Sombras do Passado · Capítulo 10 (Final da 1ª Fase)

 


*[⏳] ● CENA 01 ● FLORESTA ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[Coraline, com medo, tenta se afastar de Madeleine, que busca lhe acalmar.]


Madeleine (solene): Ei... Não tenha medo. Eu não irei lhe fazer mal. Apenas estou em busca de um lugar para dormir. 


[Coraline continua paralisada, apenas encarando o homem.]


Madeleine: Para onde você está indo?


Coraline: Eu... Estou indo para a casa dos Tavares. Eles que cuidam de mim... |Puxa o balde.| Me deixe levar, senhor... Eles podem me punir.


[Madeleine cede. Coraline começa a caminhar, com pressa, enquanto o homem a observa, desacreditado.]


Madeleine (sussurrando): É ela... A filha de Fátima! 


[Um instrumental emblemático tem início. Madeleine observa Coraline se afastando.]


Madeleine (ansioso): ESPERE! 


[A menina para, ofegante, com medo de que o homem desconhecido lhe faça algum mal.]


Madeleine (aproximando-se): Eu vou com você!


[A câmera foca no olhar decidido de Madeleine para Coraline, e, em seguida, na filha de Fátima, que está visivelmente com medo.]


*[⏳] ● CENA 02 ● CASA DOS TAVARES ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[A noite se aproxima. Valentin está na porta de casa, esperando a água que Coraline fora buscar, pensando em alguma forma de se livrar da garota. De repente, ele avista a menina vindo ao longe, seguida por Madeleine.]


Valentin (curioso): Mas o que é isto?


[Carlota também sai para fora, ao ver o desconhecido se aproximando. Coraline chega, deixa o balde na frente dos dois, e corre para dentro, com medo de ser castigada, enquanto Madeleine é encarado pelo casal.]


Madeleine (discreto): Boa tarde, senhores!


Valentin (ríspido): O que deseja? 


Madeleine: Estou em busca de um lugar para passar a noite. Encontrei a menina na mata e pedi que me trouxesse até aqui. Se me deixarem dormir aqui e me derem um prato de comida, serão muito bem recompensados. 


[Neste momento, ele ergue uma sacola de couro com dinheiro e à mostra ao casal. Carlota e Valentin se entreolham, cobiçando a recompensa, porém com receio.]






*[⏳] ● CENA 03 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[Logo é noite. Como a cobiça falara mais alto, os Tavares aceitaram recepcionar Madeleine, mesmo tomados de desconfianças. É mostrado que a família e o forasteiro estão na mesa, jantando. Valentin o encara friamente.]


Valentin (curioso): De onde o senhor vem?


Carlota (emendando): E para onde o senhor vai?


[Antes que Madeleine possa responder, Coraline entra pela porta, com seu velho prato de comida em mãos.]


Carlota (furiosa): Mas o que é isto, menina? VÁ PARA FORA IMEDIATAMENTE, CORALINE!


[Coraline abaixa a cabeça. Quando ela está prestes a sair pela porta, Madeleine levanta-se.]


Madeleine: Por que a menina não senta conosco na mesa? 


Carlota (tentando se explicar): Bom... A menina não faz parte da família. 


Madeleine (interrompendo): Venha, Coraline, sente-se ao meu lado. Se for necessário, pago por você também. 


[Os olhos de Coraline brilham. Ela vai até lá e senta-se ao lado do protagonista, enquanto Valentin e Carlota se incomodam, mas apenas se entreolham, e um silêncio toma conta do ambiente, acompanhado por um clima tenso.]


*[⏳] ● CENA 04 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[A casa está silenciosa e pouco iluminada. Quase todos dormem, com exceção de Coraline, que está deitada no chão da cozinha, rolando de um lado para o outro. Neste momento, Madeleine se aproxima. A menina o vê, mas não se assusta. Ele vai até ela e senta-se ao seu lado, cautelosamente.]


Madeleine (acolhedor): Por que você é tão maltratada, criança?


Coraline (triste): Eu não sei... É assim desde que a minha mãe me abandonou. 


Madeleine (segurando em suas mãos): Ouça... Eu conheci a sua mãe.


Coraline (surpresa): Verdade? E como ela era? Por que ela me abandonou?


Madeleine: Ela não lhe abandonou, Coraline. Sua mãe lutou durante todos os dias de sua vida pelo seu bem. Ela te amava! 


Coraline (com lágrimas nos olhos): E por que ela não veio me buscar, senhor? Por que ela nunca me respondeu quando chamei? Por que nunca evitou que eu fosse maltratada pelos Tavares?


Madeleine: Tenha calma... Eu vou te levar daqui e cuidar de você. Esses monstros nunca mais lhe farão mal... Eu prometo!


Coraline (agora chorando): E minha mãe, senhor? Onde ela está? Por que ela não veio com você?


