Tecido Escarlate - Capítulo 2

 


*TECIDO ESCARLATE*

*CAPÍTULO 2*


*1 - Int. Hotel/Sala - Noite*


Cena da Lua cheia. Corta para Antônio e Isis na sala do hotel. Ele está com o rosto abatido e desiludido, já a moça está com um leve sorriso na face. Antônio cambaleia e se senta numa cadeira próxima.


ANTÔNIO - Como isso foi acontecer?


ISIS - Não me contaram detalhes, e nem direito, como você pôde ouvir. Eu nem fazia ideia de que minha mãe havia falecido.


Ele começa a hiperventilar, e as lágrimas começam a cair. Contudo, é um choro silencioso, apesar disso, furioso. O rapaz pega um copo de vidro e joga com toda força contra a parede. Isis fica assustada com a atitude do jovem, e vai até ele para acudir.


ISIS (indo até ele) - Antônio, calma.


ANTÔNIO (a empurrando, e lágrimas caindo) - Calma pra quem? Pra você, que não está nem aí se sua mãe morreu porque vai ter tudo que era dela, como se isso fosse a coisa mais importante no momento!


ISIS - Eu me importo.


ANTÔNIO - Mentira! - baixando o tom de voz - você nunca se importou.


Isis faz cara de choro, mas não chora nada.


Antônio levanta-se bruscamente e começa a procurar por algo, muito frenético.


ANTÔNIO - Onde está meu celular? Deve haver alguma notícia sobre isso em algum lugar.


Isis somente observa. Ele encontra o aparelho e começa a procurar por notícias.


ISIS (andando até ele, tentando acalmá-lo) - Antônio, você sabe como nossa vida era privada. Mamãe nunca gostou de aparecer. Provavelmente você não vai achar…


ANTÔNIO (cortando-a) - O nome do meu pai.


Isis expressa confusão e corre para ver o que o meio-irmão encontrou.


São mostradas manchetes na tela do celular:


_“Um império desolado! Selena Duncan se cala diante das graves acusações de exploração sexual por parte do marido… dentro da própria empresa.”_


_“Selena e Álvaro Duncan mortos! Acionistas e investidores se afastam diante de grande escândalo. Os herdeiros ainda não se pronunciaram.”_


ISIS - O que tem mais?


ANTÔNIO (deslizando a tela) - Não acho nada.


ISIS - Ali!


_“Quem é a inocente vítima do lobo, marido de uma das maiores empresárias do estado?”_


ISIS - Leia.


O rapaz entra no site da matéria e começa a procurar a parte da notícia que os interessa.


ANTÔNIO - _“A vítima de Álvaro preferiu não se identificar por questão de privacidade e por ser menor de idade, mas declarou ao nosso portal que iria fazer algumas fotos para a coleção de verão da marca de Selena Duncan. Contudo, desde que chegou no prédio, a modelo foi seguida pelo homem, que a importunou, oferecendo dinheiro e privilégios em troca de relações sexuais._

 

_"De acordo com fontes, ele sabia a idade da jovem, mas isso não o impediu de a agredir [...] Durante e após as sessão de fotos de biquíni, ele não parava de encará-la e fazer gestos obscenos velados. Ela contou à mãe, que denunciou a instituição à polícia._


_"A pergunta que fica é: porque, antes de morrer, Selena não se pronunciou. Será que ela era cúmplice desses abusos? E Álvaro morrer 2 dias após o falecimento da esposa não é no mínimo suspeito”?_ Desgraçados sensacionalistas!


Ele joga o celular de lado, e quando a “irmã” vai tocá-lo, ele a empurra com tanta força que ela cai no chão. Já ele corre até o quarto.


ISIS (insistindo) - Onde você vai? - levanta e o segue.


*2 - Int. Hotel/Quarto - Noite*


Antônio abre a porta, irado! Ele vai até o guarda-roupas e pega uma mala. Isis entra logo atrás.


ISIS - O que você pretende?


ANTÔNIO (pegando as roupas e pondo na mala) - Onde está a Camille?


ISIS - Ela saiu, mas…


ANTÔNIO - Liga pra ela. Vamos voltar para o Brasil.


ISIS - Como é?


ANTÔNIO (decretando) - Agora!


Isis o encara, e ele retribui. Foco nela, depois nele.


