Alma Penada - capítulo 03 (20/12/2023)

 


Ana e Gabriel continuam desamparados, olhando fixamente para Sérgio em prantos.


SÉRGIO (NERVOSO): ME PERDOE! POR FAVOR! NÃO ERA A MINHA INTENÇÃO!


PILOTO 2: MAS O CAMINHÃO CHEGOU A BATER? EU SÓ VI A MOÇA AÍ CAINDO.


PILOTO 1: QUIETA, MINHA CAPITÃ!


As pessoas o olham, intrigadas.


PILOTO 1 (ENVERGONHADO): Quer dizer, você tem razão. 


GABRIEL (PREOCUPADO): OMG! Serasse você poderia um porco nos levar para come here?


SÉRGIO (INTRIGADO): Uai?


GABRIEL: Very good! You speak my language!


PILOTO 2: Não, tonto! Ele é mineiro.


Gabriel torra a mente pra entender.


GABRIEL (NERVOSO): My só quero que você socorra my mother. Se ela não tiver se acidentado, de certo que passou mal pelo susto de ser atropelada quando está bem próxima de encont...


SÉRGIO (NERVOSO): Olha, sinhô, eu vô ver aqui o que eu posso te fazer. Eu tô em horário de serviço.


Sérgio engole seco de medo depois de encarar a multidão a sua frente com semblante acusador. Sérgio corre até a lateral do caminhão e se põe em frente a uma maleta embutida nas descargas do caminhão para buscar medicamentos de primeiros socorros. Neste exato momento, Ana abre novamente seus olhos bem arregalados.


ANA (PENSAMENTO): Essa é minha chance.


GABRIEL (GRITANDO): ANA!! MEU AMOTHER! VOCÊ ACORDOU!!


Mas antes que ele percebe, ela já estava correndo desesperadamente em direção à cabine do caminhão. Ela emburaca depressa segurando devoradamente no volante e sentando no banco. Em seguida, acerta a buzina duas vezes.


ANA (GRITANDO): VAMOS! COME HERE! ENTRA LOGO!


Gabriel mal entende e dispara. Todos na cena ficão chocados com o que se sucede.


ANA (GRITANDO E APERTANDO A BUZINA): ANDEM!!! COME FORA! SAIIAAM! SAIIAMM DA FRENTE! 


Ninguém entende.


PILOTO 2: O que ela pensa que tá fazendo?


PILOTO 1: Não faço ideia, amorzinho.


ANA (BUZINANDO/GRITANDO): SAIAM! SAIAM DA FRENTE! EU PRECISO PASSAR! A MINHA FILHA ESTÁ EM PERIGO!!


Ana pisa no pedal de acelerador e o caminhão sai andando. Sérgio é puxado por alguns metros pois ainda mexe na maleta dos primeiros socorros, mas logo é ejetado para fora, caindo na estrada.


GABRIEL (GRITANDO): VOCÊ FICOU DOIDA?


ANA (GRITANDO): DOIDA EU TAVA DURANTE ESSES ÚLTIMOS 25 ANOS.


A multidão de passageiros sai depressa por um finco de serem estatelados por aquele veículo e quando menos vêem o caminhão já está indo embora levantando um intenso fluxo de poeira da estrada. Todos tossem e ficam à ver navios. Sérgio observa tudo às minguas.


SÉRGIO: Ô, sô. Por que eu nunca tive uma coragem dessa? Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de prisão... Ou é pensão?


Sérgio se levanta. O piloto 2 se aproxima.


PILOTO 2: Sabe, rapaz... Parece que você perdeu o seu encalço.


SÉRGIO: Pois é, eu sou mole demais.


PILOTO: Não, estou querendo dizer que você perdeu o seu encalço. Bem, onde estão seus calçados?


Sérgio olha para seus pés e vê que está sem sapatos. 


SÉRGIO: Medeu docéu! Eles ficaram no caminhão!


Piloto 2 se compadece. 


PILOTO 2: Olha, se quiser podemos ir ali até o avião e...


SÉRGIO: Avião? O quê?


PILOTO 2: Sim, é que nós acabamos deixando o avião cair e... Bem, esquece. Você não iria entender.


Piloto 2 vai em direção a piloto 1.


PILOTO 2: Vamos, capitã! Temos um vôo para concluir.


PILOTO 1: Ei! Quem devia falar isso sou eu! E não estamos mais no nosso horário de expediente, já até pousamos, olha... 


Ele tira os sapatos.


PILOTO 1: Estamos pisando na chon!


PILOTO 2: Você não entenderia, minha cara. É questão de honra. Venha, ande!


Ele ainda reluta, mas não há concordância. Todos os passageiros seguem piloto 2. Piloto 1 é deixado para trás. 


