Quem Foi? - capítulo 24 (05/10/2023)

 


*CENA 01 - CONTINUAÇÃO: Delegacia | Sala do Delegado | Começo de Noite*

[Israel se pronuncia e tenta se martirizar].


Israel (mentindo): Doutor, eu não estava tentando fugir, eu iria fazer compras na fronteira e voltar daqui uns dias.


Delegado: Eu já ouvi desculpas melhores, seu Israel. O senhor está sendo acusado e investigado por esses dois crimes, e o último mencionado por sua vez, teve o inquérito reaberto há poucos dias, com o surgimento do novo laudo pericial de Leandra, que comprovou a morte dela por envenenamento. O senhor sabia que não podia sair do Brasil. E de repente lhe desponta um desejo de comprar no exterior?


Israel: Delegado, eu já depus sobre a morte do seu sobrinho, o que mais vocês desejam? E eu não tenho nada a ver com a morte da Leandra, não entendo porque sou o principal suspeito. Fora que a minha prisão é totalmente injustificável, aqueles policiais me seguiram e só anunciaram a minha prisão, nem o mandado vocês têm.


Delegado: Como pode ter essa certeza? Nós conseguimos o seu mandado de prisão preventiva, ele foi decretado pelo juiz e iniciamos as buscas pela capital. Sua prisão está dentro da legalidade. É por isso que te trouxeram de volta para São Paulo, e para essa delegacia. 


Israel: O senhor não pode ouvir o meu testemunho em um outro momento? Estou cansado.


Delegado: Imagino, o senhor viajou o dia todo no carro de presos de Foz do Iguaçu até aqui. Mas eu não tenho todo o tempo disponível, e prefiro que você dê o seu segundo depoimento agora mesmo. 


[Israel revira os olhos e inicia].


Israel: Ok... Eu conheci a mãe do meu filho em um show, há quase duas décadas. Nos apaixonamos e fomos morar juntos, mas depois do nascimento do nosso filho, ela nos abandonou e fui convidado a morar com meu irmão, na casa dele. Conheci o Pedro, me casei com ele e criamos o Gabriel. Ficamos doze anos ali, até eu ser expulso, apontado justamente como o assassino da Leandra. Eu não matei ela e nem o Marcel, mesmo tendo vontade. Ficou sabendo que é o Marcel? Ele roubou a identidade do irmão, e foi para se vingar de mim, para me despistar e eu não tentar matá-lo e tentar arranjar alguma prova que me incriminasse nesses crimes. 


Delegado: Eu já sei. Em breve ele também quitará essa dívida com a justiça. Mas me conte, seu Israel, como você conheceu a Leandra e o porquê desse ódio que você nutria por ela.


Israel: Eu conheci a Leandra em um bar e me atrai por ela na mesma hora. Nos beijamos e se encontramos outras vezes, mas depois nunca mais soube do paradeiro dela. Um ano depois, ela começou a trabalhar na mansão como empregada. Eu fiquei feliz e tentei reconquistá-la, mas ela me humilhou e disse que não me queria mais. E alguns meses mais tarde eu flagrei ela e o Marcel aos beijos. E esse relacionamento deles por sinal era tão óbvio que eu duvido que todos naquela casa não sabiam, talvez só o Gabriel e o paspalho do Pedro que não. Eu fiquei com ódio dos dois, sou um homem muito impulsivo, eu não disfarçava a raiva que eu tinha e o Marcel se aproveitou disso para supor que eu matei a namoradinha dele. E o Marcelo, eu não gostava dele, mas não tinha nada contra, era um rapaz fechado. Vocês têm alguma prova de que eu o matei?


Delegado: Temos o exame de balística da sua arma, o laudo asseverou que a bala que matou o Marcelo saiu dela. Foi o seu ex-marido Pedro Ortego, que coincidentemente você sequestrou, me entregou o revólver.


Israel: Doutor, eu nem encostei na minha arma no dia, alguém deve tê-la pegado e atirou no Marcelo. E O Pedro ficou um dia ou menos na minha atual casa, agora isso configura como sequestro?


Delegado: Se o senhor tiver o levado à força, apontando a arma para ele e tendo o trancafiado com nenhuma possibilidade de escapar, que nem nesse caso, sim. De qualquer forma, temos dois depoimentos do seu Pedro sobre esse crime, temos um dossiê por enquanto incompleto que está nas mãos de um dos investigadores do caso e outros depoimentos, como o de seu irmão, sua ex-cunhada, do Marcel Ortego e da mãe de Leandra, Natuza Ferreira. O seu filho, por ser menor de idade, não precisou depor...


Israel: E a Natuza? Quem é essa velha? Por que ela iria depor contra mim?