*Sonoplastia: II barbiere di Siviglia* 


Takes diurnos da cidade de São Paulo. Faixas pretas atravessam a tela vagarosamente e fecham a cena, depois se dispersam, e agora estamos num aeroporto. A câmera acompanha um avião que pousa na pista.


*3 - Ext. Aeroporto Internacional - Dia*


Antônio e Isis desfilam do portão de embarque em direção à câmera, e quando se aproximam, há um efeito de looping circular, no momento em que retorna, eles estão saindo, uma porta se fecha atrás dos dois. Camille está atrás deles.


*Sonoplastia: Quando a porta fecha, a música cessa.*


Há um grande movimento perto da esteira, várias pessoas esperando por algo.

Isis revira os olhos.


ISIS - A esteira deve ter dado problema. Eu vou tomar uma casquinha. Quando isso se resolver, me liga. Vamos, Mille.


As duas saem e Antônio dá de ombros, indo até a fila. Ele se aproxima de uma mulher para pedir informações.


ANTÔNIO - O que houve aqui?


A mulher se vira… É Rosana!


ROSANA (simpática) - A esteira.


ANTÔNIO - Claro.


ROSANA - Tosco, não é? Todos os compromissos vão por água abaixo por conta dessa porcaria.


ANTÔNIO (atraente) - Ainda mais quando estamos nós chegando do exterior e só queremos chegar em casa e descansar, não é mesmo?


ROSANA (olhando para a boca dele) - Ah, não. Não venho de fora. Vim buscar uma pessoa. Acredite ou não, Damien Hirst. Está lá fora me aguardando.


ANTÔNIO (fingindo que conhece) - Minha nossa, o Damien?


ROSANA - Você conhece?


ANTÔNIO (cínico) - Óbvio! Sou fã do trabalho dele desde criança.


ROSANA (confusa) - Então você tem repertório artístico… - Ela reflete - Você é…


ANTÔNIO - Sou Teodoro Defin, prazer.


ROSANA - Minha nossa, da farmacéutica Defin? - Ele faz que sim com a cabeça - Eu sou Rosana, da Cillis.


Ela oferece a mão para um aperto, e ele, sedutor, a segura delicadamente e a beija.


ANTÔNIO - É um prazer, Rosana. - Ela sorri - Mas me diga: o que uma empresa como a Cillis tem a ver com arte?


ROSANA (ri levemente) - O Damien não é para a Cillis. É pra galeria do meu marido, a Castellani. Haverá uma exposição das obras dele lá.


ANTÔNIO (sedutor) - Marido? Não vejo uma aliança em seu dedo.


Rosana olha para ele de baixo no fundo de seus olhos e sorri.


Alguém fala bem alto “a esteira voltou!”.


ROSANA - Bem, parece que teremos que nos separar agora. Até logo, Teo.


ANTÔNIO - Espere! E o meu convite para a exposição?


ROSANA (com olhar atraente) - Apareça. No sábado; Galeria Castellani… Eu te espero.


Ela se vira e sai para buscar sua mala, Antônio a encara até ela sumir na multidão.


*4 - Int. Carro - Dia*


*Sonoplastia: A música retorna até o fim da cena*


Antônio, Isis e Camille estão na saída. Um carro os aguarda. Eles entram no carro.

Isis e Antônio estão sérios. Os dois se olham, depois param. Isis olha para a janela, enquanto Antônio encara o celular. Camille está entre os meio-irmãos.


De fora, a câmera acompanha o veículo por algum tempo.


*5 - Int. Apartamento Duncan/Sala - Dia*


Eles entram em casa, alguns homens ajudam a carregar as malas para dentro.

 

ISIS - Mille, você pode ir para casa ver seus pais. Podemos cuidar das coisas por aqui.


CAMILLE - Tem certeza? São tantas malas.


ISIS - Pode relaxar. 


Camille sorri, pede licença e sai junto com os homens. Antônio está preparando uma bebida.


ANTÔNIO - Está tudo como sempre.


ISIS - É o gosto pelo tradicional.


ANTÔNIO - Você já contatou o advogado? 


ISIS (tirando o casaco) - Naturalmente.


*Sonoplastia: batidas à porta*


Isis vai até lá atender. Quando abre, há um homem.


ISIS - Quem é você?


ESTRANHO - André. Testamenteiro.


ISIS (educadamente receptiva) - Ah, sim. Fique à vontade.


Antônio expressa um sorriso forçado.


