Flor de Formosura - Capítulo 07

 



🌵 | Flor de Formosura | Capítulo 07/20 | 🌺


CENA 01 [PRAÇA DE VILA FORMOSA • NOITE]


🎶 • De volta pro aconchego • Elba Ramalho 


[Clarita continua observando a cidade onde viveu por quase toda a sua vida, sorridente.]


Clarita (emocionada): Vinte ano de minha vida atrás das grades, condenada por um crime que eu num cometi... sem vê meus fi crescer... sem aproveitá cada segundo ao lado deles...


FLASHBACK • CELA DE PRISÃO • NOITE


[Clarita, ainda jovem, está detida em uma cela fria, chorando perto de seu pai, Inácio, que está do lado de fora das grades.]


Clarita (aos prantos): Num foi eu, pai... Eu num fiz nada...


Ignácio (com a voz embargada): Minha fia... eu sei. Você nunca foi muié de fazê mal a ninguém. 


Clarita (olhando nos olhos do pai): Pelo amor de Deus, meu pai... Se eu for condenada, num deixe que meus fi saibam que a mãe deles tá presa... Invente qualqué coisa, mas num dê essa vergonha pra eles.


Ignácio (sussurrando): Tá bom, meu amô... Mas pense positivo... Você vai sair daqui!


• FIM DO FLASHBACK •


[A câmera foca nos olhos marejados de Clarita.]


Clarita (tentando não chorar): Nem meu painho eu pude interrá... |Neste momento, olha para a câmera, com uma expressão de determinação.| Mas agora, eu voltei... Voltei pra reconquistá o amô e a confiança dos meus fi, mas também... pra me vingar de tudo o que você fez comigo... Helena Leitão!


[Ao dizer estas palavras, Clarita pega a bolsa que trazia e se afasta dali, enquanto Mici e P. Celso continuam lhe observando, encabulados.]


P. Celso (sussurrando): Será que é ela, dona Maria Víscera?


Mici: Cícera, padre! E eu num sei... Parece muitcho, mas também pode num ser... Eu só sei que vai se ver comigo, se for mais uma dessas quenga de terceira idade que vem pra cá só pra se oferecer pra qualqué cristão de Vila Formosa. 


[Mici e P. Celso continuam conversando, enquanto Clarita some, ao longe. De repente, a câmera corta para Lorena e Carlos, que caminham por ali.]


Lorena (incrédula): Quer dizer então que aquela pistoleira teve a audácia de bater no rostinho que mamãe beijou?


Carlos (se vitimizando): Aquela mulher é o cão chupando limão, mamãe... Eu não sei se vou ter coragem de casar com ela não.


Lorena: Vai sim, meu filho... Depois que vocês tiverem juntos, pode trair com a primeira quenga que aparecer em sua frente. O que importa é que o nosso futuro estará garantido, caso eu não consiga pôr as mãos naquele bendito tesouro. 


[Enquanto ambos conversam, Mici e P. Celso se aproximam deles, sorrateiros.]


Mici (sussurrando): Esses aí chegaram faz dias, e até agora eu num sei o que querem... Parece que são da capital. 


P. Celso: Dona Mici, precisamos investigar. 


[Eles se aproximam o suficiente para serem notados por Lorena e Carlos.]


P. Celso: Boa noite, meus filhos. São novos em Vila Formosa?


Lorena (os julgando com o olhar): Me perdoe, padre, mas... O que o senhor tem a ver?


[P. Celso engole o seco, envergonhado. Mici, ainda com a bíblia em mãos, começa a puxar assunto.]


Mici: Somos os cordeiros de Deus desta cidade, querida. Nossa função é espalhar o evangelho e converter almas sebosas. 


P. Celso (interrompendo): Sim... Aliás, estamos precisano reformar a nossa paróquia, mas nos falta o ordenado. 


Lorena (sarcástica): Oxente... E eu com isso?


P. Celso (mentindo): É que... Eu sonhei com Deus esta noite, e... ele me disse que deveríamos contar com uma mulher e um rapaz que eram iguaizinhos a vocês dois.


Lorena (sorrindo): Era só o que me faltava... |Encara o pároco.| Olhe bem, seu padreco bajulador, se depender de mim, essa moléstia de igreja cai sobre sua cabeça. |Olha para Carlos.| Vamos, meu filho! Não se junte com essa gentalha!


Carlos (sarcástico): Sim, mamãe.


[Ambos se retiram, deixando Celso envergonhado e Mici enfurecida.]


Mici (gritando): SERPENTE DO JARDIM! OBRA DO DIABO! BICHA SIMULADA!


P. Celso: Calma, minha fia, olhe o escândalo. 


Mici (murmurando): Muierzinha maldita... Negou uma ordem divina.


