Quem Foi? - capítulo 25 FINAL (09/10/2023)

 

CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Hospital | Quarto de Jenno | Manhã 

[Alanis continua sorrindo para Jenno e para de acariciá-lo]. 


Alanis: Eu te pedi algo tão simples e você recusou. Era só ter assinado um papel que o Gabriel ganha cinquenta por cento de toda a sua herança. Mas não se preocupe, eu mesma me encarrego de te ajudar.


[Ela abre a pasta e apanha a mão dele. Alanis o faz assinar o papel e forja o testamento, ao som de um instrumental de tensão].


Alanis (debochando): Obrigada! Jenno, Jenno... você é um homem tão esperto e ainda é enganado, até em coma. Deveria entender que não se pode confiar em nenhuma pessoa nesse planeta. Até seu advogado e o Ítalo estão comigo nessa... Você vai não dizer nada?


[O silêncio perdura e Alanis ri da situação].


Alanis (revelando): O seu advogado eu subornei e prometi cinco por cento do que eu ganhar e uma sessão a mais, diria de prazer, se me entende, em troca dele falsificar esse documento. Foi tão bom, ele é super dotado, fazia tempo que não tinha uma transa daquelas. Já o Ítalo... eu e ele somos velhos companheiros, que nem vocês dois. E convenhamos com a sua burrice de cair no papo dele. Em uma das muitas vezes que estive em São Paulo, nove anos atrás, eu apareci na sua gravadora, porque você não estava. Nos conhecemos, fomos conversando e descobri o caso de vocês dois. Reconheço que o Ítalo te ama, mas ele é mais ambicioso financeiramente. Ele queria se apossar totalmente da sua fortuna e da gravadora, e nós arquitetamos um golpe juntos. Mas eu não sou idiota, ele irá tentar me enganar e ficar com tudo para si mesmo, então planejei uma surpresinha para ele. Quero que os dois partam juntos, enquanto eu e meu filho sumimos por esse mundo afora e com essa bolada no bolso. O ano que vem e os dezoito dele estão próximos... e a sua morte também.


[O instrumental de tensão toca. Alanis se aproxima do respirador vital e o desliga. Os batimentos cardíacos de Jenno caem cada vez mais, até ele zerar].


[Contente com o resultado, Alanis religa a máquina e se retira, sorrindo. Em outro take, ela se veste com suas roupas de antes e sai do hospital com a pasta, discretamente].


CENA 02: Hospital | Quarto de Jenno | Manhã 

[Uma enfermeira abre a porta e ao encontrar a máquina ligada, mas sem os sinais vitais de Jenno, ela grita desesperada pelos médicos].


[Um deles aparece e ao entender a situação, corre até o corpo de Jenno].


Médico: Iniciar a ressuscitação!


[Ele faz massagem cardíaca na vítima e em seguida tenta reanimá-lo com o desfibrilador que a enfermeira lhe entrega]. 


[O profissional realiza tentativas de forma simultânea, e todas sem sucesso, confirmando a morte de Jenno]. 


CENA 03: Delegacia | Sala do Delegado | Manhã 

[O policial acompanha Ítalo até a sala do delegado, que estava lhe esperando].


Delegado: O senhor está sendo acusado de ser o mandante do homicídio de Natã Fonseca, seu Ítalo. O que tem a me dizer sobre?


Ítalo (cínico): Delegado, eu não mandei matá-lo. Eu também não sabia que ele havia sido assassinado, o policial me revelou. Por que chegaram a conclusão de que foi eu?


Delegado: Nós recebemos as filmagens do presídio no dia anterior da morte dele. O senhor esteve com ele e vocês trocaram ameaças, porque ele te chantageou. Não é muito contigente porventura o detento ter sido assassinado durante uma rebelião no dia seguinte? 


Ítalo: Talvez. De fato o encontrei semanas atrás e ele me pediu o dinheiro dele para fugir, mas isso não assegura a minha culpabilidade. Eu não tenho coragem de matar uma pessoa.


Delegado: E por que ele pediu esse dinheiro?


Ítalo (cínico): Porque ele comprou para mim uma substância ilícita. Me arrependo de ter pedido isso para ele, mas não era uso próprio, entreguei para uma pessoa.


Delegado: Qual era a substância e quem é esta pessoa? 


Ítalo (mentindo): Não lembro mais os nomes, tanto da pessoa quanto da matéria, faz anos disso.


Delegado: E se usou isso para tentar lhe extorquir e o senhor mandou matá-lo é porque era que o senhor deve lembrar e que poderia lhe comprometer. A sua irmã, por exemplo, a falecida Leandra Ferreira, foi assassinada por chumbinho e o seu Israel Ortego está preso e sendo processado por esse crime. Mas não se sabe ainda como e com quem ele conseguiu o chumbinho.


Ítalo: Delegado, o senhor está afirmando indiretamente que foi eu quem mandou comprar o Natã comprar o chumbinho e entreguei ao Israel para ele matar a minha PRÓPRIA IRMÃ?


Delegado: Depende do seu ponto de vista, meu caro. Nunca tive informações suas de como o senhor reagiu a morte da Leandra, nem se quer veio prestar um novo depoimento após a reabertura do caso.


Ítalo: Porque eu já repeti centenas de vezes que acreditava que ela tinha infartado naturalmente. Nós nunca fomos próximos, eu a suportava quando lhe encontrava. O Samuel sim gostava, ele a visitava quando podia na casa da dona Natuza e acompanhou a gravidez do meu sobrinho. Eu não o conheci por decisão própria. Se estiver vivo, ele tem cinco anos atualmente.


Delegado: Isso passará a contar nos autos desse inquérito, vou considerar como o seu primeiro depoimento do caso. O senhor tem mais algo desse eixo a comentar?


Ítalo: Não que eu me lembre. 


Delegado: Pois, retornando ao assunto principal, seu Ítalo, nós também temos um áudio em que um homem confessou que o senhor mandou eliminar o Natã e pediu para ele contratar o assassino e armar a rebelião dentro da cadeia. Tentamos localizá-lo e não encontramos nenhuma pista. Vou colocar o som para rodar.


