*TECIDO ESCARLATE*
*CAPÍTULO 1*
*1 - Int. Bar - Noite*
O bar está em silêncio. A câmera sutilmente vai em direção à porta de entrada e para… BUM!
*Sonoplastia: Lovin On Me - Jack Harlow*
A porta é aberta com um estrondo por um homem. Todos os olhares se voltam para ele, que desfila elegante pelo ambiente. É ANTÔNIO MIGUEL. Ele está sério e indiferente, e vai em direção a uma mesa com outro homem, seu amigo: RICARDO.
Antônio puxa uma cadeira e senta.
*Sonoplastia: música em segundo plano*
RICARDO (apontando) - Elas dariam tudo, facilmente, pra ter você na mesma mesa.
ANTÔNIO (desinteressado) - Não quero facilidades, quero desafios! Cansei de sair com mulheres insípidas.
RICARDO - Você é um tolo, Antônio. Como é possível um cara ter todas as garotas do mundo aos próprios pés e simplesmente rejeitá-las?
ANTÔNIO (sorrindo) - Quem disse que eu quero todas as garotas do mundo, amigo? Pra mim uma única garota basta.
RICARDO - Mas até você encontrar essa única garota, vai demorar. Então por que não aproveitar?
Antônio olha para ele, sorrindo.
ANTÔNIO - Essa garota já existe, Ricardo.
Zoom lento no rosto de Antônio. A trilha sonora se encerra com efeito de eco.
*2 - Int. Hotel/Quarto - Noite*
*Sonoplastia: música clássica ao fundo*
A câmera mostra um pote de creme numa penteadeira. Uma mão pega o pote, a câmera a segue e foca no reflexo do espelho do móvel. Nele, uma mulher. É ISIS.
Ela está praticando seu skincare. Takes dela passando produtos no corpo.
*Sonoplastia: batidas à porta*
É CAMILLE.
ISIS - À vontade.
CAMILLE (entrando) - Aqui o chá que você me pediu.
ISIS - Obrigada, vida. Antônio ainda não chegou?
CAMILLE - Ainda não. Olha, eu acho que ele não vai voltar tão cedo.
ISIS - Você conseguiu captar o semblante dele antes de sair?
CAMILLE - Ele estava bem sério, pra falar a verdade.
ISIS (cerrando os olhos) - Tudo bem. Ah, Camille, você pode ir preparando o meu quarto? Eu vou receber umas amigas hoje para um encontrinho.
Camille confirma com a cabeça e faz menção de sair. Mas se vira para a jovem.
CAMILLE - Você tem tido notícias da sua mãe ou do seu Álvaro? Eles nunca mais me mandaram notícias; eu fico preocupada, entende?
ISIS - Bobagem. São muitos negócios para administrar. Você acha mesmo que eles vão ter tempo pra ligar?
CAMILLE - Por qual razão não ligariam? - Ela se abaixa - Isis, já vão fazer duas semanas de puro silêncio.
ISIS - Geralmente isso acontece quando tem algum problema nas empresas.
CAMILLE (assustada) - Problema?
Isis revira os olhos e se vira para Camille, segurando-a pelos ombros.
ISIS - Mille, não tem porquê você ficar assim! Se houver qualquer embaraço ela vai saber resolver, relaxa.
CAMILLE (semblante taciturno) - Eu sinto, Isis.
ISIS (soltando Camille) - Ai, por favor, chega! Faz o que eu te pedi; as meninas já estão chegando.
Camille se levanta sorrindo sem graça, concorda com a cabeça e sai.
Zoom em Isis, que está pensativa. Inadvertidamente, um vento forte entra pela sacada, a xícara de chá cai no chão e ela se levanta rapidamente.
ISIS (começa a sorrir) - Um sinal?
*Sonoplastia: a música começa a aumentar. Som do vento assobiando.*
Take da Lua cheia…
*3 - Int. Bar - Noite*
ANTÔNIO - Bom, mas por qual razão você me chamou aqui?
RICARDO (inseguro) - É uma questão delicada. Não sei como você vai reagir.
ANTÔNIO - Você nunca vai saber minha reação se não falar.
Ricardo olha cabisbaixo para o jovem, que está sorrindo.
ANTÔNIO - Desembucha, Ricardo. Quem morreu?
*4 - Int. Hotel/Sala - Noite*
Isis está sentada no sofá, vendo tevê.
*Sonoplastia: batidas à porta*
Ela se levanta, vivaz, e corre para abrir a porta. Quando abre, há algumas moças com expressões sombrias. São suas amigas.
