🌵 | Flor de Formosura | Capítulo 08/20 | 🌺
CENA 01 [RUA DE VILA FORMOSA • NOITE]
[A câmera, do alto, mostra Helena caída no chão, ainda desacordada. Quem lhe atacou já não está mais ali. De repente, a mulher começa a despertar, demostrando confusão. Seu vestido está rasgado, e logo ela começa a ter flashs do que aconteceu.]
Helena (desesperada): Meu Deus... era ele... O Homi de Preto me atacô!
[Desnorteada, a mãe de Cesária se levanta e começa a se dirigir para sua casa.]
CENA 02 [SÍTIO DE ISAQUE • NOITE]
[Isaque, agora abaixando sua espingarda, continua encarando Clarita. Marcelina se aproxima, deixando a mulher ainda mais radiante.]
Isaque: Tô esperano a moça dizê quem é, e o que qué em minha casa, a essa hora da noite.
Clarita (tentando disfarçar a emoção): É, eu... Me perdoe, eu... eu me chamo Anastácia, e... eu num tenho onde morar.
[Isaque e Marcelina parecem não acreditar naquela história.]
Clarita (emocionada): Eu trabaiava na casa de uma famía de trabaiadores rurais, próximo à essa região, e... fui demitida recentemente.
Marcelina: Oxente... e o que nós temo a ver com isso?
Clarita: É que eu nunca tive famía... Passei a vida toda trabaiano no sítio, e agora num tenho mais pra onde ir. Quando eu tava vagano por essas estrada, encontrei um moço que me mandou procurá emprego e morada com você.
Isaque (ainda desconfiado): Oxente, dona Anastácia, e quem era esse moço?
Clarita (chorando de emoção por ver os filhos, mas ainda atuando): Eu num sei... A única coisa que sei, meus fi, é que eu preciso de abrigo... Se vocês me fizerem essa caridade, num precisam me pagá com nada. Eu ajudo nos serviço, e, em troca, vocês me dão teto e comida.
Isaque (receoso): Óia as coisa dela, Marcelina.
[Obedecendo, Marcelina revira as bolsas de Clarita, mas encontra apenas roupas velhas.]
Marcelina (se dirigindo à Isaque): Só tem trapo, meu irmão. A mizeravi num tá mentino não.
Clarita (interrompendo, ainda chorando): Então... vocês vão me ajudá?
Isaque (se aproximando): A sinhora vai entrá e contá toda a sua história pra gente. Se conseguir minha confiança, a casa já é sua.
Clarita (sorrindo, emocionada): Muito obrigada, meu fi. Você é um homi justo e bão.
Isaque: Rumbora pra dentro. Vamo ter uma longa conversa.
[Os três entram na casa, enquanto a câmera se afasta dali.]
CENA 03 [CASA DE PAFÚNCIO • NOITE]
[Pafúncio, Cesária e Esperança estão inquietos na sala, demostrando grande preocupação.]
Pafúncio (caminhando de um lado para o outro): Essa muié que num chega...
Esperança (nervosa): Será que mataro Donelena?
Cesária: Vire essa boca pra lá... Mainha deve de tá apenas espairecendo.
[Neste momento, Helena entra pela porta, com aparência maltrapilha.]
Pafúncio (aliviado): HELENA! |Corre até a esposa.| AONDE VOCÊ TAVA? QUE ROUPAS RASGADAS SÃO ESSAS?
Esperança: Virge Maria... Parece inté que foi atacada pelo...
Helena (interrompendo, devastada): Homi de Preto... Ele mi atacô, Pafúncio!
Cesária (preocupada): Minha Nossa Sinhora... Esse elemento de novo. |Corre até Helena.| A sinhora tá bem?
Helena (chorando): Ele beijou minha boca, Pafuncinho...
Pafúncio (atônito): O QUÊ? VOCÊ MI TRAIU, HELENA?
Cesária (interrompendo): CLARO QUE NÃO, PAINHO! ELA FOI ATACADA POR UM TARADO, QUE NEM FOI COM A ESPERANÇA!
