Alma Penada - capítulo 01 - ESTREIA (18/12/2023)

 

Uma câmera é ligada mostrando uma vista panorâmica do espaço da esfera global do planeta Terra. Podemos ver algumas camadas presentes na atmosfera, além dos vastos espaços em azul representando os longínquos oceanos. A câmera se move e entra dentro de uma nave espacial. Dentro dela é possível ver seres encapuzados com roupas megalomaníacas. Não são perceptíveis os seus rostos. A câmera captura o movimento instantâneo da nave até que magicamente ela já está em frente ao Sol, com toda a sua magnitude e radiação. Os tripulantes da aeronave soltam gritos de fanfarra, até que o comandante piloto deles aperta um botão. De repente, um show pirotécnico de raios lasers se instaura e uma luz vermelha e comprida vai de onde eles estão até a cavidade inicial do Sol. Os seres que ali estão aparecem imóveis. Milésimos depois, uma forte ejeção de massa coronal começa a se evocar, mas antes mesmo disso o veículo espacial já havia pegado o caminho de volta, enquanto a câmera flagrava a explosão traseira que rolava no Sol. Por fim, o câmera que segura a câmera se volta para a frente e novamente num piscar de olhos aqueles seres estão com o "para-brisa" da nave de frente com a nossa ínfima odisséia terrestre. O vídeo da câmera se apaga e agora mostra o alvorecer estadunidense. É uma típica manhã de Minesota às vésperas de um novo inverno. Podemos obsevar duas crianças brincando na praça.


ANA (ALEGRE): TÁ COM VOCÊ!


RODRICK (GRITANDO): É COM VOCÊ!!


Os dois jogam bolas de neve uns nos outros e fazem medonhos bonecos de neve nos arredores.


PATRICK (GRITANDO): VAMOS!! TÁ MUITO CEDO!! AINDA FALTA MUITO ORA ACABAR!!


ANA (CANSADA): Melhor não, Rod. Tá ficando muito gelado aqui. Acho que vou pra casa.


RODRICK (CHATEADO): AH, MENINA! DEIXA DE SER MOLE! MAS TÁ, ATÉ AMANHÃ ENTÃO.


ANA (ENCORAJADA): Amanhã será um dia melhor.


Ela se despede do amigo e caminha rumo à sua casa. Ela vai passando por lindas construções e mansões repletas de gelo. É possível ver fumaça congelada saindo de seus orifícios faciais. Ana suspira. Enquanto ela vai andando, surge uma mulher que toca nos seus ombros.


ANA (GRITANDO): AAAHAHAAAH!


LUCY: Calma, garota! Sou eu, Lucy.


ANA: MEU DEEUS! QUASE QUE VOCÊ ME MATA NESTANTE!


LUCY (RINDO): HAHA! DESCULPE. É QUE TENHO QUE LHE MOSTRAR ALGO URGENTE E PRECISA SER AGORA. VAMOS ATÉ MINHA CASA.


ANA: Tudo bem. Agora posso ir tranquila.


Ana e Lucy dão as mãos e seguem caminho. Na casa de Lucy, Ana vê algo que a deixa perplexa.


LUCY: Exato. Nunca imaginei que ainda existiriam. Pensei que fosse coisa de minha cabeça!


ANA (CHOCADA): Não pode ser! Será que finalmente depois de toda a minha vida encontrarei meu sonho?


LUCY: Nosso sonho! E que vida longa é essa de espera, você tem apenas 7 anos! 


ANA: Ora, Lucy! É modo de falar, como vocês adultos mesmos dizem. É que você sabe muito, muito bem que sou apaixonada nesse pássaro rosa e saber que ele foi visto por aqui, na cidade me deixa mais feliz ainda!


LUCY: Pois é! Nem eu tô acreditando! Enfim, nós vamos investigar isso, afinal, é nossa missão proteger nossa ararinha cor-de-rosa. 


