Tecido Escarlate - Capítulo 5
*TECIDO ESCARLATE*
*CAPÍTULO 5*
*1 - Apartamento Duncan/Sala - Tarde*
Isis entra silenciosamente pela porta. Antônio vem em sua direção, sorridente. O semblante de Isis revela satisfação.
ANTÔNIO (animado) - Eu ouvi seu áudio, caramba. Conta tudo que você descobriu.
ISIS - Então: o nome da garota é Cecília Cordeiro. No caminho pra cá, procurei pelo perfil dela nas redes sociais, e descobri que ela é filha de Ana Clara Cordeiro e um tal de Benjamin. Os dois tem perfil fechado, mas descobri que ele é dono de uma empresa muito bem-sucedida aqui em São Paulo. O nome é Cillis Mirador.
*IMPACTO*
*Sonoplastia: Instrumental de Triunfo*
ANTÔNIO (iluminando) - Espera, espera… Qual nome?
ISIS - Benjamin?
ANTÔNIO - Não, não. O nome da empresa dele.
ISIS - Cillis Mirador.
Antônio entra em estado de apoteose.
ANTÔNIO - Oh, meu Deus…
ISIS (sem entender) - O que aconteceu?
Ele se vira para ela, com os olhos iluminados.
_*FLASHBACK*_
*Ext. Aeroporto Internacional - Dia*
ANTÔNIO - Sou Teodoro Defin, prazer.
ROSANA - Minha nossa, da farmacéutica Defin? - Ele faz que sim com a cabeça - Eu sou Rosana, da Cillis.
Ela oferece a mão para um aperto, e ele, sedutor, a segura delicadamente e a beija.
ANTÔNIO - É um prazer, Rosana. - Ela sorri - Mas me diga: o que uma empresa como a Cillis tem a ver com arte?
ROSANA (ri levemente) - O Damien não é para a Cillis. É pra galeria do meu marido, a Castellani. Vai haver uma exposição das obras dele lá.
ANTÔNIO (sedutor) - Marido? Não vejo uma aliança em seu dedo.
Rosana olha para ele de baixo no fundo de seus olhos e sorri.
Alguém fala bem alto “a esteira voltou!”.
ROSANA - Bem, parece que teremos que nos separar agora. Até logo, Teo.
ANTÔNIO - Espere! E o meu convite para a exposição?
ROSANA (com olhar atraente) - Apareça. No sábado; Galeria Castellani… Eu te espero.
Ela se vira e sai para buscar sua mala, Antônio a encara até ela sumir na multidão.
_*FIM DO FLASHBACK*_
ANTÔNIO - Isis, eu simplesmente amo minha sorte.
ISIS - Dá pra você me explicar o que te deixou tão contente?
ANTÔNIO - Você realmente disse Cillis Mirador?
ISIS (corroendo-se pela confusão que perpetua em sua mente) - Sim, Antônio, eu disse.
ANTÔNIO - Minha querida quase irmã; durante seu passeio com sua amável secretária pelos quiosques brilhantes daquele aeroporto, não sei se recorda, mas eu fiquei esperando a situação da esteira se resolver. Lá eu conheci uma linda mulher. O nome dela? Rosana. Ela se encantou com minha lábia e minha astúcia artística.
Isis debocha, Antônio ergue a sobrancelha.
ANTÔNIO - Numa breve, mas deliciosa conversa, acabei descobrindo que ela trabalha numa empresa chamada Cillis Mirador.
Os olhos de Isis crescem como os de quem viu uma bela torta.
ISIS (desacreditada) - Você só pode estar brincando comigo.
ANTÔNIO - Não estou. E fique feliz, pois essa mesma mulher também é esposa do dono de uma bela galeria de arte. E ela me convidou para um evento lá com Damien Hirst.
ISIS (dando tapinhas de felicidade nele) - E por qual razão você não me contou isso antes?
ANTÔNIO (se afastando) - Não achei que fosse precisar dela pra algo mais além de coisas proibidas.
ISIS - Seu babaca.
ANTÔNIO (se dirigindo a mesa de bebidas) - Babaca ou não, consegui ingressos gratuitos para adentrar os portões do império da pequena Cecília.
*Sonoplastia: O instrumental se intensifica.*
Isis pega uma taça e enche de bebida para em seguida brindar com o rapaz. Os dois brilham de alegria. Take no rosto de Antônio, em seguida, take no rosto de Isis, então a tela escurece gradativamente…
*2 - Int. Escola/Pátio - Tarde*
*Sonoplastia: É Você - Tribalistas*
Takes em off dos alunos em suas salas, gargalhando, suas vozes ecoando ecos pelos corredores e passeando pelo pátio colorido com flores da primavera.