PILOTO 1: Ei, esperem! Capitã! Ei! Keep Calm!


Piloto 1 procura por seus sapatos para seguir viagem, mas não os encontra. Em seguida, avista Sérgio correndo calçado com seus calçados.


PILOTO 1: Ô, ei, seu maluco! Volta aqui! Você não pode me deixar aqui... PELADO!


Ele se choca e cobre suas partes íntimas, se embrenhando no matagal. Sérgio finalmente chega no galpão dos trabalhadores.


OSVALDO: O que houve, Sérgio?


SÉRGIO (ESBAFORIDO): Ocê, Osvaldo, sabe dizer se o patrão tá por aí?


OSVALDO (INTRIGADO): O Lívio? O que você fez de tão grave pra falar com o Ferra Goela?


SEU LÍVIO: Eu ouvi alguém aí falar o meu nome?


Sérgio e Osvaldo mijam.


OSVALDO (TREMENDO): Pa-pa-pa-pa-patrãozinhon... A que devo a sua honran?


Lívio bate forte na mesa. Sérgio fica de olhos arregalados.


LÍVIO (ALTERADO): Vocês são duas maricas imprestáveis mesmo. Um milharal inteiro pra descascar e vocês ficam aqui, de trelelê, de meia boca. DIGAM LOGO, SEUS SACRIPANTAS. FALEM ALGUMA COISA!


Sérgio e Osvaldo empalidecem.


SÉRGIO (NERVOSO): Chefe, preciso falar com o senhor agora mesmo, código rosa...


SEU LÍVIO: Chega. Pode parar. Não diga mais nada. Anda, estrupício. Arrasta isso que você chama de pernas até meu gabinete.


Lívio parte. Sérgio e Osvaldo se olham com mil palavras engolidas sem remorso. Logo Sérgio se manda também, deixando Osvaldo com mil e uma imaginações. Piloto 1 e piloto 2 tentam decolar com o avião no meio da floresta. 


PILOTO 1: Ô, Venâncio, você sabe muito bem que essa daí é a minha cadeira.


PILOTO 2: Venâncio?! Mas respeito comigo, senhor BE-NÍ-CIO. Me chame de capitão. 


PILOTO 1: Isso não pode estar conhecendo, monamour. Qualé, nós tinhamos uma parceria, lembra? Eu era o numerador e você o denominador.


PILOTO 2: Isso são tempos passados, BE-NÍ-CIO. Agora eu sou seu senhor chefão e você meu reles submisso.


Piloto 1 chora no colo de piloto 2.


PILOTO 2: E para de chorar como uma criança, co-pilota! Estamos tentando fazer essa carcaça aqui voar! Lembre-se de que tudo isso aqui não teria acontecido se não fosse seu nheco-nheco na hora do expediente.


Piloto 1 se contém e se retira. Uma passageira entra enfurecida na cabine do avião.


PASSAGEIRA (GRITANDO): QUE PALHAÇADA É ESSA, HEIN?! NÓS NÃO PAGAMOS RIOS DE DOLARES PARA FAZER TURISMO NA AMAZÔNIA. QUANDO ESSE AVIÃO IRÁ DECOLAR?


PILOTO 2 (CHATEADO): Estamos tentando, resolver minha senhora. Foi apenas um probleminha técnico. Já, já chegaremos ao seu destino. 


PASSAGEIRA (GRITANDO): EU ACHO BOM, HEIN?! JÁ, JÁ ESCURECE E DEVE TER COBRAS NO MEIO DESSE MATO. 


Ela se retira, deixando Venâncio desconfortável com sua venenosa informação. Benício retorna trazendo um chá.


VENÂNCIO (INQUIETO): Sabe, Benê? Acho que tens razão. Assuma o controle. Eu vou ali e já volto. 


Benício nada entende e fica a sós com cara de pastel. Lívio fica sabendo sobre os novos turistas da floresta e do roubo do caminhão pelas palavras de Sérgio. 


SEU LÍVIO (GRITANDO/COM RAIVA): ISSO SÓ PODE SER UM ULTRAJE! ESSA GENTE TODA AQUI, BEM NAS MINHAS TERRAS! ESSA GENTE NÃO TEM O QUE FAZER NÃO? TANTO LUGAR MAIS BONITO PRA FAZER PASSEIO E VÊM PARAR LOGO AQUI NO MEU RODEIO. TANTA COISA PRA FAZEREM, SABE? DANCINHA PRA TIKTOK. ATÉ EU TÔ FAZENDO ESSA MERDINHA DE VEZ EM QUANDO, OLHA...


Ele pega o celular e mostra pra Sérgio um vídeo do mesmo dançando euforicamente ao som de _Sintomas de Prazer - Ludimilla_.


SÉRGIO (ENVERGONHADO): É, eu tô vendo, chefe, eu tô vendo.


