Sombras do Passado - Capítulo 08 (Especial)

 




*[⏳] ● CENA 01 ● SALA DE TRIBUNAL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*


[A sala inteira permanece em choque com a declaração de Madeleine. O prefeito segue ao centro, determinado a revelar toda a verdade.]


Juiz (direto): Caro Prefeito Madeleine, isto aqui não é um circo. RETIRE-SE DESTA SALA IMEDIATAMENTE!


Madeleine: NÃO! EU VIM AQUI PARA REVELAR A VERDADE. EU... EU SOU SERAFÍN MACHADO!


Juiz: CHEGA! O senhor não está em plenas faculdades mentais. RETIRE-SE JÁ!


Madeleine (ignorando): Eu posso provar!


[Neste momento, ele aponta para os dois presidiários que se fazem presentes na sala.]


Madeleine (encarando o primeiro): Lembra-se de mim, Julius? Na prisão, você era conhecido como Quebra Tormentas... Tinha uma cicatriz no braço esquerdo e um dente de ouro em sua boca. 


[Neste instante, toda a sala fica atônita. O juiz se cala, incrédulo. Xavier observa a tudo, sorrindo maliciosamente. A câmera foca no olhar surpreso do primeiro presidiário. Ele sorri, revelando que o dente de ouro é real.]


Julius: Ele está certo... Ele é o verdadeiro Serafín. Eu... Eu estou me lembrando!


[Os burburinhos na sala aumentam. O juiz, agora perdido em meio à declaração de Madeleine, não pede silencio, apenas observa a tudo, cada vez mais incrédulo.]


Madeleine (apontando para o segundo presidiário): E você, Ivan... Você tem uma data tatuada em seu peito. É a data da morte da sua esposa, a quem tanto amara. 


Ivan (sussurrando): Não é possível... É ele...


[Madeleine, após ter sua fala comprovada, vira-se para o juiz.]


Madeleine: Está é a prova, Excelência. Serafín Machado sou eu!


[Um instrumental tenso invade a cena, neste instante.]


Madeleine: E se isto não basta... |Abre a sua camisa, deixando o peito e a marca de nascença em formato de estrela à mostra.| Aqui tenho mais uma prova. É uma marca de nascença... Quem conviveu com Serafín Machado a conhece muito bem.


[A sala fica em silêncio. De repente, Xavier levanta-se.]


Xavier: É VERDADE, MERITÍSSIMO! Este homem é o verdadeiro Serafín Machado!


[O instrumental tenso se intensifica e alcança o seu ápice. Todos olham para Xavier.]


Xavier (apontando para Madeleine): Eu atuava em Vila Esperança na época do assassinato do garoto. Eu estava lá no momento do ocorrido. EU PRENDI ESTE DESGRAÇADO!


[Madeleine o encara, paralisado. Xavier continua a falar.]


Xavier: Eu convivi tempo o suficiente com este crápula para nunca esquecer seu rosto. Meses atrás, descobri que ele estava atuando como o prefeito de Monte Velho. Desacreditei, de início, mas precisava ver com os meus próprios olhos. Viajei até lá para investigá-lo. |Olha para o juiz.| Ele é o verdadeiro assassino!


Madeleine (olhando para todos): O inspetor está certo... Mas eu não matei o garoto. Foi um acidente!


Xavier: CALE-SE, CRETINO! 


Juiz (recompondo-se): Ordem... Ordem no tribunal!


[Xavier se cala. O juiz olha para Madeleine.]


Juiz (ordenando): Prossiga, senhor.


Madeleine: Em 1910, eu fui preso por supostamente assassinar um garoto de rua... Mas isto não é verdade. O garoto estava em perigo, tentando tirar uma pipa que estava presa em um monte de pedras. Subi até lá e o ajudei. |Neste momento, uma lágrima desce pelo seu rosto.| Mas o destino foi cruel... O menino escorregou e as pessoas que a tudo presenciaram me acusaram. |Encara o juiz.| Eu não sou um assassino!


[Todos permanecem em silêncio.]


Xavier (sussurrando): Maldito...