Madeleine (triste): Sua mãe... Ela... Infelizmente, Coraline, a sua mãe faleceu. 


[Neste instante, um instrumental tenso invade a cena e Coraline cai, aos prantos.]


Coraline (soluçando): Não...


[Tocado, Madeleine a abraça, tentando consolar a pobre órfã. A imagem escurece lentamente, e logo já é manhã.]


*[⏳] ● CENA 05 ● CASA DOS TAVARES ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[Na fachada da casa, Valentin está tomando uma xícara de café, tenso, enquanto Madeleine se aproxima com passos lentos.]


Madeleine (cauteloso): Senhor Valentin, podemos conversar?


Valentin (duro): O que quer? Não era para o senhor já ter ido embora?


Madeleine: Sim, mas...


[Se aproxima ainda mais do tabelião.]


Madeleine (encarando Valentin): Eu tenho uma proposta para o senhor. 


Valentin (curioso): E que proposta seria essa?


Madeleine (direto): Eu quero levar a menina!


[Um instrumental tenso invade a cena, neste momento, e a câmera foca no olhar surpreso de Valentin.]


Valentin (atônito): Levar Coraline? Mas... A troco de quê?


Madeleine: Fátima morreu, como o senhor bem sabe, mas, antes de partir, pediu que eu resgatasse a filha, que, por sinal, é tratada como um animal pelos senhores. E aqui estou eu! Irei tirar Coraline de suas garras, o senhor querendo ou não.


Valentin (agressivo): NÃO! O senhor não vai levar a garota! EU NÃO PERMITO!


Madeleine (sem medo): Eu tenho dinheiro, e estou disposto a pagar o que for preciso. 


Valentin: Eu não quero o seu dinheiro. VÁ EMBORA!


Madeleine (desafiando): Só vou com Coraline! 


[De repente, em um impulso de raiva, Valentin tira um grande canivete da cintura. O instrumental se intensifica. Madeleine levanta as mãos.]


Valentin: Você não vai levar a pirralha, E, SE INSISTIR, DOU CABO DE VOCÊ E DOU O SEU CORPO PARA OS URUBUS!


[Em um tom ameaçador, ele se aproxima do ex-presidiário, ainda com o canivete em mãos.]


Valentin (explosivo): SUMA DAQUI! VÁ EMBORA!


Madeleine (acuado): Mantenha a calma... Por favor!


Valentin (fora de si): EU ESTOU MANDANDO IR EMBORA! VÁ!


[Com medo, Madeleine se afasta lentamente, e segue pela estrada, enquanto é observado por Valentin. Um instrumental pesado acompanha a cena.]


*[⏳] ● CENA 06 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[Mais tarde, Valentin e Carlota estão na cozinha, conversando. O primeiro parece preocupado, enquanto a segunda está visivelmente irritada.]


Carlota: Como não aceitou, Valentin? NÓS PRECISAMOS DO DINHEIRO! COMO VOCÊ PODE SER TÃO BURRO?


Valentin: TENHA CALMA, CARLOTA! Eu não podia permitir que aquele homem levasse a negrinha de mão beijada!


[Enquanto os dois conversam, a câmera corta para a cozinha. Lá, Coraline está varrendo o chão, parecendo preocupada e com medo. De repente, acompanhado por um instrumental de thriller, Madeleine pula uma janela, e fica frente a frente com a menina, que, por pouco, não grita de medo.]


Madeleine (sussurrando): Faça silêncio... Você vem comigo!






[Coraline assente. Madeleine lhe pega nos braços e a coloca do outro lado da janela. Quando está subindo, acaba deixando uma panela cair, acidentalmente. Ele salta, pega a menina e corre para a mata. O instrumental se intensifica. O barulho chama a atenção do casal. Valentin corre para o cômodo e se desespera ao ver que o forasteiro levou a garota.]


Valentin (desesperado): AQUELE MALDITO LEVOU A GAROTA!


[Rapidamente, ele corre até o seu quarto e pega um revólver. A câmera foca na floresta, ao longe, enquanto o instrumental alcança o seu pico.]


*[⏳] ● CENA 07 ● FLORESTA ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[A câmera, do alto, mostra Madeleine correndo desesperadamente pela floresta, com Coraline em seus braços. Logo atrás, Valentin se aproxima rapidamente, com o revólver engatilhado.]


Valentin (ofegante): DESGRAÇADOS! EU IREI MATÁ-LOS!


[Neste momento, um disparo de tiro ecoa pelo ar. Madeleine é atingido de raspão no braço, que começa a jorrar sangue. Ele cai no chão, por cima de Coraline, que também fica bastante ensanguentada. A menina chora, enquanto Valentin se aproxima, empunhando a arma, completamente fora de si.]


Valentin (ameaçando): Solte a menina, OU EU MATO OS DOIS!


Coraline (chorando): NÃO!