Esperança: Num é tarado não, Cesária... É o Homi de Preto... É ele que ataca as muiéres dessa cidade desde o tempo de minha bisavó.
Cesária: Pois eu num acredito nessa história. Pra mim, isso é um maníaco que precisa ser detido.
Helena (ainda chorando): Eu... EU TÔ ME SENTINO UMA IMUNDA!
Esperança (tentando ajudar): Eu já lidei com isso, Donelena. Se a sinhora quisé, eu lhe ajudo com todo gosto.
Helena (entre soluços): EU NUM QUERO SUA AJUDA, ALEIJADA DOS INFERNOS!
Esperança (triste): Eu... só quis ajudar.
Pafúncio (agressivo): NUM SEJA INCONVENIENTE, ESTORVO! NUM TÁ VENDO QUE MINHA MUIÉ TÁ NUM PÉSSIMO MOMENTO, ABESTADA?
Cesária (interrompendo): ÊPA! NUM É PORQUE MAINHA FOI ATACADA, QUE VOCÊS TÊM O DIREITO DE TRATÁ A ESPERANÇA ASSIM!
Pafúncio: CALE A BOCA VOCÊ TAMBÉM, CESÁRIA!
Cesária (avançando): SÓ DEPOIS QUE O SINHÔ RESPEITAR A MINHA AMIGA! VOCÊS NUM TEM AUTORIDADE ALGUMA SOBRE ELA, A NUM SER EM RELAÇÃO AOS SERVIÇOS DOMÉSTICOS!
Helena: CHEGA! SERÁ QUE VOCÊS NUM VÊEM QUE QUEM PRECISA DE CUIDADO SOU EU?
[Aos prantos, ela corre para seu quarto, sendo seguida por Pafúncio, que tenta lhe consolar. A câmera foca no rosto de Esperança, que está com os olhos marejados.]
Cesária (percebendo a tristeza da amiga): Num fique assim não, Esperança...
Esperança (chorando): Eu num aguento mais, Cesária... Eu dou o meu melhó todos os dias e só sou humilhada por vossos pais.
Cesária (compadecida): Pois fique tranquila, minha amiga. Eu ainda vou imbora dessa casa, e você vai comigo.
Esperança (secando as lágrimas): Agradecida, Cesária! Você num devia ser tão boa comigo, afinal... eu sou só uma manca imprestave.
Cesária: Num fale isso, Esperança. Você num é nada disso... Você tem apenas uma deficiência, e isso num te torna inferior à ninguém.
[Emocionada, Esperança abraça a amiga, que busca lhe consolar. A cena é embalada por um instrumental melancólico, enquanto a tela escurece lentamente. Um dia se passa.]
CENA 04 [SÍTIO DE ISAQUE • TARDE]
[No sítio, depois de ser acolhida, Clarita já está fazendo as atividades da casa. Na cena em questão, a mulher dá comida para os porcos, em companhia de Marcelina.]
Clarita: Intão vossa mãe abandonô você e seu irmão?
Marcelina: Sim... Eu era muito pequena na época... Já o Isaque, era maior, por isso sofreu mais.
Clarita: Mas... será que ela num teve um motivo pra fazê isso? Vai vê foi inté pro bem de vocês.
Marcelina (incomodada): Motivo pra abandoná os fi, dona Anastácia? Era só o que faltava.
[Clarita fica constrangida. Neste momento, Isaque se aproxima das duas, arrumado para sair.]
Marcelina: Oxente... Pra onde vai arrumado e perfumado, Isaque? Parece inté que tá ino pra um velório.
Isaque (sorrindo): Decidi fazê o que você aconselhou, Marcelina. Eu vô me declará pra franguinha.
Marcelina (feliz): Finalmente... Já tava passano da hora de você lutá pelo amô de sua vida.
Clarita (se intrometendo): Tá apaixonado, Isaque?
Isaque: Tô sim, dona Anastácia... Só que ela inda num sabe.
Clarita (sorrindo): Muito bem... Siga o seu coração.