SENDO (PENSAMENTO): Queria poder arrancar meus olhos nestante. Lívio sorri ao contemplar sua dança. 


LÍVIO (GRITANDO): ISSO É TUDO MUITO DIVERTIDO E TANANA, MAS CHEGA! PRECISO DAR UM BASTA NESSA SITUAÇÃO! NÃO POSSO TOLERAR ESSES ENXIRIDOS METIDOS NO MEU TRABALHO. SÓ PODEM SER ATIVISTAS QUERENDO ACABAR COM O MEU HONESTO NEGÓCIO. PRECISO AGIR E RECUPERAR A CARGA PERDIDA. E VOCÊ FARÁ ISSO.


SÉRGIO (GAGUEJANDO): E-e-eu?


SEU LÍVIO (GRITANDO): CLARO QUE VOCÊ! COMO NÃO VOCÊ, SEU IDIOTA?! FOI VOCÊ QUEM CAUSOU TUDO ISSO, IMBECIL, IMUNDO, MARGINAL, MEU ESCRAVO, LADRÃO, BENEVOLENTE, DESGRACIADO, METIDO, VAGAR...


SÉRGIO (APRESSADO): Está bem, eu vou... Não precisa mais me xingar.


SEU LÍVIO (GRITANDO): ISSO FAZ PARTE DO ROTEIRO. TODO BOM VILÃO XINGA E GRITA SEM MOTIVO APARENTE. MAS VÁ E VOLTE LOGO. FAÇA O QUE EU LHE ORDENEI. TRAGA ESSES MENTECAPTOS LADRÕES PARA MIM. SE ELES PENSAM QUE MEXERÃO NO MEU MAIOR TESOURO ESTÃO MUITO ENGANADOS...


Lívio toca em seu celular passando a dancinha dele no TikTok repetidas vezes. Sérgio se descola e sai antes que o capataz percebesse.

Ana e Gabriel contunuam correndo com o caminhão desordenadamente. 


GABRIEL (NERVOSO): Ana, my mother, you tem have certeza do que está fazendo?


ANA (SECA): Eu nunca estive tão certa na minha vida.


Ana acelera. O caminhão está tão rápido que partes do mesmo se desprendem.


GABRIEL (NERVOSO): I can não sabiá que você sabia dirigir caminhão. 


O caminhão voa em uma lombada. 


ANA (EM VOZ ALTA): Eu sei. Nem eu sabia.


Gabriel a olha assustado. A estrada que eles estão agora é feita de pedregulhos e alguns bem afiados. Num desses, faz com o pneu inferior direito estoure. O caminhão descarrilha e sai pra fora da pista com o impacto. Ana e Gabriel são jogados contra o "para-brisa". O veículo cai numa pequena clareira e se enrosca em árvores bem altas e de caules grossos, gerando uma batida brutal. Ana e Gabriel desmaiam na hora. Gabriel sangra pela cabeça. Ana segura veemente a pena rosa enviada para ela junto com a carta. O caminhão começa a soltar uma fumaça preta dando sequência a labaredas de fogo. Ali próximo, pessoas de uma aldeia indígena ouvem todo o estrondo e enlouquecem. 


CACIFE ANAJÉ: Eu sabia, são os sinais. O fim está próximo. As trombetas foram tocadas. Eu estou de olho em tudo com esse meu binóculo. 


Ela segura veemente em um binóculo. Ana e Gabriel continuam dormidos. O celular de Gabriel começa a tocar dentro do bolso da calça dele. É possível ver que se trata de Ben tentando entrar em contato.


MINESSOTA, ESTADOS UNIDOS, 2023.


Ben está segurando algumas malas a caminho do portão de embarque enquanto tenta se comunicar ao telefone.


BEN: Atende, Gaybriel, atende. Oh, God! Preciso te falar coisas urgentes, meu camarada, não posso mais esperar.


Depois de querer dar e não saber pedir, Ben pega o caminho do avião e se prepara para viajar. A câmera corta pra Ana e Gabriel adormecidos enquanto o fogo toma conta do local. De repente, diversos garimpeiros e trabalhadores de Lívio se revelam por trás das matas. Eles seguram lanças medievais. Sérgio comanda o grupo.


SÉRGIO: Ocês ouviram bem, né? Ao ataque!


Todos os homens partem em disparada em direção à carcaça do caminhão segurando artefatos arcaicos pontiagudos. Eles berram como verdadeiros vikings.


TODOS (GRITANDO): BAAAAAAAAAANHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA


Eles se aproximam mais e mais. Ana e Gabriel continuam desmaiados e desamparados.


🩷 CONGELAMENTO EM FORMATO DE CORAÇÃO ROSA EM ANA E GABRIEL 🩷