Corta para Emílio e Cecília juntos, em clima de tensão e desconfiança.
EMÍLIO - O que você está fazendo aqui?
CECÍLIA - Eu vi você passando pelo pátio.
EMÍLIO (atônito) - Não gosto que me sigam. Não faça mais isso.
CECÍLIA (suspeitosa) - Por quê? Tem algo a esconder aí?
Emílio começa a olhar para os lados, tentando conter seu nervosismo.
EMÍLIO - É que eu venho pra cá às vezes ficar um pouco isolado. Tenho vergonha que me apanhem falando sozinho.
CECÍLIA - Que nada, Emílio. Olha, eu vim atrás de você porque tem alguém que quer falar contigo.
Ela segura ele pelo braço e o arrasta corredor adentro de volta para o pátio. Apesar disso, olha para trás de relance, procurando algo suspeito.
Corta e eles estão no ambiente lotado de alunos. Cecília o puxa até as meninas.
CECÍLIA (sorrindo) - Maria…
Maria está tímida.
EMÍLIO (sem graça) - E aí.
Eles começam a conversar em off, e a câmera passeia pelo pátio, se afastando deles e indo em direção à Heitor e uma amiga, que estão sentados em um banco. Heitor encara os quatro com um olhar melancólico, e a amiga percebe.
AMIGA - Ah, Heitor, o que foi?
Heitor balança a cabeça como quem afasta um pensamento.
HEITOR - O quê? Como assim?
AMIGA - Eu percebi que você está olhando pra lá sem parar.
HEITOR (fazendo uma careta de descontentamento) - Meu Deus, do que você está falando?
AMIGA - Heitor, para com isso, eu te conheço bem. Conta!
HEITOR - Não tem nada, Sara.
Ele volta devagar seu olhar para o grupo, e a câmera assume uma visão em primeira pessoa, dando zoom em um rosto específico: o de Emílio.
HEITOR (fixado) - Nada demais…
*3 - Int. Casa Cordeiro/Hall De Entrada - Tarde*
Tatiana chega em casa, abrindo a porta ligeiramente e apressando-se em direção à cozinha, onde Marta está.
*4 - Int. Casa Cordeiro/Cozinha - Tarde*
Tatiana caminha até lá, chamando por Marta. A governanta está orientando os funcionários com o jantar.
MARTA - Não, eu preciso que você ponha a mesa hoje, Fabiana.
TATIANA (cortando-a) - Marta? - elas se encontram - Marta! Preciso falar com você.
MARTA - Tatiana, eu não consigo agora. Estou orientando-os.
TATIANA - A mesa pode esperar, eu não!
Tatiana vai até a mulher e a leva pelo braço. As duas chegam no hall rindo.
*5 - Int. Casa Cordeiro/Hall De Entrada - Tarde*
MARTA (rindo-se) - Tatiana, você não pode fazer isso. Já pensou se a dona Zulmira vê essa cena?
TATIANA - Bobagem! Diga que vai me ajudar com uma mudança lá em cima.
Marta, apesar de temerosa em segui-la, acaba cedendo. As duas sobem.
*6 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Tatiana - Tarde*
Elas entram, Marta fecha a porta. Tatiana senta-se na cama.
MARTA (indo até ela) - O que aconteceu? Por qual motivo você me tirou do meu posto pra falar com você? Tati, o que está acontecendo?
Tatiana sutilmente muda a expressão de sorridente para sombria. A câmera desliza em sua direção devagar e cautelosa, ela cruza os braços e encara Marta.
TATIANA - Marta… Não quero que você fique chateada comigo, por favor.
MARTA (inquieta) - Tatiana, você está me preocupando.
*Sonoplastia: Instrumental Tenso*
TATIANA - Ontem, na festa, eu…
MARTA (aflita) - Diga.
Tatiana levanta a cabeça e olha no fundo dos olhos da amiga governanta.
TATIANA - Eu… - respira profundamente - Eu tentei… Eu tentei acabar com tudo. Eu tentei tirar minha vida.
*IMPACTO*
Marta encara Tati, os olhos demonstrando surpresa. Foco em Tatiana.
*7 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Tatiana - Tarde*
Marta está calada, em choque. Tatiana com cara de choro.