[Isaque sorri de volta. Ele monta em seu cavalo e galopa para longe, enquanto o seu tema — Lembrança de um beijo — começa a tocar.]
CENA 05 [POUSADA • TARDE]
🎶 • Desconstruindo Amélia • Pitty [Instrumental]
[No quarto em que estão hospedados, Lorena e Carlos se arrumam para o jantar de noivado que irão na casa de Pafúncio. O compromisso do rapaz com Cesária finalmente será oficializado.]
Lorena (animada): Ah, meu filho... finalmente este dia chegou.
Carlos (murmurando): Só espero que aquela maluca não arme outra presepada.
Lorena (sorrindo): Não se preocupe, meu filho... Ela casa com você, nem que seja amarrada.
Carlos (sussurrando): Assim espero...
Lorena: Assim que o casamento acontecer, nós vamos em busca do nosso tesouro, meu amor. |Sussurra.| Ah, Lorena... seus dias de glória se aproximam.
Carlos: E quando a senhora vai prosseguir com sua vingança? Armamos toda aquela situação para nada?
Lorena (convicta): Não se preocupe, Carlos. Em breve, eu prendo o rabo daquele sem vergonha em mim.
Carlos (sorrindo): A senhora é terrível!
[Carlos, em tom de malandragem, beija a mão de sua mãe, que sorri, demostrando satisfação.]
CENA 06 [CASA DE PAFÚNCIO • NOITE]
[É mostrado ao público uma farta mesa de jantar na casa de Pafúncio. Finalmente chegou o dia da oficialização do noivado de Carlos e Cesária. A protagonista está sentada na mesa, de cara feia, ao lado dos pais, que parecem ansiosos. De repente, começam a bater incessantemente na porta. Esperança vai até lá, e, ao abrir, Lorena entra, em companhia do filho, ambos sorridentes.]
Pafúncio: Meus quiridos, entrem, entrem!
[Ele e Helena vão cumprimentar os convidados, enquanto Cesária permanece calada. Carlos e Lorena se aproximam da moça.]
Lorena: Não vai cumprimentar sua sogra, Cesária querida?
Cesária (sem olhar para ela): Prefiro cumprimentar um cabo de vassoura.
Lorena (confusa): O que você quis dizer com isso?
Cesária: Num interessa!
Pafúncio: Cesária, lembre-se do que cunversamos.
Carlos (tentando puxar assunto): Minha noivinha, venha cá pra eu lhe dar um cheiro.
Cesária (sarcástica): Num vô não, mas, se o sinhô quiser, pode cheirar aquele cacto que tem ali na janela.
Helena (envergonhada): Ah, Cesária e seu senso de humô. |Se referindo à Lorena e Carlos.| Sentem-se, quiridos!
[Ambos sentam-se. No decorrer do jantar, Cesária continua de cara amarrada. Quando terminam de comer, Esperança traz a sobremesa.]
Cesária (levantando-se): Deixe que eu sirvo meu noivo, Esperança.
[Carlos sorri. Com malícia, Cesária pega uma bandeja de pudim, e, intencionalmente, a derruba sobre o rapaz, sujando-o inteiro e deixando-o furioso.]
Cesária (dissimulada): AI! Me perdoe, meu noivinho!
Helena: CESÁRIA!
[Neste momento, Carlos levanta-se, farto.]
Carlos (decidido): Já chega! Vamos resolver isso, de uma vez por todas.
[Ao dizer isto, ele tira a caixa das alianças de seu bolso e se ajoelha aos pés de Cesária. Pafúncio, Helena e Lorena observam com satisfação.]
Carlos (sorrindo): Cesarinha, meu amor... Você aceita casar comigo?
Pafúncio (interrompendo): Ela aceita!
Cesária (surpresa): OXENTE! Que história é essa, painho?
Helena: Esse pedido é só uma formalidade, cabritinha, vocês já estão noivos, e a data do casamento... já está marcada.
Cesária: O QUÊ?
Lorena (sorrindo): Olha... agora eu dei valor.
Carlos (encantado): E quando é, seu Pafúncio?
