Alazão de Ferro - capítulo 02 (19/09/2023)

 Alazão de Ferro | 2/20

Uma novela de Pedro Valente

Livremente baseada em Cavalo de Aço de Walter Negrão 

// 

Cena 1 - Casa do Vovô | Encerra-Bodes


Rodrigo (Lendo) - Meu neto, se você está lendo isso é porque você lembrou do meu pedido há anos atrás. Também, se você está lendo significa que eu já morri. Eu quero te dizer que o meu papel foi concluído, você está pronto para buscar a vingança pela morte de seus pais. Pegue a minha moto e seja feliz, lembre-se sempre que você me fez muito feliz e eu sempre estarei com você.


Rodrigo termina de ler chorando. Ao terminar ele sobe na moto e decide bravamente voltar para Encerra-Ninguém.


Rodrigo - Eu vou voltar, me aguarde.


Rodrigo chega à Encerra-Ninguém após 3h em sua moto. Se hospeda num quartinho aos fundos do famoso Restaurante Mamma Mia de Itálex.


Itálex - Meu jovem, acredito já ter lhe visto em algum lugar.


Rodrigo - Eu não sei quem é você, eu não sou daqui.


Itálex - Realmente, você tem um sotaque bodense.


Rodrigo - Sou de Encerra-Bodes.


Itálex - Ah, então é isso.


Itálex ouve um som ao fundo, é um grito estridente.


Cliente (Furiosa) - TEM UM RATO NO MEU ESPAGUETE, EU SABIA QUE A HIGIENE DESSE LUGAR ERA PRECÁRIA.


Os clientes levantam e não creem no que veem.


Cliente II (Furioso) - Eu não acredito nisso! Se ela estava comento algo sujo que atraísse tanta sujeira, imaginem vocês o que nós estamos comendo. Eu irei embora e nunca mais voltarei.


Vários clientes saem do restaurante. Itálex se desestabiliza, contudo, sabe o ocorrido e chama os dois clientes para conversarem a sós.


Itálex - Por que vocês fizeram isso?


Cliente - Fizemos o quê? Quem fez foram vocês.


Itálex - Não sejam cínicos, eu lembro de tê-los visto na peça teatral do teatro de encerra-ninguém no ano passado.


Cliente II - Precisávamos de dinheiro, foi isso.


Itálex - Ah é? Vão pro restaurante do chefe de vocês e quero que vocês armem o maior barraco, mas com uma história mais pesada para que ninguém nunca mais pode naquele lugar. Eu pago o dobro.


Ambos balançam a cabeça.


CENA 2 - Praça de Encerra-Ninguém


Rodrigo sai para arejar sua cabeça e estruturar seu plano, entretanto, as gêmeas Julislanny (Alan) e Julisângela (Júlio W) chegam.


Julisângela - Eu nunca mais fui a mesma, ele me largou como se eu não fosse nada nem ninguém. O nome dessa cidade deve ser uma homenagem pra mim.


Julislanny - Se acalma e não cai, nem faça escândalos.


Julisângela - O que aconteceu?


Julislanny - Olha quem está no banco da praça.


Julisângela olha e no mesmo momento lhe vem um sentimento de ódio.


Rodrigo olha para as gêmeas e não acredita no que vê, no mesmo momento tenta disfarçar.


Julisângela (Histérica) - Eu não acredito que finalmente eu encontrei você, marginal, cafajeste, seu ninguém.


Rodrigo - Quem são vocês? 


Julislanny - Não finja ser quem você não é! Eu trabalho num jornal, aliás, o mais famoso daqui e se você não explicar pra gente o porquê de você ter-nos abandonado com um filho, iremos denunciá-lo e todos da cidade saberão quem você é.


Rodrigo - Psiiiiu! Ninguém pode saber meu nome, nem que estou aqui, aliás porque vocês estão aqui se eu conheci vocês na Universidade de Encerra-Cortinas?


Julisângela - Após você ter vendido a casa, deixado a gente sem absolutamente um grão de arroz, tivemos que vir para encerra-ninguém e reconstruir nossa vida.


