Coração Oriental | 03
de Pedro Valente
{Falas japonesas em português para eficiente comunicação com o leitor}
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CENA 1.
// É possível ver Hinata e Kenji já no avião que está pronto para partir.
Kenji: Vamos começar uma vida nova no Brasil. |Ele sorri|.
Hinata: Eu nem sei como serei agradecida a você por tanto que você me fez.
Kenji: Eu que te agradecerei mais quando chegarmos ao Brasil. |Ele esboça um sorriso torto|.
//O avião sai. Neste momento, Fusa, Minato, Ema e Hana estão chegando ao aeroporto. Fusa encontra um moço para pedir informações.
Fusa: Moço, diz-me rápido!! Em quanto tempo sai o voo Japão-Brasil?
Atendente: Saiu há quase cinco minutos.
//A cara de todos se põe desesperada.
Minato: Perdemos! Não temos condições de ir ao Brasil. |Ele o diz com cara depressiva|.
Fusa: O que será da minha filha, já não basta todo o mal que nós fizemos a ela. |Ela o diz chorando|.
Hana: Mamãe, e agora? O que será da gente?
Ema: O pior é que a casa está queimando por dentro! Não temos nem onde dormir. |Ela o diz triste|.
Fusa: É MESMO! A CASAAA!!! E agora? Não tenho dinheiro para comprar outra, onde iremos dormir? |Ela o diz desesperada e soluçando|.
Minato: A gente pediu muito dinheiro nas ruas e conhecemos ruas que você nem imagina que existe, há um abrigo, mas teremos de andar bastante.
Ema: Mas mesmo assim, não temos roupas, não temos dinheiro, teremos de pedir muito mais.
Fusa: Mas para ter algo mais pra frente, teremos de começar agora.
//Eles caminham em direção ao abrigo para terem uma morada.
CENA 2.
//Kenji e Hinata estão no avião trocando seus espíritos amorosos.
Kenji: Amor, você terá a maior prova do meu amor por você quando chegarmos ao Brasil. Você terá a vida que você nunca imaginou que teria |Ele esboça um sorriso maléfico e disfarçado|.
Hinata: Eu sei, amor! Nunca confiei em alguém como eu confio em você.
//Nesse momento, o avião começa a se pôr trêmulo e os passageiros começam a ficar desesperados. Ouve-se um instrumental tenso junto a gritarias e falas altas.
Kenji: O que foi isso??? |Ele fica com medo|.
Hinata: Eu não sei, o avião está tremendo e parece que ele vai cair.
Kenji: Droga! Eu não posso seguir meu plano de acabar com essa japonesa pobretona se eu morrer. Marília, Leila e Gabriel estão fazendo um complô pra eu morrer assim também? Não se pode mais ser rico e famoso nesse país e andar de avião? |Ele o diz em português|.
Hinata: Amor, se acalma, o avião vai parar de tremer! Não precisa falar que você está desesperado em português.
//O avião começa a perder altitude.
Kenji: Merda! Estamos caindo.
Hinata: Kenji, então essa é a hora de eu dizer… |Ela abre bem seus olhos apaixonados|. Se algo ocorrer com nós, eu sempre irei lhe amar.
//Kenji percebe os gritos do avião e a falta de atitude para jogar tudo em pratos limpos.
Kenji: Eu não vou esconder mais se irei morrer.
Hinata: Esconder o quê?
Kenji: Esconder que eu iria abandonar… |Ele é interrompido|.
Piloto: Pedimos perdão aos passageiros, houve uma pequena falha no sistema que nós já corrigimos, por isso o avião se pôs a tremer e perdemos um pouco de altitude, contudo, já estamos voltando ao normal. |Ouve-se pelo microfone|.
Kenji: … Esconder que eu iria abandonar qualquer bem precioso que eu tenha só para te ver feliz! Eu te amo, vida. |Ele o diz suando frio|.
//Há uma passagem de algumas horas e a câmera focaliza na chegada dos dois ao Brasil. Ambos estão saindo dos aeroportos.
Hinata: Uau! Que lindo, entretanto, não entendo nada dessas letras que vejo.
Kenji: Você aprende com o tempo, talvez pode fazer um curso e poderá falar comigo o que você souber sempre que você precisar. |Ele dá uma leve risada|. Mas agora, irei chamar um táxi para levar-nos à minha mansão.
CENA 3.
//Fusa e seus filhos entram no abrigo após caminharem muito, eles fazem seu cadastro.