[Eles escutam o áudio e após dois minutos, Ítalo tenta se defender].


Ítalo: Doutor, esse homem está mentindo, é uma fraude! Foi o meu irmão que te entregou isso, né? Ele rompeu comigo por conta daquela gravação e agora me denunciou por isso. 


Delegado: Foi o investigador Samuel Patrício sim, mas são provas verbais compactas, seu Ítalo. Ouvimos você naquele filme ameaçando o Natã e encontramos o atirador, que é um dos guardas do presídio, também está preso e disse que o homem do áudio o mandou matar o Natã a seu pedido. Surpresa! Você não escapará da justiça. O senhor será levado daqui a pouco para a prisão e em dentro de algumas semanas será julgado. 


[O delegado chama os policiais e eles seguram Ítalo, que se debate].


Ítalo: ME SOLTA! É TUDO MENTIRA, DELEGADO, EU NÃO VOU PARA AQUELE INFERNO, NÃO QUERO IR! ME SOLTA!


[Ítalo é levado à força].


CENA 04: Hospital | Manhã 

[Marcel chega ao hospital, um pouco abatido, e conversa com a recepcionista].


Recepcionista: Bom dia.


Marcel: Bom dia. Eu vim visitar o meu pai, Jenno Ortego.


Recepcionista: Ok. Vou conferir o nome do paciente. Encontrei, o senhor já veio retirar a declaração de óbito?


Marcel (confuso): Declaração de óbito? Faz dias que eu não venho visitá-lo. O MEU PAI MORREU?


Recepcionista: Se acalme, moço, por favor.


[Marcel tenta se acalmar, até médico que tentou reanimar Jenno o abordar].


Marcel: Doutor, o que aconteceu? Quando vim aqui pela última vez o quadro dele estava estabilizado.


Médico: E continuou estabilizado, mas uma enfermeira foi olhá-lo e o encontrou sem sinais vitais. Nós fizemos o possível e tentamos reanimá-lo várias vezes, mas ele já havia falecido. Eu sinto muito. A declaração de óbito será liberada para você. Com licença.


[O médico se afasta e o protagonista chora copiosamente, em uma crise].


Marcel (sussurando): Desgraça de vida!


[O instrumental dramático se introduz totalmente no fundo, e a tela escurece].



[A atmosfera é sombria e mostra o sol, prestes a se pôr, para a calada da noite entrar].

CENA 05: Cemitério | Fim do Dia 
[A câmera se aproxima do cemitério e lentamente da família Ortego, aplaudindo a oração final do padre enquanto o caixão é sepultado].

[A Ave Maria é rezada e o padre se retira, deixando os quatro a sós].

[Thina e Marcel estão de óculos escuros, abraçados. A socialite tenta consolar o primeiro, que permanece chorando].

[Gabriel e Pedro estão imóveis, olhando para o nada, abalados com o momento].

Thina: Tente se acalmar meu filho. Era a hora dele, Deus quis recolhê-lo agora, não podemos fazer mais nada.

Marcel (chorando): Mãe, eu perdi meu filho e meu pai em um único dia. Meu pai nunca me tratou muito bem, mas eu era filho dele. Ele morreu de uma forma horrível. E eu não posso mais recorrer a guarda do Leônidas.

Thina: Você tentou se regenerar com ele e a avó dele, fez a sua parte. E pense que o Jenno estava em coma, ele partiu sem sofrer, terminou em paz. Espero que o seu pai se redima, seja no céu ou no inferno, pela dor que ele me causou, foram vinte anos jogados fora e terminei viúva.

Marcel (chorando): Mãe, me perdoe também, por favor. Eu não queria ter te levantado a mão, eu estava furioso, me perdoa por ter escondido a minha crueldade.

Thina: Filho, não se preocupe com isso. Eu te perdoei depois que você saiu, eu passei mal de tanto chorar. Nenhuma mãe consegue ter ódio do filho, por mais que ele tenha feito algo errado. Quero que me perdoe também, eu não queria ter te batido, fiquei nervosa e baqueada. 

[Marcel concorda e limpa suas lágrimas, se acalmando sozinho].

Pedro: Vamos para casa, gente? Já anoitecendo, é perigoso ficar aqui. 

[Gabriel, Marcel e Thina concordam e todos saem do cemitério]. 

CENA 06: Presídio | Começo de Noite
[Ítalo está sentado de costas para a grade, com as mãos no rosto, quando um carcereiro o chama].

Agente: Ítalo Ferreira, você tem uma visita.

Ítalo: Visita? Fui preso hoje e já querem me visitar? O que meu irmão quer?

Agente: Não é seu irmão. Me acompanhe.

[A cela é aberta e Ítalo é conduzido pelo agente. Em outro take, a porta da sala de visitas é aberta e o pico do instrumental de tensão toca, por ele ver Alanis, bem vestida e sorrindo]. 

Ítalo: O que você quer, sua diaba? Pensei que tivéssemos rompido, nem temos conversado mais.

Alanis: Rompemos mesmo, mas vim ver o seu declínio. Você não dá uma dentro, né, Ítalo? Na reta final de roubamos tudo do Jenno, você é preso. Não podia ter se retraído um pouco mais para mandar matar seu comparsa, não? Quem te entregou?

Ítalo: O maldito do Samuel, óbvio. Aquele covarde denunciou o próprio irmão.

Alanis: Palmas para ele, fez algo que preste na vida uma única vez, eu nem precisei me movimentar. Eu iria te matar, mas ele foi mais criativo te colocando aqui, para roer grade de cadeia. Espero que você coma o pão que eu amassei aqui, porque eu vou continuar como estou, linda, rica em breve e LIVRE. Não vou mexer um dedo para te tirar daqui. A hora que o testamento do Jenno for lido e o meu filho receber a parte dele da herança, vou voltar para a Argentina e nunca mais pisar no Brasil. Lamento em informar, Ítalo, mas eu já tinha me cansado da demora do Jenno para morrer, e dei uma rápida puxada na tomada do respirador vital dele. Agora ele deve estar enterrado, só aguardando as minhocas comerem o corpo dele.