[Enquanto a beata reclama, a câmera se afasta lentamente. A noite corre depressa e logo é dia novamente.]




CENA 02 [PREFEITURA • MANHÃ]


🎶 • Alelui-me, Baby • Bad Girls


[Na primeira hora do dia, é visto Helena adentrando a prefeitura, discretamente. Ela se dirige até a sala de Pafúncio, e, ao abrir a porta, se depara com Juscicleiton, que estava saindo com alguns documentos e folhetos. Como estavam distraídos, ambos se esbarram, fazendo os papéis voarem.]


Helena (assustada): Oh, seu abestado! Tá vendo o que fizesse?


[O secretário do prefeito se ajoelha para pegar os papéis. Helena faz o mesmo. Neste momento, os olhares dos dois se encontram, e um clima de romance emerge no ar, enquanto Juscicleiton não tira os olhos da mulher.]


Juscicleiton (boquiaberto): Primeira dama, mi perdoe, eu... eu...


Helena (sedutora): Juscicleiton, que olhar assanhado é esse pra cima de mim?


Juscicleiton (envergonhado): Mi desculpe, dona Helena. O que a sinhora tá fazeno aqui a essa hora? Seu marido ainda num chegou.


Helena: Eu vim falar com você mermo, Juscinho. 


Juscicleiton: Co-comigo?


Helena: Serei breve. Só quero saber aonde diabo você e Pafúncio foram onti. Ele chegou em casa pariceno um porco, e se recusou a falar aonde tava. 


Juscicleiton (nervoso): Eu... eu num sei se devo lhe falar.


Helena (se aproximando do moço, com olhar sedutor): Num me faça essa desfeita, homi... Esqueceu que sou a muié de seu patrão?


Juscicleiton (suspirando): Ô, minha Nossa Sinhora... Nós fomos comprá voto, e seu Pafúncio foi expulso com direito até a tiro de carabina. 


Helena (assustada): Minha Nossa Sinhora... Esse povo num respeita mais nem as pessoas de bem. |Encara Juscicleiton, com um sorriso no rosto.| Bom, meu caro, era só isso mermo que eu queria. 


[Ela se aproxima do secretário e dá um beijo eu sua bochecha, deixando-o desconcertado.]


Helena: Obrigada, e licença!


[Com postura sensual, ela se retira. A câmera foca no rosto de Juscicleiton, que está vermelho e morde seus lábios. É dado início a instrumental levemente circense.]


Juscicleiton (sussurrando): Virge Maria... Chega mi deu uma alegria no... |Neste momento, vê uma foto de Pafúncio na parede e se assusta.] Pare com isso, Juscicleiton, que se o prefeitcho soubé de uma coisa dessas, ele lhe capa. 


[Juscicleiton volta a pegar os papéis que deixara cair, enquanto a câmera focaliza no rosto de Pafúncio, estampado na fotografia.]







CENA 03 [CASA DE PAFÚNCIO • MANHÃ]

[Pafúncio está na sala, lendo um jornal, quando Helena entra rapidamente pela porta.]

Helena (exagerada): MEU MARIDO! Por que você num mi falou que foi atacado por um caipirão, meu amô?

Pafúncio (estranhando): Oxente, quem lhe disse isso?

Helena: É... o... o seu secretário, mas isso num importa!

Pafúncio: Mas num se preocupe, quirida. Eu ainda vô dá um jeito naquele bronco ignorante... inclusive, foi o mermo mizeravi que trouxe Cesária naquele dia.

[Neste momento, Cesária, que a tudo ouvia, surge na sala, ao lado de Esperança.]

Cesária (surpresa): O sinhô foi tentá subornar o Isaque? Eu num acredito nisso.

Esperança (concordando): Nem eu...

Helena (irritada): Oxente! A aleijada agora se mete nos assunto da família? PRA COZINHA, DESGRAÇA!

[Esperança, desolada, corre dali, deixando Cesária furiosa.]

Cesária (desafiando a mãe): QUEM A SINHORA PENSA QUE É PRA FALÁ ASSIM COM ELA?

[Preocupada com a amiga, Cesária corre para consolá-la, deixando os pais resmungando.]



CENA 04 [FEIRA • MANHÃ]

🎶 • Porta bandeira • André Gabeh 

[Na feira pouco movimentada de Vila Formosa, é mostrado Maria Machado fazendo algumas compras, enquanto cantarola trechos de uma música.]

Maria Machado (cantando): Lacrei! Arrasei! Incorporei... a rainha do lacre que num precisa de ex.

[Neste momento, é visto Isaque, que se aproxima pelas costas da moça.]

Isaque: Bom dia, moça... Ocê num é aquela amiga da Cesária?