[Com dificuldade, Madeleine levanta-se, com suas mãos para o alto.]


Madeleine (olhando nos olhos de Coraline): É melhor você ir...


[Lágrimas descem pelo rosto de Coraline. Ela vai até Valentin, que segura violentamente em suas mãos. O homem, neste momento, mira o revólver na cabeça de Madeleine, que se prepara para o pior. Antes que ele possa atirar, Coraline lhe dá uma forte mordida. Ele grita de dor e soca a menina, que cai.]


Valentin (berrando): NEGRINHA MALDITA!


[Aproveitando o momento de distração, Madeleine se lança sobre ele e joga o revólver para longe. Com vantagem, ele imobiliza Valentin e começa e socá-lo incessantemente, fazendo sangue jorrar por sua boca e seu nariz. Após muitas pancadas, o homem desmaia. Madeleine pega Coraline novamente e corre, sem olhar para trás. Os dois chegam em uma estrada e logo se deparam com um imenso muro. Sem pensar duas vezes, o ex-prefeito o escala e salta para o outro lado, junto com a filha de Fátima.]


[Lá dentro, Madeleine se dá conta de que está em um convento. Seu braço ainda sangra, e Coraline sente medo. De repente, um homem se aproxima. Ele tem um sino em sua perna, que faz barulho sempre que o mesmo caminha, no intuito de avisar às freiras que se aproxima.]


Velho (assustado): Por favor... Vá embora! Não nos faça mal... Isto aqui é um lugar sagrado!


[Neste momento, Madeleine o reconhece.]


Madeleine (sussurrando): Senhor Salomão...


Salomão (surpreso): Prefeito Madeleine?


[Madeleine corre até o velho, que permanece assustado.]


Madeleine (ofegante): Por favor, senhor... Nos ajude! Eu salvei sua vida no passado, quando o senhor quase foi atropelado. Lembra? Agora chegou a sua vez de retribuir!


[A câmera foca no olhar confuso de Salomão, e, em seguida, nos rostos desesperados de Madeleine e Coraline.]


*[⏳] ● CENA 08 ● CONVENTO ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[Na tarde daquele mesmo dia, Madeleine e Coraline, depois de saírem do convento após um plano que o ex-prefeito armara com Salomão, entram novamente e são recepcionados pela madre. Madeleine está com um curativo no braço e carrega uma pequena trouxa de roupas. Salomão vai até lá.]


Madre: Esse é o parente que veio ajudá-lo nos serviços do convento, Salomão?


Salomão: Sim, senhora madre. Ele e Coraline, sua filha. 


Madre: Hum...


[Madeleine fica tenso.]


Madre: Certo, ele fica, mas terá que usar um sino também. E a menina... Estudará aqui, no internato, como aluna bolsista. |Encara Coraline, e esboça um sorriso.| Terei um enorme prazer em abrigá-la.


[Coraline abre um sorriso radiante. Madeleine olha para Salomão, agradecido.]


_🎶 • Vou Te Encontrar • Paulo Miklos_


[Do alto, a câmera mostra diversos takes aleatórios da rotina no convento. Madeleine trabalha no jardim com Salomão, enquanto Coraline finalmente encontra alegria em viver. Dias nascem e se transformam em noites. Primaveras vêm e vão. Madeleine envelhece aos poucos. Coraline cresce, deixando o passado doloroso para trás. Aogum tempo depois, Salomão falece. Logo dez anos se passam. A filha de Fátima agora chama o ex-presidiário de pai. Xavier e os Tavares não pensam mais neles. Na fase atual, os dois moram em São Paulo, após saírem do convento. Morando em uma casa discreta, Madeleine esconde a sua história de todos, incluindo a filha, e evita ao máximo se expor, temendo ser capturado novamente.]


*[⏳] ● CENA 09 ● RUAS DE SÃO PAULO ● EXTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


*Maio de 1938*


_🎶 • Ta-Hi (Pra Você Gostar De Mim) • Fernanda Takai_


[A câmera foca nas ruas movimentadas de São Paulo, que exibem carros clássicos e vitrines adornadas com vestidos elegantes. O som do jazz flutua pelo ar. Nas manchetes dos jornais, a Copa do Mundo daquele ano é o principal assunto noticiado. Em uma rua afastada do centro, com poucas moradias e escasso movimento, há uma pequena casa. Adentrando-se, é mostrado um homem em uma pequena sala de leitura, ouvindo uma música emitida de uma vitrola. É Madeleine, agora mais velho, com aparência de cansado. De repente, uma linda moça entra pela porta. É Coraline, agora com dezoito anos. Ela sorri para o homem, que lhe puxa para uma valsa. Radiantes, pai e filha dançam, como se todo o passado doloroso nunca tivesse existido.]


*A IMAGEM CONGELA EM MADELEINE E CORALINE.*