Fusa: Estamos perdidos! Nós perdemos todo o pouco que tínhamos e agora Hinata está em outro país e será abandonada. Ela não fala a língua de lá e eu não tenho condições de ir pra lá.
Ema: Mãe, o tempo vai arrumar tudo! Agora a gente não pode fazer nada, mas ela mesma sabia do risco que corria.
Minato: É verdade! Hinata sempre foi sonhadora demais. O erro dela foi esse, mas sabe que eu acho que algo bom ainda está por vir à ela?!
//Fusa carrega Hana nos braços.
Atendente: Podem subir!
//Eles sobem para o quarto mostrado na chave e ao entrar lá ligam a TV.
Repórter: Em Osaka houve um grande incêndio e, pelo o que os vizinhos contam, havia uma briga de família que terminou na morte do patriarca, contudo, após o fogo ter abaixado, não foi encontrado nenhum corpo carbonizado.
//As crianças ouvem e não acreditam.
Minato: Como não há corpos carbonizados? Eu conheço aquela casa como o casco do meu dedão. |Ele o diz com medo|.
Hana: Então o papai não morreu?
Fusa: Talvez não. |Ela o diz encarando o teto|.
CENA 4.
//Nesse momento, é possível ver Hinata e Kenji chegando à mansão. Eles descarregam suas coisas e Kenji põe à frente seu plano.
Hinata: Amor, já descarregamos tudo.
Kenji: Então venha que irei lhe mostrar nosso quarto.
//Eles sobem e Hinata se deslumbra com o quarto luxuoso de Kenji.
Hinata: Que lindo, amor! Um sonho.
Kenji: E agora será nosso sonho. |Ele encara fortemente Hinata|. Hoje eu vou ter a melhor noite da minha vida, irei drogar você e, você, estando sonolenta irá ser abandonada. |Ele o diz em português|.
Hinata: Não entendi, o que você disse?
Kenji: Ah, que você é uma princesa especial em português.
Hinata: Sempre um galã você é.
Kenji: Amor, vamos descansar hoje porque amanhã iremos sair. Vamos ir ao melhor restaurante brasileiro para o melhor restaurante da cidade.
Hinata: Irei tomar banho, também irei dormir. Amanhã nós nos falamos.
//Hinata toma banho e descansa enquanto Kenji segue a organizar seus planos. Algumas horas se passaram e ambos têm sua última noite de amor, a melhor de todas. Um novo dia começa e Kenji é o primeiro a acordar.
Kenji: Hoje é o dia.
//Hinata também acorda.
Kenji: Amor, espere! Eu irei trazer seu café na cama, espere aqui que você terá a melhor surpresa de todas.
//Kenji sai é um instrumental forte e tenso começa a tocar. Ele vai à cozinha e prepara um suco de laranja, mas abre um armário onde tem um pó branco.
Kenji: Perfeito!
//Kenji o agarra e põe no suco, ele mexe para misturar e prepara um belo Tanuki Udon.
Kenji: Até o efeito chegar ela irá se arrumar, quando ela estiver bem estranha, eu vou até a favela e lá eu abandono ela. Duvido que alguém me pegue.
//Ele termina tudo e sobe.
Kenji: Aqui está, Hinata.
Hinata: |Pulando na cama de felicidade|. Ai amor, como você é incrível! Como eu poderia ter mais sorte.
//Hinata toma seu café da manhã.
Kenji: Agora se apronta que iremos ao restaurante.
Hinata: |Sem entender|. De manhã?
//Kenji disfarça.
Kenji: ahnn… a noite teremos outro compromisso.
Hinata: Ah, assim você me deixa curiosa! |Faz uma cara de misterio|.
CENA 5.
//Ao som de uma música tensa, é possível ver um ser humano numa maca de hospital, seu corpo está todo queimado. Ele está em coma, ele não tem aparência. A câmera se aproxima de seu rosto.
Médico: Ele não irá sobreviver a esse tipo de acidente, somente se for um milagre.
Médica: Eu sou médica há muitos anos, eu sei que o que você está dizendo é total verdade, contudo, sabe que eu sinto que ele sairá dessa?
//O homem ainda que em coma faz uma expressão de ódio, ninguém entende.
Médico: Você viu isso, doutora?
Médico: Eu vi e com a aparência dele, ficou ainda mais assustador.
CENA 6.
//Nesse momento, para reerguerem-se, Fusa e seus filhos decidem vender flores na porta do abrigo, ideia genialmente dada por Hana,
Hana: É isso! Talvez seria legal porque todos gostam de flores. |Ela o diz fazendo uma expressão feliz|.