Maria (assustada): Oxe! Sou eu sim, por quê? O que o sinhô quer com a Cesária?

Isaque: É que...

[De repente, Carlos, que também estava ali, se aproxima ao ouvir o nome da moça. Isaque, ao vê-lo, fica tenso.]

Carlos (se aproximando): O que é que você quer com a minha noiva, rapaz?

Isaque (lhe peitando): Num é de sua conta, e Cesária num é sua noiva. 

Carlos (lhe encarando de forma ameaçadora): Ela acha que não, mas é sim. Nós vamos nos casar, então trate de ficar longe dela.

Isaque: Eu fico se eu quisé, e eu acho que num quero. 

Carlos (rangendo os dentes): Pois eu vou fazer você querer, e é na marra.

[Um pesado clima de tensão tem início e Carlos e Isaque seguem se encarando de forma ameaçadora.]







[Quando os dois estão prestes a se atacarem, Maria Machado intervém.]

Maria Machado (com coragem): Vocês parem com isso! Era só o que faltava... Dois marmanjos que nem duas crianças... É por isso que o mundo tinha que ser dominado pelas muiéres. 

[Resmungando, ela vai embora. Carlos e Isaque se encaram pela última vez.]

Carlos (se afastando): O recado tá dado...

[Ele parte dali. A câmera foca no rosto de Isaque, que faz uma expressão de raiva.]

Isaque (murmurando): E eu lá tenho medo de um jumento falante como você?

[Ao dizer isto, Isaque também vai embora, enquanto a câmera se afasta. O dia passa rapidamente, e logo a noite cai.]



CENA 05 [PRAÇA DE VILA FORMOSA • NOITE]

[Helena caminha pela praça de Vila Formosa, no intuito de espairecer. De repente, ela avista Juscicleiton, que está sentado em um banco, assobiando.]

[Tentando sensualizar, a esposa de Pafúncio caminha em sua direção, mas acaba tropeçando e caindo, sem ser vista pelo moço, que se levanta e vai embora.]

Helena (levantando): Pelo visto esse passeio perdeu a graça. Humpf!

[Resmungando, ela começa a se dirigir para casa. Como a cidade é muito pequena, há várias ruas escuras e desertas, e é justamente por uma dessas que Helena está se locomovendo. Repentinamente, ela sente uma sensação estranha lhe dominando.]

Helena (tensa): Ai... Mi deu um frio na espinha. Crendiospai!

[Ela retoma a sua caminhada. Neste momento, atrás dela, é visto uma sombra se aproximando sorrateiramente. Ao perceber a presença de alguém, Helena estremece.]

Helena (sussurrando): Minha Nossa Sinhora... Tem alguém me perseguino... E se fô um maníaco... um estruprador... Ai...

[Conseguindo coragem, ela se vira para trás, mas não vê ninguém. Por um momento, tudo parece estar tranquilo, mas, de repente, ao som de um instrumental de suspense e horror, uma figura que usa trajes negros corre em sua direção, completamente descontrolada. É ele, o famigerado Homem de Preto. Ao vê-lo, a primeira dama solta um berro ensurdecedor.]

Helena (aterrorizada): AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!

[A tela escurece. Em rápidos takes, é possível ver a esposa de Pafúncio caída no chão, desmaiada, enquanto a criatura se aproxima e sobe sobre o seu corpo. Tudo fica completamente escuro.]



CENA 06 [SÍTIO DE ISAQUE • NOITE]

[Na sala da casa de Isaque, ele e a irmã estão sentados em uma cadeira, tentando assistir a TV, que está com uma péssima qualidade de imagem.]

Isaque (resmungando): Parabólica disgraçada!

Marcelina (inconformada): Diacho! Só porque eu queria saber quem vai sair do Big Brodi hoje.

[Isaque vai até o aparelho e lhe dá um forte tapa, que lhe faz apagar por completo.]

Isaque: Mizera! Uma televisão novinha desse jeito. Tem só uns 50 ano.

[Neste momento, ao som de um instrumental de tensão, batidas na porta são ouvidas.]

Voz de mulher: Ô, de casa!

Marcelina (tensa): Quem diabo é uma hora dessas, Isaque? 

Isaque (desconfiado): Vamo sabê agora!

[O rapaz vai até seu quarto e pega sua velha espingarda. Ele a engatilha e abre a porta, dando de cara com Clarita, que fica radiante ao ver os filhos. Isaque e Marcelina não a reconhecem.]

Clarita (sussurrando, radiante): Isaque...

Isaque (sério): Como é que você sabe meu nome? QUEM É VOCÊ?

[O instrumental chega ao seu ápice. A câmera foca no rosto de Clarita, e, em seguida, em Isaque.]

A IMAGEM CONGELA EM ISAQUE [🍂🥀].