreditado): Ué... Cadê essa bendita água?
Helena: Virge Maria...
Mici (murmurando): Mas que vergonha...
[Neste momento, no entanto, algo inusitado acontece. Quando todos menos esperam, no lugar do que deveria ser água, uma imensa quantidade de lama começa a voar pelos ares, atingindo em cheio todos que se fazem presentes, enquanto um instrumental circense entra em ação.]
[Uma grande correria tem início.]
Pafúncio: MEU DEUS! O QUE É ISSO?
Mici: ISSO É CASTIGO DIVINO! CORRAM! JESUS ESTÁ VOLTANDO!
Helena (limpando a lama, envergonhada): Oh, minha Nossa Sinhora da vergonha... Que mico!
[Enquanto a confusão prossegue, a câmera foca na casa de Pafúncio. De repente, é mostrado Cesária saindo sorrateiramente num clima de tensão. Ela para e olha para a movimentação ao longe.]
Cesária (sussurrando): É agora... É agora que eu sumo daqui!
[Ela corre até um estacionamento improvisado e encontra uma velha moto com a chave na ignição.]
Cesária (com coragem): Que seja o que Deus quiser!
[A moça sobe na moto e, com dificuldade, consegue ligar o veículo.]
Cesária: Coragem, Cesária...
[Acompanhado de um instrumental cômico, a moça dá a partida.]
[Como nunca pilotou antes, começa a ir em direção à tudo o que encontra pela frente, incluindo Mici, que volta para casa.]
Mici (assustada): SANGUE DE CRISTO TEM PUDER!
[Cesária desvia. A moça consegue se equilibrar e se afastar dali, sem que seus pais percebam.]
CENA 06 [SÍTIO DE ISAQUE • MANHÃ]
[No sítio, Isaque caminha pela estrada, rumo à uma fonte, com uma vara de pescar nas costas. O rapaz cantarola.]
Isaque (cantando): Ai, ai, ocê mi dá muitho calô...
[Neste momento, ao longe, é mostrado uma moto se aproximando rapidamente. É Cesária, que já está longe da cidade. A moça vem descontrolada.]
Cesária (o avistando): SAIA DA FRENTE! VALHA MEU JESUS CRISTO!
Isaque (sem parar de caminhar): Você num é doidha... Você tá mi veno.
[Cesária, no entanto, não desvia. Quando ela está quase batendo em Isaque, aperta fortemente na buzina.]
[O rapaz, assustado, olha para trás e berra ao ver que será atropelado.]
[A câmera foca na expressão de horror de Isaque.]
A IMAGEM CONGELA EM ISAQUE [🍂🥀].