ANDRÉ - Eu passei mais cedo, mas o recepcionista disse que vocês ainda não haviam chegado. Portanto, esperei.


ANTÔNIO (desinteressado) - Bom, André, seja bem-vindo, e que dê a sentença.


Foco no rosto de Isis, sorrindo com os olhos.


*Sonoplastia: Instrumental de Passagem*


*6 - Int. Casa Família Cordeiro/Copa - Manhã*


Estão à mesa Tatiana ao lado de Benício, Zulmira e Heitor.


Tatiana coloca comida na boca de Benício.


TATIANA (sorridente) - Own, vai ser o menino mais forte da escola toda.


ZULMIRA (repreendendo-a) - Tatiana, deixe que ele coma sozinho. Já é um rapaz.


BENÍCIO (cabisbaixo) - Mas eu não consigo…


HEITOR - Eu recebi comida na boca até os meus 6 anos.


TATIANA (acariciando a orelha do pequeno, voz mansa) - Toda criança merece cuidado especial até a idade que decidir ter a própria independência. Não devemos apressar as coisas, Zulmira - pronuncia o nome da mulher com rigidez - Foi assim com o Heitor, e só não foi assim com a Cecília porque não tive a oportunidade.


ZULMIRA - Que bom que não teve, ou iria estragar a menina. 


HEITOR - Você não ouve o que diz? Titia ajudou a cuidar de mim quando minha mãe e meu pai não puderam, e agora ajuda a cuidar do Benício. Talvez se ela estivesse presente para a Cecília também, muitas coisas poderiam ter sido evitadas.


Zulmira franze os lábios.


TATIANA - Obrigada, meu amor.


ZULMIRA - Nada mais que compreensível, afinal, vive em casa. E se quisesse cuidar da Cecília, não teria fugido para Nova Iorque.


TATIANA (cerrando os olhos) - Eu não fugi para Nova Iorque, eu precisei ir.


ZULMIRA - Para ter um filho de um homem que não te amava! De qualquer forma, não é segredo para ninguém que os mais novos são os mais paparicados. Você e o Benício sempre foram os preferidos de todos.


BENÍCIO - Vocês não amam a Cecil? 


TATIANA (tapando os ouvidos do menino) - Não fale assim. Todos são amados da mesma forma!


ZULMIRA (séria) - Será?


Sutilmente a câmera mostra uma silhueta por trás da vidraça. Corta e vemos Cecília, que acompanhava toda a conversa. Ela sai em silêncio.





*7 - Int. Casa Família Cordeiro/Escada - Manhã*

Marta está na escada orientando os funcionários na limpeza, e Tatiana aparece com Heitor e Benício.

TATIANA (amistosa e empolgada) - Marta! Onde está o Emílio? Já vamos para a aula - se vira para Heitor - Meu bem, você pode perguntar se a Cecília vai para a escola?

Heitor faz que sim com a cabeça e sai.

MARTA - Emílio está se arrumando. Acredito que logo ele desce.

Emílio aparece de surpresa, descendo a escada apressado.

MARTA (quase gritando) - Meu filho, cuidado, pelo amor de Deus!

Tatiana sorri.

EMÍLIO (sagaz) - Não se preocupe, mãe.

TATIANA - É, as aulas de parkour devem servir pra alguma coisa, não é, Emílio?

EMÍLIO (se gabando) - Da minha turma eu sou o melhor.

BENÍCIO - Quando eu crescer quero pular prédios igual você, Emílio.

Tatiana e Emílio riem.

MARTA (preocupada) - Pular prédios?

EMÍLIO - Relaxa, mãe, ainda não tô nesse nível.

MARTA - E nem vai.

EMÍLIO (se virando para Benício) - Pode deixar que eu mesmo te ensino, criança.

Benício faz sinal positivo com a mão, sorrindo.

TATIANA (bem-humorada) - Depois vocês resolvem isso, agora vão indo para o carro ou vamos nos atrasar. Heitor, vamos! - Chamando alto.

Os meninos saem, e Tatiana fica. 

TATIANA - Marta, corre aqui!

Marta desce as escadas apressada.

MARTA - O que aconteceu?

TATIANA (semblante deprimido) - Preciso tanto falar com você…

MARTA (acolhendo a mulher) - O que aconteceu?

TATIANA - Depois que eu voltar te conto melhor. Mas sabe, eu só queria conversar. Tenho me sentido tão só.