Delegado: É a mãe da Leandra, ela explicou a história de vocês dois. A vítima não escondia nada da mãe. 


Israel: Ah delegado, por favor, né? Validar o testemunho de uma pessoa que não me conhece pessoalmente é uma afronta a minha pessoa. Não será o depoimento dela ou dos meus familiares que me manterá preso ou fará ser condenado, são provas fracas demais. O senhor como uma autoridade máxima deveria saber disso.


Delegado: Eu não preciso que me expliquem a minha função... O senhor tem mais algo a comentar, como por exemplo, sobre as cartas que Marcel e Marcelo receberam lhes ameaçando de morte no dia anterior e no dia do crime? Os lençóis de ambos sujos de sangue? Ou o ataque com arma branca ao Marcel ontem à noite no cemitério? 


Israel: Eu não vou responder a mais nenhuma pergunta sem a presença de um advogado.


Delegado: O senhor quer que eu providencie um defensor público? Há de precisar.


Israel (espezinhando): Precisaria sim, mas de alguém bom, e esse não é o nosso caso. Os defensores públicos desse país são extremamente incompetentes. É mais fácil eu permanecer calado durante todas as sessões que eu comparecer para os patetas acreditarem em minha inocência, do que um ser qualquer tentar me defender.


Delegado: Além de todos os crimes que o senhor cometeu, eu poderia registrar mais um que acabastes de infringir, o desacato. Relevarei hoje em respeito a sua situação crítica no momento. Eu não queria estar na sua pele. O senhor será encaminhado agora para o presídio e aguardará o seu julgamento, que deve ser em breve. Com tamanhas acusações em suas costas, acredito que nenhum juiz pretenda te soltar... Podem levá-lo.


Israel: EU NÃO VOU! NÃO VOU!


[Israel se levanta, mesmo algemado e tenta correr, mas os policiais presentes ao fundo o seguram e o levam. Ele se debate, aos gritos e tentativas de chutes].


*CENA 02: Hospital | UTI | Começo de Noite*

[Ítalo está ao lado do leito de Jenno, que se encontra internado e enfaixado na cabeça, após a cirurgia. Thina os observa de longe].


Ítalo: Estou aqui, Jenno, você vai ficar bem. Eu virei aqui todos os dias e cuidarei de você, até o dia que seu corpo reagir.


[Thina recebe uma ligação do delegado].


Thina: Licença...


[Ítalo a olha friamente e Thina se retira do quarto. Fora, ela atende].


Thina: Boa noite, delegado. Acharam o Israel?


Delegado: Sim, ele foi preso e está sendo conduzido para a cadeia.


[Thina comemora de felicidade].


Thina (feliz): Como eu esperei por esse momento, por essa alegria, esse festejo, valeu a pena ter esperado esses longos dias. Quando ele será julgado?


Delegado: Tenho dúvidas quanto a data, mas posso afirmar que não demorará.


Thina: Estarei esperando cada segundo. Agradeço demais ao senhor, delegado. Preciso desligar, tenho de ir buscar o meu filho, já me avisaram que ele recebeu alta. Não podia ir ainda, o Jenno foi atropelado e o acompanhei na UTI por alguns minutos. 


Delegado: Foi acidental?


Thina: Não sei, o Ítalo, atual namorado dele, não disse. E o estado do Jenno é precário.


Delegado: Ele sobreviverá, desejo melhoras para ele. Boa noite, dona Thina.


Thina: Boa noite.


[Thina desliga e vai embora do hospital].


[A câmera apresenta novas imagens da cidade e logo depois, para em frente ao presídio, quando algumas viaturas entram em cena].


[Israel sai de dentro do camburão e é acompanhado até a parte interna do local].


*CENA 03: Presídio | Noite*

[A câmera, desfocada, volta ao normal enquanto Israel se aproxima da recepção, onde suas algemas são soltas].


[Em takes, ele toma banho e se veste com a roupa de detento].


[No último, ele é levado por um agente em câmera lenta até a sua cela. Ele é colocado dentro e as grades são fechadas, tendo o barulho ecoado, enquanto a tela escurece].



[A tela volta a clarear e mostra em time lapse os dias correndo, indicando que duas semanas se passaram, e está na parte da manhã]. 

*CENA 04: Hotel | Manhã*
[Ítalo está escovando os dentes, quando batem à porta. Ele finaliza a limpeza e atende, encontrando um policial].

Ítalo: Bom dia, policial. Do que precisa?

Policial (sério): Bom dia. Poderia me acompanhar até a delegacia, por favor? Tenho um mandado de prisão. O senhor está detido preventivamente por ser o mandante do assassinato de Natã Fonseca, ocorrido em um presídio na Grande São Paulo.

