Sombras do Passado - Capítulo 12
*[⏳] ● CENA 01 ● RUAS DE SÃO PAULO ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
_🎶 • Ontem Ao Luar • Rubel_
[Em um clima romântico, Mário ajuda Coraline a levantar-se e, em seguida, levanta também. A moça o encara, assustada.]
Coraline (gaguejando): Moço... Eu... Perdoe-me! Eu não o vi. Estava correndo e...
[Neste momento, Mário sorri. Coraline para de falar. Os dois estão atraídos, um pelo outro.]
Mário: Está tudo bem. Qual o seu nome?
Coraline (envergonhada): É... Coraline!
Mário (sorrindo): Prazer, Coraline. Me chamo Mário!
[Coraline retribui o sorriso. Os dois continuam se encarando.]
Coraline: É... Eu estou indo!
Mário (encantado): Claro...
Coraline: Passar bem, senhor.
[Coraline acena. Mário retribui. A moça vira-se de costas para voltar para casa, mas, neste momento, dá de cara com Madeleine, que parece furioso. Mário a tudo observa.]
Madeleine (bravo): Posso saber onde você passou essas horas, Coraline?
Coraline (pálida): Pai, eu...
Madeleine (aumentando o tom): Você FUGIU de casa, Coraline. NÃO HÁ O QUE EXPLICAR!
[Coraline abaixa a cabeça, enquanto os seus olhos lacrimejam.]
Coraline: Eu... Só queria me sentir livre, pai. O senhor nunca me deixa sair de casa.
[Ao perceber que Mário está observando o diálogo dos dois, Madeleine questiona.]
Madeleine (apontando): Quem é o moço?
Coraline (olhando para Mário): Ele... Eu caí e ele me ajudou. Não sei de quem se trata.
Madeleine (ríspido): Está certo... Vamos para casa, Coraline, temos muito o que conversar.
[Madeleine olha uma última vez para Mário, que estremece. Depois disso, ele puxa Coraline pela mão. Os dois caminham rapidamente. A moça olha para trás e percebe que o estudante continua a encará-la, encantado. Quando pai e filha se distanciam consideravelmente, o rapaz olha para o chão e percebe algo.]
Mário (abaixando-se): Uma correntinha... Ela perdeu.
[Ele pega a jóia. Ela pertence a Coraline, que, provavelmente, a perdeu durante a queda. Mário a guarda com carinho em seu bolso e caminha para longe dali, enquanto a câmera se afasta. Vários takes de vistas panorâmicas da cidade são mostrados.]
*[⏳] ● CENA 02 ● CASA DE RAFAEL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera foca na fachada de uma pequena e simples casa. É lá onde vive Rafael, amigo de Mário, em companhia de Galileu. Os dois estão na sala, conversando.]
Rafael: O que você acha da gente recrutar mais estudantes para o próximo protesto, Gali?
[Galileu nada responde. Ele apenas olha nos olhos de Rafael, parecendo encantado.]
Rafael (aumentando o tom): Galileu?
Galileu (caindo em si): Oh... Oi, Rafa!
Rafael: Você estava sonhando acordado, meu amigo?
Galileu (tentando disfarçar): Eu... É... Sim, eu acho.
[Rafael sorri. Neste momento, alguém bate a porta. O jovem vai até lá e se depara com Mário.]
Rafael (surpreso): Mário? Entre, meu amigo. O que o traz aqui?
Mário: Ah, Rafael... Descobri que o meu avô mentiu para mim durante toda a minha vida e que, provavelmente, ele matou o meu pai.
Rafael: Nossa...
Mário: Resultado? Tivemos uma briga feia e eu saí de casa. Será que posso ficar aqui, por enquanto?
Rafael: Claro, meu amigo... Entre! Não há problema algum, não é, Galileu?
Galileu: Claro...
[Ao entrar, Mário deixa a correntinha de Coraline cair de seu bolso. Ele a pega cuidadosamente e a encara.]
Galileu (curioso): O que é isto?
