Sombras do Passado - Capítulo 06
[Fátima, cheia de esperança, encara Madeleine. Um instrumental emotivo permeia a cena.]
Fátima (ainda mais ansiosa): Responda, prefeito! O senhor faria isso por mim?
[Neste momento, Madeleine segura as suas trêmulas mãos e olha em seus olhos.]
Madeleine (sincero): Não só posso... Como vou!
[Tomara de uma alegria indescritível, Fátima beija as mãos do prefeito, com lágrimas descendo pelo seu pálido rosto.]
Fátima: Muito obrigada, prefeito. O senhor é um homem de coração gigante.
Madeleine: Eu apenas prometi à mim mesmo que iria me dedicar totalmente à ajudar os necessitados, Fátima. E você é uma mulher necessitada. Eu vou trazer sua filha de volta para os seus braços.
[Fátima não consegue dizer nada. A emoção lhe domina.]
Madeleine (continuando): Eu só preciso do endereço do local onde sua filha se encontra, para localizá-la.
Fátima: Claro... Traga caneta e papel, eu lhe passo todas as informações.
[Antes que possa terminar de falar, a mulher volta a tossir violentamente. Como está fraca, ela deixa seu corpo cair sobre a cama.]
Madeleine (preocupado): Tenha calma, Fátima. Você está muito fraca e não pode se esforçar. |Levanta-se da cama.| Na minha próxima visita, em breve, você me passa todas as informações necessárias... Agora, eu preciso que você descanse.
Fátima (forçando um sorriso): Muito obrigada, senhor Madeleine...
[Madeleine acena e sai. A câmera foca no rosto de Fátima. A mulher está muito debilitada, mas com uma expressão de esperança no olhar. A câmera se afasta.]
*[⏳] ● CENA 02 ● PENSÃO ● INTERNO ● MANHÃ● [⏳]*
_🎶 • Tenha Pena De Mim • Elza Soares • 🎶_
[A câmera passeia por algumas ruas e praças de Monte Velho, que desperta mais uma vez. Automóveis e charretes andam de um lado para o outro, enquanto pessoas iniciam suas atividades diárias. O som da música perde forças, enquanto o foco passa para o exterior da pensão em que Xavier está hospedado. Na sala de café, o inspetor segura uma xícara de chá, mergulhado em seus pensamentos. De repente, Amélia, a dona do estabelecimento, se aproxima rapidamente.]
Amélia: Inspetor Xavier, há uma ligação para o senhor.
[Xavier se levanta, seguindo Amélia até o telefone na recepção. Ele atende, curioso.]
Voz no telefone: Inspetor, temos notícias cruciais. O julgamento do suposto Serafín Machado, que fora capturado, será amanhã pela manhã, na cidade de Arcanjo, próxima à Vila Esperança. O senhor não precisa mais se preocupar. A justiça já está sendo feita.]
[A câmera foca no rosto de Xavier, que aperta o receptor, incrédulo e preocupado.]
Xavier (atônito): Como? Amanhã? Mas isto é um absurdo. Eu tenho certeza de que pegaram o homem errado. Eu sei quem é o verdadeiro Serafín Machado. EU SEI! Estou há dias o investigando. Não me restam dúvidas!
[A voz do outro lado da linha permanece em silêncio até que uma risada sarcástica o quebra.]
Voz no telefone: Se tem tanta certeza, inspetor, prove isso no tribunal. Boa sorte!
[Xavier desliga, furioso, e murmura consigo mesmo.]
Xavier (determinado): Não posso deixar que um inocente pague pelos seus crimes, seu maldito! Você não só é um assassino, como também destruiu parte de minha vida há dez anos. Eu só recuperarei a minha honra quando te jogar de volta em uma cela fria e imunda.
[Xavier, em passos ligeiros, se dirige para a porta da pensão.]
Xavier: Se prepare, Madeleine... É hoje que você confessa tudo o que fez. O julgamento de fato ocorrerá amanhã, mas o réu será você.
[Xavier deixa o estabelecimento, determinado. Um instrumental de tensão invade a cena e a câmera se afasta.]
*[⏳] ● CENA 03 ● HOSPITAL ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Em seu quarto, Fátima, ainda mais debilitada e pálida, está se debatendo, enquanto um médico a observa com preocupação. Ela está delirando.]