[O instrumental de tensão toca].

Ítalo: Me mostre o mandado, eu não saio do meu conforto enquanto não vê-lo.

[O policial entrega o documento para Ítalo. O mesmo olha e uma lágrima escorre de seu rosto].

Policial: Vamos?

[O pico do instrumental toca, exibindo Ítalo se sentindo derrotado].

*CENA 05: Mansão Ortego | Sala | Manhã*
[Thina e Marcel descem as escadas e ficam no centro da sala].

Marcel: Estou bonito, mãe?

Thina: Está lindo, como sempre. Eu e os meninos estaremos torcendo por você.

Marcel: Obrigado. Tomara que eu ganhe, vocês iriam amar o Leônidas. Vou tentar ser um pai de verdade.

Thina: Você tinha que ter me contado tudo bem antes, eu teria te ajudado. Fico feliz, mas decepcionada também.

Marcel: Me desculpe, mãe. Eu não contei ainda por medo, prometi que falaria depois de receber alta. A senhora ficará possessa comigo com tudo o que revelarei...

[Thina se mantém calada, esperando].

Marcel: A mãe do meu filho é... a Leandra. Tivemos um relacionamento secreto enquanto ela trabalhava aqui. 

Thina (direta): Eu sabia, Marcel.

[Marcel fica confuso].

Marcel: Como você sabia, mãe? Eu e a Leandra não contamos para ninguém... 

Thina: Era nítido que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Eu flagrei vocês dois se beijando no dia que ela se demitiu. Eu escutei ela revelando que estava grávida, eu sabia que era avó.

Marcel (curto): Você mentiu para mim, mãe? Você comemorou como se não soubesse. Por que?

Thina: Omiti a verdade que nem você, porque eu não queria que entrássemos em conflito enquanto eu estava presa. Vocês dois foram irresponsáveis. Eu fico feliz por ter um neto, eu já o amo, mas olhe a sua idade, você tem VINTE ANOS, e foi pai AOS QUINZE. Você era e é um menino, não teria capacidade de amadurecer tão rápido para auxiliar no crescimento do seu filho, eu, o Jenno e a Leandra. Eu desconfio que ela tenha mentido, ela nunca comentou que a mãe estava doente, porque iria se exonerar repentinamente? Você falou alguma coisa para ela?

Marcel: Eu... rejeitei o Leônidas. Foi por isso que ela se demitiu. Eu fiquei com medo pela minha idade, tinha e tenho muita coisa para viver ainda. E fixei na minha cabeça que uma criança estragaria tudo. Além disso, eu.. tentei coagir a Leandra a abortar.

[Thina, num pico de ira, desfere um tapa no rosto do filho, deixando-o vermelho. Marcel se irrita e levanta a mão para Thina, que lhe aponta o dedo].

Thina: REPITA ISSO QUE VOCÊ ACABOU DE FAZER, MARCEL. REPITA. EU TE EXPULSO DESSA CASA E TE DENUNCIO DE UMA VEZ POR AGRESSÃO, FALSIDADE IDEOLÓGICA E COAÇÃO. VOCÊ TAMBÉM COMETEU CRIMES, FEITO O ISRAEL... Eu espero que você tenha se arrependido do que fez, porque disso eu não sabia. Estou com raiva de você, não conseguirei te perdoar tão rápido. Não se faz com NINGUÉM o que você fez com a Leandra. Agora vá para a audiência, respire um pouco, pense nos seus atos e ganhe a guarda do Leônidas.

Marcel: Eu também não te perdoarei tão fácil, mãe. Você também errou, me enganando e me agredindo. Você não tem esse direito, por mais que tenha me colocado no mundo. Não vou voltar tão cedo, depois eu irei ver o meu pai no hospital.

[Eles se olham por um curto período de tempo e Marcel se retira. Thina se senta no sofá e chora desesperadamente, de raiva e tristeza].
 
[A câmera exibe outras imagens de São Paulo, e, minutos depois, mostra o Tribunal].

*CENA 06: Tribunal | Manhã*
[Marcel e o seu advogado chegam ao local e encontra Natuza, que desfaz o sorriso que continha. Eles se fitam e são convocados pelo promotor a entrarem].

[Em outro take, eles entram e aguardam a entrada do juiz].

Promotora: Seu excelentíssimo, doutor Marco Vilela.

[O juiz entra].

Marco: Bom dia!

Todos: Bom dia! 

[Marco se senta em sua cadeira e começa a audiência].

