Tecido Escarlate - Capítulo 3

 


*TECIDO ESCARLATE*

*CAPÍTULO 3*


*1 - Int. Apartamento Duncan/Sala - Manhã*


*Sonoplastia: Instrumental Dinâmico*


Isis e Antônio estão diante da grande varanda da sala, a luz entra e ilumina seus rostos. Isis está intrigada, ele expressa pretensão.


ANTÔNIO (suspirando) - Meu amor, eu sei que você pouco se importa com o estrago que fizeram na vida da sua mãe. Deveria, já que seu sobrenome está sendo jogado na lama junto. Pense em como será sua vida toda vez que forem ler seus documentos e imediatamente te associarem ao grande escândalo da família Duncan.


ISIS (pragmática) - Pule o prelúdio e vá direto ao ponto.


Antônio rodeia a jovem e se ajoelha diante dela com um sorriso cínico no rosto. Ela está de braços cruzados e olhos semicerrados.


ANTÔNIO - O que eu quero dizer é que não podemos deixar que quem quer que tenha denunciado meu pai e consequentemente piorado a situação da sua mãe saia vitorioso assim, sem mais nem menos. Eu quero uma retaliação!


ISIS (franzindo a testa como quem entendeu) - E qual minha participação nisso?


ANTÔNIO (se levantando diante dela) - Eu quero que você se infiltre e transforme em pó a linhagem de quem ferrou com meu pai. Quero ver o sobrenome deles no lixo. Um escândalo que faça todos quererem se afastar de cada membro assim como fizeram conosco! É a minha missão pra você.


ISIS (sorrindo e colocando a mão no abdômen do rapaz) - E por qual razão eu faria isso?


ANTÔNIO (revelando um sorriso-de-canto-de-boca) - Pela fortuna que sua mãe gentilmente passou para mim. Ela será sua!


ISIS (levantando a camisa dele) - Ah, é? E você, Antônio? O que você ganha com isso - ela faz uma pausa - seu eu falhar?


*Sonoplastia: Instrumental muda, e agora um coral sombrio acompanha a cena*


Antônio agarra a mão dela com força e os dois ficam face a face.


ANTÔNIO (semblante sinistro, ainda com aquele sorriso) - Se você não conseguir, algo que eu sempre quis de você desde que nossos pais estão juntos será meu… - Eles se encaram por uns segundos.


ISIS - O que seria?


Antônio, com um olhar profundo, desafiador, interessado e quase sádico, profere as próximas palavras pausadamente, revelando o impacto do resultado de sua vitória…


ANTÔNIO - Sua pele, seus cabelos, seu corpo. Você, Isis, será totalmente minha.


Isis sorri, depois fica séria, depois sorri novamente.


ISIS (provocando) - Você nunca vai me ter!


ANTÔNIO - Vamos apostar?


ISIS - Vamos apostar!


Foco em Antônio, depois foco em Isis…

 

CORTA para um take dos dois frente a frente contra o sol que entra pela janela, e apenas vemos suas silhuetas. A tela escurece…




*2 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Benjamin - Dia*


*Sonoplastia: Outra Vez - Gal Costa*


Na cama estão deitados Ana e Benjamin abraçados. A câmera vai se aproximando dos dois. Ana abre os olhos aos poucos e tira com delicadeza o braço de Benjamin de sua cintura, sentando-se.


BENJAMIN (voz de sono, mas apaixonante) - Vai me deixar aqui sozinho?


ANA (se virando e expressando amabilidade) - Não quis atrapalhar. Você estava tão confortável.


Ela se aproxima e dá um abraço nele, depois os dois se beijam.


ANA - Maaas, você tem razão. Já está bem tarde. - se levantando - então vamos andando…


Benjamin a puxa, ela solta uma gargalhada.


BENJAMIN - Fica comigo. Não quero levantar.


Ana passa os dedos nos lábios do marido, sorrindo.


ANA - Eu fico. Fico o quanto você quiser.


Seu sorriso se apaga de repente, e ela deita-se na cama. Benjamin se senta, preocupado.


BENJAMIN - O que houve?


ANA - Eu não consigo agir naturalmente.


BENJAMIN (se aproximando) - Meu amor, não é culpa sua, entenda!


ANA - Sei que não, mas é confuso e assombroso. Eu não sou tão presente na vida dos nossos filhos, e quando tento ser, coisas deploráveis e desastrosas acontecem! Isso só os afasta mais de mim. Não sinto que sou o suficiente.


BENJAMIN - Você faz o que está ao seu alcance e precisa entender isso. Não há como não ser o suficiente, porque você está dentro dos seus limites!

 

ANA - Uma mãe suficiente não rejeitaria a própria filha no nascimento.


BENJAMIN (suspirando) - Ana, foi uma gravidez conturbada. Estávamos em momento de crise, e isso te afetou, mas não significa que você é menos mãe por isso. Calma, meu amor.


ANA (olha para ele melancólica e sorri) - Eu te amo, sabia?


Ele sorri de volta e os dois se beijam por longos segundos. A música toma conta da cena enquanto a câmera se afasta, escapando pela janela.

