Pais e Filhos - Capítulo 4
Cena 01 - Casa de Jeanice [TARDE]
JEANICE: Maurício, você falou tão bem dessa moça e é tudo verídico, pelas impressões que tive.
MAURÍCIO: A senhora precisa saber um segredo.
JEANICE: Que segredo é este, Maurício?
MAURÍCIO: O papai tinha razão. Eu... eu sou gay.
Jeanice fica surpresa.
JEANICE: GAY?
MAURÍCIO: Eu não sei se eu deveria ter contado...
JEANICE: É claro que deveria, meu filho. Uma mãe sempre percebe, mas espera que o filho tome iniciativa. Você NÃO PODE SE CASAR COM A LANA.
MAURÍCIO: Eu não posso abandoná-la no altar, mãe.
JEANICE: Meu filho, vale a pena sacrificar a sua felicidade em uma vida que é única?
MAURÍCIO: ...
JEANICE: Você precisa se assumir para todos. Não tenha vergonha de ser quem você é. Quem gostar de você verdadeiramente irá respeitá-lo.
MAURÍCIO: Esse não é o único problema...
JEANICE: Ah, meu Deus...
MAURÍCIO: Eu estou tendo um caso com o Leandro, pai da Lana.
*EFEITO SONORO DE IMPACTO + ZOOM LENTO NO ROSTO SURPRESO DE JEANICE*
JEANICE: O QUÊ? COMO ASSIM?
MAURÍCIO: Tudo começou com aquela história do beijo roubado na porta da escola...
*FLASHBACK REPETIDO - capítulo 02*
_Leandro começa a acariciar o rosto de Maurício. Ele se aproxima e beija o rapaz. Maurício não corresponde ao beijo._
_MAURÍCIO: O QUE É ISSO? VOCÊ É LOUCO? EU SOU O NOIVO DA SUA FILHA E NÓS NOS CONHECEMOS ONTEM._
_LEANDRO: É notório que houve..._
_MAURÍCIO: NÃO HOUVE NADA E NÃO QUERO SABER DISSO NOVAMENTE. NEM QUERO QUE VENHA ME BUSCAR NO MEU TRABALHO._
_Maurício olha para os lados ainda sem acreditar no que acabou de acontecer._
_MAURÍCIO: Eu vou embora a pé._
_Maurício desce do carro imediatamente._
*FIM DO FLASCHBACK*
MAURÍCIO: E nós nos encontramos sempre, desde então. Mamãe, a senhora não sabe o quanto estou sofrendo com toda essa história...
Maurício começa a ter uma longa crise de choro.
JEANICE (chorando): Meu filho... como você foi se meter nisso tudo?
MAURÍCIO: O Leandro foi me envolvendo... eu estou perdido.
Maurício desaba em lágrimas mais uma vez.
JEANICE: Maurício, não fique assim. Você precisa se reerguer.
MAURÍCIO: Eu não posso abandonar a Lana.
JEANICE: Isso é uma decisão sua. Você deve pensar bem antes de dizer sim ou não naquele altar.
Ela abraça o filho.
MAURÍCIO: Obrigado por me entender, por não me julgar e por sempre estar comigo, mãe.
Ele beija a testa da mulher.
MAURÍCIO: Você está certa. Eu acho que preciso de um tempo para pensar.
JEANICE: Bom, eu irei fazer algo para comer, quer?
MAURÍCIO: Não, obrigado.
Jeanice se retira. Maurício fica olhando para o nada, pensando, e com lágrimas em seus olhos.
Cena 02 - Casa de Lana [TARDE]
LANA: Os estilistas já chegaram com o vestido, Gilberta (empregada)?
GILBERTA: Já, senhora. Pode subir que eu acompanho eles até o quarto.
LANA: Ok.
Lana sobe as escadas. Gilberta abre a porta para os estilistas.
ESTILISTA 1: Olé! Abram alas para Victor Valentin. (Sotaque espanhol)
ESTILISTA 2: Com licença, Jaque Leclair, prazer.
VICTOR VALENTIM: ¿Adónde subimos para llevarnos el vestido que diseñé?
JAQUE LECLAIR: A quem você quer enganar com esse sotaque fajuto? (gargalhos) aposto que a empregada lhe conhece das periferias paulistas.
VICTOR VALENTIM: Periferias paulistas é o seu... enfim, ainda sendo periférico, vendo mais que todo o seu ateliê para peruas enrugadas e esses vestidos que não caem bem nem em pessoas com o corpo definido.
Jaque Leclair gargalha.
GILBERTA: É... bom... vamos subir, né?
Eles sobem as escadas.
Cena 03 - Ruas da Comunidade [DIA]
Uma mulher desce de um carro de aplicativo. O carro fica estacionado em frente ao bar.
MULHER: Obrigado, é aqui mesmo.
O carro de aplicativo sai dali. A senhora está com algumas bolsas.
DONO DO BAR: Olá, o que faz por aqui uma dama tão bela?
MULHER: Ei, não sou pro teu bico, sou uma mulher de patamares elevados.
DONO DO BAR: Patamares elevados, sei... o que deseja?
MULHER: Eu queria um quartinho por aqui.
DONO DO BAR: Me desculpe pela pergunta, mas... se a senhora tem patamares tão elevados, porque resolveu vir para este fim de mundo?
A mulher demonstra uma expressão de choro.
MULHER: É uma história tão triste... eu venho da Europa. Fui abandonada pelo meu marido e não tenho onde viver... Escolhi uma periferia qualquer para viver os anos que restam de minha vida ao lado de minha filha.
A mulher começa a alisar sua bolsa de couro.
DONO DO BAR: Sua filha é a sua bolsa?
MULHER: Ela tem nome! É Marry Betany.
DONO DO BAR: Ah.
DONO DO BAR (pensamento): É cada uma...
MULHER: Como é seu nome?
DONO DO BAR: Pode me chamar de Damião. E o seu nome, qual é?
MULHER: Pode me chamar de Tiana. Tiana com um TESÃO (T maiúsculo).
A moça, que está com um pirulito na boca, começa a rodar Marry Betany como se estivesse sensualizando.
DAMIÃO: Tenho um quarto, venha ver comigo.
THIANA: Oh... não. Uma donzela como eu não pode entrar em quartos com homens. Me mostre a porta que eu adianto o dinheiro e entro sozinha.
DAMIÃO: Aiai.
Eles saem para os fundos do bar/pensão (lugar onde ficam os quartos).
As horas passam. Começa o casamento.
Cena 04 - IGREJA [DIA]
Maurício está no altar. A música começa a tocar e a noiva adentra a igreja esbelta, radiante e com um enorme sorriso em seu rosto. Maurício está com semblante triste e confuso.
PADRE: Nos reunimos hoje, na data de 22 de novembro de 2019, para celebrar a união de Maurício Pilar de Freitas e Lana dos Reis Nobre.
O padre realiza todas as falas tradicionais de casamento. E enfim, chega a pergunta final.
PADRE: Lana dos Reis Nobre, aceita Maurício Pilar de Freitas como seu legítimo esposo para amá-lo e respeitá-lo na saúde, na doença, na pobreza ou na riqueza até que a morte os separe?
LANA (sorrindo): Aceito.
PADRE: Maurício Pilar de Freitas, aceita Lana dos Reis Nobre como sua legítima esposa para amá-la e respeitá-la na saúde, na doença, na pobreza ou na riqueza até que a morte os separe?
Um silêncio toma conta do local.