[Ítalo fica chocado ao descobrir e começa a chorar, de ódio].

Ítalo (chorando): Desgraçada, VOCÊ ME PAGA, SUA ORDINÁRIA! VOCÊ MATOU ELE E EU VOU TE MATAR!

[Ítalo avança em Alanis e a enforca. O agente, escutando os gritos, entra na sala e aparta o confronto. Ítalo é segurado por ele e Alanis coloca a mão no pescoço, tentando respirar].

Agente: Mal chegou e quer fazer mais uma vítima, viúvo negro. Vou te enviar para a solitária para aprender como se trata uma mulher.

Ítalo: NÃO! NÃO, ELA É UMA ASSASSINA! ELA MATOU O HOMEM QUE EU AMAVA!

[Ítalo é retirado dali e Alanis mantém a mão em seu pescoço, rindo e reclamando de dor].

CENA 07: Presídio | Começo de Noite
[Em outro take, o agente abre a solitária e empurra Ítalo para dentro, fazendo-o cair. A autoridade abre a pequena fresta na parte de cima e conversa com ele].

Agente: Você vai ficar um dia. Quem sabe conversando com as paredes você não aprende a respeitar uma dama.

[Ítalo olha com ódio para o novo rival].

Ítalo: A hora que eu sair dessa solitária eu mato você e da cadeia aquela vadia.

Agente: Acho que aumentarei a pena. Você vai ficar três dias aí dentro. Está bom? Se disser mais algo, será pior.

[O agente fecha a fresta e Ítalo começa a chorar gradativamente mais e grita, tendo o som ecoado, por concluir que terminará detido].

[É mostrado as horas passando e para na tarde do dia seguinte].

CENA 08: Mansão Ortego | Sala | Tarde
[A família Ortego aguarda sentados no sofá, esperando o advogado de Jenno. A campainha do portão toca].

[Em outro take, Thina abre a porta de sua casa e recebe e cumprimenta o advogado. Os três homens levantam e também apertam a sua mão].

Thina: Sente-se, por favor!

Advogado: Obrigado, dona Thina!

[Ele, Gabriel e Pedro se sentam novamente. Thina e Marcel ficam em pé, lado a lado].

Advogado: Infelizmente o patriarca da família Ortego, o senhor Jenno, nos deixou ontem em consequência dos ferimentos de seu atropelamento. Mas, em contrapartida, enquanto vivo, ele concluiu o seu testamento, do qual só eu e ele tivemos acesso. Dispansarei os termos legais e tentarei ser o mais didático possível, informando apenas o que está contido no documento. 

[Ele apanha o papel e inicia a leitura].

Advogado (lendo): Eu, Jenno Ortego, em pleno uso de minhas faculdades mentais, disponho de meus bens da seguinte forma: meus filhos gêmeos Marcelo Ortego e Marcel Ortego terão acesso a cinquenta por cento de toda a minha fortuna, todas as minhas ações na Gravadora Áurea repartidas igualmente e as minhas duas propriedades em São Paulo, determinando que meu gêmeo Marcel Ortego fique com a localizada no bairro Jardins, e o meu outro filho gêmeo, Marcelo Ortego, com a situada na Higienópolis.

[Marcel sorri e abraça Thina].

Advogado (continuando): Declaro também que o meu filho ilegítimo, Gabriel Ortego, ficará com os outros cinquenta por cento de minha herança. Sendo meu filho caçula e menor de idade, entrego a seu padrasto Pedro Ortego o papel de tutor legal de meu caçula, até que ele complete a maioridade.

[O pico do instrumental de tensão toca].

Marcel (chocado): FILHO? Então é verdade, mãe.. Aquilo que você disse para a Alanis não era mentira...

Thina (murmurando): Não, meu filho. Seu pai também me traiu com ela.

Gabriel: Estou sem acreditar nisso, doutor.

Pedro (sussurrando): Meus parabéns, Gabriel!

Advogado: Acredite, seu Gabriel. No prazo de um ano o senhor completará a maioridade e poderá gerir o seu patrimônio, no momento gerenciado pelo seu Pedro, que o senhor Jenno lhe deixou. Peço licença a todos, tenho que ir.

Thina: Vamos, eu te levo até o lado de fora.

Advogado: Obrigado.

[Thina e o advogado se retiram. Pedro e Gabriel se abraçam no sofá].

[Marcel se aproxima de Gabriel e o segundo se levanta, ficando em frente ao irmão].

Marcel: Perdi um irmão, mas ganhei outro que meu pai me deixou. Eu posso te dar um abraço, Gabriel?

Gabriel: Pode.

[Marcel abraça Gabriel e percebe-se a genuinidade entre eles. Pedro abraça os dois irmãos e é formalizado uma roda entre eles].

[O dia anoitece e continua na mansão Ortego].

CENA 10: Mansão Ortego | Quarto de Gabriel | Noite
[Gabriel está conversando com Alanis ao telefone].

Gabriel: Não queria que você tivesse feito isso desse jeito, foi atroz demais. Fiquei feliz, mas estou chateado também. Eu convivi com o Jenno praticamente a minha vida inteira e ele nunca me contou a verdade, mesmo sabendo. Ele me deixou ser criado pelo Israel, que nunca me amou veramente e sempre fez pouco caso de mim. Também ganhei um novo irmão e um tutor, o Pedro assumirá a gestão de meus bens até ano que vem.

[Alguém bate na porta].

Gabriel: Mãe, vou desligar, tem alguém batendo na porta. Acho que é o Pedro. Tchau.

[Ele desliga e pede para a pessoa entrar. É Pedro].

Pedro: Oi, Gabriel. Está feliz com a sua nova conquista? Tornou-se um jovem rico! Nem parece que você é filho daqueles dois, você é um menino tão bom, não herdou a ruindade deles.

Gabriel: Ainda bem... Pedro, é bom que você esteja aqui agora. Eu fiquei pensando depois da revelação desse segredo e... eu decidi que depois do julgamento do Israel, quero voltar para a Argentina. E quero que você venha comigo. 

