Sombras do Passado - Capítulo 09

 



*[⏳] ● CENA 01 ● PRISÃO ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[A câmera passeia por algumas ruas de Monte Velho. Um instrumental pesado acompanha a cena. Na penitenciária, em sua cela, Madeleine está deitado no chão, tentando dormir, depois de passar toda a noite em claro. De repente, é ouvido o barulho da porta da cela se abrindo. É Xavier. O prefeito levanta-se, assustado, enquanto o inspetor e observa friamente, sorrindo.]


Xavier (sarcástico): Finalmente...


Madeleine (levantando-se, duramente): O que você quer, Xavier? Já não conseguiu o que tanto queria? VÁ EMBORA!


Xavier (malicioso): Mantenha a compostura, Madeleine...


Madeleine: O senhor é um homem de alma podre. Eu entenderia se estivesse apenas em busca de justiça, mas não é isso que você faz. Você é frio e calculista... Minucioso e COVARDE!


Xavier (olhando em seus olhos): Covarde por ter feito o meu trabalho, Serafín? |Aproxima-se.| Você matou uma criança... Fugiu da cadeia e cometeu o crime de falsidade ideológica. Acha mesmo que está certo?


Madeleine: EU NÃO MATEI NINGUÉM! 


Xavier (esboçando um sorriso provocativo): Prove isso ao juiz... Mas de nada adiantaria. Você iria pagar pelos outros crimes também. Você está perdido, Machado. 


[Neste momento, Xavier se aproxima ainda mais, lentamente, e os dois ficam cara a cara.]


Xavier: Você irá passar o resto de sua miserável vida atrás das grades. O seu carma está se cumprindo. A JUSTIÇA ESTÁ SENDO FEITA!


[Com um impulso inexplicável, Madeleine desfere um forte soco no rosto de Xavier, que o faz cair. Um forte instrumental tenso invade a cena.]


Xavier (levantando-se rapidamente): MISERÁVEL!


[Em um forte movimento, ele agarra Madeleine pela gola da camisa e o coloca contra as grades, deixando-o imóvel.]


Xavier: ISSO, SERAFÍN, TRAGA A SUA VERDADEIRA NATUREZA DE VOLTA! PROVE QUE VOCÊ CONTINUA SENDO O MESMO SELVAGEM QUE MATOU O MEU FILHO, DEZOITO ANOS ATRÁS!


[Neste instante, o pico do instrumental é alcançado. A câmera foca no rosto atônito de Madeleine e em Xavier.]


Madeleine (gaguejando): Filho...? DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?


Xavier (com os olhos marejados): SIM, MEU FILHO! O GERVAIS ERA MEU FILHO!


[Ele solta a gola de Madeleine, que tenta processar a informação.]


Xavier: HÁ VINTE E SEIS EU ME APAIXONEI PERDIDAMENTE POR UMA MULHER... |Cai ao chão, de joelhos, aos prantos.| Eu pensava que ela era o amor da minha vida... MAS ERA SÓ UMA PROSTITUTA! ELA ME ENGANOU DURANTE TODO O TEMPO EM QUE ESTIVEMOS JUNTOS! 


[Madeleine observa o estado em que o inspetor se encontra, sem falar nada.]


Xavier (continuando, entre soluços): Eu afastei ela de mim, e esperava que fosse para sempre, mas ela retornou pouco tempo depois... Dizendo estar grávida. |Seu choro se intensifica.| Eu... EU NÃO QUERIA SER PAI DO FILHO DE UMA PROSTITUTA... EU EXIGI QUE ELA SUMISSE PARA SEMPRE COM AQUELA CRIANÇA... Mas... Ela... Ela morreu durante o parto. 


[O instrumental de tensão cede seu lugar à um ritmo melancólico.]


Xavier: A criança foi salva... Era Gervais. Eu aproveitei que ninguém sabia que eu era o pai e deixei que ele fosse criado na rua, sem amparo... E EU ME ARREPENDO DISSO AMARGAMENTE! QUANDO EU VI O CADÁVER DO MEU FILHO AOS PÉS DAQUELA MALDITA ROCHA, FINALMENTE PERCEBI QUE EU O AMAVA... E JÁ ERA TARDE DEMAIS, PORQUE VOCÊ O MATOU, SEU DESGRAÇADO! 


[Madeleine, incrédulo, começa a falar.]


Madeleine: Não... Eu não matei o seu filho... |Aponta o dedo indicador para Xavier.| Você fez isso. Você o abandonou. Se não fosse por você, nada disso teria acontecido. 


Xavier: EU ME MARTIRIZAREI ATÉ O FIM DE MINHA VIDA POR TÊ-LO ABANDONADO, MAS FOI VOCÊ QUEM O MATOU! FOI VOCÊ QUEM ME TIROU O DIREITO DE ME REDIMIR!