Mário (sorrindo): Ah, meus amigos... Esta correntinha pertence à moça mais linda que eu já vi. Estava vindo para cá, quando ela esbarrou em mim... Tímida e encantadora! Uma pena que o pai a tenha tratado tão mal, assim que ela se afastou de mim. Parece que ela fugiu de casa e ele não gostou nada. |Olha para os dois amigos.| Uma pena não saber o seu endereço. Iria até lá devolver a correntinha. Seria um pretexto perfeito para revê-la.
Rafael (brincando): Ih... Será que o senhor Mário está apaixonado?
Galileu (continuando): Talvez tenha sido amor à primeira vista.
[Mário não responde nada, apenas sorri. A câmera foca em seu rosto de encantamento e felicidade.]
*[⏳] ● CENA 03 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Minutos depois, Madeleine e Coraline chegam em casa, após caminharem calados por todo o percurso. O homem senta em uma cadeira, e aponta para uma segunda.]
Madeleine: Sente aí, Coraline!
[Sem falar nada, a moça senta, ficando frente a frente com o pai.]
Madeleine: O que deu em você, minha filha? POR QUE VOCÊ FUGIU DE CASA, CORALINE?
Coraline (chorando): PORQUE EU ESTOU CANSADA DESSE CATIVEIRO, PAI! CANSADA! O SENHOR NUNCA PERMITIU QUE EU TIVESSE AMIGAS, ALÉM DAS FREIRAS DO CONVENTO. E, DEPOIS QUE VIEMOS PARA SÃO PAULO, TUDO FICOU AINDA PIOR!
Madeleine (levantando): MAS SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE QUE EU FAÇO TUDO ISSO PELO SEU BEM, MINHA FILHA?
Coraline: NÃO, PAI! NÃO É PARA O MEU BEM! O SENHOR ME PRIVA DE VIVER UMA VIDA NORMAL. ISSO NÃO É QUERER O BEM DE NINGUÉM!
Madeleine: EU SEI O QUE É MELHOR PARA VOCÊ, MENINA!
Coraline: NÃO SABE! O SENHOR SÓ SABE ESCONDER TUDO DE MIM! EU TENHO DEZOITO ANOS E NÃO SEI QUAL O MOTIVO QUE LEVA O SENHOR A FUGIR DE TUDO E DE TODOS!
Madeleine: JÁ CHEGA, CORALINE! A PARTIR DE HOJE EU VOU FICAR NO SEU ENCALÇO! VOCÊ NUNCA MAIS FARÁ ISTO!
Coraline (aos prantos): O SENHOR NÃO TEM ESSE DIREITO, PAI! NÃO TEM!
[Ao dizer isso, Coraline corre para o seu quarto, soluçando. Sozinho, Madeleine senta novamente na cadeira, ofegante, com um semblante de preocupação e tristeza. O dia passa, a noite cai e logo é manhã novamente.]
*[⏳] ● CENA 04 ● CASA DE RAFAEL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Galileu está na sala, lendo um livro. Rafael e Mário não estão presentes. De repente, alguém bate na porta, várias vezes. O filho renegado dos Tavares se levanta e vai até lá.]
Galileu (abrindo a porta, surpreso): Eleonor?
Eleonor (sorrindo): Galileu, meu irmão... Não vai me abraçar?
[Galileu sorri, e os dois se abraçam calorosamente.]
Galileu: Entre, minha irmã. Sinta-se em casa.
[Eleonor observa toda a casa, discretamente.]
Galileu: Não repare a bagunça. Aqui vivem só eu e meu amigos.
Eleonor (aparentemente triste): É... Bem mais confortável que a casa dos nossos pais.
Galileu: Oh, minha irmã... Como estão as coisas?
Eleonor: Péssimas. Papai não para de beber... Agora, com a doença de Adelaide, tudo piorou...
Galileu: O que, especificamente, ela tem?
Eleonor: Bom... Os médicos disseram apenas que é uma doença rara e muito grave. Ao que parece, o caso dela não tem cura... Apenas tratamento para prolongar a vida, mas... Nossos pais não têm como pagar.