Pedro: Você tem certeza? Seu irmão, sua madrasta e sua mãe estão aqui no Brasil.

Gabriel: Meu lugar não é mais aqui, Pedro, deixou de ser desde aquele fatídico dia que o Israel foi expulso daqui. E com o nosso retorno várias tragédias aconteceram. A tia Thina e o Marcel podem ficar, a gente vem visitá-los de vez em quando, é perto. E a minha mãe eu também quero que venha conosco, vocês dois são as únicas pessoas que eu amo. E quero vocês do meu lado sempre.

Pedro (feliz): Eu também te amo, Gabriel. Se é seu desejo, eu te acompanho. Eu vou com você para qualquer lugar desse mundo, meu filho de coração. 

[Gabriel e Pedro se abraçam fortemente por alguns minutos, ao som de um instrumental emocionante].

[É mostrado, em time lapse, os dias correndo e mostra que se passaram três meses, e que chegou o dia do julgamento de Israel].

CENA 11: Presídio | Manhã 
[Israel está caminhando pela cela, quando o carcereiro lhe chama].

Agente: Você tem uma visita, seu Israel. E depois que ela for embora o senhor será conduzido até o tribunal de júri para o seu julgamento.

[O agente abre o cárcere e leva Israel. Em outro take, Israel é acompanhado até a sala de visitas e encontra uma pessoa de costas. Ela se vira e revela ser Marcel, e o pico do instrumental é reproduzido].

Marcel: Oi, tio. Vim aqui te ver pela última vez, antes do seu fim. É o momento mais aguardado em toda a minha vida.

[Eles se encaram friamente].

CENA 12 - CONTINUAÇÃO: Presídio | Manhã

Israel: Saiba que é o meu também. Eu não queria estar aqui, mas preso eu nunca mais terei de olhar na sua cara. Por isso eu agradeço de coração que seja mesmo a última vez que você me veja. Perdestes o seu tempo, porque eu não vou mais discutir com você, daqui irei direto para o meu julgamento.

Marcel: Eu vou daqui a pouco também, só vim olhar no seu rosto e dizer que você perdeu. Eu perdi muitas valiosidades, você matou meu irmão, a Leandra, mas não conseguiu me matar e perdeu algo que é tão valioso quanto: a liberdade. Eu ganhei esse jogo, mesmo perdendo soldados. Você sairá daqui algemado, voltará da mesma forma e permanecerá assim até o seu último dia. E eu acho muito pouco para tantas atrocidades que você cometeu contra a sua própria família. Até nunca mais, Israel.

[Marcel pisca para Israel e se retira da sala, deixando o rival bufando].

[A câmera exibe várias imagens aéreas de São Paulo e se infiltra na parte externa do tribunal de júri].

CENA 13: Tribunal de Júri | Manhã 
[Todos os convidados da plateia chegam em ordem e sentam em suas cadeiras. Gabriel e Thina estão um ao lado do outro, apreensivos].

[Minutos depois, o juiz entra em cena e todos se levantam. Ele senta-se em sua posição e faz um sinal para todos sentarem, e é obedecido].

Juiz: Declaro instalada a sessão do tribunal do júri. Faço entrar o réu, o senhor Israel Ortego.

[Gabriel e Thina aguardam a entrada de Israel. A porta é aberta e ele entra, olhando especificamente para os dois, e se senta ao lado de um defensor público].

Juiz: Dou a palavra ao promotor público, doutor Dario Nogueira. 

[Dario se levanta e inicia o trabalho de acusação].

Dario: Hoje, neste tribunal, confirmarei aos senhores jurados, que o réu Israel Ortego assassinou a tiros o próprio sobrinho, Marcel Ortego, a empregada doméstica da casa em que morava, Leandra Ferreira, por envenenamento, tentou matar a facadas o seu outro sobrinho e irmão gêmeo da vítima fatal, Marcelo Ortego, e sequestrou o ex-marido, Pedro Ortego. São tantos crimes, e todos cometidos de formas cruéis. Com exceção de Leandra, ele alanhou as pessoas de seu sangue, que lhe acolheram e amaram: a sua própria família.

[Dario retorna].

Juíza: Dou a palavra ao defensor público Tadeu Menezes.

[Tadeu profere a sua defesa].

Tadeu: Os senhores tirarão as suas próprias conclusões. Mas não de que Israel Ortego realizou esses crimes, e sim de que ele está sendo vítima de seu sobrinho, Marcelo Ortego, que lhe acusa injustamente de ser o assassino de Leandra Ferreira e Marcel Ortego, para poder vingar o irmão que ainda nutria amor pela jovem, falecida no dia da expulsão de Israel da mansão.

[Thina tenta se levantar para contrariá-lo, mas Gabriel a impede]. 

Tadeu: Após isso, ele se mudou para a Argentina com o ex-marido e o filho, e passados cinco anos, ele retorna ao Brasil para tentar provar a sua inocência nesse crime e a culpa de seu algoz. O meu cliente não conseguiu fazer isso, mas eu vou.

[Tadeu também retorna].

Juíza: Este tribunal chama para depor o senhor Marcelo Ortego.

[Marcel é liberado para entrar e senta no banco das testemunhas].

Dario: Senhor Marcelo, é verdade que o seu tio, Israel Ortego, cometeu todos esses crimes?

[O silêncio predomina. A câmera se aproxima do olhar de Marcel, nitidamente demonstrando arrependimento por suas mentiras].

Dario: Senhor Marcelo?

Marcel (revelando): Doutor, eu não sou o Marcelo... Eu sou o Marcel!

[O instrumental de tensão toca, mostrando a preocupação de Gabriel e Thina e a felicidade de Israel].

Israel (sussurando): Cavou a própria cova! 

Dario: O senhor está se auto acusando de ter usado uma falsa identidade? Isso é crime, o seu nome pode ser sujado e lhe render prisão. 