Julislanny - Aliás, estamos falando demais, eu acredito que você nos deve algo e eu e minha irmã iremos cobrar agora.


Julislanny e Julisângela dão um tapa extremamente forte uma de cada vez no rosto de Rodrigo.


Rodrigo - Tá, eu mereço isso.


Julisângela - Por que ninguém pode saber quem você é? Por que ajudaríamos você?


Rodrigo - Tudo o que eu fiz para com vocês, sobre a venda da casa, o abandono e tudo mais, eu precisei para comprar uma moto e iniciar um plano, só que ela não durou muito tempo, tive que voltar pra casa do meu avô.


Julisângela - Está falando muito e não está explicando nada, eu quero saber quem não pode saber quem você é!


Rodrigo - O Patrocínio.


Ambas ficam surpresas.


Julislanny - Maldito! Ele faz com que 70% dos lucros dos jornais pare nas mãos dele. 


Rodrigo - Pra gente nos redimir eu proponho um acordo. 


Julisângela - Qual?


Rodrigo - O meu plano vai dar certo, e quando ele der certo vocês conseguirão triplicar os lucros daquele jornal e todo o lucro voltará pras mãos de vocês.


Julislanny (Desconfiada) - Eu quero que você vá ver a Roberta, sua filha que hoje tem oito anos e que você nunca procurou saber.


Rodrigo - Combinado. 


Rodrigo e as Gêmeas sentem um cheiro de queimado.


Julisângela - Vem da rua dos restaurantes, vamos lá!


Ao chegarem lá ambos veem o “Empada com Tudo Dentro” de Marcélio em chamas. Ouve-se muitos gritos e se vê muitas pessoas saindo correndo, incluindo Marcélio.


Marcélio - O que aconteceu? 


Cliente I - Duas pessoas que entraram no restaurante, elas disseram que a comida dava câncer, que tinha substâncias nocivas, outro cliente se assustou com a notícia e derrubou uma das velas da mesa na própria mesa.


Marcélio - Substâncias cancerígenas?


Os bombeiros chegam e Marcélio se vai para o Mamma Mia.


Marcélio (Gritando) - ItÁLEEX! 


Itálex chega. 


Marcélio (Franco) - Eu sei que você descobriu o que eu fiz, também sei que você provocou um incêndio no meu restaurante.


Itálex - Esse cheiro é do teu restaurantezinho queimando? Pensava que era da sua comida porca e esclerosada.


Marcélio - Eu tenho dinheiro pra reformá-lo, não sobrevivo de subornos igual a você.


Itálex - Que suborno?


Marcélio - Se fazendo de idiota uma hora dessas? O ano era 1993 e você subornou o Patrocínio porque ele tinha lhe dado um golpe e não lhe havia vendido o terreno que você construiu o teu restante.


Itálex - Hum…


Marcélio - Como você passou por cima disso? Pegando o levantamento de vida do Patrocínio que sua mãe que havia tido um caso com ele muitos anos antes fez e usando esse levantamento contra ele mesmo que se viu obrigado e lhe dar o terreno de graça e lhe devolver o dinheiro.


Itálex - Pois é! Esse mundo é dos inteligentes, enquanto uns ralam na vida pra subir, outros pegam elevador e eu estou no elevador.



CENA 3 - Madeireira 

Patrícia chega até a madeireira preste a ir na farmácia comprar um remédio para seu cabelo que está quebradiço.

Patrocínio - Filha, onde você vai agora?

Patrícia - À farmácia comprar um remédio pro meu cabelo, esse ar de serras cortando árvores está deixando esse quebradiço.

Um dos empregados cochicha.

Empregado - O ar da serra ou o banho que você toma de 2 em 2 semanas?

Patrícia (Raivosa) - Eu ouvi isso! Quem falou? Ninguém vai dizer?

Patrocínio - Vocês ganham um salário pra falar mal da filha dos outros? Eu quero ver quem falou isso que eu acabo com a vida na mesma hora.

