Pais e Filhos - Capítulo 10 [FINAL]

 


Cena 01 - Terreno [NOITE]


MAURÍCIO: Essa é a sua única opção, Lana. Eu posso te ajudar.


Lana entra em estado de surto.


LANA: Não... Não pode ser... Como eles me encontraram? Maurício, você precisa me tirar daqui...


Lana se aproxima de Maurício com um abraço.


LANA: Me ajuda, Maurício... Me ajuda.


Maurício aproveita a distração de Lana e puxa a arma de suas mãos.


MAURÍCIO: Acabou, Lana...


LANA: Desgraçado, TRAIDOR! ELES NÃO VÃO ME PEGAR, NÃO VÃO!!!


EDUARDO: ATIRA, MAURÍCIO!


MAURÍCIO: EU NÃO SEI ATIRAR.


Lana consegue adentrar ao carro.


MAURÍCIO: DROGA!


A moça atropela policiais que estão cercando o local.


MAURÍCIO: Eu cumpri a minha parte no acordo, agora você precisa me levar até a minha mãe.


Cena 02 - Carro [NOITE]


Lana, que toma uma certa distância do local onde estava, liga para os sequestradores de Jeanice.


LANA: Podem colocar fogo nisso tudo.


Os sequestradores respondem.


LANA: Claro que com ela dentro. |Interrompe a fala.| Isso, perfeito.


Lana desliga o celular. Ouve-se o som das sirenes da polícia se aproximando.


LANA: DESGRAÇADOS... INFERNOOOOOOOOOOO!!!!


Cena 03 - Cativeiro [NOITE]


Jeanice aparenta fraqueza. Ela continua amarrada e suada.


JEANICE: O que vocês vão fazer?


SEQUESTRADOR: Recebemos ordens para que colocássemos fogo aqui... Com você dentro.


JEANICE: O quê? Não... Não, isso não pode acontecer...


SEQUESTRADOR: Eu lamento.


Eles começam a pegar suas coisas.


Cena 04 - Carro de Maurício [NOITE]


Maurício está dirigindo e Eduardo no banco de passageiros da frente.


EDUARDO: Maurício, precisamos correr contra o tempo... Você sabe por quê a Lana estava me coagindo a cavar a minha própria cova? Pelo fato de eu ter desistido de ser cúmplice dela nessa fuga. Imagine o que ela não pode fazer com você tendo a sua mãe como trunfo?


Maurício demonstra desespero.


MAURÍCIO: Ai, minha mãe... Eu espero que ela esteja bem... Mas, como você soube do esconderijo dela?


EDUARDO: Maurício, eu confesso que tive participação nesse sequestro, precisava de dinheiro, cara.


MAURÍCIO: O QUÊ?


EDUARDO: E... Eu era amante da Lana. 


MAURÍCIO: Já era de se esperar...


Cena 05 - Cativeiro [NOITE]


Os homens jogam gasolina.


JEANICE: Me tirem daqui, por favor!


Eles não atendem ao suplício de Jeanice.


JEANICE: EU IMPLORO. EU NÃO TENHO NADA A VER COM ESSE JOGO DE CHANTAGENS QUE A LANA CRIOU.


Um homem acende o fósforo.


HOMEM: Tarde demais.


O fogo se alastra pelo local. Jeanice demonstra desespero.


JEANICE: SOCORROOO!!! SOCORRO!!!


Jeanice começa tossir. A fumaça toma conta do local. A mãe de Maurício vai perdendo a força.





Cena 06 - Carro de Lana [NOITE]

A polícia passa a atirar no carro da moça, que se abaixa. Ela se aproxima de uma região rural da cidade. O carro se atola na lama.

LANA: INFERNO.

Lana desce do carro e começa a correr pelo matagal.

LANA: EU SOU MUITO NOVA PRA FICAR PRESA. ELES NÃO VÃO ME PEGAR.

Os policiais estacionam atrás do carro de Lana e adentram à mata.

Cena 07 - Mansão de Roberto [NOITE]

O advogado de Roberto está presente para a leitura do testamento. Apenas Tiana, Suzy e o mordomo.

ADVOGADO: Deixo o meu lote de ações na empresa, minha mansão e carros para a minha amada...

Suzy sorri.

ADVOGADO: Para a minha amada Tiana que esteve comigo durante todos esses anos. Deixo uma casa no Leblon para o querido amigo de minha esposa, Jêh, e para a minha esposa Suzy deixo uma casa no morro da Rocinha.

SUZY: O QUÊ? ELE ME DEIXOU UMA CASA NA FAVELA?

TIANA: Agora você vai estar na pele do povo pobre brasileiro.

SUZY: ISSO É MENTIRA... NÃO PODE SER VERDADE...

