Alazão de Ferro | 2/20
Uma novela de Pedro Valente
Livremente baseada em Cavalo de Aço de Walter Negrão
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Cena 1 - Casa do Vovô | Encerra-Bodes
Rodrigo (Lendo) - Meu neto, se você está lendo isso é porque você lembrou do meu pedido há anos atrás. Também, se você está lendo significa que eu já morri. Eu quero te dizer que o meu papel foi concluído, você está pronto para buscar a vingança pela morte de seus pais. Pegue a minha moto e seja feliz, lembre-se sempre que você me fez muito feliz e eu sempre estarei com você.
Rodrigo termina de ler chorando. Ao terminar ele sobe na moto e decide bravamente voltar para Encerra-Ninguém.
Rodrigo - Eu vou voltar, me aguarde.
Rodrigo chega à Encerra-Ninguém após 3h em sua moto. Se hospeda num quartinho aos fundos do famoso Restaurante Mamma Mia de Itálex.
Itálex - Meu jovem, acredito já ter lhe visto em algum lugar.
Rodrigo - Eu não sei quem é você, eu não sou daqui.
Itálex - Realmente, você tem um sotaque bodense.
Rodrigo - Sou de Encerra-Bodes.
Itálex - Ah, então é isso.
Itálex ouve um som ao fundo, é um grito estridente.
Cliente (Furiosa) - TEM UM RATO NO MEU ESPAGUETE, EU SABIA QUE A HIGIENE DESSE LUGAR ERA PRECÁRIA.
Os clientes levantam e não creem no que veem.
Cliente II (Furioso) - Eu não acredito nisso! Se ela estava comento algo sujo que atraísse tanta sujeira, imaginem vocês o que nós estamos comendo. Eu irei embora e nunca mais voltarei.
Vários clientes saem do restaurante. Itálex se desestabiliza, contudo, sabe o ocorrido e chama os dois clientes para conversarem a sós.
Itálex - Por que vocês fizeram isso?
Cliente - Fizemos o quê? Quem fez foram vocês.
Itálex - Não sejam cínicos, eu lembro de tê-los visto na peça teatral do teatro de encerra-ninguém no ano passado.
Cliente II - Precisávamos de dinheiro, foi isso.
Itálex - Ah é? Vão pro restaurante do chefe de vocês e quero que vocês armem o maior barraco, mas com uma história mais pesada para que ninguém nunca mais pode naquele lugar. Eu pago o dobro.
Ambos balançam a cabeça.
CENA 2 - Praça de Encerra-Ninguém
Rodrigo sai para arejar sua cabeça e estruturar seu plano, entretanto, as gêmeas Julislanny (Alan) e Julisângela (Júlio W) chegam.
Julisângela - Eu nunca mais fui a mesma, ele me largou como se eu não fosse nada nem ninguém. O nome dessa cidade deve ser uma homenagem pra mim.
Julislanny - Se acalma e não cai, nem faça escândalos.
Julisângela - O que aconteceu?
Julislanny - Olha quem está no banco da praça.
Julisângela olha e no mesmo momento lhe vem um sentimento de ódio.
Rodrigo olha para as gêmeas e não acredita no que vê, no mesmo momento tenta disfarçar.
Julisângela (Histérica) - Eu não acredito que finalmente eu encontrei você, marginal, cafajeste, seu ninguém.
Rodrigo - Quem são vocês?
Julislanny - Não finja ser quem você não é! Eu trabalho num jornal, aliás, o mais famoso daqui e se você não explicar pra gente o porquê de você ter-nos abandonado com um filho, iremos denunciá-lo e todos da cidade saberão quem você é.
Rodrigo - Psiiiiu! Ninguém pode saber meu nome, nem que estou aqui, aliás porque vocês estão aqui se eu conheci vocês na Universidade de Encerra-Cortinas?
Julisângela - Após você ter vendido a casa, deixado a gente sem absolutamente um grão de arroz, tivemos que vir para encerra-ninguém e reconstruir nossa vida.