Patrícia - Eu tenho uma mansão, não preciso lutar pra conseguir nada ao contrário de vocês empregados nojentos e asquerosos que tem que sujas as mãos de madeira pra conseguir comprar 7 pães no fim do mês.

Os empregados ficam indignados com a fala.

Empregada - Ah se eu pego essa menina. 

Empregada II - Nem a mãe dela aguentou ela, depois que soube da traição com a mãe do Itálex se separou e depois morreu.

Empregado - Morreu de desgosto, imagina ter uma filha e um esposo assim?

Empregado II - É! Dinheiro na vida não é tudo, se há calvário, não tem dinheiro no mundo que cubra.

Patrocínio - VOLTEM A TRABALHAR!!!!!! 

Um de seus capangas vem e lhe traz uma notícia que Patrocínio não esperava.

Patrocínio - Que euforia é essa, Claide?

Claide - Lembra aquele dia que você pediu pra nós incendiarmos a casa da Elza e do Geraldo e matarmos a criança?

Patrocínio - Claro que me lembro.

Claide - Como o patrão me mandou ir à encerra-cortinas dar cabo no cara que estava lhe devendo, quando cheguei à faculdade, pois lá ele trabalhava de secretário, me passei pelo pai de um aluno querendo o histórico de 2003, quando o cara me mostrou a ficha eu por coincidência encontrei um cara com as mesmas características que o Rodrigo, o filho dos dois.

Patrocínio não consegue raciocinar bem de tão furioso.

Patrocínio - Eu cometi esse ato há trinta anos e você vem me dizer isso agora?

Claide - Eu não estava com o papel de dar cabo na criança, era o outro capanga. De certo ficou com pena e deixou a criança ir.

Patrocínio - Ele deve ter pra base de uns 28 a 32 anos, e com certeza deve ter esquecido tudo porque nunca mais o vi por aqui.

Claide - É, mas é sempre bom ficar de olho. 

A câmera vai pra a praça. Patrícia sai de lá com seu remédio e vê toda a confusão que ainda permanece na rua dos restaurantes, se aproxima para ver melhor.

Patrícia - O que está acontecendo aqui? 

Marcélio - Você está vendo um restaurante pegar fogo e ainda tem coragem de perguntar. 

Patrícia - Você é um grosso! Eu irei falar pro meu pai sobre o teu comportamento.

Marcélio - Patrícia?

Patrícia - A própria. 

Marcélio se arrepende.

Marcélio - Eu não queria fazer isso, me perdoa.

Rodrigo vê a algazarra entre os dois e se mete.

Rodrigo - O que está acontecendo aqui?

Patrícia se vira lentamente e olha para o rosto de Rodrigo e se apaixona na mesma hora.

Patrícia - Esse moço foi super grosso comigo, logo eu que sou uma dama de família.

Marcélio - A única coisa importante que você tem é ser a filha do Patrocínio.

Rodrigo ouve isso e não acredita na sorte que teve.

Rodrigo - Você é filha do Patrocínio?

Patrícia - Sou! O conhece?

Rodrigo (Disfarçando) - Não de vista, só de falar, sou novo aqui.

Patrícia - Percebi pelo sotaque bodista. 

Rodrigo encontra sua escada para a vingança.

Rodrigo - Me passa seu número, caso você queira conversar depois.

Patrícia - Claro.

Apesar de todo o caos, as beatas mais fervorosas da cidade entram em ação nessa hora.

Samulena - Da igreja estamos sentindo esse odor há horas! É Deus voltando, eu tenho certeza.

Jeandira - É irmã! Deus dá sinais e esse é um sinal com certeza.

Marcélio - Sinal que um cliente deixou a vela cair em cima da mesa.

Samulena - Mas se Deus deixou que você colocasse aquela vela significa que ele queria que caísse porque quer nos dizer alguma coisa.

Marcélio - Quer sim! Quer nos dizer pra ficar longe de velhas fofoqueiras e mal amadas assim como vocês.

Ambas ficam ofendidas.