*Sonoplastia: instrumental de suspense*
ISIS (sorriso sumindo) - Aconteceu alguma coisa?
*5 - Int. Bar - Noite*
Zoom no rosto afetado de Antônio.
ANTÔNIO - Como assim? Câncer?
RICARDO - Sinto muito, meu amigo.
ANTÔNIO (chocado) - Por que você não falou diretamente pra Isis?
RICARDO - Você não acha que deveria contar para ela? Assim pode acolher caso ela tenha uma crise.
ANTÔNIO (discretamente irônico) - Pode ter certeza que ela vai ter uma crise.
RICARDO (se levanta) - Se você quiser posso ir com você.
ANTÔNIO (se levanta) - Não precisa, cara. Seria bom você voltar para casa. Olha, valeu, mas eu preciso ir conversar com minha irmãzinha!
Ricardo põe a mão sobre o ombro do amigo, que faz o mesmo. Antônio se vira e sai apressado. Zoom no rosto preocupado de Ricardo.
Suspense…
*6 - Int. Casa Família Cordeiro/Cozinha - Noite*
É mostrado em câmera lenta um copo caindo e quebrando.
CORTE
Uma mulher está assustada enquanto olha o celular. Várias pessoas estão confraternizando atrás dela. A casa está clara, como no Natal, mas é uma festa pequena. Essas pessoas se assustam com o som e vão acudir a mulher, que é ANA CLARA.
Um homem e alguns outros sujeitos vem ao seu encontro. São BENJAMIN, TATIANA, HEITOR, RODRIGO e alguns convidados.
BENJAMIN (correndo) - Ana? O que aconteceu?
Ana mostra o celular para ele, a mão tremendo.
BENJAMIN (olhos arregalados) - Minha nossa!
TATIANA - O que houve?
BENJAMIN (disfarçando) - Não foi nada. Podem voltar
RODRIGO - Certeza? Ana, você está bem?
ANA (forçando sorriso) - Sim, foi só um pequeno susto. Bobagem.
HEITOR - Mãe, qualquer coisa podemos explicar aos convidados…
BENJAMIN (interrompendo) - Está tudo bem, Heitor. Podem ir.
Eles se retiram. Ficam apenas Benjamin e Ana.
ANA - Eu não consigo acreditar nisso! É culpa minha, Benjamin!
BENJAMIN - Não é mesmo! Ninguém poderia prever que algo assim aconteceria.
ANA - Suicídio, amor.
BENJAMIN - Ana, fica tranquila. Ele só pagou pelas coisas que fez.
ANA (chocada) - Como você pode falar isso?
BENJAMIN - Ele assediou a nossa filha, Ana Clara.
ANA - Independentemente disso. Ninguém merece a morte como punição.
BENJAMIN - Independentemente de qualquer coisa, foi ele quem tirou a própria vida.
Ana o encara, furiosa, e sai da cozinha. Benjamin põe a mão no rosto, frustrado.
*7 - Int. Casa Família Cordeiro/Sala - Noite*
Os convidados estão ao redor de Heitor, que toca Champagne Supernova no piano. Takes de suas mãos no instrumento e olhares dos ouvintes atentos, impressionados e sentindo a música. No meio deles, a câmera encontra EMÍLIO, que está vidrado não no piano, mas em Heitor.
Como se entre os convidados, a câmera foca em Heitor e dá zoom lentamente. A música chega ao seu desfecho e todos aplaudem. Heitor sorri, agradece, se levanta e sai.
Corta para Ana Clara aparecendo no ambiente, sorriso forçado. Benjamin aparece logo atrás. Rodrigo o aborda.
RODRIGO - Benja, eu sei que aconteceu alguma coisa. Fala pra mim.
BENJAMIN (suspirando) - Você não vai acreditar em quem morreu.
Corta para o rosto ansioso de Rodrigo…
*8 - Ext. Casa Família Cordeiro/Terraço - Noite*
*Sonoplastia: Nossa Canção - Vanessa Da Mata*
A câmera-drone desce até o terraço. Heitor está lá, pensativo. A câmera o circunda, filmando suas costas e quando retorna ao seu rosto, tem alguém atrás dele. É Emílio.
EMÍLIO - O céu da cidade não tem tantas estrelas quanto o do campo.
HEITOR (se vira num sobressalto) - Caramba, você me assustou.
EMÍLIO (se aproximando) - Você estava bem absorto, né? Pensava em quê?
HEITOR - Nada demais. Na real, não estava pensando em nada especial.
EMÍLIO - Por que saiu de lá?