TIANA: E eu... ESTOU RICA. COMPLETAMENTE RICA. ESTE É O MEU MOMENTO!

SUZY: Meu Deus e como eu vou sobreviver sem dinheiro e na favela? Terei que traficar?

TIANA: Amor, se quiser uma vaga de emprego aqui como cozinheira...

SUZY: NÃO ACEITO.

TIANA: Pois bem, passe fome.

SUZY: Não, espere... Eu aceito!

TIANA: Ótimo, assim que eu me mudar pra este casarão... Você pode começar.

SUZY: Doutor, ainda há um prazo para que eu possa sair daqui?

ADVOGADO: Há sim, no máximo 2 semanas para desocupar.

Suzy olha desanimada.

SUZY: Se é assim... Só me resta me contentar com esta vida de mendiga.

TIANA: Que nada, você ainda tem casa própria. Está melhor que 90% das pessoas que trabalham de sol a sol e mal conseguem colocar comida na mesa.

O instrumental tenso volta a tocar.

SUZY: É...

Cena 08 - Mata [NOITE]

Lana tropeça e levanta logo em seguida.

LANA: DESGRAÇADOS.

A polícia se aproxima cada vez mais. Lana se aproxima de um penhasco. A moça se vê sem saída ao ficar perante ao local que é extremamente alto.

POLICIAL: Mãos pro alto. Você está sem saída. Não tem mais para onde fugir.

A câmera foca no rosto de Lana.

Cena 09 - Cativeiro [NOITE]

Eduardo e Maurício se aproximam do local que está tomado pelo fogo.

EDUARDO: Maurício, eu sinto muito...

MAURÍCIO: Pelo quê? Eu vou entrar dentro deste fogo e salvar a minha mãe.

EDUARDO: MAURÍCIO...

Eduardo tenta impedir que Maurício tenha tal atitude, mas é tarde. O homem adentra ao fogo de forma destemida.

[INT/CATIVEIRO]

MAURÍCIO (Tossindo): MÃE?

Ele se aproxima do local onde sua mãe está amarrada. Pedaços do telhado começam a despencar.

MAURÍCIO: Mãe... Eu vou te salvar.

A câmera mostra Jeanice desacordada no chão. Maurício arrasta a mãe pelos braços para um ponto da casa que está menos prejudicado. Maurício, com muito esforço, consegue tomar Jeanice em seus braços. A câmera mostra outra parte do telhado despencando na frente do protagonista. Ele adentra ao fogo que toma conta da saída da casa e foge dali de forma ligeira.

EDUARDO: Maurício...

MAURÍCIO (Desesperado): Mãe...

Maurício mede os pulsos de Jeanice.

MAURÍCIO: O coração dela está batendo fraco... Precisamos levá-la a um hospital.

Maurício toma Jeanice em seus braços novamente e a coloca sobre os bancos traseiros do carro. Em seguida, ele se senta no banco do motorista e sai com Eduardo no carro em disparada.

Cena 10 - Mata [NOITE]

Os policiais se aproximam lentamente de Lana, que se esquiva.

LANA: NÃO! VOCÊS NÃO VÃO ME PEGAR!

Lana começa a ter devaneios, a moça solta um longo choro.

LANA: Me ajudem... [SURTO]

Lana tropeça no seu sapato e cai do penhasco.

LANA: NÃÃÃÃÃÃO.

A câmera foca no rosto atordoado dos policiais ao verem a cena do corpo de Lana caindo do penhasco e o som do mesmo se despedaçando.

Ao som de "Um dia, Um adeus", a câmera mostra o amanhecer. Confira a música em: https://open.spotify.com/track/5MnZisUGPBNKrV4jF9BHt8?si=xPIs472gQHaS6mqqbzbbIA

Cena 11 - Hospital [MANHÃ]

Maurício está ao lado de Jeanice na cama. 

MAURÍCIO: Mãe... Não sabes o medo que tive de te perder naquele incêndio.

JEANICE: Deu tudo certo, meu filho... Você salvou a minha vida.

MAURÍCIO: Ohh, meu Deus... Foi o mínimo que eu podia fazer para a pessoa que eu mais amo neste mundo.

Jeanice sorri.

JEANICE: Filho, hoje é o velório da Leandro... Você não vai?

MAURÍCIO: Vou, mas não tenho vontade. Toda a imprensa estará lá.

JEANICE: Essa história não acabou nada bem.

MAURÍCIO: É... Pois é.

O telefone de Maurício toca.

MAURÍCIO: Alô...?

Do outro lado da linha, é possível ouvir a voz de Eduardo que se põe desesperado.

Cena 12 - AP. de Eduardo [MANHÃ]

EDUARDO (Andando de um lado para o outro): Maurício, cara... A Lana morreu e a polícia está atrás de mim.

MAURÍCIO: Eduardo, me desculpe... Eu não posso fazer nada por você.