MARTA - Minha amiga, você…
TATI - Me perdoa.
MARTA - Calma. - a abraça - Está tudo bem.
Tatiana começa a chorar.
MARTA - Tati, o que você fez?
A suicida se desvencilha do abraço da amiga, e olha para ela, chorosa.
TATIANA (apontando) - A varanda.
Close na varanda do quarto, que está aberta enquanto o vento sopra sutil as cortinas de cetim, que dançam delicadamente ao sopro da brisa sussurrante. A sacada é alta, e isso transparece ao ser mostrado pela câmera.
Marta está assustada. Take fecha no rosto de Tati.
_*FLASHBACK*_
*8 - Int. Casa Cordeiro/Quarto de Tati - Noite*
*Sonoplastia: Instrumental Tenso*
Tati está parada diante da varanda, melancólica. Apenas a luz da Lua iluminando, deixando o interior do cômodo azul como o céu pouco estrelado.
TATIANA (em off) - Eu estive me questionando o por que de nunca ter tido tanta sorte quanto meu irmão se viemos da mesma família. Eu sempre quis ter minha própria linhagem, Marta.
Ela vai até o balaústre e sobe calmamente no pequeno parapeito.
TATIANA (em off) - Eu fui e sou um fracasso. E a Zulmira faz questão de me lembrar disso sempre. Não é diferente com meu irmão, que pouco se importa com minha presença. E tem a Ana Clara, que está na Cillis como uma excelente profissional! Naquele momento eu estava sentindo como se minha existência não tivesse relevância. Foi aí que…
*Sonoplastia: Um som obscuro e tenebroso como um uivo de lobo toma conta da cena*
A mulher está se segurando no balaústre, pronta para pular. É quando um vento forte sobre contra ela, e a mesma acaba desequilibrando-se. A câmera mostra numa visão em primeira pessoa a altura da sacada ao chão em um efeito de vertigem.
_*FIM DO FLASHBACK*_
MARTA (curiosa, mas temerosa) - E então, Tati?
TATI (a encarando) - E então eu lembrei que apesar de toda minha dor, eu ainda tenho os meninos. A Cecília precisa de mim, já que ninguém nesta casa parece se importar com ela. Marta, se eu for, quem vai cuidar do Benício? Uma qualquer? Eu não posso deixar isso acontecer. E o Heitor? Como ele iria se sentir?
MARTA (aliviada) - Ai, meu Deus, por favor, nunca mais pense nisso. Me sinto uma péssima amiga por ter colocado o trabalho em primeiro lugar.
TATI - Tudo bem.
MARTA - Não, não está! Antes de eu vir trabalhar aqui nós éramos mais próximas. São 8 anos, não 8 dias. Minha relação com essa casa só tem metade disso. Você sempre esteve presente pra me ouvir e me auxiliar. Então não é certo que você esteja passando por algo tão terrível sozinha.
Tati abaixa a cabeça.
MARTA (se levantando) - Olha, quer saber? Você vai comigo, o Emílio e o Alan para a igreja.
TATI (desanimada) - Ah, não. Qualquer lugar, menos a igreja.
MARTA - Vamos lá. Só tentar conversar com alguém que possa te auxiliar. Ouvir uma palavra de conforto.
Tati pensa por alguns segundos.
*Sonoplastia: Instrumental Perigo Curto*
TATI (com uma careta) - Não vejo o Alan há meses. Olha, tudo bem.
MARTA (feliz) - Ótimo então. No sábado estaremos lá.
Foco suspeito no rosto de Tati, depois no rosto de Marta.
*Sonoplastia: A Estrada - Cidade Negra*
Takes aleatórios do fim de tarde de São Paulo e seus grandiosos arranha-céus, prédios e edifícios. Passeando do Plaza Centenário ao Mirante do Vale.
Então um letreiro aparece na tela, escrito… “3 Dias Depois”.
Em seguida, take do prédio do condomínio onde moram os Duncan.
*9 - Int. Apartamento Duncan/Sala - Fim de Tarde*
Antônio está bem arrumado, saindo do quarto. Isis está tranquila com seu pijama, sentada no sofá enquanto vê um filme.
ANTÔNIO - O que está fazendo?
ISIS - Relaxando.
ANTÔNIO (cheio de si) - Hoje é a grande noite, Isis. Estou indo conhecer Damien Hirst e preparando caminho para você até a doce Cecília.
ISIS - Eu poderia ir com você.
ANTÔNIO - Não. Preciso preparar o terreno. Fazer sua propaganda.