Fátima (ofegante): Coraline... Coraline, minha pequena, onde você está?
Doutor (com compaixão): Senhora Fátima, estou aqui para ajudá-la. Sua filha não está presente, mas eu estou ao seu lado.
Fátima (delirante): Não, ela está aqui. Vejo seus olhos brilhando. Coraline, meu amor, por que se esconde?
[O doutor se aproxima, segurando a mão de Fátima com gentileza.]
Doutor: Senhora Fátima, a febre está obscurecendo sua visão. Coraline não está aqui, mas estou comprometido em guiá-la de volta à saúde.
[Fátima esboça um fraco sorriso, perdendo-se entre a realidade e a fantasia.]
Fátima (sussurrando): Doutor... Prometa-me que não deixará que mal algum aconteça à minha filhinha...
Doutor (com ternura): Prometo, senhora Fátima. Agora, descanse e permita que a medicina alivie sua aflição.
[Fátima nada diz. Seu estado é pior a cada dia que se passa.]
*[⏳] ● CENA 04 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera foca na fachada da casa de Madeleine, ao som do cantar dos pássaros. O prefeito e empresário está na sala de estar, sentado em uma poltrona, tomando uma xícara de café. De repente, a campainha toca.]
Madeleine: ROSA, A CAMPAINHA!
[Como a empregada demora a aparecer, ele mesmo dirige-se até a porta e a abre. Para o seu espanto, é Xavier novamente, que o aguarda com um sorriso cínico. Madeleine cai para trás. Como sempre, fora pego desprevenido.]
Madeleine (com uma mistura de espanto e irritação): Inspetor, o senhor de novo!?
[Xavier, atrevido, adentra à residência, antes que possa ser convidado.]
Xavier: Perdoe-me, mais uma vez, prefeito. Estava passando por aqui, ainda com um enorme peso na consciência, e decidi entrar.
Madeleine (impaciente): Veio pedir desculpas mais uma vez, suponho.
Xavier (sorrindo): Também, Madeleine, também... Mas também preciso lhe falar algo.
Madeleine: Pois diga. Sou todo ouvidos.
Xavier: Indo direto ao ponto, quero lhe noticiar que o maldito Serafín Machado foi preso, como o senhor já tem conhecimento, e finalmente será julgado e condenado por todas as atrocidades que cometera.
[Neste momento, Madeleine esbugalha os olhos e se empalidece. Um instrumental de tensão, com ares de ação, invade a cena, enquanto o prefeito tenta processar a terrível informação.]
Xavier: O julgamento será amanhã, pela manhã, em Arcanjo, cidade próxima à Vila Esperança, onde o desgraçado matou a criança.
[Madeleine, com o coração acelerado e engabelando-se com as palavras, começa a falar. Xavier percebe o seu forte incômodo.]
Madeleine (sem ar): E... Esse homem é mesmo o culpado por tal ato? Não foi cometido um engano?
Xavier (dissimulado): Bom... O homem diz ser inocente. Foi pego invadindo uma padaria em Arcanjo, alegando ser para alimentar sua família miserável. Foi encarcerado e a população diz ter certeza que ele e Serafín são a mesma pessoa, além da forte semelhança e histórico criminal. O que me deixa triste, se sua inocência for verídica, é que ele passará anos no presídio, sofrendo e pagando por um crime que não cometeu. E ainda tem a família... Coitados, podem até morrer de fome.
[Madeleine permanece sem ar. Uma forte agonia lhe invade por completo. O prefeito está tendo uma crise de ansiedade, como se chama atualmente. Xavier percebe o estado do ex-presidiário e, tentando esconder a satisfação, demostra preocupação.]
Xavier: Prefeito, está tudo bem? O senhor precisa de ajuda?
Madeleine (atordoado): Eu... Eu estou bem. Vá embora, inspetor. E é melhor não voltar a me importunar.
Xavier (sorrindo maliciosamente, discretamente): Oh, claro. Perdoe-me, e licença.
[Xavier sai. No lado externo, esbanja um sorriso de orelha a orelha.]
Xavier (satisfeito): Ah, Serafín... Esse julgamento será um estouro!
[Ele se afasta. De volta ao interior, Madeleine está em desespero, em um estado crítico. Ele cai ao chão, sem ar, e tenta pedir ajuda, com dificuldade.]