Madeleine: EU JÁ DISSE QUE NÃO MATEI NINGUÉM, XAVIER! EU NÃO SOU UM MONSTRO, AO CONTRÁRIO DE VOCÊ, QUE TEVE CORAGEM DE ABANDONAR O PRÓPRIO FILHO, E SÓ SE DEU CONTA DA GRAVIDADE DO QUE FEZ AO PERDÊ-LO!


Xavier: EU O PERDI POR SUA CAUSA! EU PROMETI PARA MIM MESMO, HÁ DEZOITO ANOS, QUE VINGARIA A MORTE DO MEU GERVAIS! EU VIVI PARA ISSO DURANTE TODOS ESSES ANOS, E O TÃO ESPERADO MOMENTO FINALMENTE CHEGOU!


Madeleine: VOCÊ É TÃO CRUEL QUANTO O QUE SUPOSTAMENTE SOU! VOCÊ NÃO BUSCA JUSTIÇA, VOCÊ BUSCA VINGANÇA POR ALGO QUE ACONTECEU POR SUA CAUSA!


[Em um momento inesperado, Xavier, tomado de ódio, desfere um chute no estômago de Madeleine, fazendo-o cair, gemendo de dor.]


Xavier (descontrolado): DESGRAÇADO! MALDITO! VOCÊ VAI PAGAR PELO QUE FEZ COM O MEU FILHO PELO RESTO DOS SEUS DIAS!


[Ele desfere mais dois chutes em Madeleine, que está indefeso. Com dificuldade, ele levanta lentamente e chuta o inspetor, que cai contra uma grade.]


Madeleine: A ÚNICA PESSOA QUE TEM QUE PAGAR POR ALGO É VOCÊ, XAVIER!


[Madeleine parte para cima de Xavier e começa a lhe socar muito, tirando sangue de seu nariz. De repente, três guardas entram rapidamente na cela e separam os dois. Enquanto um ampara Xavier, os outros dois derrubam Madeleine e começam a chutá-lo incessantemente. Xavier, completamente fora de si, se retira. No lado externo, ele encosta-se em uma parede e começa a chorar novamente.]


Xavier (soluçando): A JUSTIÇA ESTÁ SENDO FEITA, MEU FILHO!


[A cena fica silenciosa, enquanto o foco se afasta de Xavier e a imagem escurece. Alguns dias se passam.]


*[⏳] ● CENA 02 ● SALA DE TRIBUNAL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[A câmera focaliza em uma sala de tribunal. Finalmente chegou o dia do julgamento de Madeleine. O réu está no seu apropriado lugar, desolado. Na platéia, com uma expressão vitoriosa, Xavier observa a tudo.]


Juiz: Senhoras e senhores, estamos reunidos para julgar Serafín Machado Nascimento pelos crimes que cometeu. |Dirige-se ao, agora, ex-prefeito.| Serafín, você está aqui por tirar a vida de uma inocente criança e de evadir-se da justiça. Como se declara?


Madeleine (trêmulo): Eu sou inocente, Excelência...


[O tempo passa rapidamente. O julgamento se encaminha para os seus momentos finais. Um murmúrio na sala aumenta à medida que a tensão se intensifica.]


Juiz (sério): Há evidências contundentes e inquestionáveis que sugerem a culpa deste homem. Revisamos o seu passado, e o mesmo também confessou. No ano de 1910, foi condenado pelo assassinato de uma criança indigente. Fugiu da prisão e assumiu uma nova identidade, como Madeleine Pompeu Fonseca. 


[Madeleine está tenso, com medo de sua sentença.]


Advogado de acusação: Este homem se diz ser inocente, mas não se deixem enganar, senhoras e senhores do júri. Serafín Machado é um criminoso, um manipulador que usurpou a confiança de todos em Monte Velho.


[Os jurados trocam olhares preocupados enquanto o juiz considera a sentença. Um intenso instrumental de tensão penetra a cena.]


Juiz (solenemente): Serafín Machado Nascimento, este tribunal reconhece os seus crimes. Pela execução do código penal vigente, condeno-o a trinta anos de reclusão. Que isto sirva de exemplo para aqueles que pensam em burlar a justiça.


[O juiz bate o martelo. O pico do instrumental é alcançado. Madeleine encara a sentença com olhos vazios, enquanto o murmúrio na sala transforma-se em um zumbido consternado. Xavier observa a tudo, comemorando por dentro. Em um próximo take, é mostrado o ex-prefeito sendo levado por guardas, aos prantos, acompanhado por uma música melancólica.]


*[⏳] ● CENA 03 ● TRILHOS DE TREM ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[Dias depois, a câmera foca em uma paisagem de campos e matas. O silêncio prevalece. Trilhos de trem são mostrados. De repente, um apito estridente do trem corta o ar. Em um vagão, Madeleine está acorrentado a outros detentos, todos sentados. Eles são transportados para o presídio da capital. O céu carregado de nuvens escuras anuncia uma tempestade iminente.]