EDUARDO: VOCÊ PRECISA ME AJUDAR!

MAURÍCIO: Eu lamento. Reconheço que você me ajudou no resgate de minha mãe, mas foi VOCÊ QUEM AJUDOU A LANA A SEQUESTRÁ-LA.

EDUARDO: DESGRAÇADO, INFELIZ.

Eduardo esbraveja e lança o seu celular contra a parede do AP. onde está hospedado. Neste momento, é possível ouvir o tocar da campainha. Um policial adentra ao local.

POLICIAL: Senhor Eduardo...? Você está preso por envolvimento no sequestro de Jeanice Pilar.

EDUARDO: EU SOU INOCENTE.

POLICIAL: Coletamos depoimentos de funcionários da casa dos Nobre e encontramos os capangas que sequestraram a dona Jeanice fugindo pela mata nas redondezas do cativeiro. Eles confirmaram o seu envolvimento neste fatídico acontecimento. Não há para onde correr, você precisa colaborar e vir conosco.

Eduardo acaba cedendo. O rapaz é algemado e levado pela polícia.

Cena 13 - Hospital [MANHÃ]

Maurício demonstra choro.

MAURÍCIO: Mãe... Eu não acredito que a Lana...

JEANICE: Calma, meu filho... Isso tem a ver com a lei da semeadura, tudo que você planta, você colhe de volta.

MAURÍCIO: É, eu sei... Mas eu gostava da Lana, apesar de tudo. Jamais imaginaria que ela se transformaria neste monstro descontrolado.

JEANICE: Eu acho que entendo a Lana... Ela fez tudo o que fez por ódio do pai.

MAURÍCIO: A senhora passou por alguma situação parecida?

JEANICE: Eu presenciei o meu pai espancando a minha mãe até a morte quando eu tinha apenas 12 anos. Ele era traficante e minha mãe estava cansada da vida que levava ao lado do marido. Após uma discussão, minha mãe expôs uma traição e meu pai não deixou barato. Ele foi levado até à prisão e espancado até à morte; cresci órfã e fui adotada por uma senhora apenas aos 18 anos. Por isso, te apoio em todas as tuas decisões, querido. Eu gosto de passar para você aquele apoio que eu nunca tive durante a minha vida.

Jeanice começa a chorar. Maurício se compadece.

MAURÍCIO: Fique calma, mãe. Tudo isso já passou e agora seremos mais felizes do que nunca.

Maurício abraça Jeanice como forma de consolo.

JEANICE: Eu te amo, meu filho. 

Jeanice beija a testa de Maurício.

A câmera mostra os dois abraçados e se afasta em seguida.

MAURÍCIO: Mãe... É, eu preciso ir.

Maurício e Jeanice se despedem; o rapaz se retira dali imediatamente.





Cena 14 - Delegacia [INT]

Após aproximadamente uma hora, Maurício finaliza seu depoimento na delegacia.

MAURÍCIO: Bom, agora que eu já finalizei o meu depoimento, posso fazer uma visita à dona Ágata?

DELEGADO: Pode. Por favor, acompanhem ele.

Maurício e alguns policiais vão na direção da cela de Ágata. Ágata se assusta ao vê-lo. 

MAURÍCIO: Olá, Ágata.

Ágata continua em silêncio.

MAURÍCIO: Eu vim pois acredito que você precisa saber de algo que aconteceu aqui fora.

ÁGATA: Aconteceu algo?

MAURÍCIO: A Lana... Ela morreu.

Ágata se assusta. Um instrumental de tensão atinge o seu pico. Lágrimas surgem naturalmente pelos olhos de Ágata.

ÁGATA: O QUÊ?

MAURÍCIO: Você precisa ser forte. A sua filha estava em estado de surto e sendo perseguida pela polícia. Ao que parece, ela caiu acidentalmente de um penhasco.

Ágata começa um choro incessante.

MAURÍCIO: Eu precisava falar isso e te agradecer por não ter contado para a polícia sobre o meu caso com o Leandro...

ÁGATA: Isso iria acabar com a sua vida... apesar de você ter acabado com a minha.

MAURÍCIO: Eu acabei com a sua vida?

ÁGATA: Você sabe o que fez. 

MAURÍCIO: Olha, Ágata. Posso ter feito tudo o que fiz, mas não vou te deixar desamparada e eu vou te tirar daqui.

ÁGATA: Hum, tudo bem. Agora eu preciso ficar um pouco sozinha e digerir tudo o que acabei de ouvir.

MAURÍCIO: Eu vou respeitar o seu espaço.

Maurício se retira. Ágata se destrói em lágrimas.

ÁGATA (CHORO): MINHA FILHA...

Ágata continua no chão debulhada em lágrimas.

A imagem se afasta lentamente do local.

