Sombras do Passado - Capítulo 04
[Xavier continua incrédulo com a ligação que acabara de receber. Um instrumental tenso acompanha a cena.]
Xavier (aflito): O senhor tem certeza de que o homem é mesmo Serafín Machado?
[Ele escuta atentamente o que a voz do outro lado da linha fala, até que a ligação é encerrada.]
Xavier (sussurrando): Eu me nego a acreditar... Tenho certeza absoluta que cometeram um grande engano. O verdadeiro Serafín é esse maldito prefeito e eu vou provar isto!
[Xavier volta para o seu quarto, enquanto Amélia sai de seu esconderijo e volta às suas atividades rotineiras na pensão. A câmera foca na parte externa do estabelecimento e, logo em seguida, passeia por algumas ruas de Monte Velho.]
*[⏳] ● CENA 02 ● BORDEL ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
_🎶 • Não Me Diga Adeus • Tulipa Ruiz_
[A câmera foca na frente de um suntuoso estabelecimento. É um bordel. Adentrando-se, várias prostitutas são vistas no local, fazendo suas atividades de rotina, enquanto o horário de serviço não chega. Madame Clotilde, dona da instalação, envolta em seda e renda, caminha com elegância pelos corredores do seu afamado prostíbulo. Neste momento, uma de suas mulheres, a exuberante Josephine, aproxima-se, com olhar inquisitivo.]
Josephine: Madame, tem uma mulher na entrada. Parece desesperada por um emprego.
[Madame Clotilde ergue uma sobrancelha, desinteressada.]
Clotilde: Leve-me até lá.
[As duas descem as escadas ornamentadas até a entrada, onde uma figura as aguarda, tossindo e com semblante sofrido. Um instrumental emblemático toca, enquanto é revelado que a mulher se trata de Fátima.]
Fátima (com voz trêmula): Senhora, eu...
Clotilde (interrompendo, com desdém): Ah, você busca um emprego. Suponho que não esteja aqui para uma visita social.
[Fátima, envergonhada, acena com a cabeça.]
Fátima: Sim, senhora. Eu preciso muito de um trabalho.
[Clotilde a olha de cima a baixo, com desprezo. Fátima continua tossindo.]
Clotilde: E o que é isto? Tossindo como um moribundo em meu saguão. Isto aqui é um bordel, não uma casa de caridade.
Fátima (abaixando a cabeça): Eu... Eu só preciso do emprego. Por favor, senhora...
Clotilde (interrompendo-a): Madame!
Fátima: Por favor, Madame...
Clotilde (com um sorriso sarcástico): Muito bem, então. Vamos ver o que posso fazer com você.
[Conduzindo Fátima pelos corredores suntuosos, Clotilde avalia cada detalhe da mulher diante dela. No aposento privado, Clotilde vira-se para encará-la, com seus olhos frios examinando cada falha.]
Clotilde: É... Seu caso é delicado!
[Fátima, cada vez mais envergonhada, nada diz.]
Clotilde: Vista-se adequadamente. Sua noite de trabalho começa agora.
Fátima (engolindo em seco): Estou contratada?
Clotilde (dura): Obviamente. |Gritando.| JOSEPHINE, VENHA CÁ!
Josephine (entrando): Pois não, Madame.
Clotilde: Busque trajes adequados para esta coitada.
Josephine: Sim, senhora.
[Josephine se retira. Clotilde vai atrás.]
Clotilde (bufando): Oh, as desesperadas! Sempre tão previsíveis...
[Fátima fica sozinha na sala, aparentemente perturbada. A mesma começa a chorar.]
Fátima (soluçando): Farei tudo pelo seu bem, minha filha querida. Mesmo que isso signifique vender minha alma.
[A câmera mostra o seu triste estado. Mais tarde, já vestida, é mostrado que a mesma está dançando com um homem que beira a terceira idade, enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto. A música de Tulipa Ruiz se intensifica.]
Homem (parando): Agora venha comigo!
Fátima (hesitante): Para onde, senhor?
Homem: Não seja curiosa, donzela... Em breve você irá descobrir.
[Fátima, com medo e tristeza, nada diz, apenas acompanha o homem até um quarto. Ele começa a beijar sua boca e passar as mãos sobre suas nádegas. Fátima chora intensamente, mas de maneira silenciosa. Ela ainda tosse. Um instrumental melancólico acompanha a cena.]
Homem (interrompendo os beijos): Agora deite e abra as pernas... Eu vou lhe usar.