Lucy estende a mão para Ana. A menina retribui e solta um belo sorriso. No dia seguinte, Ana amanhece o dia em sua casa, quando olha pela janela de seu quarto uma caixa de madeira jogada no terreno cheio de neve bem em frente. Ela fica intrigada e curiosa, resolvendo assim pegar o primeiro roupão do armário e descer as escadas depressa. 


ANA: Que será isso?


Ela começa a mexer na caixa e a balançá-la com força. Ela observa alguns pequenos furos na caixa e após mexer nela sente que há um peso.


ANA: MEU DEUS! NÃO PODE SER! LUCY ESTAVA CERTA! 


Imediatamente ela arranca o tampão da gaiola e retira de dentro aquele que seria o maior amor de sua vida. Nascia ali sua linda filha: Púrpura. Uma linda ave cor-de-rosa, da mesma espécie ararinha que tanto ela e Lucy procuravam avistar. Púrpura olhava com galanteio pra Ana. Ana estava simplesmente radiante. Dali pra frente seriam só ela e ela. Tempos se passam e Ana cresce juntamente com a ararinha. Elas possuem uma ligação incrível, principalmente quando se juntavam a Lucy em tardes calorosas de brincadeiras e diversão. Púrpura era daqueles pássaros que repetiam o que os humanos falavam, mas não somente isso. Mais tarde descobriu-se que se tratava de um animal tão raro, que ela cantava, dançava, falava diversos idiomas e ainda fazia previsões. Talvez tivessem ainda "poderes" em Púrpura que ninguém ali soubesse. Ana jurava que Patrick, um dos seus amigos, fosse também amar a ideia de brincar com a ararinha dela, mas a reação inicial do menino foi de apatia e depois de ter visto o pet nunca mais agiu da mesma maneira. Sempre recusava convites de Ana e procurava se afastar quando ela e Púrpura se aproximavam pra brincar. A menina se ressentiu e criou até um bordão para se rebelar contra as atitudes hesitosas de Patrick.


ANA: PENA ROSA BOM, PELE ROSA RUIM.


PÚRPURA (GRANEJANDO): PENNA ROSSA BOM, PELE ROSAA RUUIM! UÁCÁ! URACÁ!! AH! AH!


Isso porque Patrick costumava vestir roupas rosas depois que Púrpura surgiu na vida de Ana. Tudo parecia ir bem, até que um fatídico dia chegou. 


PÚRPURA (GRANEJANDO): UÁRCA! UÁRCA! QUERO QUE ME TRANSFORME EM UMA CASA DA BARBIE SEM KENS!


ANA (RINDO): VOCÊ É HILÁRIA, PÚR! ATÉ PARECE QUE SE EU SAIR DAQUI, VOCÊ VAI MUDAR DE FORMA.


PÚRPURA (GRANEJANDO): UÁRCA! UÁRR! VOUU SIIIM! PODER TER CERTEZAR! UAAAR! ORRONN! 


Ana se retira. A ararinha vira o modelo mais atual da Polly Pocket. Um indivíduo, encapuzado, se aproxima do local. Ele vê toda a cena que ocorrera. Não se pode visualizar seu rosto. Rapidamente pega o "objeto" e o põe em uma sacola, o carregado depressa. Ana chega e não entende a situação. 


ANA: UÉ, MAS ONDE VOCÊ SE METEU, PÚR?


Ela vê o homem carregando um saco nas costas com algo se mexendo dentro.


ANA (CHOCADA): NÃO PODE SER...


Ana se vê às minguas.


ANA (CHORANDO): MEU DEUS! NÃO PODE SER! TANTO QUE LUTEI PRA CONSEGUIR MINHA ARARINHA E AGORA JÁ VÃO TIRAR ISSO DE MIM?!


Ana reluta, sai correndo e parte para uma voadora nas costas do homem, que cai duro. A sacola também cai, bastante agitada.


ANA (GRITANDO): PÚRPURAA! SOU EU, SUA GRANDE AMIGA, SUA MÃE DE VIDA TODA! EU IREI TE SALVAR MEU AMOR!