Marcel: Infelizmente é a verdade, promotor. Eu cansei de mentir todos esses meses, não suporto mais carregar esse remorso. Peço que a minha mãe, o meu meio-irmão e todas as autoridades aqui presentes e a justiça me perdoem, eu fiz isso para tentar conseguir alguma prova contra o Israel e por medo de que ele tentasse me matar, e isso realmente aconteceu. Ele me esfaqueou meses atrás no cemitério, eu tenho a cicatriz no meu ombro. Menti, agi de forma criminosa, mas estou disposto a responder por isso.

Dario: Agora que a sua farsa foi esclarecida, conte tudo desde o começo, desde quando Leandra entrou em sua vida, os dois assassinatos e até atualmente.

Marcel: Eu conheci a Leandra quando ela foi trabalhar na minha casa como empregada doméstica. Nos apaixonamos, tivemos um caso e um filho lindo. Eu lamento muito por ela não estar viva, não pudemos criá-lo juntos.

Dario: E como foi a morte precoce de Leandra?

Marcel: Ela faleceu após ter dado à luz, estavam no hospital eu, a mãe dela, a dona Natuza e a minha família, com exceção do meu pai e do Israel. Nós já tínhamos rompido, porque no começo da gravidez, quando ela me contou, eu tinha quinze anos, e ela vinte. Éramos jovens demais, eu fiquei indignado com a notícia e preteri a criança por isso. Ela ficou possessa comigo e se demitiu no mesmo dia. Para evitar que descobrissem tudo, ela também mentiu para a minha mãe e disse que era por questões familiares...

Thina (cochichando): Eu sabia...

Gabriel (baixo): Que horror...

Dario: E como foi a expulsão de seu tio?

Marcel: Eu nunca acreditei que a Leandra enfartou por causas naturais, pela própria gravidez, eu suspeitava de algo a mais entre ela e o Israel que poderia ter terminado assim. O Israel nos desprezava, o tom de voz dele confirmava. Então, no dia que ela faleceu, o velório foi no final da tarde e eu cheguei em casa com ódio, culpando o Israel. Eu o ataquei e o meu pai expulsou ele de casa...

Dario: Passados cinco anos depois, ele se infiltra novamente em sua casa. Como?

Marcel: A pedido da minha mãe, que queria reconstruir a nossa família. Ela se arrepende disso. Mas antes de ele ter voltado, eu e meu irmão já tínhamos recebido uma ameaça de morte, através de cartas. E quando ele estava recebemos a última, mas dessa vez em cima das nossas camas sujas de sangue. O Marcelo avisou a minha mãe e ela não acreditou completamente, deduziu que fosse uma brincadeira, mas pediu para ficarmos em alerta. Na hora do crime, enquanto eu e meu irmão descíamos as escadas, as luzes se apagaram e eu escutei um barulho de tiro do meu lado. Achei que minha cabeça explodiria e dei um grito, depois eu acordei desmaiado porque cai da escada e quando virei para o lado... eu vi o Marcelo morto.

Dario (para os jurados): Como podem ouvir, Marcel Ortego acabou de revelar o motivo de Israel ter matado o sobrinho e a empregada: vingança. Vingança por ter sido expulso acusado justamente desse homicídio e cinco anos depois, se aproveitando da bondade de sua cunhada, começou a executar os seus familiares, e tentou iniciar por Marcel, de quem ele tinha ódio pelo relacionamento dele com Leandra, pois consta nos autos que Israel e Leandra se envolveram amorosamente dois anos antes do ocorrido. Mas, como as luzes se apagaram, ele pode ter acertado o alvo errado e vitimado quem não estava envolvido na história. O senhor tem mais algo a dizer, seu Marcel?

Marcel: Não.

Dario: Sem mais perguntas.

Juíza: Doutor José?

Tadeu: Tenho. Senhor Marcel, como acabastes de confessar, nos diga como queres que esse tribunal confie em você, se o senhor cometeu e ASSUMIU o crime de falsidade ideológica. O senhor também é um criminoso, e pode sair daqui algemado. Não lhe seria muito conveniente acusar Israel Ortego de ter matado a Leandra por ciúmes do rápido envolvimento da vítima com o seu tio, ou para o senhor fugir de sua incumbência criminal?

Marcel: Doutor, se eu assumi o crime, evidentemente estou a cargo de responder por ele. E eu não sabia que o Israel e a Leandra já estiveram juntos, descobri agora. Fiquei com pena dela por ter se envolvido com o seu assassino...

Israel (gritando): EU NÃO MATEI A LEANDRA, SEU INVEJOSO! VOCÊ SÓ ATRAPALHA A MINHA VIDA DESDE QUE NASCEU. ERA PARA VOCÊ TER MORRIDO NO LUGAR DO MARCELO!

Juiz (intervindo): ORDEM, ORDEM! Seu Israel, caso o senhor continue proferindo qualquer ofensa que seja contra a testemunha, eu mandarei retirá-lo do tribunal. E diante da confissão de Marcel Ortego, eu ordeno que o mesmo seja imediatamente detido e conduzido até o presídio mais próximo, pelo crime de falsidade ideológica, por favor.

[Um instrumental emocionante toca ao fundo. Ele é levado por um policial e é visto ao fundo Thina chorando e abraçada com Gabriel].

Thina (chorando): O meu menino, Gabriel...

Gabriel: Calma, tia, ele será solto. Infelizmente o Marcel sabia dos riscos que estava enfrentando por ter forjado a identidade. Só nós sabemos que ele fez isso para se proteger. Não fique assim, eu vou voltar para a Argentina essa tarde e eu quero te ver feliz pela condenação do Israel.

[Thina balança a cabeça, apoiando. A câmera retorna para o tribunal].

Juiz: Prossigamos com o julgamento do réu Israel Ortego. Convoco para depor o senhor Pedro Ortego.

[Pedro entra na sala e se senta no banco, para depor].

Dario: Senhor Pedro, também é verdade que o seu ex-marido Israel Ortego lhe sequestrou?