Julislanny - Aliás, estamos falando demais, eu acredito que você nos deve algo e eu e minha irmã iremos cobrar agora.
Julislanny e Julisângela dão um tapa extremamente forte uma de cada vez no rosto de Rodrigo.
Rodrigo - Tá, eu mereço isso.
Julisângela - Por que ninguém pode saber quem você é? Por que ajudaríamos você?
Rodrigo - Tudo o que eu fiz para com vocês, sobre a venda da casa, o abandono e tudo mais, eu precisei para comprar uma moto e iniciar um plano, só que ela não durou muito tempo, tive que voltar pra casa do meu avô.
Julisângela - Está falando muito e não está explicando nada, eu quero saber quem não pode saber quem você é!
Rodrigo - O Patrocínio.
Ambas ficam surpresas.
Julislanny - Maldito! Ele faz com que 70% dos lucros dos jornais pare nas mãos dele.
Rodrigo - Pra gente nos redimir eu proponho um acordo.
Julisângela - Qual?
Rodrigo - O meu plano vai dar certo, e quando ele der certo vocês conseguirão triplicar os lucros daquele jornal e todo o lucro voltará pras mãos de vocês.
Julislanny (Desconfiada) - Eu quero que você vá ver a Roberta, sua filha que hoje tem oito anos e que você nunca procurou saber.
Rodrigo - Combinado.
Rodrigo e as Gêmeas sentem um cheiro de queimado.
Julisângela - Vem da rua dos restaurantes, vamos lá!
Ao chegarem lá ambos veem o “Empada com Tudo Dentro” de Marcélio em chamas. Ouve-se muitos gritos e se vê muitas pessoas saindo correndo, incluindo Marcélio.
Marcélio - O que aconteceu?
Cliente I - Duas pessoas que entraram no restaurante, elas disseram que a comida dava câncer, que tinha substâncias nocivas, outro cliente se assustou com a notícia e derrubou uma das velas da mesa na própria mesa.
Marcélio - Substâncias cancerígenas?
Os bombeiros chegam e Marcélio se vai para o Mamma Mia.
Marcélio (Gritando) - ItÁLEEX!
Itálex chega.
Marcélio (Franco) - Eu sei que você descobriu o que eu fiz, também sei que você provocou um incêndio no meu restaurante.
Itálex - Esse cheiro é do teu restaurantezinho queimando? Pensava que era da sua comida porca e esclerosada.
Marcélio - Eu tenho dinheiro pra reformá-lo, não sobrevivo de subornos igual a você.
Itálex - Que suborno?
Marcélio - Se fazendo de idiota uma hora dessas? O ano era 1993 e você subornou o Patrocínio porque ele tinha lhe dado um golpe e não lhe havia vendido o terreno que você construiu o teu restante.
Itálex - Hum…
Marcélio - Como você passou por cima disso? Pegando o levantamento de vida do Patrocínio que sua mãe que havia tido um caso com ele muitos anos antes fez e usando esse levantamento contra ele mesmo que se viu obrigado e lhe dar o terreno de graça e lhe devolver o dinheiro.
Itálex - Pois é! Esse mundo é dos inteligentes, enquanto uns ralam na vida pra subir, outros pegam elevador e eu estou no elevador.
CENA 3 - Madeireira
Patrícia chega até a madeireira preste a ir na farmácia comprar um remédio para seu cabelo que está quebradiço.
Patrocínio - Filha, onde você vai agora?
Patrícia - À farmácia comprar um remédio pro meu cabelo, esse ar de serras cortando árvores está deixando esse quebradiço.
Um dos empregados cochicha.
Empregado - O ar da serra ou o banho que você toma de 2 em 2 semanas?
Patrícia (Raivosa) - Eu ouvi isso! Quem falou? Ninguém vai dizer?
Patrocínio - Vocês ganham um salário pra falar mal da filha dos outros? Eu quero ver quem falou isso que eu acabo com a vida na mesma hora.