Cena 15 - Cemitério [DIA]

Algumas pessoas enterram o corpo de Leandro, após o cortejo fúnebre. Maurício desce de seu carro e observa a cena com pesar. O mocinho se aproxima do local. O padre encerra o sermão e o caixão do homem desce lentamente pela sepultura fria. Maurício recebe uma ligação.

MAURÍCIO: Alô... ah, oi mãe. Estou indo.

Maurício se vira e volta para o seu carro.

O dia anoitece ao som de _"As Canções que Você Fez Pra Mim"_. CONFIRA EM: https://open.spotify.com/track/52V2BPdhlhFrUZF7AOrQP9?si=HtpvwmZIT8-fN1GAKELQ3Q

Cena 16 - Casa de Jeanice e Maurício [NOITE]

Jeanice e Maurício chegam do hospital.

JEANICE: Finalmente...

MAURÍCIO: É, agora tudo vai voltar ao normal...

Maurício se senta e olha fixamente para a janela. Ele demonstra uma expressão de tristeza. Lágrimas tomam conta do rosto do rapaz.

JEANICE: Meu filho...?

MAURÍCIO: Oi, mãe.

JEANICE: Você está chorando, por quê?

MAURÍCIO: Ai, é tanta coisa... eu fui o culpado por destruir uma família.

JEANICE: Maurício...

MAURÍCIO: É a verdade, mãe. 

JEANICE: Você errou sim. Mas o que destruiu aquela família com certeza foi algo bem maior. A Lana tinha muito ódio do pai e certamente foi isso que acarretou em toda essa situação trágica.

MAURÍCIO: É... se aqueles remédios tivessem agido rapidamente naquela noite, nada disso teria acontecido.

JEANICE: Maurício, tenta não pensar nisso. Ficar estimulando essa culpa só vai te fazer piorar. Tente ocupar a sua mente com algo que você goste.

MAURÍCIO: Você pode ter razão. Eu vou voltar a dar aulas.

Jeanice sorri. 

JEANICE: É assim que se fala, meu filho.

Jeanice abraça Maurício.

MAURÍCIO: Mãe, e aquele tal de Felipe? Você nunca mais falou com ele...

JEANICE: Ah, o Felipe foi embora para outra cidade, surgiu uma oportunidade melhor de emprego.

É possível o estalar da porta. Jeanice abre.

JEANICE: JULIANO!?!?

MAURÍCIO: Pai?

JULIANO: Será que eu posso falar com vocês...?

JEANICE (Com tom de voz alta): Olha, Juliano, se você estiver querendo voltar... |Interrupção.|

JULIANO: Eu queria apenas pedir perdão por tudo que fiz, por tudo que falei. Estou indo embora para uma fazenda em busca de trabalho e é possível que eu fique anos sem vê-los.

MAURÍCIO: É claro que o senhor tem meu perdão, eu nunca liguei pra aquilo.

Maurício abraça Juliano.

JEANICE: Eu não te perdoo, Juliano. Eu sofri muito em nosso casamento e preciso que você entenda.

JULIANO: Eu entendo. É... eu vou ir.

Juliano se retira.

MAURÍCIO: Vamos comer?

JEANICE: Vamos, filho... 

MAURÍCIO: Amanhã cedo é a cremação da Lana.

JEANICE: Eu vou com você.

O dia amanhece.

São mostrados pequenos takes da cremação de Lana. Jeanice e Maurício estão abraçados.

Cena 17 - Ponte do Tietê [DIA]

Jeanice e Maurício se aproximam do local. Maurício segura o vaso com as cinzas de Lana.

MAURÍCIO: Foi aqui onde tudo começou há meses atrás...

*FLASHBACK REPETIDO [1⁰ CAPÍTULO]:*

Em uma tarde ensolarada, um homem e uma mulher estão em pé perante o horizonte, aos beijos. Uma brisa incessante paira sobre o rosto de ambos.

MULHER: Maurício, hoje é o dia do jantar. Você vai conhecer os meus pais e poder pedir a minha mão oficialmente. Eu te amo!

Maurício demonstra uma expressão negativa, como se estivesse sendo compelido a isso.

MAURÍCIO: É... realmente um máximo. Mas não acha que estamos nos precipitando? Sinceramente, acho que é muito cedo para isso, Lana.

LANA: Não, já estamos juntos há 5 meses.

MAURÍCIO: Pois bem, se é isso que você quer...

Lana interrompe Maurício.

LANA: É claro que eu quero, meu amor. Nós seremos muito felizes.

Lana rouba um beijo de Maurício, que retribui.

*FLASHBACK FIM*

Maurício vira o vaso com as cinzas de Lana, que voam pelo ar. *A câmera se afasta lentamente e congela em tom preto e branco no alto da paisagem.*