Pedro: Sim. Ele me abordou no meio da rua e apontou a arma dele para mim. Eu fui levado até a antiga casa dele e fiquei trancado quase um dia. Quando ele retornou, eu o golpeei, tomei o revólver e fugi. Eu dormi aquela noite na rua, porque estava sem meu celular e tive que recorrer a estranhos. Eu pedi o celular de um desconhecido e liguei para a Thina. O meu sobrinho Marcel me buscou depois em um ponto que eu estava na zona Sul.

Dario: O que fez com a arma após ter retornado à sua casa?

Pedro: Eu levei à polícia. Estava suspeitando que ela era a utilizada no assassinato do Marcelo e decidi arriscar.

Dario: Também consta nos autos que a polícia levou ela para ser feita a balística forense e comprovaram a acusação. Procede?

Pedro: Sim.

Dario: Não tenho mais perguntas, excelência.

Tadeu: Eu também não tenho nenhuma pergunta a fazer, excelentíssima.

[Israel o encara].

Israel (sussurando): Você é um péssimo defensor! Se fosse para ficar calado, que eu tivesse ficado sozinho aqui...

Juiz: Nossa equipe tentou encontrar a senhora Natuza Ferreira para intimá-la a depor, mas infelizmente a busca falhou. Eu peço a entrada do senhor Samuel Patrício Ferreira, o irmão de Leandra Ferreira.

[Samuel entra e começa a depor].

Samuel: Eu sou investigador de polícia há muitos anos. Sempre fui apaixonado por mistérios e tentava resolvê-los o mais rápido possível, mas depois que me vi obrigado a denunciar o meu irmão por um homicídio, eu pausei a minha carreira há dois meses por tempo indefinido. Só não sabia que não era o único mistério que entraria na minha vida. A minha irmã faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, e eu não estava no estado de São Paulo no dia. Achei isso muito estranho pela idade dela, e cogitei desde o início que tinham matado-a. Cinco anos depois, eu finalmente reivindiquei o laudo pericial dela que apontou o enfarte por causas naturais. Então entreguei o novo ao meu advogado, que enviou para o Ministério Público e descobri depois que ela foi eliminada. Eu por ser irmão dela não poderia me aprofundar na história, mas na mesma semana ocorreu o assassinato de Marcelo Ortego, e fui escalado para investigar esse crime. Quanto mais eu me aprofundei, descobri o caso da Leandra com o Marcel, que o meu sobrinho era filho deles, do breve envolvimento de minha irmã com o Israel, a acusação contra a Thina pelo homicídio dela e outras situações. 

Dario: Como o senhor tentou conseguir as provas contra Israel Ortego?

Samuel: Para conseguir os depoimentos da família, eu me infiltrei, encontrando o Pedro e a dona Thina na delegacia e menti para o Pedro que tinha sido agredido por um namorado. Eu me maquiei e disse para ele que eu não era amado, porque eu sabia que estava acertando no ponto que queria o casamento do Pedro com o Israel foi assim. Me aproximei mais do Pedro e tentei conquistá-lo em definitivo, mas quando estava próximo, o enteado dele encontrou a maquiagem e armou um circo na minha casa. Como eu estava recuado, confessei para os dois que era um plano.

Thina: Era esse homem o paquera do Pedro... 

Samuel: Eu tentei fazer de tudo para confirmar que esse homem, que nunca visto pessoalmente, matou a minha irmã e o seu Marcelo Ortego.

Dario: Ou seja, uma nova prova de que Israel Ortego é o culpado. Nenhum trabalhador se arriscaria tanto se não tivesse certeza do que estava fazendo. Não tenho mais perguntas.

Tadeu: Eu tenho, excelência... Seu Samuel, a sua história é a mesma de Marcel Ortego. Usou de mentiras, traiu a confiança das pessoas ao seu redor, e principalmente de um homem que estava interessado em você, para provar os crimes de um inocente, que talvez tenha errado menos que o senhor e Marcel Ortego juntos. Ambos são em carne a verdadeira essência do ser humano: a hipocrisia, a mentira, a traição e o ego alto. Por mais que tenham nomes, sejam pessoas públicas, com autoridade, não podem querer que confiemos em suas palavras duvidosas.

Samuel: Não são duvidosas, são materiais precisos. Eu entreguei a justiça um dossiê, incompleto até uns meses atrás, com os dados e as matérias dos crimes de Israel. Ele esteve em estado de observação e constou como uma prova. O seu cliente felizmente será condenado, e não serão suas tentativas furadas que impedirão isso.

[Os dois se encaram e desviam os seus olhares para Israel, que também estava os julgando].

Tadeu: Não tenho mais perguntas, excelentíssimo.

Juiz: Então senhores jurados, por favor, dirijam-se à sala secreta para votarem. Senhor promotor público, senhor defensor público e senhores oficiais de justiça, este tribunal está em recesso por meia-hora. 

[O juiz bate o martelo e jurados e autoridades se retiram].

CENA 14: Presídio | Manhã 
[Marcel caminha algemado até a recepção, chorando, e tem as suas algemas soltas]. 

[Em poucos takes, ele assina um documento, toma um banho, coloca a roupa de presidiário e é levado até a sua cela].

[Ele apoia a sua cabeça sobre um de seus braços nas grades e volta a chorar, ao som de um tema emocionante, por concluir que terminará preso].

CENA 15: Tribunal de Júri | Manhã 
[Os jurados retornam aos seus assentos, e um deles está com o resultado em suas mãos].

Juiz: Os jurados chegaram a um consenso?

Jurado: Sim, excelência.

[Um dos promotores entrega o papel ao juiz e ele o lê].

Juiz: Todos de pé para o pronunciamento da sentença.

[Gabriel, Thina e os demais se levantam, agoniados pelo resultado].

Juiz: O júri reconhece a responsabilidade criminal do pronunciado Israel Ortego nas mortes de Leandra Ferreira e Marcelo Ortego, pelos crimes de homicídios triplamente qualificados, a tentativa de homicídio contra Marcel Ortego e o sequestro de Pedro Ortego, previstos, respectivamente, nos Artigos 121, Inciso 2 e 148, do Código Penal Brasileiro, com pena de 33 anos de reclusão. A pena dever ser cumprida totalmente em regime fechado, no presídio estadual. E tendo em vista o caráter fútil e torpe dos crimes cometidos pelo réu, nego-lhe o direito de recorrer em liberdade. Está encerrada esta sessão. Agradeço o comparecimento dos senhores e ao corpo de jurados.