Madeleine (suspirando): Esse não pode ser o fim...


[O trem avança, sacolejando sobre os trilhos.]


Guarda (ríspido): SILÊNCIO! Ninguém fala, a não ser que seja ordenado!


[De repente, um estrondo ensurdecedor ecoa, fazendo o trem trepidar descontroladamente. O pânico se espalha rapidamente entre os detentos.]


Detento (gritando): O QUE ESTÁ ACONTECENDO?


[A tempestade tem início. Relâmpagos iluminam o caos que se desenrola. O trem começa a inclinar perigosamente, e um rugido de águas agitadas se aproxima.]


Madeleine (desesperado): MEU DEUS, O QUE É ISSO?


[O trem, agora à beira de um precipício, no pico de um instrumental de thriller, perde o controle e avança e mergulha em um rio rugente. O impacto é avassalador. Água invade os vagões e gritos ecoam. Madeleine, junto com os outros detentos, luta contra as correntes, enquanto a água enche o vagão rapidamente. Logo, todo o trem está submerso, e ninguém consegue sair dele. A imagem escurece, neste momento.]


*[⏳] ● CENA 04 ● PENSÃO ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[Na pensão, Xavier está sentado em uma cadeira, ouvindo o rádio, enquanto toma café. Um clima de tensão paira no ar.]


Radialista (voz grave e solene): E uma última notícia... O trem que transportava detentos de Monte Velho para a capital sofreu um terrível acidente. As primeiras informações indicam que nenhum dos passageiros conseguiu sobreviver. Uma tragédia inimaginável atingiu aqueles a bordo.


[Neste momento, os olhos de Xavier esbugalham, enquanto suas mãos tremem ao segurar a xícara. Um instrumental tenso e fúnebre invade a cena.]


Radialista (continuando): Entre os detentos, estava o criminoso Serafín Machado Nascimento, condenado a trinta anos de reclusão. As chances de sobrevivência são mínimas, considerando a gravidade do acidente e as águas turbulentas do rio.


Xavier (sussurrando): Sua sentença se cumpriu, maldito...


[A câmera foca no rosto de Xavier, que esboça um discreto sorriso. Em seguida, a imagem escurece e mais alguns dias se passam.]


*[⏳] ● CENA 05 ● TABERNA DOS TAVARES ● INTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[Na fachada da taberna, Eleonor brinca sozinha. Na parte interna, Adelaide, aparentemente doente, conversa com Carlota.]


Adelaide (tossindo): Mamãe... Por que o Galileu foi embora? Para onde ele foi?


Carlota (ríspida): Foi para o raio que o parta, minha filha! |Acaricia os cabelos da filha.| E foi melhor assim. Aquele moleque só me trazia desgosto. Espero que nunca mais apareça.


[No mesmo momento, Valentin, ofegante, entra rapidamente na taberna e vai até Carlota.]


Valentin: Carlota, Carlota!


Carlota (curiosa): Que diabos aconteceu, homem?


Valentin: A Fátima... Morreu!


[Ao ouvir isso, a expressão de Carlota congela. Atônita, ela se aproxima do marido.]


Carlota (incrédula): Não pode ser... 


Valentin: Mas é! Um cliente de Monte Velho acaba de informar. Fátima morreu de uma grave doença respiratória. 


Carlota: Meu Deus... O que será de nós sem o dinheiro que aquela maldita nos enviava, Valentin? AQUELE DINHEIRO JÁ SALVOU AS NOSSAS VIDAS VÁRIAS VEZES!


Valentin (decidido): De nós, eu não sei... Mas a negrinha dos infernos já tem o seu destino traçado. |Olha nos olhos da mulher.| Essa menina é um embuste, e eu não vou deixá-la convivendo com nossa família à custo de nada.


Carlota: E o que você pretende fazer? Matar a Coraline?


Valentin (sussurrando): Talvez...


*[⏳] ● CENA 06 ● FLORESTA ● EXTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[Coraline anda apressadamente pela mata, carregando um balde para encher na fonte. Apreensiva, ela o enche e dirige-se de volta para a taberna. Após alguns passos, a menina para, sem ar. Depois de alguns minutos, retoma o trajeto. De repente, acompanhado de um abrupto instrumental tenso, um homem se aproxima, pelas sombras, sem que a filha de Fátima perceba. Coraline para mais uma vez. Suor desce pelo seu rosto. Ao pegar o balde novamente, a enorme mão de um homem segura a alça. A garota, assustada, esbugalha os olhos e olha para o homem, que ainda não revelara o seu rosto.]


Homem (olhando para Coraline): Eu levo!


[Neste instante, a câmera sobe aos poucos e revela que o homem é, na verdade, Madeleine, que está pálido e com alguns ferimentos no rosto. Ainda segurando a alça do balde, ele encara Coraline. O pico do instrumental é alcançado.]


*A IMAGEM CONGELA EM MADELEINE.*