Madeleine (continuando): Eu fui preso e condenado. Passei oito anos na prisão, pagando por um crime que NÃO COMETI! Em 1918, farto de todo aquele sofrimento, eu fugi. Fugi disposto a recomeçar a minha vida.


Juiz: Então o senhor se declara o verdadeiro culpado?


Madeleine: Sim, senhor. Após a minha fuga, conheci um padre que me acolhera. Graças à ele, cheguei em Monte Velho com uma nova identidade. Pouco tempo depois, salvei a vida do prefeito da cidade. Ele, como forma de retribuição, me deu um cargo na prefeitura. Após alguns tempos, fui ascendendo até me tornar o que sou hoje. 


Xavier (interrompendo): Não restam mais dúvidas, Excelência. Podem prender este desgraçado. Façam-o pagar pelos seus crimes!


Madeleine (aumentando o tom): Sim, me prendam! Eu estou esperando. 


[O juiz, o advogado, o promotor, os jurados, Alonso e o público ficam em silêncio. Madeleine começa a caminhar para a porta, devagar. Ninguém o impede.]


Madeleine: Já que não me prenderam, vou embora. Os senhores sabem onde podem me encontrar e podem me mandar buscar quando quiserem. 


[Ele chega à porta. De repente, se vira novamente.]


Madeleine: Só não se esqueçam de todo o bem que venho praticando ao longo de todos esses anos.


[Todos permanecem em total silêncio. Madeleine sai. No lado externo, ele se dirige até o seu carro. Ao entrar no veículo, está suando frio e pálido.]


Madeleine (ofegante): Eles vão me prender... Eu preciso voltar para Monte Velho e falar com Fátima. 


[Ao falar isso, ele dá partida e sai. O veículo logo some no horizonte. Na parte interna, a sala de tribunal está um caos.]


Xavier (desesperado): ELE ESTÁ FUGINDO, SENHORES! NÃO PERMITAM QUE ESTE ASSASSINO SAIA IMPUNE! 


[O juiz e o promotor se encaram, neste momento.]


Juiz (olhando para Xavier): O senhor tem razão. VÃO ATRÁS DO VERDADEIRO SERAFÍN MACHADO E O PRENDAM!


[Um sorriso satisfeito toma conta do rosto de Xavier.]


Xavier: Eu terei prazer em acompanhá-los.


[Ele sai, na companhia de alguns policiais. Alonso, agora aliviado, também se retira. A câmera se afasta, enquanto um instrumental tenso se intensifica.]



*[⏳] ● CENA 02 ● HOSPITAL ● INTERNO ● TARDE ● [⏳]*


[A câmera mostra alguns corredores aleatórios do hospital em que Fátima está internada. Neste momento, é mostrado Madeleine entrando rapidamente no local. Ele dirige-se até o quarto da enferma. Uma enfermeira tenta impedí-lo.]


Enfermeira: Senhor prefeito, espere... O senhor não pode entrar aí. 


[Madeleine para e olha em seus olhos, implorando.]


Madeleine (ansioso): Por favor!


[A enfermeira, sem saída, não diz nada e apenas se afasta. Madeleine entra no quarto, cauteloso. Ele se aproxima, enquanto Fátima dorme. Ela está pálida e seu peito chia. Ao perceber a presença do prefeito, abre os olhos e sorri. O médico que cuida da mulher está ao seu lado.]


Fátima (solene): E Coraline? Onde está a minha filha? O senhor a trouxe, não trouxe?


Doutor (interrompendo): Está com febre, e a presença de sua filha vai agitá-la. É melhor sarar primeiro. 


Fátima (insistindo): Mas já estou curada!


[Neste momento, ela olha para Madeleine e aperta as suas mãos.]


Fátima (com dificuldade para falar): Foi muito gentil em ter ido buscar a minha filha. Ela é linda, não é?


Madeleine (tentando se explicar): Fátima...


Fátima (desorientada): Eu a estou ouvindo... Meu Deus! Eu escuto a voz de Coraline...


[Madeleine e o médico se entreolham. É apenas uma criança brincando ao longe. O prefeito levanta-se e se dirige até o segundo citado.]


Madeleine: Poderia deixar-me um pouco sozinho com ela?