Samulena - Olhe aqui Sr. Marcel, nós nunca contamos uma fofoca na vida.

Jeandira - É isso mesmo! Nós somos santas que intercedem pelo povo dessa cidade maluca!

Samulena - Queremos que um raio caia na nossa cabeça e nos deixe sem fala por uma semana se estivermos mentindo. 

Nesse momento, um raio cai do céu e acerta unicamente as duas beatas que voam para longe, entretanto, não foi letal nem lhe causaram grandes danos. Ao se levantarem, não conseguem falar mais nada. Todos se assustam com o momento.



Samulena (Confusa) - Huuuuuuum! Huuuum!

Jeandira (Desesperada) - HUUUUUM! hum, hum.

A cidade toda começa a rir e as beatas saem correndo para a igreja pedir apelo aos fiéis.

A câmera vai para Rodrigo que volta para seu quartinho nos fundos do Mamma Mia e se ajoelha no chão.

Rodrigo (Orando) - Vô, hoje eu encontrei a sorte grande e conheci uma filha que eu nem sabia que o Patrocínio tinha. Ele é minha escada, é com ela que eu vou completar meu plano. 

Rodrigo se levanta feliz mas ao abrir a porta de ser quartinho se depara com Julisângela e sua filha Roberta.

Julisângela - É ele minha filha, é ele.

Roberta - Você é meu papai Rodrigo?

Rodrigo chama Julisângela para conversar a sós e lhe dá uma bronca.

Rodrigo (Furioso) - Você quer saber? Então você saberá! O plano de que eu tanto falo é sobre acabar com a vida do Patrocínio porque quando eu tinha cinco anos ele assassinou meus pais. Eu não posso criar uma filha agora, principalmente agora que conheci a escada que vai me fazer cumprir o plano.

Julisângela - Ele assassinou sua família e você assassinou indiretamente outra, deixou uma mãe e uma filha na rua sem ter onde morar. Qual é a sua moral pra pedir vingança.

Rodrigo - Um dia eu prometo que recompensarei vocês todas por conta do meu erro, mas agora eu preciso que vocês colaborem, e quando digo que não é pra NINGUÉM saber quem eu sou, eu quero dizer NINGUÉM.

Julisângela - Você tem dois meses pra cumprir tudo isso e assumir sua filha, caso contrário o Patrocínio saberá que você está aqui. 

Rodrigo balança a cabeça e vai à Praça outra vez processar todo o acontecido, chegando lá ele deixa uma foto de sua mãe cair do bolso. Claide está na praça nesse momento.

Claide - O que é isso? Uma foto de mulher?

Claide processa a foto e acha que conhece a mulher da foto.

Claide - Eu sei quem é você, mas não sei se vou lembrar.

Passa um filme da conversa sobre o Rodrigo que Claide e Patrocínio haviam tido há pouco tempo. Claide liga as peças.

Claide - O que a foto da Elza está fazendo no chão? 

Claide vai correndo ao encontro de Patrocínio falar com ele.

Patrocínio - ELE ESTÁ VIVO E ESTÁ AQUI?

Claide - De certo se voltou pra cá veio em busca de vingança.

Patrocínio - Sabe-se lá o que esse garoto deve ser hoje, talvez seja mais habilidoso com armas do que eu. Eu não irei esperar essa história se desenvolver, eu preciso que você o encontre e o mate.

Claide - Mas como irei encontrá-lo?

Patrocínio - Com um estímulo! Se você matá-lo, ganha um terreno de fazenda para fazer o que quiser lá! 

Claide desconfia.

Patrocínio - Quer mais? Uma fazenda inteira com gados, vacas e tudo o que você quiser.

Claide se alegra.

Claide - Fechado.

Patrocínio - Ainda que eu não precise lhe dar recompensar porque não era pra ele estar vivo, não é? Aquele capanga que estava a cargo de matá-lo é um tremendo vacilão. 

A imagem congela em Patrocínio ao som de Tremendo Vacilão. 

FIM DO CAPÍTULO