[Fatima não diz nada, apenas o obedece. Vários takes com os dois despidos (implicitamente, aos olhos do público) são mostrados. A angústia domina Fátima, enquanto a imagem escurece.]
*[⏳] ● CENA 03 ● CASA DOS TAVARES ● INTERNO ● NOITE ● [⏳]*
[A câmera foca na frontaria da Taberna dos Tavares, obviamente fechada, por ser noite. Em seguida, o foco passa para a casa da família. Adentrando-se, é revelado que todos dormem, e o local está quase completamente silencioso. Neste momento, é possível ver Coraline, com uma expressão triste e desamparada, caminhando lentamente até a sala.]
_🎶 • Vou Te Encontrar • Paulo Miklos_
[A menina olha ao redor, procurando onde dormir nesta noite. Ela vê um pequeno tapete no chão, o único lugar que lhe resta. Com um suspiro, ela se deita ali, sentindo frio. Enquanto tenta encontrar uma posição confortável, lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto.]
Coraline (chorando): Por que você me abandonou, mamãe?
[Ela fecha os olhos. A imagem escurece, e logo é dia novamente.]
*[⏳] ● CENA 04 ● CASA DE MADELEINE ● INTERNO ● MANHÃ ● [⏳]*
[Após um rápido foco nas ruas movimentadas de Monte Velho, a câmera foca na frente da casa de Madeleine. Lá dentro, o protagonista está em sua biblioteca, como de costume, tomando uma xícara de café. De repente, Rosa, a empregada, vai até o patrão, parecendo apressada.]
Rosa (ofegante): Senhor Madeleine, aquele homem está aí novamente.
Madeleine (confuso): Que homem?
[Antes que ela possa responder, Xavier entra sorrateiramente no cômodo.]
Xavier (sério): Eu, senhor Madeleine!
Madeleine (pálido): O... O senhor de novo!
Rosa (aflita): Mas eu pedi para o senhor esperar na sala.
Xavier (encarando Madeleine): Eu preciso dar uma palavrinha com o senhor. Serei breve!
[Madeleine hesita por um momento, mas logo consente.]
Madeleine (preocupado): Está bem. Nos dê licença, Rosa.
Rosa: Certo, senhor.
[A mulher se retira, deixando os dois homens cara a cara. Um instrumental de tensão acompanha a cena.]
Madeleine (tentando camuflar o pânico): E então, inspetor, o que desejas? Não me diga que veio me caluniar mais uma vez...
[Xavier nada responde, apenas continua o encarando. Para a surpresa de Madeleine, o inspetor se ajoelha aos seus pés, simulando choro.]
Madeleine (confuso): Mas... O que está acontecendo com o senhor? Estou cada vez mais convicto de que você é um louco.
Xavier (levantando-se, olhando nos olhos do prefeito): Me perdoe, Madeleine... Me perdoe. Eu... Eu fui precipitado e crucifiquei o senhor sem provas sólidas.
Madeleine (ainda mais confuso): Isto nós dois concordamamos, agora, se não tem mais nada para falar, pode se retirar.
Xavier (ignorando suas palavras): Eu agi como um tolo... Mas não se preocupe, não irei voltar a importuná-lo. Acusei o senhor de ser um assassino, mas, agora, sei que não é... |Olha nos olhos de Madeleine.| O verdadeiro Serafín Machado foi capturado!
[Ao ouvir isso, Madeleine cambaleia, e seus olhos esbugalham-se. O instrumental chega ao seu ápice.]
Madeleine (gago): Capturado? Então... Pegaram o assassino?
Xavier: Sim, senhor. Ontem à noite recebi um telefonema. O homem foi pego roubando pães em uma padaria, em uma cidade vizinha à Vila Esperança. Os cidadãos locais logo o reconheceram, e o mesmo fora capturado. Agora, finalmente, a justiça será feita!
[Madeleine, completamente desnorteado, tenta processar a informação. Xavier se satisfaz, percebendo o incômodo do prefeito.]
Xavier: Bom... Era só isso que tinha para falar-lhe, prefeito. Até mais ver! E, mais uma vez, desculpe-me pelas graves acusações.
[O homem vira as costas e esboça um sorriso malicioso, deixando Madeleine para trás, que nada diz. Ao atingir uma certa distância, ele começa a sussurrar.]
Xavier: Eu vou te pegar, maldito assassino de crianças...
[Ele finalmente se retira. Madeleine, sozinho em sua biblioteca, começa a ficar sem ar.]