[O juiz bate novamente o martelo e finaliza o julgamento. A plateia é mesclada por diversas reações e tem como destaque o abraço de felicidade entre Gabriel e Thina].

Thina: Acabou...

[Israel, irado com sua condenação, surta e agride o magistrado verbalmente].

Israel: NÃO, NÃO! SEU BABACA, VERME, EU VOU FAZER VOCÊ ENGOLIR O SEU DIPLOMA. EU VOU VOLTAR PARA A AQUELA ZONA POR CULPA SUA! EU NÃO MATEI A LEANDRA E NEM O MARCELO, EU JURO!

Juiz: Trate de controlar-se imediatamente, seu Israel, ou eu mandarei enquadrá-lo também por desacato a autoridade. Agentes, escoltem-o para fora e o encaminhem para o presídio. 

[Eles cumprem a ordem do juiz e tentam levar Israel, que se debate].

Israel: NÃO, ISSO NÃO É JUSTO! ESSE JULGAMENTO FOI PARCIAL! VOCÊS VÃO VER! A FAMÍLIA ORTEGO ME PAGA POR ISSO!

[Enquanto é arrastado, em câmera lenta, Israel olha para Gabriel e Thina com furor pela última vez, e sai do local].

CENA 16: Parque Ecológico Eugênio Walter | Manhã 
[Boituva, SP. Em poucos takes, Natuza e Leônidas em seu colo observam os animais que estão no local, como araras e pavões].

[No último, os dois caminham de mãos dadas por uma das trilhas, felizes].

Natuza: Gostou daqui, Leônidas?

Leônidas: Sim. Quando a gente vai voltar aqui, vovó?

[Natuza se agacha e olha fixamente para ele].

Natuza: Sempre que você quiser. Nós moramos definitivamente aqui em Boituva agora, era um dos últimos pontos que faltavam para conhecermos. Eu devia ter me mudado depois que a sua mãe morreu, fiz isso de forma tardia. Mas agora mais ninguém mais vai tentar nos achar e separar, Leônidas. Vai ser só eu e você, para todo o sempre. Eu te amo, meu amor.

Leônidas: Eu também te amo, vovó.

[Ele acaricia o rosto de Natuza, e a idosa lhe pede um abraço].

Leônidas (rindo): Só se você chegar antes de mim no lago!

[A criança corre e Natuza, rindo, vai atrás dele, mas para ao receber uma ligação de Samuel].

Natuza: Uma hora eu te alcanço.

[Ela atende].

Natuza: Oi, Samuel. Faz um tempo que você não me liga... Você me perdoou? 

Samuel: Perdooei sim, eu entendi a sua versão. Mas precisava de uns meses para processar aquelas informações, eu contei elas em depoimento no julgamento do Israel hoje, eu vi de perto a frieza dele. Eu liguei para saber como você e o meu sobrinho estão. 

Natuza: Que bom que você me perdoou, Samuel, eu continuo te amando como um filho. Estamos bem, eu e o Leônidas nos mudamos aqui para Boituva há três semanas. E o Israel, foi condenado?

Samuel: Sim, a trinta e três anos de reclusão, tanto pelas mortes da Leandra quanto do Marcelo.

Natuza (emocionada): Deus é pai, finalmente. É pouco comparado ao que ele merece, mas pelo menos morrerá lá dentro. Sua irmã foi vingada, Samuel... Venha para Boituva, para comemorarmos com um almoço, eu e o Leônidas estaremos te esperando na nossa nova casa, agora estamos no Eugênio Walter.

Samuel: Por que não depôs, Natuza? Você é a mãe da Leandra, e não te encontraram.

Natuza: Eu não quis, eu já disse tudo o sabia para a polícia. O que ainda estava me prendendo em São Paulo era a audiência de guarda do Leônidas, e já está tudo resolvido. Você vai vir?

Samuel: Daqui a pouco, irei descansar uns minutos e depois pego a estrada, em uma hora estou em Boituva.

Natuza: Ok, meu amor. Tchau.

Samuel: Tchau.

[A chamada é encerrada. Natuza olha para Leônidas de longe, sorrindo e vai até o lago, cumprindo o prometido].

[Horas se passam].

CENA 17: Aeroporto Internacional de Viracopos | Sala de Embarque | Tarde
[Gabriel, Pedro, Alanis e Thina caminham pela sala de embarque com suas malas, indo direto para o portão de entrada do avião].

[Thina dá um sincero abraço em Pedro e Gabriel. Todos se olham derradeiramente].

Thina: Vou sentir saudades. Eu amo vocês dois.

Gabriel: Nós também te amamos, tia. Um dia viremos te visitar de novo. Mande um beijo para o Marcel, e que ele logo saia da cadeia.

Thina (sorrindo): Eu vou continuar visitando ele, infelizmente foi o juiz quem decretou a prisão dele, então ele ficará preso por um bom tempo... Não demorem, por favor, minha vida continuará igual. Estarei naquela mansão vivendo em paz, e de braços abertos para vocês.

[Thina olha para Alanis].

Thina (fria): Tchau, Alanis. Boa viagem para você também.

Alanis (séria): Tchau.

[Os três passageiros seguem em frente e Gabriel e Pedro acenam para Thina, que retribui, sorrindo. A socialite se retira do aeroporto].

[Em outro take, Gabriel está sentado no meio de Alanis e Pedro, segurando as mãos deles, enquanto o avião anda pela pista. Ele pega impulso e decola para Buenos Aires].

CENA 19: Voo | Tarde
[O avião continua sobre o céu, destinado à capital da Argentina. Na parte interna do avião, tanto Gabriel quanto Alanis e Pedro estão dormindo].

[A câmera se aproxima especificamente de Gabriel, que está cochilando, e entra em seu sonho].