Doutor: Claro... Mas cuidado! Ela não pode se esforçar. 


[Madeleine concorda. O médico se retira.]


Fátima (insistente): E então, prefeito... Cadê Coraline?


[Madeleine senta-se na cama, ao lado da mulher doente.]


Madeleine (com ternura): Fátima... Você ainda não me passou o endereço. Lembra?


[A expressão da mulher muda. Ela se entristece ao lembrar-se que realmente não lhe passou a localização de sua filha.]


Madeleine: Mas tenha calma... Eu trouxe papel e caneta. Irei buscar Coraline ainda hoje.


[Ele lhe entrega o papel para que ela possa anotar o endereço. Feliz novamente, Fátima escreve ansiosamente.]


Fátima (entregando o papel): Aqui está... Mal posso esperar para ver a minha filha novamente. 


Madeleine (levantando-se, apressado): Ótimo... Agora eu preciso ir. Aguente firme, Fátima! Ainda hoje você verá a sua pequena. 


[Fátima sorri para ele. De repente, ela avista algo atrás do prefeito. Sua expressão muda subitamente e seus olhos se esbugalham. Ela faz um sinal para Madeleine, que se vira e se desespera ao ver Xavier, parado na porta da sala.]


Xavier (sorrindo): Vim buscá-lo, Serafín Machado. Os policiais cercaram o hospital, é melhor não vir com gracinhas. 


[Um soundtrack de tensão invade a cena, enquanto Fátima fica completamente perdida.]


Fátima (pálida): O que está acontecendo, Madeleine? Quem é este homem? 


Madeleine (sussurrando): Calma, Xavier... Por favor!


Xavier (sarcástico, se aproximando): Calma!? Você me pede calma? 


Madeleine (preocupado com Fátima): Pelo amor de Deus... Me dê um dia para buscar a filha desta mulher. Se quiser, podem me acompanhar.


[Tomado por uma fúria acumulada por anos, Xavier lhe dá um forte soco, fazendo-o cair.]


Xavier: Está caçoando de mim? UM DIA PARA BUSCAR A FILHA DE UMA PROSTITUTA?


[Madeleine se levanta, com dificuldade. Fátima começa a tremer.]


Fátima (sussurrando): Senhor prefeito... O que está acontecendo? O que este homem quer?


[Xavier, neste instante, agarra a gola de Madeleine.]


Xavier: AQUI NÃO HÁ NENHUM SENHOR PREFEITO! ESTE HOMEM É UM ASSASSINO, CHAMADO SERAFÍN MACHADO! ELE MATOU UMA CRIANÇA INOCENTE HÁ DEZOITO ANOS!


Madeleine (desesperado): Por favor... PARE!


[Fátima, sem conseguir processar a informação, começa a ficar sem ar.]


Fátima: Não é possível... Ele é um homem bom... Ele vai buscar a minha filha... 


Xavier: ELE É UM MONSTRO! ELE ASSASSINOU UMA CRIANÇA... UMA CRIANÇA! ELE FUGIU DA PRISÃO HÁ DEZ ANOS E ENGANOU A TODOS DE LÁ PARA CÁ, INCLUSIVE VOCÊ! MADELEINE NUNCA IRÁ BUSCAR SUA FILHA! NUNCA! 


Madeleine (completamente desesperado): PARE! ELA ESTÁ DOENTE!


[Neste momento, Fátima, completamente sem forças, apoia-se em seus fracos braços e começa a chorar, desesperada.]


Fátima (falando com dificuldade): Maldito... Você me enganou... |Começa a gaguejar.| Cora... Coraline...


Xavier: É ISTO QUE ELE FAZ DE MELHOR! ELE ENGANA AS PESSOAS! MAS, AGORA, ISSO ACABARÁ PARA SEMPRE! ESSE DESGRAÇADO VEM COMIGO!


Fátima (perdendo os sentidos): Não, não... |Solta um berro estridente e perturbador.| NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO!