 

*3 - Ext. Casa Cordeiro/Sala - Dia*


Benjamin e Ana descem as escadas e vão até a sala. Zulmira está sentada lendo um livro.


ZULMIRA (enxergando por cima dos óculos) - Achei que não iriam descer mais hoje.


ANA (bem-humorada) - Mãe, por favor. Depois da festa de ontem precisávamos de um bom relaxamento.


BENJAMIN (contente) - Até porque hoje vai ser um dia árduo.


ZULMIRA - Não vão nem tomar café?


ANA (pegando uma maçã) - Tomaremos no caminho.


ZULMIRA - Boa sorte então.


Ana vai puxando Benjamin pelo braço, que faz uma saudação com piscadela para Zulmira, que por sua vez, revira os olhos.


CORTA PARA:


Takes aleatórios de São Paulo ao som de Resposta - Skank, prédios, arranha-céus refletindo as nuvens claras do dia iluminado, flores de verão polinizadas por abelhas e pessoas andando pelas avenidas.


*3 - Ext. Escola/Entrada - Dia*


Tatiana estaciona o carro perto da entrada e todos descem. Emílio vai na frente levando Benício, e Heitor vai logo atrás. Cecília está pegando sua mochila, e quando vai andando, Tatiana a aborda.


TATIANA (chamando tranquilamente) - Cecil, vem aqui, você esqueceu seu prendedor.


CECÍLIA (pegando o objeto) - Olha, me desculpa por ontem. Eu estava estressada.


TATIANA - Tudo bem, meu amor. Eu consigo compreender.


CECÍLIA - Você ficou mal. Nem desceu mais para a festa.


TATIANA (bem-humorada) - Se você soubesse o quanto aquela festa estava chata.


Cecília ri.


TATIANA (passando a mão nos cabelos dela) - Fica tranquila. Tá tudo bem. Agora vai indo, ou você vai se atrasar.


Elas se encaram com doçura por alguns instantes, depois Cecília se vira e segue seu caminho.




*4 - Int. Apartamento Duncan/Sala - Dia*


Isis se levanta da cadeira onde estava e começa a andar pela sala.


ISIS - Tudo bem, mas você lembra que a identidade da mocinha não foi revelada, certo? Não há como proceder sem saber quem é o nosso alvo.


ANTÔNIO - E você lembra que ela foi tirar fotos para a coleção de verão da sua mãe? Os registros das modelos que fizeram parte da campanha devem estar em algum lugar na matriz.


ISIS (apoteótica) - Excelente! 


Ela pega sua bolsa e vai até a porta.


ANTÔNIO - Onde você vai, afinal?


ISIS (triunfante) - Vou em busca das respostas que nos interessam. 


ANTÔNIO - Você só precisa tomar cuidado com os fotógrafos. Tudo vai por água abaixo se sua identidade for revelada.


ISIS (saindo) - Pode deixar, meu amor. 


Ela sai.


*Sonoplastia: Instrumental Perversidade*


Take de Isis dirigindo em alta velocidade em direção à matriz.


*5 - Int. Prédio da Matriz/Entrada - Tarde*


Na entrada, alguns fotógrafos e seguranças. 


ISIS (apreensiva) - Droga!


Ela manobra o carro e entra no estacionamento do prédio. Sutil e atenta, ela sai do veículo e vai até o elevador. Corta… 


*6 - Int. Prédio Matriz/Recepção - Tarde*


… E ela está na recepção, indo em direção à atendente.


ISIS (se apoiando na bancada) - Boa tarde, minha querida. Preciso falar com quem coordena o departamento de segurança.


ATENDENTE - E a senhora, quem seria?


ISIS (presunçosa) - Dona disso tudo.


Zoom em seu rosto. Corta…


*7 - Int. Prédio Matriz/Área de Segurança - Tarde*


… E a recepcionista está acompanhando Isis até o escritório de segurança. Elas chegam e batem à porta, não esperando muito e já entrando. O chefe de segurança está presente.


ATENDENTE - Vitor, tem alguém querendo falar com você...


ISIS (cortando-a) - Vitor, Vitor… Pode ir - se dirigindo a outra mulher, que sai silenciosa - Então você é o chefe da segurança?


VITOR - Sim, eu mesmo. Quem seria a senhorita?


ISIS - Isis Elizabeth Duncan, filha de Selena Duncan.


VITOR (se levantando, eufórico) - Oh, meu Deus. Achávamos que você nunca viria.


ISIS (caminhando até uma cadeira) - E não viria mesmo. Mas necessito da sua ajuda; contudo, é primordial que ninguém saiba que eu estive aqui.


VITOR - Claro, senhora.


ISIS (incomodada) - Vitor, por favor, não me chame de senhora, eu acabei de lhe dizer meu nome.


Vitor se senta e encara a jovem, curioso.


VITOR - Em que posso lhe ajudar?


Um sorriso se ilumina no rosto dela.


ISIS - Eu preciso saber quem foi a vagabunda que denunciou meu querido padrasto.


Foco no rosto de Vitor, embasbacado, depois zoom no rosto de Isis, perversa…