PÚRPURA (GRANEJANDO): UARCA! URCAAA! MAMÃE ANAAR! ME SALVAAR! MAMÃEE ANAAR! ME SALVAAR!


HOMEM (GRITANDO): FICOU LOUCA, MENINA?!


ANA (GRITANDO): Quem o senhor pensa que é? Essa ararinha aí tem dona e sou eu!


HOMEM (GRITANDO): E quem disse que eu peguei sua ararinha? O que estava ali na calçada era uma Casa da Barra da Polly Pocket.


ANA: É a Dreamhouse da Barbie. 


HOMEM (GRITANDO): Que seja, não me importa, isso aqui...


Ele pega na sacola.


HOMEM (GRITANDO): NÃO LHE DIZ RESPEITO!


O homem em fúria novamente sai correndo em direção a um carro. Ana reluteia.


ANA (GRITANDO/CHORANDO): NÃO! PELO AMOR DE DEUS, POR TUDO O QUE É MAIS SAGRADO! A MINHA BEBÊ!


O homem não dá a mínima e entra no carro. Ana saca o celular e fotografa sua placa antes de começar a correr atrás. 


ANA (GRITANDO): SEU VIGARISTA, LADRÃO, SEQUESTRADOR, IDIOTA... VOU LHE ACUSÁ-LO DE ROUBO NA POLÍCIA! VOCÊ IRÁ PAGAR CAROOO!


O homem abre a janela do carro e saca uma Casa da Barra da Polly Pocket aos pés de Ana. O carro sai em disparada. Ana olha para o objeto e se dilata.


ANA (GRITANDO/CHORANDO): ESSA NÃO É A MINHA PÚR! BUÁAAAAAA! AAAAAAHHHH! PÚUURRRRPURRAAAAAAAAAAAAAA! EU TE AMO, PÚRPURRAAAAAAA!


Ana cai no chão de tristeza. 


ACRE, BRASIL.


A câmera mostra uma estradinha de barro no meio do nada. Ao fundo um avião monomotor vai planando até chegar próximo do chão. Ele para na cabeceira da pista, perto de um galpão. De lá, saem alguns homens rodeando um outro homem que usa um chapéu de couro exótico. Seu rosto não é revelado. Todos os homens ao seu redor estão apreensivos. Dois caras descem do avião e seguem em direção ao bagageiro. Eles o abrem e sacam malas. É possível ver um litrão de gaiolas de lá dentro. Um deles pega uma cuja há um pássaro rosa dentro.


HOMEM 1: Ó aí! Passa po chefe.


Ele entrega.


HOMEM 2: Ó aí! O chefe!


Ele entrega. 


HOMEM 3: Aí! Chefe!


Ele entrega.


HOMEM 4: Chefe.


Ele entrega.


HOMEM 5: Chef...


Ele entrega.


HOMEM 6: Che...


Ele entrega. 


HOMEM 7: Cu... Era exatamente o que eu estava procurando, seus imprestáveis. 


O homem do chapéu exótico manuseia o cubículo.


HOMEM 7: Achei minha lâmpada mágica! Ganhei na loteria.


Ele retira a ave de dentro. Percebemos que é Púrpura.


HOMEM 7: AHA... AHAHAHA... AHAHAHAGAHSSEDRESWEDFGHBYGRCCTTGUUUYWEEE... ZESSSDCYHKKKJJJJJJJJKKKKKKKKK!!


O homem comemora.


HOMEM 7 (RINDO): MINHA GALINHA DOS OVOS DE OURO, PESSOAL!


Todos os outros começam a rir. 


HOMEM 6: E ainda por cima rosa.


O homem olha para o 6 com reprovação. Púrpura fica penosa e mal reage.


HOMEM 7: Rosa agora é a nova cor de macho... Adiantem! Tragam logo esse maldito pássaro pro galpão ou eu não me chamo Lívio Malaquias de Contaminondas.


Lívio entrega a ave nas mãos do homem 6. Eles entram para dentro e somem.