[Enquanto Madeleine tenta soltar-se, desesperado, Fátima perde todas as suas forças. Ela abre a boca como se fosse falar, mas apenas um horrível rugido de dor ecoa pelo ar. Madeleine e Xavier, ao perceberem, olham para a mulher. A cena fica completamente silenciosa. Fátima, morrendo, range os dentes e estende as mãos como alguém que está se afogando, e busca onde se agarrar. Depois disso, cai sem forças no travesseiro. Sua cabeça bate na cabeceira da cama. Ela curva-se sobre o peito e seus olhos perdem o brilho. Fátima está morta.]


_🎶 • Dona de Castelo • Adriana Calcanhotto_


[A câmera foca no rosto sem vida de Fátima. Madeleine, aos prantos, consegue livrar-se dos braços de Xavier e corre até ela.]


Madeleine (berrando): NÃÃÃÃOOOOOOO! FÁTIMAAAAAAA!


[Ele cai sobre seu corpo, chorando desesperadamente. O médico e as enfermeiras entram correndo no local. A música se intensifica e nada além dela é ouvido. Xavier agarra Madeleine novamente e o arrasta para fora dali. A câmera se afasta, deixando o fúnebre cenário para trás. A noite cai.]


*[⏳] ● CENA 03 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[A câmera mostra Coraline, deitada no chão, dormindo. Neste momento, o público é transportado para um campo florido. A menina está sonhando. Ela caminha de um lado para outro, até que avista uma mulher ao longe, de costas para ela.]


Coraline (curiosa): Quem é você?


[A mulher se vira, revelando ser Fátima.]


Fátima (chorando, falando baixo): Coraline, minha pequena... Eu sinto muito por tudo que você passou. Peço apenas o seu perdão.


Coraline (sorrindo, emocionada): Mamãe?


Fátima: Sim, meu amor. Eu preciso me despedir, mas quero que saiba que sempre estarei com você, guiando todos os seus passos.


[Neste exato momento, a imagem de Fátima começa a desaparecer.]


Coraline (desesperada): NÃO! NÃO VÁ, MAMÃE! NÃO ME ABANDONE DE NOVO!


[De repente, a menina acorda abruptamente. A casa está silenciosa. Ela deita-se novamente e começa a chorar, enquanto a câmera se afasta.]


*[⏳] ● CENA 04 ● RUAS DE MONTE VELHO/FÁBRICA ● EXTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[A noite cobre Monte Velho, em um cenário fúnebre. Um clima sombrio acompanha a cena, enquanto a câmera passeia sobre várias ruas. De repente, um corte abrupto revela vários cidadãos furiosos caminhando rumo à fábrica de chocolates. As chamas de tochas de fogo que os mesmos carregam iluminam os seus rostos furiosos. A notícia da confissão de Madeleine espalhara-se rapidamente.]


Homem 1 (gritando): ELE NOS ENGANOU POR ANOS!


Homem 2 (irado): QUEIMEM TUDO! PONHAM ESSA MALDITA FÁBRICA NA CHON!


[A multidão enfurecida marcha em direção à fábrica. Suas portas são arrombadas, vidraças quebradas e o interior do local é saqueado. Caixas de chocolates são pisoteadas. A destruição é total.]


Mulher (esmagando chocolates, aparentemente desorientada): EU SOU A PISADEIRA! O MEU DESTINO É PISAR!


[Enquanto os habitantes devastam a fábrica, alguns começam a atear fogo aos estoques de cacau, transformando o lugar outrora doce em um inferno em chamas. A fumaça escura sobe aos céus, enquanto a imagem escurece lentamente.]


*[⏳] ● CENA 05 ● PRISÃO ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*


[A câmera mostra, em câmera lenta, Madeleine sendo levado por um guarda para a sua cela temporária. Ele está em um estado devastador. Um instrumental melancólico acompanha a cena.]


Guarda (empurrando Madeleine): Bem-vindo à sua nova morada, Machado. 


[Ele sorri e se retira. Madeleine, chorando, levanta-se e retira um papel do bolso de sua camisa. É o endereço que Fátima lhe entregara antes de morrer. Ele o encara, por alguns minutos.]


Madeleine (decidido): Eu vou cumprir a minha promessa, Fátima...


[Ele ergue a cabeça, e olha diretamente para a câmera.]


Madeleine: Eu juro!


*A IMAGEM CONGELA EM MADELEINE.*