HEITOR - Você sabe que eu não sou muito chegado nessas celebrações sem motivo da minha mãe. Francamente, não gosto tanto de socializar. Prefiro ficar aqui sentindo a brisa gelada da noite. O que esperar de um adolescente de dezessete, afinal?
EMÍLIO (franze a testa) - A cada dia que passa percebo que não somos nada iguais.
Eles riem.
HEITOR - Sabe o que eu gosto de fazer além de contemplar?
EMÍLIO (rindo) - Fala logo.
HEITOR - Far Cry.
EMÍLIO (confuso) - As vezes me pergunto como é possível alguém gostar tanto de contemplar e Far Cry ao mesmo tempo?
HEITOR (erguendo a sobrancelha) - As pessoas são complexas, cara. Quer jogar?
Emílio faz que sim com a cabeça, eles sorriem e começam a correr devagar.
A câmera os segue até chegar em Ana, que está acompanhada de um casal, são ROSANA e TOMÁS.
ROSANA - Quem é o amigo do Heitor?
ANA - Ah, é o Emílio, filho da Marta, a governanta. Veio do sul pra cá já vão fazer 2 meses. Foi muito bom para o Heitor, já que eles estão na mesma série, têm a mesma idade. Não demorou muito até se tornarem amigos.
TOMÁS - O Heitor pretende fazer faculdade?
ANA - Medicina para psiquiatria.
TOMÁS (estupefato) - Ué, não vai querer tomar conta dos negócios da família?
ROSANA - Provavelmente ele não se dá muito bem com gestão. Tem que entender o lado dele.
ANA - Minha mãe e o pai dele não o apoiam muito, mas o que eu posso fazer?
ROSANA (franzindo o cenho) - Não apoiam? Mas medicina é uma faculdade excelente, além de tradicional.
TOMÁS - Ele é um prodígio. Talentos não podem ser desperdiçados assim, Rosana.
ROSANA - Por falar em talento, amanhã vou receber Damien Hirst no aeroporto. Tomás vai fazer uma exposição de suas artes na galeria.
ANA (animada) - Caramba, sério? Hirst é bem polêmico.
TOMÁS - Qual artista não é?
Eles riem.
Uma criança aparece puxando o vestido de Ana. É BENÍCIO. Rosana tem um ataque de fofura e se abaixa para dar um abraço nele.
ROSANA (emocionada) - Oh, meu amor! Eu estava com saudades. Como cresceu!
ANA (imitando uma voz doce) - É, titia, você não veio mais me visitar. O que posso fazer?
ROSANA (voz chorosa) - Oh, meu amor, não cresce não. Fica desse tamanhinho mesmo.
BENÍCIO (entregando uma flor para Rosana) - Olha! Peguei pra você.
Em um gesto de ternura, ela emite um “Own!” sonoro e recebe a flor.
ROSANA - Obrigado, meu amor! A titia também tem um presente para você.
Benício abre um largo sorriso e olha para a mãe, que acena com a cabeça como quem diz “pode ir”. A mulher o leva pela mão.
TOMÁS (curioso) - E a Cecília, onde está? Não vi ela desde que cheguei.
ANA (sorriso desaparecendo) - Ah, a Cecília estava indisposta e pediu para ficar no quarto.
*9 - Int. Casa Família Cordeiro/Quarto de Cecília - Noite*
*Sonoplastia: Instrumental Ternura em Piano*
CECÍLIA está deitada em sua cama, expressão deprimida, braços cruzados e lágrimas caindo de seu rosto. A tomada corta e mostra a janela, lá fora, brilhante, a Lua.
*Sonoplastia: Batidas suaves à porta*
Cecília se senta e seca as lágrimas com urgência.
CECÍLIA - Entra!
TATIANA entra no quarto com delicadeza e olha com compaixão para a menina. Cecília se senta e abre um sorriso.
TATIANA - Como está a dor de cabeça?
CECÍLIA (uma voz doce) - Já está passando.
Tatiana senta na cama.
TATIANA - Cecil, não precisa fingir que está tudo bem. Eu sei que pode ter sido traumatizante o que aconteceu, mas é preciso seguir em frente.
CECÍLIA - Quem disse que eu estou fingindo algo? Você não deveria me julgar dessa forma.
TATIANA - Eu te conheço, meu amor…
CECÍLIA - Realmente conhece?
TATIANA - Conheço e te amo muito, por isso fico preocupada quando você não fala comigo.
CECÍLIA (calma) - Eu não sou obrigada a isso - sorri.
TATIANA - Realmente não é, mas ninguém vai saber o que calado quer.
Cecília fica emburrada e revira os olhos.