FLASHBACK | 2017 | São Paulo | Café | Manhã 
[Gabriel e Alanis estão frente a frente, conversando].

Alanis: Meu filho, eu preciso te contar uma coisa muito séria. E quero que você me ajude.

Gabriel: No quê?

Alanis: Gabriel... você não é filho biológico do Israel.

[O instrumental de tensão toca].

Gabriel: O quê? Quem é meu pai então?

Alanis: Você sempre esteve ao lado dele dentro daquela mansão. É o Jenno.

[Gabriel se mantém paralisado].

Alanis (glacial): Eu vou explicar. Nós tivemos um caso durante um tempo e eu engravidei de você. Só que na época, quando ele soube que era o pai, não quis te assumir e registrar no testamento. E o Jenno não me deixou outra solução durante todos esses anos a não ser matá-lo, para você herdar o que é seu de direito. E você vai me ajudar. Eu já tenho tudo esquematizado há anos, não estamos só os dois nessa, o atual amante do Jenno também está. 

[Alanis continua explicando a sua ideia para o filho].

FLASHBACK | 2018 | Jardim | Manhã 
[Gabriel está escondido atrás dos arbustos, suspeitando da proximidade de Leandra e Marcel].

[O casal se beija e choca o rapaz, que continua escondido].

Gabriel: Esses dois são amantes... Não, não...

[Em outro take, em seu quarto, Gabriel e Alanis conversam ao telefone].

Gabriel: Mãe, o Marcel e a Leandra têm um caso. Eu flagrei eles aos beijos no jardim. Como ninguém nunca percebeu isso?

Alanis: Isso é péssimo, Gabriel. No momento eles estão juntos às escondidas, depois se assumem e ela engravida dele. Não podemos arriscar que mais um ser humano entre na provável disputa da herança do seu pai. E por isso você vai matar essa menina.

Gabriel: QUÊ? Mãe, eu não sou um assassino!

Alanis: Infelizmente você virará, é em prol da nossa futura ascensão. Não precisa ser uma morte violenta, você ainda é uma criança. Eu vou conseguir com o Ítalo algum veneno, ele tem um parceiro que facilmente terá, o Natã. Depois que eu arranjar, vou até São Paulo e te entrego o produto.

Gabriel: Me desculpe, mãe, mas eu não vou fazer isso. Eu não quero sujar as minhas mãos.

Alanis (fria): Você não tem que querer, ou você mata a Leandra, ou os dois morrerão. Não é porque você é meu filho que te pouparei, primeiramente quero alcançar meus objetivos.

[Gabriel, ao escutar as palavras de Alanis, desliga a chamada em sua cara e joga o celular na cama].

FLASHBACK | 2018 | Manhã | Cozinha
[Gabriel está sozinho na cozinha e olha para os lados, evitando ser descoberto. Ele apanha uma dose ínfima de chumbinho de um saco em seu bolso e joga sobre o suco. Ele mistura o copo e sai da sala].

[Em outro take, ele encontra Leandra faxinando a casa e entrega o copo a ela].

Leandra (contente): Quanta gentileza, Gabriel. Obrigada.

[Ela bebe todo o líquido envenenado e Gabriel a assiste, com um falso sorriso].

FLASHBACK | 2023 | Carro | Tarde 
[A câmera se aproxima de Gabriel e exibe a troca de mensagens dele com Alanis].

Gabriel: E aquele homem, mãe?

Alanis: Eu já fui atrás dele, o convenci a desligar as luzes para nós. Expliquei do jeito que você me ensinou. E também o instrui a mentir para o delegado quando o caso já estiver em uma investigação avançada e dizer que foi o Israel. Com certeza ele será condenado...

Gabriel (mensagem): E o Ítalo? Já colocou as cartas nos quartos?

Alanis (mensagem): Já. Você foi genial em desligar a cerca elétrica, as câmeras de segurança daquela casa não filmam a parte de cima. E mesmo que gravem, ele estava encapuzado, não vão saber quem era. Ele também sujou com o próprio sangue, para dar um tom mais aterrorizante.

Gabriel: Vamos chegar em casa daqui a pouco. Eu vou esperar o Israel e o Pedro saírem do quarto e vou pegar a arma.

Alanis: Ótimo. Não falhe, Gabriel, por favor, o alvo é o Marcel. É a nossa única chance. 

Gabriel: Não falharei.

FLASHBACK | 2023 | Mansão Ortego | Tarde
[Gabriel caminha lentamente pelo corredor da casa, em direção ao quarto de Pedro e Israel]. 

[Ele abre a porta e percebe que não há ninguém na região, apenas um deles tomando banho].

[Gabriel se aproxima do local onde Israel esconde a sua arma e abre a pequena caixa de madeira. Ele apanha e observa a arma, sorrindo assustadoramente].

Gabriel: Hoje é o seu dia de brilhar, querida.

[Gabriel guarda a caixa de volta e se retira com a pistola do quarto].

FLASHBACK | 2023 | Mansão Ortego | Noite
[Gabriel sobe disfarçadamente para o segundo andar, se aproveitando da euforia das pessoas durante o aniversário dos gêmeos].

[Ele se esconde em seu quarto e deixa uma pequena fresta da porta aberta, para espionar Marcel e Marcelo].

[Ele vê ambos se dirigindo às escadas e destrava a arma. Um pouco depois, corre secretamente atrás deles].

[Gabriel flagra os gêmeos descendo as escadas, quando as luzes apagam. Ele, não enxergando devido a escuridão, atira contra um dos gêmeos e escuta o grito do outro].

[Após ter assassinado um dos irmãos, ele corre até o banheiro dos fundos com a arma. Ele, sujo de sangue, se limpa e esconde a arma dentro de suas calças, se olhando fixamente para o espelho].

Fim dos flashbacks.

[A câmera se aproxima cada vez mais de Gabriel, que continua em repouso, até ele abrir os olhos e sorrir diabolicamente para a tela]. 

[Ele pisca discretamente para a tela e a faz escurecer, enquanto o sangue escorre por ela].

FIM.