Madeleine (desesperado): Não é possível... Não é possível, meu Deus!
[A câmera foca em seu semblante de desespero, e se afasta, logo em seguida. O instrumental tenso se dissipa.]
*[⏳] ● CENA 05 ● TABERNA DOS TAVARES ● INTERNO ● TARDE ● [⏳]*
[Na taberna, Valentin e Carlota estão em seu quarto, com várias notas de dinheiro, aos risos.]
Carlota (gargalhando): Ai... A idiota da Fátima ainda vai nos tirar da miséria.
Valentin: Este dinheiro dá para a reforma e ainda sobra para alguns luxos. Sacada de mestre inventar que a pretinha está moribunda.
[Os dois se entreolham, sorrindo satisfeitos. Eles se deitam por cima das notas, enquanto um instrumental aleatório começa a tocar. A tarde corre e logo a noite cai.]
*[⏳] ● CENA 06 ● RUA DESERTA ● EXTERNO ● NOITE ● [⏳]*
_🎶 • Lua Branca • Maria Bethânia_
[A câmera passeia por algumas ruas de Monte Velho. A movimentação é escassa. Apenas alguns automóveis passam por ali. Uma figura solitária perambula por um beco lamacento. É Fátima, que se dirige para a casa de Margot. Ela veste roupas curtas, que não são suficientes para protegê-la do pequeno sereno que começa a cair. O frio intensifica a sua tosse. Neste momento, um grupo de homens que passam por ali percebem a sua vulnerabilidade. Entre risadas maliciosas, eles começam a segui-la, e seus risos cruéis se transformam em gargalhadas. Fátima, movida por uma mistura de raiva e desespero, tenta ignorar a provocação, mas o cerco se aperta.]
Homem 1 (se aproximando, rindo): Olha só o que temos aqui... Uma dama da noite sofrendo no frio.
Homem 2 (zombando): Essa tosse de cachorro deve ser contagiosa, não acham?
[Fátima para, encarando-os, com olhos flamejantes.]
Fátima (assustada): CALEM A BOCA, SEUS VERMES! IMUNDOS!
[A resposta desafiadora de Fátima provoca risadas ainda mais altas.]
Homem 3 (com raiva): A única imunda aqui é você... Prostituta desgraçada!
[Incapaz de suportar a humilhação, ela começa a chorar. Os três homens se aproximam.]
Homem 1 (malicioso): Já que você é uma prostituta... Vamos ver se aguenta nós três.
[Os três se entreolham, sorrindo, e se aproximam mais ainda de Fátima. Neste momento, tomada de fúria, ela se lança contra eles com todas as suas forças, lhes acertando tapas e socos.]
Fátima (urrando): DESGRAÇADOS!
[Por um breve momento, a fúria parece ser suficiente para afastá-los, mas um rápido e brutal chute a faz cair rapidamente.]
Homem 2 (furioso): Agora você vai aprender uma lição, marafona infeliz!
[Fátima, caída no chão, tenta se levantar, mas logo é atingida por dezenas de chutes vindos dos três homens, que riem descontroladamente, de maneira sádica e brutal.]
Fátima (soluçando, sem forças): Parem...
[Com um esforço agonizante, ela consegue se levantar e, com lágrimas nos olhos, busca algo para se defender. Ela pega pedras do chão e as lança na direção dos agressores. Uma pedra encontra o alvo, atingindo um dos homens, cortando a sua testa e fazendo-o sangrar e gritar de dor.]
Homem 3: MISERÁVEL!
[Neste instante, o delegado local, que passava por ali, chega ao beco, iluminado apenas pelo brilho fraco dos lampiões de rua.]
Delegado (severo): O que está acontecendo aqui?
[Os três homens apontam para Fátima.]
Homem 1: Essa prostituta nos atacou, senhor. Ela é uma criminosa!
Fátima (desesperada, com dor): NÃO! Senhor... Eles estavam me importunando... ELES ME ATACARAM, ME ESPANCARAM! Eu só estava me defendendo!
Delegado: Você acha mesmo que eu devo confiar em uma prostituta arruaceira?
Homens 1 e 3: É verdade, delegado, ela é um perigo para a sociedade.
Fátima (desesperada): NÃO, DESGRAÇADOS!
Delegado: CHEGA! Pare de falar, prostituta, você está presa.
[Ao ouvir isso, Fátima fica pálida. A câmera foca em seu olhar atordoado e sofrido, e em seus olhos esbugalhados.]
*A IMAGEM CONGELA EM FÁTIMA.*