CECÍLIA - Odeio essa frase.
Tatiana dá de ombros, comprimindo os lábios.
TATIANA - Eu só acho que seria bom se você me contasse mais do que sente - sorri descontraída - Eu até te conheço, mas não sou adivinha…
CECÍLIA (interrompendo grosseiramente) - Não!
Seu semblante muda, e sua doçura desaparece. Tatiana se assusta.
TATIANA (aturdida e com tom de voz submisso) - Cecília…
CECÍLIA (continuando) - Você não me conhece, só acha que sim. Você não é minha mãe. E para de me chamar de meu amor! Se você quer alguém pra consolar pra fazer sumir esse seu vazio e essa necessidade maternal, console o Benício!
TATIANA (magoada) - Do que você está falando?
CECÍLIA (com raiva) - Você acha que eu não percebo que você bisbilhota minha vida, do Heitor e do Benício como se fossemos seus filhos? Fazendo um papel que deveria ser da minha mãe, mas que ela não cumpre, por estar ocupada demais com os problemas conjugais, já que se preocupa mais com uma possível separação e o mal que isso vai fazer pra reputação dela do que com a saúde mental dos próprios filhos.
TATIANA - Cecília, não é nada disso. Eu só quero cuidar de vocês porque me importo.
CECÍLIA - Eu não quero que você cuide da minha vida. Não quero que ninguém aqui além de quem deveria fazer isso, cuide da minha vida ou fique se intrometendo nos meus sentimentos por acharem que sabem o que eu sinto. Vocês não sabem!
*Sonoplastia: Instrumental Triste em Piano*
Tatiana se ajeita na cama, desconfortável e abaixa a cabeça. Cecília se joga na cama e vira de costas para a mulher, que fica alguns segundos refletindo sobre o que acabou de ouvir. Então ela se levanta vagarosamente e aos poucos vai chegando na porta. Cecília está imóvel. Na porta, Tatiana dá uma última olhada para trás.
TATIANA (triste) – Eu posso não ter o direito de questionar seus sentimentos, mas você também não tinha o direito de me ferir assim.
Ela sai, e é mostrado a Cecília com olhar arrependido.
*10 - Int. Casa Família Cordeiro/Corredor - Noite*
Instrumental continua…
Tatiana fecha a porta e caminha melancólica e cabisbaixa, quase chorando. Perto da escada, uma mulher mais velha aparece elegante, é ZULMIRA.
ZULMIRA (direta) - O que aconteceu com você? Que cara é essa?
TATIANA (olhar caído) - Sabe, as vezes eu me pergunto porque eu tenho de ser tão sozinha nessa vida.
ZULMIRA - Explique.
TATIANA - Meu ventre nunca me deu nenhuma alegria, por isso minha alegria nunca foi verdadeira. Meu sonho sempre foi ter uma vida cercada de amores, e esses amores correndo por todos os cômodos da casa. E o que o destino me deu? Deu tudo o que eu queria ter, mas não pra mim e sim pro meu irmão.
ZULMIRA (irritada) - Você bebeu?
TATIANA - Não bebi, mas deveria ter bebido quando tive a chance. Bebido o mais mortal veneno!
ZULMIRA (desprezando) - Ora, não me venha com tolices! Estão perguntando por você lá embaixo.
TATIANA - Fala pra eles que eu tô com dor de cabeça.
ZULMIRA - Deu uma de Cecília agora?
Tatiana olha bem fundo nos olhos de Zulmira, que ergue uma das sobrancelhas.
TATIANA (inquirindo) - O que você quer dizer com isso, Zulmira?
ZULMIRA (com firmeza) - Quero dizer que semelhante a ela, você está se vitimizando e se escondendo dos olhares externos, mas porque você tem vergonha de admitir o próprio fracasso! Como mãe, como profissional e acima de tudo, como mulher! Pare de se fazer de coitadinha e enfrente isso. Seja forte, ou você vai viver sempre se sentindo frustrada!
Tatiana franze a testa, admirada. Abaixa a cabeça, movimenta as mãos, como se estivesse engasgada e de novo olha para Zulmira.
TATIANA - Quem você pensa que é? Você só vive aqui por conta do meu irmão.
ZULMIRA (dura) - Sim, por conta do seu irmão, não por você.
Depois disso, Zulmira vira as costas para a mulher e desce as escadas, andando com constante confiança.
Tatiana está parada, aérea, como se tivesse acabado de acordar de um desmaio. Depois de um tempo assim, ela sai andando vagarosamente pelo corredor, e entra no quarto. A tela escurece!