[Uma lágrima desce pelo rosto de Galileu. Ele abraça a irmã, que está visivelmente abalada. De repente, Mário surge na sala, sem camisa, se assustando ao ver Eleonor.]
Mário (envergonhado): Oh... Quem é a moça?
Galileu: Eleonor, Mário. Minha irmã!
Mário: Ah, sim. |Estende a mão.| Prazer, Eleonor!
[Eleonor congela. Ela olha para o rapaz, sem falar nada. Seus olhos brilham. Mário continua com a mão estendida.]
Galileu (sussurrando): Eleonor... Responda ao Mário.
Eleonor (quase desorientada): Oh, claro! |Sorri, radiante.| Muito prazer, Mário!
[Mário a cumprimenta e se afasta novamente. Galileu percebe o comportamento estranho de Eleonor.]
Eleonor (interessada): Ele mora aqui?
Galileu: Temporariamente, sim.
Eleonor: Interessante...
[A câmera foca no rosto feliz de Eleonor, que se atraiu por Mário à primeira vista.]
*[⏳] ● CENA 05 ● CASA DE MOISÉS ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera foca na fachada do casarão de Moisés. Na sala de estar, o velho parece impaciente.]
Moisés (gritando): MÁRIO! Mon petit-fils!
[De repente, Dinha entra na sala, parecendo incomodada.]
Dinha (amargurada): Está louco? Esqueceu que Mário se foi, e que você é o único culpado?
[Moisés olha para Dinha, indiferente.]
Moisés (sarcástico): Ah, ma chère, você sempre foi tão ingênua. Ele voltará, você verá!
Dinha (furiosa): Você o afastou com suas mentiras! E agradeça aos céus por ele ainda não ter descobrido sobre todo o resto.
[Neste instante, Moisés esboça um sorriso sádico para a filha.]
Moisés: Ah, ma fille, sua ingratidão é insuportável.
Dinha: Chega, pai! Eu estou cansada do senhor e dessa sua monstruosidade. Só continuo aqui porque não tenho para onde ir.
Moisés (venenoso): Porque não tem um marido, você quis dizer. Nenhum homem jamais foi capaz de suportar o fardo de você como esposa.
Dinha: VOCÊ É UM MONSTRO! Não há respeito em seu coração.
Moisés (com desdém): Monstro? Eu apenas enxergo a verdade. Você é tão desprezível quanto os outros a vêem.
[Com lágrimas nos olhos, Dinha o encara, com raiva, e sobe rapidamente para o seu quarto.]
Moisés (bufando): Mon Dieu...
[A câmera foca no rosto de Moisés.]
*[⏳] ● CENA 06 ● RUAS DE SÃO PAULO ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Vários takes de São Paulo são mostrados. Na rua de Madeleine e Coraline, que, para a surpresa de todos, é vizinha da rua em que se situa a casa dos amigos de Mário, o estudante de Direito caminha, disperso em seus pensamentos, lembrando da revelação sobre seu pai e da briga que tivera com o avô.]
Mário (suspirando): Ah, pai... Tudo seria tão diferente se não tivessem tirado e nosso direito de nos conhecermos...
[Neste momento, algo ao longe chama a sua atenção. É Madeleine, na porta de sua casa, entrando com um jornal. Mário, surpreso, observa.]
Mário (sorrindo): Não acredito... É ele... O pai da moça da correntinha... |Falando para si mesmo.| Ela estava mais perto do que eu poderia imaginar. Eu... Eu preciso buscar a jóia e voltar aqui para entregá-la.
[Feliz e ansioso, Mário corre de volta para a casa de Rafael, no intuito de buscar a corrente de Coraline para, assim, ter um pretexto para revê-la.]
*[⏳] ● CENA 07 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Minutos mais tarde, Madeleine está na sala, sentado em uma cadeira, lendo o jornal. Coraline está ao seu lado, pensativa. O clima é de tensão. De repente, alguém bate à porta. O ex-prefeito interrompe a sua leitura.]