Minato: Olha, uma excelente ideia! Nós tentamos levantar o dinheiro hoje e amanhã conseguiremos comprar as primeiras.
Ema: Exatamente! Mãe, o que você achou da ideia.
Fusa: Eu concordo, mas sempre juntaremos um dinheiro para um dia irmos ao Brasil reencontrar a Hinata, certo?
Ema: Certo, mãe!
//Eles saem em busca do dinheiro das flores.
CENA 7.
//Kenji e Hinata estão prontos. Hinata se olha no espelho parecendo uma princesa, Kenji teve que lavar aquele vestido que pertencia a sua “falecida” esposa.
Hinata: Kenji, eu estou linda! |Ela o diz com os olhos brilhando|.
Kenji: Sim, você está! E com certeza está pronta.
Hinata: Pronta para quê?
Kenji: |Ele tenta disfarçar|. Para ter o melhor dia da sua vida.
Hinata: Bom, vamos lá!
//Ambos vão até o carro de Kenji e entram. Kenji faz um rosto cruel enquanto Hinata entra pelo outro lado. Após isso, ele começa a dirigir enquanto ambos vão conversando.
Kenji: Você vai amar essa surpresa! Eu tenho certeza.
Hinata: ah, eu também tenho. Aliás, o que eu posso esperar vindo de você senão o maior presente do mundo?!
Kenji: Ah, com certeza pode esperar! |Ele fecha o rosto|.
//Alguns minutos se passam e Hinata começa a passar mal.
Hinata: Amor! Acho que eu não estou passando bem. |Ela o diz tonta e bêbada|.
Kenji: Hinata, não acredito. |Ele fala incrédulo|.
Hinata: |Preocupada|. O que aconteceu?
Kenji: Peguei o caminho errado, mas se voltarmos será mais longe.
Hinata: E o que vamos fazer? Eu não conheço nada por aqui.
Kenji: |Apontando|. Bem ali, ó! Lá tem uma favela, só temos que passar por algumas ruas dela e sair na rua abaixo. |Ele ri do que disse|.
Hinata: Eu confio em você.
Kenji: Seu maior erro. |Ele o diz no pensamento|.
//Kenji estaciona seu carro ao lado da calçada de uma das entradas da comunidade de Paraisópolis e ambos saem. Hinata está aparentemente bêbada, ela não consegue quase nem raciocinar.
Hinata: Amor, eu não consigo caminhar bem! Me segura.
//Kenji a segura e ambos adentram a comunidade.
Kenji: Desça as escadas direito e tome cuidado.
Hinata: Eu não sei se foi uma boa ideia eu aceitar vir, eu acho que eu quero voltar. |Ela o diz com ânsia de vômito|.
//Kenji passa por um escadão, lá há algumas pessoas, mas cidadãos de bem, normais vendo a cena.
Kenji: Não posso voltar agora, vida!
Hinata: Mas por quê? Eu não consigo jantar desse jeito.
//Kenji a guia pelo escadão segurando em seus ombros.
Kenji: Por que essa é a sua nova casa.
Hinata: |Ela faz expressão de desentendida|. Calma, o quê?
//Kenji a empurra do escadão com a maior força que tinha, Hinata capota todo o resto do escadão e o público que via corre para ajudá-la. Kenji corre para seu carro sendo seguido por alguns homens, mas despista todos.
CENA 8.
//Em tão somente três horas, Fusa e seus filhos conseguiram o suficiente para comprar algumas flores que as colocaram num cesto comprado para vender.
Minato: Vendemos essas flores em frente ao abrigo num preço mais caro, iremos à floricultura e compraremos mais, assim vamos conseguir lucrar.
Fusa: Excelente!
Ema: |Ela grita bem alto|. Vende-se flores! Comprem flores!
//É visto algumas pessoas se aproximando para comprar visto que são de boa qualidade.
Minato: A vida venceu a batalha, mas iremos vencer a guerra.
//A câmera se afasta deles mostrando que suas histórias terminaram por enquanto, mas no tempo certo, um novo capítulo iniciará.
CENA 9.
| A PARTIR DESSE MOMENTO, OS MORADORES DA COMUNIDADE E CIDADÃOS BRASILEIROS COMUNICARÃO-SE EM PORTUGUÊS, HINATA, SOMENTE NESSE MOMENTO DA HISTÓRIA, O FARÁ EM JAPONÊS, ENTRETANTO, COM SUAS FALAS TRADUZIDAS IGUAL NOS CAPÍTULOS PASSADOS |
//Algum tempo se passa e Hinata desperta numa casa extremamente humilde de Ademilde (Arlete Salles).