Patrícia - Eu tenho uma mansão, não preciso lutar pra conseguir nada ao contrário de vocês empregados nojentos e asquerosos que tem que sujas as mãos de madeira pra conseguir comprar 7 pães no fim do mês.
Os empregados ficam indignados com a fala.
Empregada - Ah se eu pego essa menina.
Empregada II - Nem a mãe dela aguentou ela, depois que soube da traição com a mãe do Itálex se separou e depois morreu.
Empregado - Morreu de desgosto, imagina ter uma filha e um esposo assim?
Empregado II - É! Dinheiro na vida não é tudo, se há calvário, não tem dinheiro no mundo que cubra.
Patrocínio - VOLTEM A TRABALHAR!!!!!!
Um de seus capangas vem e lhe traz uma notícia que Patrocínio não esperava.
Patrocínio - Que euforia é essa, Claide?
Claide - Lembra aquele dia que você pediu pra nós incendiarmos a casa da Elza e do Geraldo e matarmos a criança?
Patrocínio - Claro que me lembro.
Claide - Como o patrão me mandou ir à encerra-cortinas dar cabo no cara que estava lhe devendo, quando cheguei à faculdade, pois lá ele trabalhava de secretário, me passei pelo pai de um aluno querendo o histórico de 2003, quando o cara me mostrou a ficha eu por coincidência encontrei um cara com as mesmas características que o Rodrigo, o filho dos dois.
Patrocínio não consegue raciocinar bem de tão furioso.
Patrocínio - Eu cometi esse ato há trinta anos e você vem me dizer isso agora?
Claide - Eu não estava com o papel de dar cabo na criança, era o outro capanga. De certo ficou com pena e deixou a criança ir.
Patrocínio - Ele deve ter pra base de uns 28 a 32 anos, e com certeza deve ter esquecido tudo porque nunca mais o vi por aqui.
Claide - É, mas é sempre bom ficar de olho.
A câmera vai pra a praça. Patrícia sai de lá com seu remédio e vê toda a confusão que ainda permanece na rua dos restaurantes, se aproxima para ver melhor.
Patrícia - O que está acontecendo aqui?
Marcélio - Você está vendo um restaurante pegar fogo e ainda tem coragem de perguntar.
Patrícia - Você é um grosso! Eu irei falar pro meu pai sobre o teu comportamento.
Marcélio - Patrícia?
Patrícia - A própria.
Marcélio se arrepende.
Marcélio - Eu não queria fazer isso, me perdoa.
Rodrigo vê a algazarra entre os dois e se mete.
Rodrigo - O que está acontecendo aqui?
Patrícia se vira lentamente e olha para o rosto de Rodrigo e se apaixona na mesma hora.
Patrícia - Esse moço foi super grosso comigo, logo eu que sou uma dama de família.
Marcélio - A única coisa importante que você tem é ser a filha do Patrocínio.
Rodrigo ouve isso e não acredita na sorte que teve.
Rodrigo - Você é filha do Patrocínio?
Patrícia - Sou! O conhece?
Rodrigo (Disfarçando) - Não de vista, só de falar, sou novo aqui.
Patrícia - Percebi pelo sotaque bodista.
Rodrigo encontra sua escada para a vingança.
Rodrigo - Me passa seu número, caso você queira conversar depois.
Patrícia - Claro.
Apesar de todo o caos, as beatas mais fervorosas da cidade entram em ação nessa hora.
Samulena - Da igreja estamos sentindo esse odor há horas! É Deus voltando, eu tenho certeza.
Jeandira - É irmã! Deus dá sinais e esse é um sinal com certeza.
Marcélio - Sinal que um cliente deixou a vela cair em cima da mesa.
Samulena - Mas se Deus deixou que você colocasse aquela vela significa que ele queria que caísse porque quer nos dizer alguma coisa.
Marcélio - Quer sim! Quer nos dizer pra ficar longe de velhas fofoqueiras e mal amadas assim como vocês.
Ambas ficam ofendidas.