*11 - Int. Hotel/Sala - Noite*
Antônio abre a porta devagar e bem calmo, então vê Isis sentada sozinha na mesa. Ela está com uma xícara vazia na mão e está encarando o fundo do recipiente.
Antônio bate a porta com a intenção de fazer barulho. Isis continua parada. Ele ergue as sobrancelhas e faz um bico.
*Sonoplastia: Instrumental Energético*
ANTÔNIO - Preciso que você tire os tampões dos ouvidos. Tenho uma novidade.
ISIS - Sério? Pois também tenho uma pra você.
ANTÔNIO (dinâmico) - Espero que não seja a mesma da minha, isso seria trapaça, afinal, eu fiquei sabendo primeiro!
Isis se vira, com um sorriso travesso no rosto.
ISIS (se levantando) - Eu duvido!
ANTÔNIO - Aposto.
ISIS (veloz) - Eu não. - ela se aproxima dele, o sorriso ficando cada vez maior - É sobre o babaca do seu pai.
ANTÔNIO - E a minha é sobre a vadia da sua mãe. - refletindo - Espera, o que aconteceu com meu pai?
Isis caminha pelo cômodo e se joga no sofá, Antônio a segue e se agacha ao lado dela, seus rostos bem próximos.
ISIS - Eu só conto se você contar primeiro.
ANTÔNIO - Você não está em condições de pedir nada. Perdeu nossa aposta da roda dos desejos.
ISIS (revirando os olhos) - Ah, aquilo foi uma trapaça. Eu nunca conseguiria ir pra cama com o Austin Butler em menos de 30 minutos de conversa.
ANTÔNIO (sorriso maroto) - Se quisesse conseguiria.
Ele caminha com os dedos pela cintura dela, a câmera foca em suas curvas, depois corre para o rosto sorridente. Ela bate na mão dele.
ISIS (senta) - Essa conversa está saindo de controle.
ANTÔNIO - Então se você não quer falar, eu falo. A piranha da sua mãe morreu.
ISIS (impressionada) - Como é que é? - olha para o alto, pensativa - Então não me contaram a história completa. Que vadias!
ANTÔNIO (cara confusa) - Como é…?
ISIS (interrompendo) - Minha nossa, então quer dizer que agora é tudo meu?
ANTÔNIO - Eu acredito que você deveria ficar triste.
ISIS - Antônio, eu não vejo minha mãe desde os 4 anos. Nunca tivemos nenhuma ligação muito forte. Eu tenho mais apego à Mia do que à minha mãe.
ANTÔNIO - Mia foi a babá mais gostosa que você já teve.
Isis bate nele.
ISIS - Não importa… A verdade é que minha mãe nunca esteve presente. Não consigo sentir nada, infelizmente. É como se uma celebridade qualquer tivesse falecido.
Ela ri, depois faz uma cara triste, depois ri de novo.
ANTÔNIO - Isis, o que você quis dizer com “não contaram tudo”?
Isis se levanta e começa a andar pela sala enrolando os cabelos com o dedo.
ISIS - Pelo visto não te contaram tudo também.
ANTÔNIO (se põe de pé bruscamente) - Dá pra desembuchar?
ISIS (se virando para o rapaz) - A minha mãe morreu de quê?
ANTÔNIO – Câncer; no pulmão. Não é de se surpreender. Ela já estava há duas semanas no hospital, faleceu ontem durante a madrugada.
ISIS (falando baixo, como se estivesse pensando alto) - Ele não ia conseguir lidar com toda pressão sozinho. - ela encara Antônio enquanto fala em tom de chacota - Seu pai, Antônio, seu estimado pai, Álvaro Duncan, estava sendo acusado por exploração sexual e aliciamento de menores. Acredita?
Antônio fica aturdido.
ISIS - Essas acusações o pressionaram o suficiente pra ele se sentir oprimido, sem saber o que fazer. E quem sempre sabe o que fazer em situações labirínticas?
Ela aguarda um segundo em silêncio, Antônio não responde, pois está impactado.
ISIS - Exatamente! Nem mais nem menos, minha mãe. E o que acontece quando a única pessoa que pode oferecer salvaguarda à alguém que já está enterrado em lama não está mais presente? Tal qual uma âncora sem o navio, afunda! Seu pai estava encurralado. A única solução que ele encontrou para se safar foi… - Antônio a encara, o olhar irritado - a morte!
*IMPACTO*
Zoom no rosto de Antônio, que está com lágrimas nos olhos. Zoom no rosto de Isis, que está com um pequeno sorriso no rosto, depois em Antônio novamente…