25 ANOS DEPOIS.


Ana cresce, agora é uma das estudantes de biologia mais afincas. Seu passado foi marcado por uma perca terrível. Ela nunca esqueceu Púrpura, e isso só fez acender ainda mais nela o desejo de salvar animais que estejam em perigo. 


ANA: Bom dia, meu amor. 


GABRIEL: Como vai meu bem?


Ambos se beijam. 


GABRIEL: Preparada pra mais um dia?


ANA: Você nem sabe, minha aula foi cancelada hoje.


GABRIEL: Ué, como assim?


ANA: Sabe como é, né, fim de ano aqui são tempestades e tempestades de neve.


GABRIEL: TÁ NEVANDO?!


Gabriel abre a janela e se depara com flocos titubeando na brisa.


GABRIEL: OMG! NÃO ESPERAVA POR ISSO?! 


Ele põe as mãos na cabeça. 


GABRIEL: Então minha aula deve estar cancelada também!


ANA (PENSATIVA): E por um bom tempo. Esse temporal não deve cessar até o fim do ano.


GABRIEL (PREOCUPADO): OMG! O QUE FAREI AGORA?! O QUE FAREI AGORA?! O QUE FAREI AGORA?!


ANA (GRITANDO): CALMA, SEU DOIDO! É SÓ NEVE! 


GABRIEL: VOCÊ SABE QUE EU ODEIO ESSE CLIMA! PREFIRO MUITO MAIS UMA FLORESTA TROPICAL...


O telefone de Ana começa a tocar. Ela atende.


ANA: Era a Guen. Ela disse que as nossas férias foram antecipadas pelo mau tempo. Possa ser que a sua universidade tenha feito a mesma coisa, não é, nervosinho?


Ana debocha. Gabriel se encabula. Numa tentativa de fazer as pazes, Ana cede a um abraço. 


ANA (TRISTONHA): Se acalma, Gabi. Eu tô mó pra baixo hoje. Você sabe que hoje é um dia especial e muito triste pra mim.


GABRIEL (SENTIDO): Sim, hoje fazem exatamente 25 anos que você perdeu a Púrpura, né? Sinto muito...


ANA (LACRIMEJANDO): 25 anos sem ver minha bebê. Apropósito, ainda penso se ela ainda estará viva por aí... E como está? Será que já esqueceu de mim?


GABRIEL: Você disse que ela era uma bichinha inteligente. Se ela estiver, onde estiver, deve estar toda rosinha de vergonha de amar você. 


Ana se reconforta e abraça o amado. Ela sobe para o quarto e olha pela janela vastos gomos de neve se alojando no terreno da frente. Ana fica reflexiva, até que sente uma vibração positiva. É seu celular tacando. Ela o pega e atende. 


ANA: Alô? Guen?


VOZ (TELEFONE): A ENCOMENDA JÁ FOI ENTREGUE.


Ana fica louca. 


ANA: Encomenda? Em pleno inverno? Nem se fosse Amazon Primevera!


A ligação cai.


ANA: Alô? Alô?


Ana sucumbe. Ela desce as escadas sem entender. 


ANA: Gabi, acredita que acabaram de me lig...


Ela vê uma caixa jogada sobre a neve no terreno da frente de sua casa.


ANA: NÃO PODE SER. 


Um filme passa na mente de Ana e ela corre na direção para ver o que é que há. Ela esquece até de pôr um roupa adequada para sair na neve. Era como se fosse uma menina de 7 anos correndo para abrir o presente do Papai Noel. 


ANA (EMOCIONADA): NÃO PODE SER! MINHA PÚRPURAAA! PÚRPURAAARR! UARR! ORRON!


Ela corre para o abraço. Segura logo a gaiola. Ela tem alguns pequenos furos. Ana destampa rapidamente e se surpreende com o que vê.


ANA (CHOCADA): Ai, minha nossa.


🩷 CONGELAMENTO EM FORMATO DE CORAÇÃO ROSA EM ANA 🩷