Madeleine (ofegante, suando): Rosa... Me ajude... ROSAAAAAAAA!
[A doméstica chega rapidamente, e se desespera ao ver o estado do patrão. A câmera se afasta lentamente, enquanto o caos fica instaurado.]
*[⏳] ● CENA 05 ● CELA DE PRISÃO ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[A câmera focaliza em uma cela escura e suja. É lá onde o falso Serafín Machado está detido, aguardando o julgamento. Seu nome é Alonso, que está com olhos tristes, segurando as grades da cela enquanto guardas se aproximam.]
Alonso: (desesperado): POR FAVOR, ME TIREM DAQUI! Vocês estão enganados! Meu nome é Alonso, eu sou inocente!
[Um dos guardas lhe dá um repentino soco.]
Guarda: Cale a boca, seu desgraçado!
Alonso (chorando): Por favor, acreditem em mim. Tenho uma família para sustentar...
[Os guardas riem, ignorando os seus apelos. A imagem escurece.]
*[⏳] ● CENA 06 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[A câmera foca na fachada da casa de Madeleine. O prefeito está na biblioteca, encarando os dois castiçais de ouro. Um silêncio ensurdecedor prevalece naquele ambiente, que está pouco iluminado. Ele lembra de todas as palavras proferidas por Xavier, horas antes. Uma expressão de angústia domina o seu rosto.]
Madeleine (encarando os dois objetos): Adotarei a única atitude possível para um homem de bem. Vou salvar o inocente e me entregar.
[Neste momento, um discreto instrumental de suspense se sobrepõe à cena. Madeleine está confuso e desesperado.]
Madeleine (sussurrando): E Fátima? O que será dela? Eu lhe fiz uma promessa... Ainda tem a minha fábrica... O meu povo!
[Com uma enorme agonia, ele joga-se ao chão e começa a puxar seus cabelos, desorientado. De repente, ele encara friamente os castiçais. O instrumental se intensifica, enquanto o prefeito não fala nada. Neste instante, o silêncio é quebrado.]
Madeleine (decidido): Eu não posso... O homem vai para a prisão e eu fico livre... Ele é um ladrão, não acrescentará em nada um crime cometido por outro. Eu continuo aqui, ajudando à todos. Sou mais útil do que ele.
[Decidido, ele dirige-se até um armário e o abre.]
Madeleine: Não restará nenhum laço com aquela maldita vida miserável...
[Disposto a se livrar de tudo que pertencera ao seu passado, Madeleine pega uma enorme bacia enferrujada e começa a jogar alguns objetos dentro dela. Um velho casaco de couro, um saco de viagem e uma moeda de prata estão entre os pertences. Em seguida, ele ateia fogo. Rapidamente, tudo começa a ser consumido, enquanto as chamas clareiam o local. De repente, o ex-presidiário olha para os dois castiçais, que o clarão do fogo iluminava. Ele vai até lá e pega os dois, para queimá-los também. Neste exato segundo, um forte vento abre as janelas da biblioteca e Madeleine tem a impressão de ouvir uma voz gritando ao seu lado.]
Voz: SERAFÍN MACHADO!
[A câmera foca no rosto horrorizado de Madeleine. Ele para o que está fazendo, tremendo completamente. A voz volta a se manifestar.]
Voz: Sim, destrua tudo. Esqueça o padre e deixe o homem ser condenado. Continue a ser prefeito, enriqueça a cidade, alimente os pobres e viva feliz. Mas, enquanto estiver sendo admirado pela sua virtude, haverá alguém sendo chamado pelo seu nome, na prisão, com a corrente que VOCÊ deveria carregar nos pés.
[Madeleine deixa os castiçais cair, pálido. O instrumental começa novamente e atinge o seu ápice. O prefeito anda de um lado para o outro, incansável. A noite corre. Às duas da manhã, ele cai sentado em uma poltrona e adormece, exausto. O tempo passa rapidamente. Após algumas horas, ele desperta e olha para os dois objetos que deixara cair no chão.]
Madeleine (sussurrando): A minha decisão está tomada!
[A câmera foca foca no olhar decidido de Madeleine.]
*A IMAGEM CONGELA EM MADELEINE.*