Marco: Estamos aqui para o processo do julgamento de guarda unilateral do menor Leônidas Ferreira, solicitado pelo pai, o senhor Marcelo Ortego. Atualmente a criança está sob a tutela da avó materna, Natuza Ferreira. Eu tenho comigo os relatórios da assistente social, tanto sobre a forma como o menor é tratado no lar onde vive quanto da residência do pai biológico. Gostaria de começar com a senhora, dona Natuza... poderia afirmar com suas próprias palavras como é a sua relação com o seu neto? 

Natuza: Maravilhosa, excelência. Eu criei o meu neto sozinha, após o falecimento da minha filha e o abandono afetivo por parte do pai com muito esforço e dedicação. Nós não somos ricos, a assistente constatou isso ao entrar em minha casa, mas o principal elemento que sustenta uma boa convivência entre dois seres humanos, eu e o Leônidas temos, o amor recíproco. Por isso eu peço ao senhor que mantenha a guarda dele comigo, apesar de nossa baixa classe média, ele nunca esteve desamparado, sempre tomou remédios quando estava doente, estuda em uma boa escola, onde ele está neste exato momento, alimenta-se diariamente em todos os períodos do dia e não tem nenhuma reclamação ao meu respeito. O pai dele, o seu Marcel, recusou a paternidade do próprio filho e tentou obrigar a minha a exterminar a criança quando ela ainda era um feto. O Leônidas sabe do acontecido.

[Marcel encara Natuza com ódio e o seu advogado contraria a segunda].

Advogado de Marcel: Excelência, a dona Natuza está ofendendo o meu cliente. Ele realmente rejeitou o menino, mas ele era um adolescente, tinha meros quinze anos, não conhecia nada da vida. E agora ele está aqui, praticamente assumindo o erro e quer consertá-lo, tentando estabelecer uma ponte com o menor para que possa ser construído um laço de amor entre pai e filho.

Marco: Seu Marcelo, gostaria de ouvi-lo também. Conte toda a sua história de forma clara e justifique sobre o seu pedido de guarda do menor. 

Marcel: Excelência, eu amo o meu filho. E tenho todo o direito de querer efetivar uma relação com ele. Admito meu erro, algo comum em todas as pessoas, eu fugi dos meus deveres. Eu e a Leandra nos amávamos, era uma relação às escondidas, mas havia, como a própria Natuza alegou, o elemento sustentável de uma ligação, o amor. Fui imprudente ao ter um filho com tão pouca idade e em um surto pedir para que a mulher da minha vida retirasse o nosso fruto. Eu me condeno internamente por isso, o Leônidas ficou órfão de mãe e foi desprezado pelo próprio pai. E eu requisitei a guarda dele com o intuito de corrigir minhas falhas e tentar voltar a ser feliz, após uma sucessão de tragédias que tem abatido a minha família. Eu lhe suplico, ilustríssimo, por favor, me dê essa oportunidade. É a última que eu tenho, e saberei desfrutar dela...

Marco: Belas palavras, seu Marcelo. Tanto as suas quanto as da dona Natuza. Eu já tenho a minha decisão... Judicialmente o direito de guarda seria transferido para a pessoa de laços sanguíneos mais fortes, no caso o pai. Pude constatar que mediante um erro do passado dele, a vida de todos os envolvidos mudaram, ambos foram vítimas. Mas a guarda tem de ser unilateralmente apenas da única pessoa que socorreu um bebê, atualmente com cinco anos, e lhe proporcionou os direitos básicos de qualquer cidadão brasileiro, e principalmente, como o senhor Marcelo e a dona Natuza ressaltaram, o amor. A guarda de Leônidas Ferreira será somente de Natuza Ferreira. 

Natuza (chorando): Graças a Deus!

[Natuza se emociona e abraça o seu advogado, chorando. Marcel encara o juiz e tenta contrariá-lo, mas o seu defensor lhe proíbe disso e ele se enfurece, quase chorando de raiva].

[Todos se retiram em ordem, enquanto Natuza e Marcel se encaram pela última vez. A dona de casa pisca para ele e sai do tribunal].

*CENA 07: Hospital | Quarto de Jenno | Manhã*
[Alguém em primeira pessoa, disfarçado, abre lentamente a porta do quarto e vê Jenno, ainda internado e sem nenhuma reação, respirando por aparelhos].

[A câmera sobe aos poucos a partir das pernas da pessoa e é revelado ser Alanis, vestida de enfermeira e com uma pasta preta em suas mãos. Ela se aproxima da maca de Jenno e acaricia o seu rosto].

Alanis: Chegou o seu dia de conhecer o céu, Jenno. Sou grata a você por ter me dado o Gabriel, mas você não quis cooperar comigo, então você me obriga a lhe executar...

[A câmera exibe o largo e maligno sorriso de Alanis e termina nela]. 

[A tela escurece aos poucos, enquanto o sangue escorre por ela].