Samulena - Olhe aqui Sr. Marcel, nós nunca contamos uma fofoca na vida.
Jeandira - É isso mesmo! Nós somos santas que intercedem pelo povo dessa cidade maluca!
Samulena - Queremos que um raio caia na nossa cabeça e nos deixe sem fala por uma semana se estivermos mentindo.
Nesse momento, um raio cai do céu e acerta unicamente as duas beatas que voam para longe, entretanto, não foi letal nem lhe causaram grandes danos. Ao se levantarem, não conseguem falar mais nada. Todos se assustam com o momento.
Samulena (Confusa) - Huuuuuuum! Huuuum!
Jeandira (Desesperada) - HUUUUUM! hum, hum.
A cidade toda começa a rir e as beatas saem correndo para a igreja pedir apelo aos fiéis.
A câmera vai para Rodrigo que volta para seu quartinho nos fundos do Mamma Mia e se ajoelha no chão.
Rodrigo (Orando) - Vô, hoje eu encontrei a sorte grande e conheci uma filha que eu nem sabia que o Patrocínio tinha. Ele é minha escada, é com ela que eu vou completar meu plano.
Rodrigo se levanta feliz mas ao abrir a porta de ser quartinho se depara com Julisângela e sua filha Roberta.
Julisângela - É ele minha filha, é ele.
Roberta - Você é meu papai Rodrigo?
Rodrigo chama Julisângela para conversar a sós e lhe dá uma bronca.
Rodrigo (Furioso) - Você quer saber? Então você saberá! O plano de que eu tanto falo é sobre acabar com a vida do Patrocínio porque quando eu tinha cinco anos ele assassinou meus pais. Eu não posso criar uma filha agora, principalmente agora que conheci a escada que vai me fazer cumprir o plano.
Julisângela - Ele assassinou sua família e você assassinou indiretamente outra, deixou uma mãe e uma filha na rua sem ter onde morar. Qual é a sua moral pra pedir vingança.
Rodrigo - Um dia eu prometo que recompensarei vocês todas por conta do meu erro, mas agora eu preciso que vocês colaborem, e quando digo que não é pra NINGUÉM saber quem eu sou, eu quero dizer NINGUÉM.
Julisângela - Você tem dois meses pra cumprir tudo isso e assumir sua filha, caso contrário o Patrocínio saberá que você está aqui.
Rodrigo balança a cabeça e vai à Praça outra vez processar todo o acontecido, chegando lá ele deixa uma foto de sua mãe cair do bolso. Claide está na praça nesse momento.
Claide - O que é isso? Uma foto de mulher?
Claide processa a foto e acha que conhece a mulher da foto.
Claide - Eu sei quem é você, mas não sei se vou lembrar.
Passa um filme da conversa sobre o Rodrigo que Claide e Patrocínio haviam tido há pouco tempo. Claide liga as peças.
Claide - O que a foto da Elza está fazendo no chão?
Claide vai correndo ao encontro de Patrocínio falar com ele.
Patrocínio - ELE ESTÁ VIVO E ESTÁ AQUI?
Claide - De certo se voltou pra cá veio em busca de vingança.
Patrocínio - Sabe-se lá o que esse garoto deve ser hoje, talvez seja mais habilidoso com armas do que eu. Eu não irei esperar essa história se desenvolver, eu preciso que você o encontre e o mate.
Claide - Mas como irei encontrá-lo?
Patrocínio - Com um estímulo! Se você matá-lo, ganha um terreno de fazenda para fazer o que quiser lá!
Claide desconfia.
Patrocínio - Quer mais? Uma fazenda inteira com gados, vacas e tudo o que você quiser.
Claide se alegra.
Claide - Fechado.
Patrocínio - Ainda que eu não precise lhe dar recompensar porque não era pra ele estar vivo, não é? Aquele capanga que estava a cargo de matá-lo é um tremendo vacilão.
A imagem congela em Patrocínio ao som de Tremendo Vacilão.
FIM DO CAPÍTULO