Madeleine (tenso): Ué, quem pode ser? Ninguém dessa cidade nos conhece...
Coraline: Vou lá ver quem é!
[A moça levanta-se e vai. Ao chegar lá e abrir a porta, sua expressão congela e seus olhos brilham. É Mário, que sorri para ela. Surpresa, mas feliz, Coraline retribui o sorriso.]
Coraline (encantada): Mário...
Mário (sorrindo): Coraline...
Madeleine (de longe, se aproximando): Quem é, Coraline?
[Com receio, a filha de Fátima não lhe responde. Madeleine chega até lá e se surpreende ao ver Mário, o mesmo rapaz que flagrou com a filha no dia anterior.]
Mário (envergonhado): Bom dia, senhor!
Madeleine (ríspido, olhando para a filha): O que este rapaz está fazendo aqui?
Mário (interrompendo): Eu... Vim devolver isto. |Tira a corrente de Coraline do bolso da camisa.| Você deixou cair ontem, durante o tombo.
Coraline (sorrindo novamente): Oh, minha correntinha... |Pega a jóia.| Nossa, nem tinha reparado. |Olha para Mário, radiante.| Obrigada, Mário.
Mário (gentil): De nada...
[Madeleine se incomoda com a proximidade da filha com o rapaz.]
Madeleine: Como você descobriu onde moramos?
Mário: Bom, eu passava por aqui e vi o senhor na porta, pegando um jornal. Resolvi arriscar. Imaginei que a corrente tivesse algum valor sentimental para a moça.
Coraline (grata): Muito gentil de sua parte.
[Mário sorri, envergonhado. Madeleine o encara friamente.]
Madeleine (duro): Agora que entregou a corrente, o moço já pode ir embora. |Aponta para a rua.| Tenha um bom dia.
Mário (querendo mais tempo com Coraline): Mas...
Madeleine (aumentando o tom): Tenha um bom dia, rapaz!
[Mário decide não insistir. Ela olha para Coraline e sorri discretamente, sendo retribuído.]
Mário (acenando para Coraline): Até mais, Coraline.
Coraline (acenando de volta): Até...
[O jovem finalmente se retira. Madeleine bate a porta, incomodado.]
Madeleine (para Coraline): Espero que esse rapaz inconveniente não volte mais aqui.
[O homem pega o jornal e se dirige ao seu quarto. A câmera foca em Coraline, que esboça um sorriso apaixonado. A câmera se afasta. O dia corre rapidamente e logo é noite.]
*[⏳] ● CENA 08 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[Coraline está na sala, lendo uma revista velha. De repente, Madeleine surge, vestindo um largo casaco de couro e com um chapéu de longas abas, escondendo o seu rosto, quase totalmente. A moça estranha.]
Madeleine: Vou até a venda da esquina, Coraline. Preciso comprar alguns alimentos para repor a dispensa.
Coraline: Ué... A essa hora? E com estas roupas?
Madeleine (breve): Sim, Coraline. Volto o mais breve possível.
[Ele sai. Coraline fica pensativa.]
*[⏳] ● CENA 09 ● VENDA ● EXTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[Pouco tempo mais tarde, Madeleine já está voltando para casa, carregando alguns sacos de compras. Ele caminha rapidamente, temendo ser reconhecido por alguém. Ao entrar em uma rua movimentada, o ex-prefeito fica apreensivo e aumenta o passo. Sua pressa é tanta que não vê que um homem se aproxima, pela sua frente, empeitando nele. Os dois se assustam. Neste momento, acompanhado por um abrupto instrumental de tensão, os dois se olham, ficando cara a cara. Para a surpresa de Madeleine e do público, o homem é Xavier. O foragido cai para trás, e o delegado esbugalha os olhos.]
Xavier (quase sem voz): Não... Não é possível!
[A câmera foca em seu rosto, que está com uma expressão de horror, e, em seguida, no olhar pálido de Madeleine.]
*A IMAGEM CONGELA EM MADELEINE.*