Isis dá de ombros e se vira para a tevê.
ISIS - Nem parece que você quer ganhar a aposta.
ANTÔNIO - Antes de tudo, lembre-se do que me motiva.
ISIS (indiferente) - Uma doce vingança.
*Sonoplastia: Instrumental de Suspense Sombrio*
Foco no rosto de Antônio
ANTÔNIO (soturno) - Vingança não. Retaliação.
Isis torna a se virar para ele.
ANTÔNIO - Os Cordeiro escolheram o jogo, agora nós vamos jogar - Isis sorri discretamente, e ele devolve a ela uma expressão perversa - Agora se me dá licença.
A jovem faz um gesto expansivo, e ele sai.
Isis vira, e num take a câmera mostra uma cena de O Talentoso Ripley na tevê.
*10 - Int. Casa Cordeiro/Hall de Entrada - Noite*
Tatiana e Emílio estão na escada à espera de Marta. Cecília aparece de repente no andar de cima.
CECÍLIA - Onde vocês vão?
TATIANA - Igreja. Quer ir?
CECÍLIA (com uma cara de nojinho) - Não, obrigada.
Tatiana dá de ombros, Cecília e Emílio trocam olhares acusadores por alguns segundos, depois a garota sai.
Marta aparece, discreta. Atrás dela, Heitor.
TATIANA - Onde ele está? Já devemos estar atrasados.
MARTA - Já deve estar chegando.
Heitor se aproxima de Emílio pondo o capuz da camisa em sua cabeça. Eles riem baixo.
*Sonoplastia: Buzina de carro do lado de fora*
EMÍLIO - Deve ser o papai.
*Sonoplastia: Instrumental de Amor Triste*
Um funcionário abre a porta, e é possível ver um homem saindo do carro. É Alan. Emílio vai andando em sua direção e lhe dá um abraço.
MARTA (fria) - Oi, amor.
Dando-lhe um beijo seco e entrando no carro.
ALAN (debochado) - Quanto tempo, Marta.
EMÍLIO (tentando ignorar a situação) - Tenho muitas coisas pra falar pra você, pai.
TATIANA (ao lado de Heitor) - Vamos?
Heitor entra no carro com Emílio, os dois sentam lado a lado.
Alan se vira para Tatiana. Os dois se olham meio desconcertados.
ALAN - Tatiana?
TATIANA - Alan?
Eles se encaram por um tempo, sorrindo sem graça.
*Sonoplastia: Instrumental de Passagem*
*11 - Int. Galeria Castellani - Noite*
Rosana está com Tomás observando o grande movimento. Damien Hirst está num canto a distribuir autógrafos.
ROSANA - Minha nossa, está incrível.
TOMÁS – Está, mas não mais que você, minha nossa.
ROSANA - Own, eu te amo, sabia?
Eles trocam um selinho. Alguns homens se aproximam.
TOMÁS (empolgado) - Oh, minha nossa, vocês vieram.
HOMEM 1 - Mas claro, não iríamos perder uma exposição tão grandiosa assim por nada!
HOMEM 2 - Queira nos acompanhar para um bom papo, Tomás.
TOMÁS - Com toda certeza - ele se volta para Rosana - Eu já volto.
ROSANA - Tudo bem.
Tomás os segue, e quando Rosana percebe que o marido se afastou, começa a procurar por algo com os olhos, mordendo os lábios.
Na recepção chega Antônio, e quando vai passar pela entrada, é barrado por um recepcionista.
ANTÔNIO (chateado) - Mas o que é isso?
RECEPCIONISTA - Você não pode entrar assim. Me informe seu nome e verificarei se está na lista de convidados. Caso contrário, me mostre seu ingresso.
ANTÔNIO (zombando) - Ingresso… Que bobagem. Sou convidado especial.
RECEPCIONISTA - Ótimo, então me informe seu nome.
Uma voz feminina e doce vem de trás do recepcionista. É Rosana.
ROSANA - Não será necessário. Ele pode entrar.
Antônio olha para a mulher, que com um belo sorriso no rosto, convida-o para entrar.
*Sonoplastia: Instrumental Jazz Romântico*
ROSANA - Você vem, Teo?
Antônio deixa transparecer seu sorriso sádico. As luzes do ambiente passam pelos dois, iluminando-os. O rapaz vai até ela, sedutor.
ANTÔNIO - Mas é claro.
Foco em Rosana, depois foco em Antônio, que esboça satisfação. A tela escurece…
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