Pafúncio (com orgulho): Em duas semanas, Carlinhos. Vai ser a maior festa que Vila Formosa já viu!
Cesária (desesperada): EU NUM CASO! NUM CASO MERMO!
[Descontrolada, a filha de Pafúncio começa a destituir tudo o que está em cima da mesa.]
Helena (desesperada): PARE COM ISSO, MINHA FIA!
[Neste momento, de repente, uma cantoria desafinada invade a casa. Cesária, percebendo, para. Um clima romântico é embalado.]
Voz (cantando): Formosura que excedeis a todas formosuras... sem ferir, dor fazeis, e sem dor, desfazeis o amor das criaturas...
Pafúncio: QUE DIABO É ISSO?
Cesária: Oxente... é a voz do Isaque!
[Curiosos, todos correm para fora. Chegando lá, Isaque para de cantar, e olha sorrindo para Cesária, que parece estar encantada.]
Isaque (feliz): CESÁRIA!
Cesária (sussurrando): Isaque...
Pafúncio: O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO MAIS UMA VEZ AQUI, SEU MIZERAVI?
Isaque: EU VIM FALAR COM CESÁRIA!
Carlos (com raiva): Desgraçado... Tá querendo roubar minha noiva.
Isaque: Ela num é sua noiva!
Carlos (com olhar ameaçador): Eu lhe avisei...
[Com raiva, ele parte para cima de Isaque, e acaba lhe referindo um soco. O rapaz revida, e logo começa uma grande briga, com socos e pontapés.]
Isaque: DISGRAMADO!
Lorena (desesperada): PAREM COM ISSO! PAFÚNCIO, FAÇA ALGUMA COISA!
[Pafúncio fraqueja, com medo de que sobre para o seu lado. Cesária, rapidamente corre para dentro. De repente, na janela de seu quarto, ela surge com um balde de água na mão, e o joga sobre os dois rapazes, separando-os.]
Cesária (gritando): VÃO IMBORA DAQUI, SEUS GROSSEIRÕES!
[Ela fecha a janela. Carlos encara Isaque. Ambos estão descabelados. O caipira, humilhado, vai embora. No quarto, Cesária suspira, encantada.]
Cesária (sorrindo): Ele fez um serenata pra mim...
[A câmera foca no rosto de Cesária.]
CENA 07 [IGREJA • MANHÃ]
🎶 • Severina Xique Xique • Genival Lacerda
[Naquela manhã, no altar da igreja, Mici termina de fazer uma oração.]
Mici (se benzendo): Que Deus nos livre dos ateus, dos viados, das sapatonas e das feministas... Amém!
[Ao se levantar para ir embora, ela avista P. Celso, que estava trancando seu quartinho.]
Mici (curiosa): Padre... é verdade que o sinhô guarda uma caixa misteriosa dentro desse quartinho? |Se aproxima.| Boatos dizem que dentro dela tem um dente que Jesus Cristo perdeu enquanto tava na cruz.
P. Celso (murmurando): Acreditando nesses fuxicos imundos, minha fia?
Mici: No mundo de hoje já num se sabe o que é verdade ou não, padre.
P. Celso (se retirando, irritado): Povo fofoqueiro... Era só o que me faltava!
[A câmera foca no rosto curioso de Mici.]
CENA 08 [QUARTO DE CESÁRIA • MANHÃ]
[Cesária está dormindo em sua cama, e tudo parece tranquilo. De repente, a moça desperta. Lentamente, ela levanta-se da cama, calça seu par de sandálias e, como de costume, vai até a janela de seu quarto.]
[Ao puxar as cortinas, em companhia de um instrumental de tensão, a filha de Pafúncio se desespera ao perceber que a janela está com grades.]
Cesária (assustada): O que é isso?
[Rapidamente, ela corre até a porta, mas percebe que a mesma também está trancada.]
Cesária (se dando conta de que está presa): Meu Deus... me trancaram aqui dentro!
[A câmera foca no rosto desesperado de Cesária.]
A IMAGEM CONGELA EM CESÁRIA [🍂🥀].