Ademilde: Oi moça! Tudo bem?
//Hinata acorda.
Hinata: O que é isso? O que eu estou fazendo aqui?
//Ademilde não entende japonês. Elas tentam fazer a melhor comunicação possível, mas Hinata demora para entender o que houve.
Ademilde: Quem é você? |Ela o diz gesticulando|.
Hinata: Hinata.
Ademilde: Você quer comer? Depois tomar um banho para melhorar seus hematomas? |Ela o diz gesticulando|.
Hinata: Sim! Obrigado.
Ademilde: Você conhece aquele homem que empurrou você da escada e abandonou você aqui? |Ela o diz gesticulando|.
//Hinata olha em volta, olha para o teto e faz uma cara de desespero porque não sabia que havia caído numa armadilha, ela começa a chorar e soluçar.
Hinata: E agora o que eu vou fazer?
Ademilde: Se você quiser, você pode ficar aqui morando na minha casa até alguém lhe buscar ou algo parecido. |Ela o diz gesticulando|. Pessoal, essa moça parece estar totalmente perdida e não fala a nossa língua.
//Hinata ao som da música de abertura olha para cima e fica totalmente desnorteada, a câmera se aproxima de seu rosto indo até sua esclera, mostrando que assim, passou-se alguns meses. Estão nos últimos minutos de 1999 e Paraisópolis inteira está comemorando a chegada do ano 2000, a virada do milênio.
Ademilde: |Segurando uma taça de vinho|. Quantas coisas você passou.
Hinata: Sim, mas você me ajudou! Quando eu não conseguia falar, você estava lá e você nem me conhecia.
Ademilde: Ah, o povo da favela é assim! Eu mesmo gostei bastante de conhecer você.
//Hinata se sente extremamente feliz.
Hinata: Eu demorei, mas aprendi o português na marra! Ainda falo mesclado com um pouco de japonês, mas dá pra entender haha.
Ademilde: Ah, quase me esqueço! Eu tenho um amigo, ele trabalha como cuidador de idosos e você não sabe?!
Hinata: O que?
Ademilde: É uma japonesa e um dia falei de você para ele, ela quer você. Ela sabe da sua história, é a sua oportunidade de ganhar bem.
Hinata: |Ela se põe extremamente feliz|.
Ademilde: E aí, guerreira! O que me diz?
Hinata: EU ACEITO!! |Ela corre para abraçá-la|.
Ademilde: E agora, você já terá seu emprego e logo se erguerá, contudo, como só falta 1 minuto para a meia-noite vamos brindar o minuto exato para tudo o que eu lhe disse acontecer.
//Hinata pega sua taça de vinho e todos começam a gritar bem alto.
Todos: DEZ, NOVE, OITO, SETE, SEIS, CINCO, QUATRO, TRÊS, DOIS, UM… FELIZ ANO DOIS MIL.
Ademilde: Ao seu êxito.
Hinata: AO NOSSO êxito.
//Hinata e Ademilde brindam seus vinhos.
//A câmera vai outra vez à esclera de Hinata mostrando que apenas uma semana se passou, vê-se ela na estação Japão-Liberdade da capital paulista, é seu primeiro dia, pois, a indicação funcionou.
Hinata: Eu vou ganhar quatro mil reais, vou poder alugar uma casa, me manter melhor. Eu juro que eu irei lhe recompensar, Ademilde.
//Hinata suspira e anda 15 minutos até sua casa e ao entrar conhece Tizuka (Tizuka Yamasaki).
Tizuka: Venha, eu estava esperando por você.
Hinata: Você me conhece?
Tizuka: Ah, mais do que você pensa! Minha história é parecida com a sua. Sente-se aqui.
//Hinata se senta.
Tizuka: |Com seu olhar triste|. Eu estou sozinha nessa casa, sozinha nessa vida.
//Hinata não compreende.
Hinata: Por que?
Tizuka: Meus filhos, eles se entregaram ao tráfico! Nossa vida era um inferno, não dava mais, eu expulsei eles de casa.
Hinata: Era tão ruim?
Tizuka: |Ela começa a chorar|. Eu sofro a falta deles, porém, sofro menos sem eles. Eles chegaram a me bater, eu caí da escada e perdi o movimento das pernas.
>< A IMAGEM CONGELA NO ROSTO DE TIZUKA CHORANDO FAZENDO COM QUE ELA E O RESTANTE DO PANORAMA VIRE ANIME.