MARTA (sorrindo) - Tudo bem, pode me chamar assim que chegar.

Tatiana sorri, elas se abraçam, depois ela vai andando, chamando por Heitor.

*8 - Int. Casa Família Cordeiro/Quarto de Cecília - Manhã*

O quarto está escuro, a não ser por um diminuto feixe de luz que vem da janela e ilumina os olhos de Cecília sentada na cama e cabeça baixa. Alguém bate à porta, e sem esperar resposta, entra. É Heitor.

HEITOR (célere) - Jogo rápido: você vai ou não pra aula?

CECÍLIA (inexpressiva) - Entre ir e ficar, qualquer coisa é melhor que ficar. Eu já estou descendo.

Sonoplastia: Instrumental de Ternura

Heitor dá de ombros e se retira. A câmera desliza em direção à face taciturna da garota, e ela, com dificuldade tenta sorrir, pois este desmancha e retorna. Depois de alguns segundos lutando, ela abre um sorriso. Forçado, mas um sorriso; depois se levanta e sai.






*9 - Int. Apartamento Duncan/Sala - Manhã*

ISIS (calma) - Isso é ridículo!

ANDRÉ - Bom, não há muito que eu possa fazer.

ANTÔNIO (debochando de Isis) - Que isso, desaprendeu a dividir?

ISIS (entrando no jogo) - Nunca foi meu forte. Conviveu comigo por anos e é tão tapado que não conseguiu perceber.

Antônio faz uma careta de dor.

ANDRÉ (olhando estranho para os dois) - Preciso que assinem esse documento.

ISIS - Não vou assinar nada. Minha mãe estava delirando quando fez isso!

ANTÔNIO (se aproximando dela, provocador) - Você não consegue aceitar que sua mãe também me amava?

Isis o olha com raiva, seu estresse é aparente. Então ela se vira para André.

ISIS - Ele chama minha mãe de vadia até depois de morta.

ANDRÉ - Não há muito que eu possa fazer.

Antônio desaba de rir.

ISIS (se levantando, colérica) - Você é um abusado! Eu não vou assinar nada!

ANDRÉ - Me desculpe, eu não quis ser petulante. Quanto a sua assinatura, com ou sem ela, o espólio será dividido meio a meio.

ISIS – Ele nem é meu irmão de verdade, não temos o mesmo sangue! É só um tanso como o pai. Como pode isso?

Antônio está rindo da situação.

ANDRÉ (levantando-se, cansado) - Lido o testamento, tenho que ir. Foi um prazer.

Ele vai até a porta.

ISIS - Foi um desprazer! - Ela pega um copo próximo e joga na porta assim que o testamenteiro sai.

ANTÔNIO (com um sorriso no rosto) - Fiquei mal quando você me chamou de tanso.

Isis se vira para ele com olhos de águia, borbulhando.

ISIS - Não vou permitir isso.

Antônio se levanta e vai até uma mesinha pegar mais bebida.

ANTÔNIO - Quem deveria ou não permitir algo era sua mãe, e ela não só permitiu como também foi muito generosa.

ISIS - Isso não é justo. Você era um falso!

ANTÔNIO - Que bom que ela não descobriu isso a tempo. 

Isis se senta, chateada.

ANTÔNIO - Qual o problema, Isis? Você não está na miséria com metade do patrimônio. Para com isso.

ISIS - Me esquece.

*Sonoplastia: Instrumental Dinâmico*

Antônio ri e vai andando até ela, que está de com uma das mãos na cabeça, como se sentisse dor. Ele passa a mão nos cabelos dela.

ANTÔNIO - Depois que esse dinheiro cair na minha conta é meu patrimônio, Isis. Posso fazer o que quiser com ele.

ISIS - O que eu tenho a ver com isso?

ANTÔNIO (provocando) - Deixe eu terminar, porque talvez esse seja o maior desafio da sua vida, com o melhor pró.

Ela demonstra interesse, virando o olhar para ele, que está sorrindo enquanto acaricia a orelha dela.

ISIS - Não estou com humor para desafios no momento.

ANTÔNIO - Pode ter certeza que esse vai levantar seu humor imediatamente.

Ela vira o rosto para o horizonte, pensativa por alguns segundos, depois encara o rapaz.

ISIS (envolvida) - E qual seria o desafio?

*Sonoplastia: Instrumental de Impacto*

Foco no rosto de Antônio, que está sorrindo de forma maléfica.